domingo - 14/04/2019 - 07:48h

Entre a cruz e a espada – Genealogia indígena potiguar


Por Marcos Pinto

A sistemática  e  truculenta  colonização  e  povoamento  dos  ermos  sertões  potiguares  traz  em  seus  anais  históricos  a  detestável   configuração  eivada  de  interesses  escusos, de ordem  econômica  da  Corte  portuguesa. Nesta singularidade, sobeja a  ostensiva  participação  da  religião  católica  entremeando   a  sua  emblemática  e  poderosa  cruz, protagonizando  acentuada  conivência  voluntariosa  diante  as  atrocidades  cometidas  pelas  incursões  exploradoras, geralmente  de cunho  militar  e  exterminador  do  gentio  indígena. Eram comandadas  por  Sargentos-Móres  e  Capitães-Móres, auxiliados  por  pessoas  de  menor  patente e  também  recrutadas  entre  o  próprio  gentio  tornado  cativo.  No  fundo  estava  o  ciúme  do  mando  e  o  interesse pecuniário  em  jogo.

Houve  Padre  catequizador  dos  índios  do  Jaguaribe  que, instado  acerca  dos  crimes  cometidos  contra  a  indiada  hostil, respondia  que  as  Expedições  deveriam  queimar  madeira  seca  e  também a  madeira  verde, ou seja,  os  catequizados  e  os  não  catequizados, mesmo  já  tendo  sido  batizados  por  eles.  Estas  incursões  promoviam    constantes  deslocamentos  de  tribos  indígenas  belicosas, permutando  índios  dos  sertões  do  Apodi  com os  dos  sertões  do  Jaguaribe.

Os historiadores  cearenses  citam  como  exemplo  a  fixação  de  tapuias  paiacus  para  povoar  a atual  região  de  Pacajus-CE, oriundos  da  Lagoa  do  Apodi, de  onde  foram coercitivamente  arrancados do seu  feudo  natural  e  conduzidos por  força  militar  comandada  pelo  Desembargador  Soares   Reymão.

Em  1694  o  Capitão  Francisco  Dias  de  Carvalho  comandou  uma  expedição  na  qual  adotava  as  mais  terríveis  e  cruéis  táticas  de  dominação  e  extermínio,  com  fim  específico  de  ocultação  das  tiranias  cometidas. Geralmente  faziam  uma  espécie  de  triagem  na  preagem, preferindo  Columins  e  Cunhãs, além  de  robustos  índios  de  meia  idade, muito  procurados  pelos  senhores  de  Engenho  de  Cana-de-Açúcar,  para utilização  de  mão-de-obra  no  campo  e  na  moagem.

A  Coroa  portuguesa  dava-lhes  cobertura  para  que,  com  a  venda  dos  índios  feito  cativos  na  tal  “Guerra  Justa”,  ser  pago  O  quinto  do  total  da  venda  à  Coroa.  Estes  traslados  indígenas  eram  guiados  por  uma  pessoa  que  tinha  a  função  denominada  de  “Prático  do  Sertão”, personagem  conhecedor  dos  caminhos  e  estratégias  indispensáveis  à  mobilidade  das  Expedições.

Em 1740 o  português  Domingos  João  Campos  foi  enviado  pelo  Capitão-Mór da  então  Capitania  do  Rio Grande,  Francisco  Xavier  de  Miranda  Henriques,  para  efetuar  medições  e  demarcações  nas  terras  que  compreendiam  a  Ribeira  do  Apodi. O  seu  Ofício  de  Agrimensor  era  feito  mediante  escolta  militar, feita  pelo  célebre  Sargento-Mór  Manoel da  Silva  Vieira,  famanaz  preador  de  índios  nos  sertões  do  Apodi  e  do  Jaguaribe.

Dentre as famosas  escaramuças  promovidas  por  este  diabólico  patenteado  Vieira  destaca-se  a  que  se  deu  quando  o  Agrimensor  encontrava-se  demarcando  em fase  final  a famosa  e  fértil  “Data de  Sesmaria  “Boqueirão”,(Apodi-RN), cuja medição  totalizava  três léguas  de  comprimento  por  uma  de  largura, começando  dos  lugares  Brejo  e  Boqueirão,  e  terminando no  lugar  Várzea  da  Salina, vizinho  à  Data  “Santa  Rosa”.

Conta a  tradição  oral  que  o  agrimensor   vira  passar  bonita  Cunhã  em  terreno  descampado  perto  do  lugar  “Lagoa  Redonda”, tendo  de  imediato  determinado  ao  ajudante  militar  que  empreendesse  meios  para  apreender  tão  garbosa  adolescente, no que  o  mesmo  obedeceu  saindo  em  desabalada  carreira  montado  em  seu fogoso  cavalo  alazão, tendo  alcançado  logo, descendo  do  cavalo  e  a  imobilizando  pelas  mãos  e pés  com  cordas  que trazia  à  tiracolo. A  partir  deste  evento  de tormentoso  sequestro  da  indiazinha  tapuia, tal  lugar  ficou  sendo   conhecido  como  a  “Várzea  da  Carreira”.

