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domingo - 21/01/2018 - 08:33h

O “ismo” que deforma


Por François Silvestre

O fanatismo é o sarampo da inteligência. Lênin dizia que o esquerdismo era a doença infantil do comunismo. A revolução de 1917, que pariu a União Soviética, desaguou no fundamentalismo stalinista. Uma praga que só serviu ao capitalismo, presenteando-o indevidamente com a bandeira das liberdades fundamentais.

O fanatismo antissemita produziu o holocausto, que de tão violentamente brutal, dispensa comentário. O seu antípoda, o sionismo, tem praticado intolerância e violência a dificultar a implantação do Estado palestino.

Tudo com base em interesses do poder e da economia, onde deuses e religiões, mitos e seitas justificam tudo. E nessa seara tudo é poder e dinheiro. O ser humano, se é que há, fica na rabeira da fila.

Os tiranos não são fanáticos. Fanáticos são os seus seguidores. Os idiotas que se imolam para manter viva a violência fundamentalista. Seja no poder de tiranias de Estado ou de grupos dispersos, onde a estultice fabrica tragédias.

Os chefes ou “líderes”, no fundamentalismo”, agem como os traficantes de droga. Traficam, vendem, mas não usam. O uso fica para os viciados. Nenhum líder fundamentalista se veste  de bombas para explodir junto com suas vítimas. Isso é tarefa dos estúpidos, reduzidos à condição de esterco pensante. Terrorista e torturador são excrementos, que nem pra adubo servem.

A palavra não é só resultado do processo adâmico. Ela tem a força da bomba ou a fraqueza do lodo.

Poucas palavras têm a força da edificação que habita o substantivo “fundamento” e o adjetivo “fundamental”. Pois bem; basta uma desinência para desmoralizá-los.

Há um sufixo prostituto que deforma a semântica dos fundamentos. É o “ismo”. Quando se agrega a uma palavra dificilmente lhe preserva a dignidade originária. Vírus semântico. É o caso do fundamentalismo.

O fundamentalismo está espalhado em todo o mundo. À espreita em cada canto, angariando adeptos e recrutando idiotas.

No Brasil, onde tudo tem um toque de hipocrisia, há formas disfarçadas de fundamentalismo. Basta ver os blogs e twitters durante a última campanha eleitoral. Nos dois lados.

Sem falar no fundamentalismo “ético”, da cretinice que inverte o princípio da presunção de inocência, ao transformar acusação em julgamento. Todo moralista carrega escondido no íntimo da sua alma penada um matulão de “defeitos”, que lhe motivam ira ou preconceito.

Sartre dizia que o inferno eram os outros. Assim também ocorre nas discussões políticas que embalam as redes sócias: fanático é quem discorda de você.

Há também que se levar em conta uma realidade que sai do campo político e vai desaguar nos mananciais da antropologia.

Não somos ainda a Humanidade. Somos o elo intermediário entre os ancestrais de onde viemos e a Humanidade que há de vir. Somos pré-humanos. De tecnologia evoluída e humanidade embotada. Tribais da barbárie, intelectualmente desnutridos.

A Humanidade corre o risco de nunca existir, pois depende da nossa sobrevivência para nos suceder. Ao nos destruirmos impediremos seu nascimento. Té mais.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Artigo

Comentários

  1. Inácio Augusto de Almeida diz:

    “Somos pré-humanos. De tecnologia evoluída e humanidade embotada. Tribais da barbárie, intelectualmente desnutridos.”
    SÓ RESTA APLAUDIR.

  2. François Silvestre diz:

    Inácio, recebo com orgulho sereno o seu generoso aplauso.

  3. Edmiro diz:

    Esse aí, diz o que sabe com maestria, caba bom!

  4. Naide Maria Rosado de Souza diz:

    Sabem que quando leio ou vejo algo “por demais”, dou um grito , brado de entusiasmo: Santo Ignácio de Loyola.

  5. Naide Maria Rosado de Souza diz:

    Santo Ignácio de Loyola!

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