Armas, por que (não) te querem?

Por Eduardo Cavalcanti

Vamos às estatísticas. Há dados para todos os gostos e interpretações divergentes. A manipulação de pesquisas acerca do aumento ou não da violência diante da liberação ou não do porte de arma de fogo para os cidadãos provoca sérias distorções sobre a opinião pública.

Por mais incrível que pareça, autorizar ou não arma de fogo para o cidadão possui pouca relação quanto ao aumento ou redução da violência. Portanto, trata-se mais de um discurso ideológico e político do que um fato empírico. Basta uma simples análise acerca da situação de alguns países para entender tal fato.Alemanha e Suíça, por exemplo, possuem legislação bastante favorável no que diz respeito ao acesso às armas de fogo. E estão classificados entre os países mais seguros do mundo (Alemanha, 17º; Suíça, 12º), de acordo com o Índice Global da Paz.

O Japão, considerado o 9º mais seguro ainda pelo mesmo índice, possui, de outro modo, legislação muito restritiva quanto ao acesso às armas. Honduras, segue a mesma linha legislativa adotada pelo Japão, mas é o líder quando o assunto é insegurança (considerado o país mais violento do mundo).

Já nos EUA, cuja situação se caracteriza pelos extremos, pois há estados que chegam a estimular o uso de armas de fogo pela sociedade civil (com pontos de venda em lojas e supermercados), como também estados em que há maiores restrições legais, a polêmica sobre o tema sempre está na ordem do dia.

Estudos realizados pela Universidade de Stanford, na Califórnia, informam que a maior facilidade para se obter armas de fogo aumenta os casos de homicídios e suicídios entre os jovens. Ao contrário, pesquisas divulgadas pela  Universidade de Harvard, em Massachusetts, defendem que há uma inegável correlação positiva entre mais armas e menos crimes.

Assim, não há qualquer consenso científico quando o assunto é a relação causa e efeito entre população mais armada e redução/aumento da violência.

Resta claro, em determinados momentos, que o tema do armamento/desarmamento se centra menos como problema que envolve estudos, pesquisas e dados sobre a realidade do que questões econômicas, políticas e midiáticas. Ora, não se pode esquecer que, assim como os entorpecentes, o tráfico ilegal de armas de fogo gira uma economia global imensurável, podendo-se acreditar, por vezes, que a situação de ilegalidade é até mesmo estimulada.

NO BRASIL, estudo promovido pela ONG Small Arms Survey, indicou que, em 2016, existiam 14,84 milhões de armas em posse de civis no país. Com isto, o Brasil se coloca em sétimo lugar no ranking de países com mais armas de fogo em circulação. Como em 2017, havia 328.893 armas registradas no Brasil, segundo a mesma ONG, nota-se claramente a situação de ilegalidade da imensa maioria das armas de fogo.

Portanto, o simples argumento de que mais armas matam mais, defendido por aqueles contrários à ideia de diminuição de exigências legais para o uso de armas de fogo pelos cidadãos brasileiros, não se adequa de forma consentânea com a nossa realidade.

Como raciocínio lógico, menores barreiras para a posse de armas pela sociedade civil no Brasil trazem como consequência imediata maior controle e fiscalização sobre as armas de fogo circulantes e sobre as pessoas que as adquirem.

De modo geral, há alguns fatos que permitem certas concordâncias. Não existe muita interferência na diminuição/aumento do número de homicídios diante de quadro legislativo que restrinja ou facilite a posse de armas de fogo pelos civis. Mas, em sentido contrário, o uso da arma de fogo pode evitar certas situações de violência, como, por exemplo, furtos, violência doméstica e crimes contra liberdade sexual.

A diminuição da violência, portanto, passa por outros vieses mais complexos e que requerem medidas de médio e longo prazo. O debate, deste modo, acerca da diminuição/aumento das restrições legais para as armas de fogo nas mãos de civis pouco interfere quando o assunto é redução da violência.

Por óbvio, que o uso de armas de fogo por pessoas sem qualquer qualificação pode gerar uma lógica inversa, qual seja, transformar-se no próprio instrumento do crime contra quem a utiliza.

Por isto, defendo que devemos transformar a legislação pertinente para uma normativa chamada Estatuto do Armamento, com o estabelecimento, por óbvio, de requisitos e condições mínimas para o porte de armas de fogo.

Eduardo Cavalcanti é promotor de Justiça no RN, mestre em Direito pela PUC/RS e doutorando em Direito pela Universidade de Lisboa

6 thoughts on “Armas, por que (não) te querem?”

  1. Em um país que nem o Brasil de grande instabilidade política e econômica, liberar armas para população será um tiro no pé. Imagino como a polícia irá ter controle dessas manifestações como ocorreram em 2014 com um exercício de revoltosos armados.

  2. Em um país que nem o Brasil de grande instabilidade política e econômica, liberar armas para população será um tiro no pé. Imagino como a polícia irá ter controle dessas manifestações como ocorreram em 2014 com um exercício de revoltosos armados, com a mente contaminada por fakenews de rede social.

  3. Brilhante defesa de um Estatuto do Armamento, com exigência de ” condições mínimas para porte de armas de fogo”, após apurada análise dos aspectos positivos e negativos do tema.
    Trata-se de Artigo didático merecedor de parabéns ao seu autor, Promotor Eduardo Cavalcanti.

  4. Em mais um artigo de um dos “mestres” do MP com competência internacional, quiçá universal, este, vem, nos brindar e ao mesmo tempo, no dar inequívoca demonstração da ambígua posição sobre o tema, o que na verdade expõe e favorece a ambivalente posição, claramente em favor da liberação das armas, conquanto o conhecido modus operandi do viés empedernido viés punitivista à qualquer preço.

    O diversionismo retórico com que analisa a questão da liberação das armas em um país absurdamente desigual, contradiço e complexo por natureza, ante suas peculiaridades que fazem do Brasil, um país singular no conjunto das nações. Bem diz a que veio o “mestre”, fazendo do relativismo e dos sofismas, armadilhas posta àqueles, em sua maioria, absolutamente ignorantes sobre o tema.

    Claro, óbvio e ululante que a mitigação e (ou) concreto combate à violência em suas causa e com causas, necessariamente, passa por implementação de políticas publicas que de forma direta e indireta busque efetividade no que tange a prevenção do crime. mormente em seu nascedouro que sabidamente, diz respeito à histórica desigualdade social.

    Todavia, não podemos e não devemos relativizar a questão da liberação das armas, a despeito e (ou) a propósito da análise que se possa fazer dessa e (ou) daquela pesquisa realizada no redemoinho de violência estrutural planejada e programada pelo Status quo que coexiste made USA (ESTADO MILITAR INDUSTRIAL AMERICANO). Não esqueçamos, proporcionalmente a maior população carcerária do planeta, população essa coexistindo no bojo e curso de suposta matriz da democracia ocidental made Hemisfério Norte.

    UM BARAÇO

    FRANSUÊLDO VIEIRA DE ARAÚJO.
    OAB/RN. 7318..

  5. Se trocar a palavra “armamento” por “maconha” a ideia central do artigo poderia ser a mesma, ao tratar das correlações entre criminalidade, malefícios a saúde, etc. A questão é que a arma é um pleito de cidadãos com maior poder aquisitivo, enquanto a regulamentação do consumo da maconha é um pleito da população com menor poder aquisitivo, esta realmente penalizada pelo mecanismo da guerra às drogas.

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