A  conclusão da  Demarcação  da  Data do  “Boqueirão”  deu-se  a  2.04.1740. Com o passar  dos anos  e  dos  sucessivos  entrelaçamentos  entre ocorridos entre índios  e  elementos  componentes  das  famílias  pioneiras, as  terras  que  ficam  nos  arredores  da  Várzea  da  Carreira   passaram a  receber  a  denominação de  “Tabuleiro  dos  Caboclos”, passando  depois  à  atual  denominação  de  sítio  “Bico  Torto”. Como  já  tinha  uns  índios  feitos  cativos, o  Sargento-Mór  Vieira  incorporou dita  índia  à essa  turma  de  cativos  indígenas.

Ao  chegar  à  cidade  do  Natal  o  Sargento-Mór  Manoel  da  Silva  Vieira  vendeu  a  dita  Cunhã  ao  Capitão  Hilário  de  Castro  Rocha, que  para  ocultar  a  etnia  da  mesma  fez  constar  nos  registros  da  Igreja  como  tendo  sido  exposta  em  sua  residência, dando-lhe  nome  familiar  da  sua esposa Maria  Madalena de  Mendonça,  passando a  índia  a  ter o  nome de   Rosa  Maria  de  Mendonça.

Surge fato histórico  emblemático  quando  o  português  Domingos  João  Campos  se  casa  com  a  referida  índia  Rosa  Maria  de  Mendonça  em   24.11.1745, tendo  prole  de  08  filhos..  Outro  fato  histórico  digno  de  menção  refere-se  ao  casamento  de  um  filho  do  Domingos  o  Sr. José  Fernandes  Campos (O  1º) com  uma  filha  do  tal  Sargento-Mór  Manoel  da  Silva  Vieira,  de nome  Ana  Antônia  da  Conceição.  Desse  venturoso  casal  nasceu  José  Fernandes  Campos (o  2º), que nasceu em  Natal  a  15.08.1775, tendo  casado  casou  com Joana  Gomes  de  Jesus, e  passado  a  residir  em  Apodi  no  seu  sítio  “Baixa Grande”, perto  do  feudo  indígena dos  Fernandes  Campos, denominado de  “Lagoa Redonda”, perto do lugar onde  nascera  a  sua  avó  raptada.

Este segundo  José  Fernandes  Campos  faleceu  em seu  sítio  em  Julho  de  1848, deixando  a  viúva  e  nove  filho (Tenho  cópias do inventário, para quem interessar  possa). Esta iniciativa do  neto  de  Domingos  João  Campos  fixar  residência  nas terras  de  origem da  sua  avó  paterna  conduz  à  certeza  de  que  a  tradição  oral  corrente  no  seio  dos  “Fernandes  Campos”  do  Apodi    concretiza  a  veracidade  da  etnia  indígena  desta  tradicional  família  do  rincão  apodiense.

Café Filho: origem indígena (Foto: arquivo)

Uma  irmã  deste  segundo  José  Fernandes  Campos, de  nome  Ana  Clara  de  Jesus, casa-se  em  09.07.1789  com  Francisco  Xavier  da  Câmara, filho  de  Antonio  Câmara da  Silva, que  por  sua  vez  era  irmão  tio paterno  de  João Paulo  da  Silva  Câmara, João Pedro da  Silva  Câmara e  Francisco  Paulo  da  Silva  Câmara, residentes  no  sitio  “Santa  Rosa”, em  Apodi, onde faleceram e foram inventariados.

Esta honrada e tradicional  família  apodiense  Fernandes Campos  é  conhecida  popularmente  como  sendo  a  família dos “FONOM”, apelido que  surgiu  devido  ao  fato  da  maioria  de  seus  membros  apresentar  a  voz  anasalada.

O Ex-Presidente da  República  João  Café  Filho, natural  de  Natal-RN, cujo nome  civil  oficial  era  João  Fernandes  Campos  Café  Filho  fez  retificação  judicial  do  seu  nome, que  passou  a  ser  João  Café  Filho, retirando, assim,  o  referencial  familiar  tradicional  FERNANDES  CAMPOS, quem sabe  com  objetivo  de  dar   continuidade  a    encoberta da  etnicidade.

Café Filho descende  de  um  filho  do  português  Domingos  João  Campos/Rosa  Maria de  Mendonça, de nome   Manuel  Fernandes  Campos,(F.1) que  por sua  vez  foi  pai  de  Lourenço  Fernandes  Campos (N.1),  que  foi  pai  de  Lourenço  Fernandes  Campos  Júnior (BN.1), que  foi  pai   de  João  Fernandes  Campos  Café (TN.1 – * 16.04.1865), que foi  pai  de  João  Fernandes  Campos  Café  Filho (Café  Filho -  Natal *03.02.1899/ Rio de  Janeiro  + 20.02.1970).  E  assim, resta  comprovado  o  parentesco  da  humilde  família  apodiense  Fernandes  Campos (Fonom)  com  o  renomado Ex-Presidente da  República.

