domingo - 07/01/2018 - 04:26h

A velhice dos anos


Por François Silvestre

Dizia o professor de Medicina Legal, Milton Ribeiro Dantas, que nós começamos a compreender a vida contando as décadas. E com o passar delas, descíamos a contagem para os anos, meses, semanas e dias.

Lembro ainda dos tempos de criança, quando se queria dizer que alguém estava à beira da morte, usava-se a expressão “está só contando as horas”.

Cada ano começa a contar as horas após a ceia de Natal. E agoniza entre festas, salamaleques, votos, abraços. Há um clima suave de música triste embalada por sinos femininamente sílfides.

É o único período em que a hipocrisia não parece maldosa. Pelo contrário, fica até fantasiada de candura.

O Nazareno certamente não teria tempo suficiente, nestes tempos de agora, nem chibatas disponíveis, para expulsar os vendilhões dos templos. Ou talvez nem o fizesse, pelo simples fato de que esses prédios pomposos, onde se encastelam as igrejas não seriam por ele reconhecidos como a sua edificação sobre a pedra de Pedro.

O Cristo que nós embalamos na manjedoura, aos sinos de Dezembro, para três meses depois o pendurarmos na cruz. Tudo regado a muita festa, comes e bebes; orações decoradas para afugentar medos e labaredas.

Jacques Anatole François Thibault, o popular Anatole France, dizia que as crucificações eram tão comuns naquele tempo, que nem despertavam interesse. Sugerindo que a pompa e circunstância da crucificação de Cristo foi uma invenção posterior.

Porém, nem ele, com seu ferino ceticismo, pôde negar que aquela crucificação produziu a mais profunda influência nas relações da fé humana ao longo do tempo.

O Cristianismo é núcleo e periferia. Vai do belo ao horrendo, da luz às trevas. Depende do tempo e das relações com o poder temporal. Da humanidade plena de um Ângelo Roncalli, o João XXlll,  à barbárie do Bispo Torquemada, na inquisição. Os extremos, com infinidades de configurações entre suas pontas.

Certamente o Cristo merece melhores emissários do que os vendedores de milagres, saltimbancos da fé, que infestam a angústia dos nossos tempos.

Mas eu falava da idade dos anos. Cuja adolescência impúbere despede-se ali por Maio e se veste de noivado; depois, a juventude atravessa as fogueiras a comemorar a colheita, nos folguedos de São João. Chega a maturidade e perdura até por meados de Outubro. E aí começa a velhice.

As rugas dos anos são tristes. É por isso que ele morre fazendo festa. Mas a festa não consegue enganar. Por isso a música da despedida é melancólica.

Mesmo assim, e até por isso, brindemos. Cristo está acima de nós. Da nossa fé ou da nossa descrença.

Morrer não é coisa da morte. Não. É coisa da vida! E pra viver é preciso entusiasmo. Os anos morrem entusiasmadamente.

Recorro a Anatole France, para fechar o texto. “Eu prefiro o erro do entusiasmo à indiferença do bom senso”. Té mais.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Artigo

Comentários

  1. Inácio Augusto de Almeida diz:

    Um texto deste quilate e nem um só comentário, o que sinaliza a não leitura desta crônica que nos remete a uma profunda reflexão sobre o que estamos fazendo neste mundo de tantas desigualdades.
    Paciência, Mestre François Silvestre.
    Paciência, MUITA PACIÊNCIA, para não se lembrar do sábio conselho do Mestre dos Mestres…
    MT 7, 6 Não deis aos cães as coisas santas, nem lanceis aos porcos as vossas pérolas, para que não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se, vos despedacem.
    PARABÉNS!!!
    ///
    OS RECURSOS SAL GROSSO SERÃO JULGADOS NESTE SÉCULO?

  2. Chico Guedes diz:

    Que a velhice dos anos continue gentil com François por muito tempo.
    Obrigado por mais esse um, França. Abraços

  3. François Silvestre diz:

    Esses dois comentários, Inácio e Chico, foram sinos suaves a me presentearem emoção.

    • Inácio Augusto de Almeida diz:

      Só faltou colocar que os soluços graves dos violinos suaves…
      O que falta para uma Cadeira na ABL?
      E pensar que Sarney coloca sua bunda na cadeira que foi de José Américo de Almeida…
      É difícil, Mestre, é muito difícil.
      ////
      OS RECURSOS SAL GROSSO SERÃO JULGADOS NO PRÓXIMO MILÊNIO?

  4. François Silvestre diz:

    Não, Inácio. Sobre essa história de Academia, sou obrigado a fazer justiça. Já fui convidado mais de uma vez para disputar uma vaga. Na última vez recebi de Manoel Onofre o apelo para indicar meu nome com o respaldo, segundo ele, de vários acadêmicos. Declinei por não me enquadrar no gosto e estilo dessa confraria, mesmo respeitando a Academia e os acadêmicos. Não me enquadro. E não seria honesto receber a pompa, sem participar dos seus encargos. Nunca comentei isso por discrição. Faço agora provocado por sua generosa observação.

  5. FRANSUÊLDO VIEIRA DE ARAÚJO diz:

    Num país de analfabetos, inclusive políticos, ao longo da nossa curta e desmemoriada história, Infelizmente, constatamos, a ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS, que, inicialmente teve com Patrono um dos maiores escritores do mundo chamado Machado De Assis, além de outros integrantes do porte de Mathias Ayres.

    Noutro pórtico, a partir, sobretudo a partir do Golpe de Estado de 01 DE ABRIL DE 1964, passou a dotar critérios prá lá de elásticos e heterodoxos na condução e escolha dos seus integrantes.

    Não à toa, tivemos escolhas tão inexplicáveis quanto empobrecedoras da história e do conjunto da instituição, que chegou a abrigar em seus quadros um Troglodita General de nome LIRA TAVARES, sem falar dos inúmeros políticos supostos escritores, jornalistas arrivistas e simulacros de romancistas e literatos.

    Nesse contexto, não por acaso, há membros que receberam o título unicamente por ser alguém de grande status social, e, sobretudo político como ex-presidentes, veteranos de guerra etc. Um exemplo é José Sarney e o suposto jornalista Roberto Marinho.

    Dentre seus membros, não existe NENHUM lingüista. O triste resultado disso é que eles não trabalham com a visão socio-lingüística, nem com bases científicas. A sociedade plural é ignorada. Defendem um padrão de língua sem reconhecimento das diversas línguas portuguesas que há no país.

    Na verdade, a ABL, de há muito se porta como uma confraria de amigos do poder, instados sistematicamente a atuar no universo institucional de uma academia fechada e avessa as discussões de ordem política na dinâmica dos seus debaters acadêmcios.. O ato , inexoravelemten, leva a candente negação de uma visão plural do nosso país, e mais ainda uma visão crítica no que tange ao contexto sócio-político, cultural, étnico e educacional do nosso Brasil.

    O fato, é que vivemos a era da mediocridade e (ou), como diria Harold Bloom, um apagão cultural, inclusive no campo da academia literária, quando negamos espaço a Fausto Wolf, Mario Quintana, ao mesmo tempo que colocamos na ABL, nulidades e supostos escritores jornalistas tipo: PAULO COELHO E MERVAL PEREIRA.

    Este povo,a abele,vive tempos de desespero,e se apega com força a valores ,que só “as zelítes” ,julgam compreender,os demais,nós(oh raça),que filosofem…FARDA ,FARDÃO CAMISOLA DE DORMIR ,que este pijama caia bem no merval,minúsculo,merval.

    Um baraço

    FRANSUÊLDO VIEIRA DE ARAÚJO.
    OAB/RN. 7318.

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