Liderança

Por François Silvestre

A liderança é um fenômeno animal que nasce das relações intergrupais. Seja no mundo dos racionais ou irracionais. Nas manadas, alcateias, rebanhos, enxames, matilhas, etc, onde os irracionais também elegem seus líderes. E a liderança se consolida pela força ou habilidade do líder. No caso das abelhas, a rainha é uma liderança passiva, de sobrevivência. Imitada pela Inglaterra.

No mundo dos animais “racionais” a liderança também pode ser imposta pela força ou adquirida pela empatia que o líder angaria dos liderados. Numa relação de troca intergrupal, que vem desde o terreiro da caverna. No caso da liderança imposta, há impropriedade semântica.

No mundo pós-feudal a liderança tomou fisionomia humanizante, no sentido político, negando a repressão do feudo ao restaurar relações da era clássica.

A democracia praticada na Grécia antiga diferia muito dos conceitos atuais, mas guarda semelhança de princípios. Assim como as cidades-estados; gregas, latinas ou germânicas, serviram de modelos para os Estados contemporâneos. A obra “A cidade Antiga” de Fustel de Coulanges é um painel dessa realidade passada.

No caso específico do ocidente, a democracia estabeleceu-se pela via eleitoral, com o voto universal; e o constitucionalismo, pelo meio político-jurídico. Nessa seara, a liderança cumpre a definição de origem. Conquista de confiança, pela empatia, e entrega de confiabilidade, por delegação do grupo.

Mas deixo essa assertiva de lado para tratar do fenômeno da liderança no campo estritamente político e no espaço restrito do Brasil.

É de bom alvitre acentuar que a exemplificação reduz o alcance genérico do pensamento abstrato. Mas, não resisto e vou ao exemplo.

O fenômeno Getúlio Vargas. Após a revolta de 1930, erradamente chamada de revolução, Getúlio assumiu o poder como líder, após ser derrotado nas eleições. Liderança de legitimidade questionável.

Pouco tempo depois, outro golpe. O Estado Novo e uma ditadura de quinze anos.

Ao ser deposto, Getúlio elegeu-se senador por dois Estados e deputado federal por outros tantos. Inédito antes e depois. Mesmo na legislação que permitia isso, ninguém conseguiu tal feito, nem próximo disso. Nascia aí o líder na acepção mais plena que o termo alcança.

Nas eleições seguintes, em 1950, Getúlio volta e diz que “volto como líder de massas e não como chefe de partido”. E assim foi.

Na carta de despedida, erroneamente chamada de “carta testamento”, Getúlio dá a última rasteira nos inimigos. E ocupa as ruas, que os adversários ocupavam. E estes fogem com medo dos liderados de Vargas.

Por que a expressão “carta testamento” está equivocada? Porque em nenhum momento Getúlio nomeia ou delega sucessor à sua liderança. O que é um testamento? Uma partilha ou doação de bens. O patrimônio de Getúlio era sua liderança, que não foi atribuída ou delegada a ninguém.

Os líderes getulistas que se seguiram, Juscelino, Jango, Tancredo, Brizola, fizeram-se por si mesmos. Ninguém ousou dizer “eu sou Getúlio”. Mesmo alinhados em princípios doutrinários, cada um preservou sua individualidade. Por isso angariaram a legitimidade grupal de liderar, por conquista própria e não por imitação.

Getúlio respeitou a própria liderança ao respeitar a decisão de escolha dos liderados. Liderança nasce, não se nomeia. Té mais.

François Silvestre é escritor

5 thoughts on “Liderança”

  1. “Liderança nasce, não se nomeia.”
    Perfeito. Há pessoas que trazem em si a liderança. Elas não se impõem. Como marcados por uma estrela, se destacam e são acompanhados.
    Pela força teríamos, apenas, déspotas.
    A liderança é tão peculiar que não pode ser transmitida nem por testamento. Há de ser inerente àquele que a possui. Nem pode passar de pais para filhos, insucesso garantido, como na época das Capitanias.
    “Sui generis”, arriscaria dizer que liderança tem mais do que é visto. Espiritual, talvez.

  2. De Getúlio gravei esta declaração:
    NUNCA ALGUÉM DE MIM SE APROXIMOU PARA PEDIR ALGUMA PARA O BRASIL. SEMPRE PEDEM FAVORES.
    ///
    NADA MAIS TRISTE E DIGNO DE PENA DO QUE A DECADÊNCIA DE UM CORRUPTO.
    Inácio Augusto de Almeida

  3. No brasil atual não líder sem discurso pra chamar de seu, os que naturalmete ousavam ser eram defenestrados.
    Lider tem que ter: moral, ética, capacidade de agregação, ser honesto não só parecer se-lo.
    Sou ousado a comentar um testo do Carividente Virtuoso.
    Lembranças aos seus.
    Ass.
    Ignorante desconhecido.

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