Louvo a plenitude da razão, presente na figura do historiador  de  nomeada  Manoel  Rodrigues  de  Melo, Quando  faz  a  exortação  para  a  importância  da pesquisa, sobre o quanto  existe  de  labor, sacrifício, desgosto, alegria, entusiasmo,tudo  ficando  no  bojo  silencioso  da  história, sem  a  compreensão  devida  pelos  que  vivem  a  posteridade.  Inté.

Marcos Pinto é advogado e escritor

Categoria(s): Artigo

Comentários

  1. Naide Maria Rosado de Souza diz:

    Instrutivo Artigo sobre nossa ascendência comprovadamente miscigenada.
    A menção à família “FONOM” fez-me supor que seus membros tivessem fendas palatinas e que o fato decorresse de hereditariedade, sendo isso possível, mas não totalmente comprovado pela ciência.
    A importância da pesquisa é imensa. Salve, Manoel Rodrigues de Melo! A História não pode ter ” bojo silencioso.” É um crime não preservá-la, divulgá-la para compreensão de todos.

  2. FRANSUELDO VIEIRA DE ARAÚJO diz:

    Conforme se verifica, em tempos antanhos- sob o mote de descobrir novas terras -, os europeus aqui chegaram com um Bacamarte na mão direta e uma Bíblia na mão esquerda, no que, em grande parte manifestamente resultou na morte e genocídio dos nativos/indígenas.

    Infelizmente, agora – sob o mote do combate à corrupção -, através do voto popular e em pleno século XXI, entenderam correto de eleger um Pastor Burro nariano (de orgiem europeia, mais precisamente italiana) ) com um Bíblia – antigo testamento na mão direita -, e um fuzil na mão esquerda, o resultado já se prenuncia, qual seja, a mortandade direta e indireta de pobres, pretos, indígenas e MAIS, quem ouse de alguma forma contestar o Pastor e sua sus trupe de celerados…!!!

    Nesse contexto, apenas uma indagação…ATÉ QUANDO SEREMOS BUCHA DE CANHÃO DE INTERESSES ALIENÍGENAS…!!!???

    Um baraço

    FRANSUÊLDO VIEIRA DE ARAÚJO.
    OAB/RN. 7318.

  3. Nazaré Brandão Noronha diz:

    Com certeza o incansável genealogista e historiador fez a pesquisa para a feitura deste senso artigo lançando mão de vasta bibliografia. É preciso que surja mais pesquisadores da temática. Aquí mesmo no Amazonas conheço muitas famílias mamelucas, oriundas de relacionamento amoroso de nordestinos com índias, que para cá vieram fugindo do flagelo da seca dos anos 1904, 1915, 1919, 1932. Na torcida por mais artigos do Dr. Marcos Pinto. MANAUS-AM.

  4. Nazaré Brandão Noronha diz:

    Admiro muito os artigos do historiador e genealogista Dr. Marcos Pinto. Em meu comentário anterior onde se lê SENSO leia-se DENSO.

  5. Raimundo valentim Régis diz:

    Parabéns pelo rico resgate primo. Mim sinto orgulhoso em ser seu aluno.

  6. Francisco Clenildo Maia diz:

    Grande historiador, pesquisador Dr.Marcos Pinto, parabéns pelo teu trabalho belíssimo, e de extremo proveito para nós pequenos pesquisadores [ Clenildo Maia ], sempre disposto a ajudar em nossas demandas históricas! Só posso te agradecer por toda essa contribuição que tu proporciona para minha vida de pesquisador. Além de ter um conhecimento vasto na história de Apodi, região e todo Rio Grande do Norte, és uma pessoa humilde, que se dispõe a facilitar aos novos pesquisadores, o conhecimento histórico do passado, e orientando do jeito mais propício ao pesquisador! seu coração e sua casa estão de portas abertas, eu sou testemunha cabal, forte abraço !

  7. Everton Lima diz:

    Excelente resgate histórico, vale a pena a leitura, além de elevar o conhecimento do leitor. Parabéns!

  8. Antonio Praxedes Filho diz:

    Parabenizo aqui o ilustre advogado, escritor e historiador: Marcos Pinto.
    (O qual tenho o imenso prazer de fazer parte do seu círculo de amizades)
    Por mais uma de tantas outras matérias históricas riquíssimas em genealogia de povos que habitaram nossa região em tempos primórdios.
    Gostaria de saber sobre a veracidade de uma suposta invasão de povos Tupy que migraram da região da Amazônia para o RN fixando morada no litoral onde hoje é a capital.
    Os assim chamados “Potyguaras” teriam forçado os Tapuias a bater em retirada para o interior do estado.
    Um grande abraço.
    Antonio Praxedes Filho.

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