domingo - 21/01/2018 - 03:28h

A pedra do Mirôto


Por Jânio Rêgo

Quando desço pra ‘rua’ dispenso a companhia de Meia-Lua. Por mais pacata, cidade é cidade, e se eu urbanóide exilado ainda me estresso, imagino ele e seu temperamento de cachorro-de-sítio acostumado ao trânsito de preás vasqueiros e galinhas melindrosas.

Até poderia levá-lo pois muitas vezes a minha incursão a Doutor Severiano não passa da calçada de Damião Caboco e dona Conceição na entrada do largo do antigo Barracão, onde me refestelo na cadeira de balanço numa prosa de amplitude atemporal até a hora de voltar pra Catingueira.

No lugar do Barracão hoje é uma praça de arquitetura com intenções futuristas e um gigantesco palco de concreto que ainda assim me lembra a calçada alta sobre a qual ficavam os ‘quartos’ (que ainda não se chamavam ‘boxes’…) ocupados por um comércio que ia de bar a mesa de jogo, sem falar nas miudezas e atacados.

Mas Meia-Lua, a não ser como meu silencioso interlocutor em noitadas insones no alpendre, é mais afeito às andanças do que a pacientes e longas conversas humanas mesmo que as histórias sejam de Damião, um ex-sacristão abençoado quando menino por um milagre do xará Frei Damião e o melhor cantor das redondezas acompanhando Geraldo Sanfoneiro, o ‘Rei’ do forró dessas serras.

Os melhores forrós, não posso deixar de registrar em homenagem a Zé Melquíades e Chico Pequeno, foram dançados no velho Barracão sacrificado pela ânsia de modernidade que atropela cidades de todos os portes. E com Doutor não é diferente.

Embora, talvez pela geografia serrana, talvez pelos olhos dos meus afetos, aqui essa modernidade, apesar da praça de mau-gosto, esbarra em detalhes, aparentemente desprezíveis, que a mantém para mim mais bucólica e singular do que outras.

Como essa rocha que aflora no meio da calçada da residência do finado Mirôto, feito um ‘marco zero’ resumindo na pedra dura a história de sonhos e trabalho desse lugar que continua sendo para muitos e muitas um eterno ‘Mundo Novo’.

Mas mesmo assim, eu prefiro deixar Meia-Lua na Catingueira.

Jânio Rêgo é  jornalista

Categoria(s): Crônica

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