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Um grito contra a destruição

Por Paulo Menezes

Há no organograma da administração municipal uma secretaria que cuida do Meio Ambiente e que me faz lembrar de um problema que se agrava a cada dia que passa. Refiro-me a devastação de nossa mata nativa tão ameaçada de extinção nos dias atuais, onde o homem destrói a natureza de forma cruel pelo imediatismo do lucro fácil, esquecendo que caminha para sua própria destruição. Assim é que árvores como imburanas, catingueiras, aroeiras, pereiros, juazeiros, antes abundantes na região, passam a ser raridades na paisagem sertaneja.

Juazeiro é uma árvore tradicional do sertão nordestino, com grande importância ao homem e animais (Foto: reprodução)

Com o desaparecimento da mata nativa da caatinga nordestina, sucumbirão com ela também nossas abelhas indígenas sem ferrão, dentre elas a Jandaíra, a rainha do sertão,  considerada como sendo o mais útil dos insetos, nos fornecendo  mel,  própolis e o pólen tão importantes em nossas vidas, apresentando duas características de uso, servindo como alimento e remédio. Ocorre que a nidificação das abelhas indígenas sem ferrão se dá predominantemente nas árvores imburanas e catingueiras ainda existentes no nosso ecossistema.

Estes insetos sociáveis são encontrados em todas as regiões do planeta terra, sendo a sua preservação de grande importância pelo que ela representa na evolução eterna da natureza no que se relaciona com o que o filósofo norueguês Arne Naess definiu na década de 1970 como a “ecologia profunda” – cuja influência é hoje cada vez maior – e expressa a percepção prática de que o homem é parte inseparável, física, psicológica e espiritualmente, do ambiente em que vive.

Para Arne Naess,  a expressão ecologia profunda se opõe ao que ele chama de “ecologia superficial” – isto é, a visão convencional segundo a qual o meio ambiente deve ser preservado apenas por causa de sua importância para o ser humano. O homem coloca-se como o centro do mundo e quer preservar os rios, o oceano, a fauna, a flora porque são instrumentos do seu próprio bem-estar. Quando olha para o meio ambiente com esta preocupação, o homem só enxerga os seus próprios interesses, já que inconscientemente, se considera a coisa mais importante que há no universo.

A criação da abelha nativa tem que ser considerada uma atividade para o desenvolvimento sustentado porque inclui restauração ambiental através da preservação e plantio de árvores que servem de locais para nidificação, além do importante papel que elas desenvolvem na polinização da mata nativa, pois algumas plantas só conseguem se reproduzir com a intervenção deste inseto, devido sua adaptação durante milhões de anos.

A professora Vera Lúcia Imperatriz Fonseca, do Instituto de Biociências da  Universidade de São Paulo – USP,  lançou uma ideia para darmos o primeiro passo a fim de solucionar o problema. Seria criar um grupo de artistas da terra que prepararia uma peça teatral para falar da importância de plantar árvores de nossa flora, trabalhando com roteiristas para fazer disso uma diversão educativa.

Assim, o grupo se apresentaria em escolas, nas praças e na zona rural.

Paralelamente ao evento, a Secretaria Municipal de Infraestrutura, Meio Ambiente, Urbanismo e Serviços Urbanos, destinaria no programa de arborização da cidade um percentual  para o plantio com árvores de nossa mata nativa, erradicando o danoso NEEM, que inclusive tem o  princípio ativo de um cupinicida (se mata cupim mata abelha), e substitui-lo por árvores acima relacionadas. Com essa assertiva, a cidade ficaria com o clima mais ameno, sua paisagem mais diversificada, verde, bonita e a natureza  mais agradecida.

Seria uma grande contribuição para a preservação de árvores e abelhas, despertando com certeza uma maior conscientização em nosso povo no resguardo do meio ambiente.

Afinal o saudoso Monsenhor Huberto Bruening em seu grito contra a destruição já dizia:

– “O homem está destruindo as derradeiras casas – imburanas e catingueiras – que ainda restam no sertão. Nada escapa à sanha dos carvoeiros, caçadores de mel, caçadores de “madeira” etc. Até o raríssimo cumaru é cortado e serrado em fatias – sem cerne ainda – para fabricar caixas. E a Imburana é desfiada para cepilho…Nossas abelhas estão fadadas à extinção, mais cedo do que se pensa. Sem casa para morar quem é que trabalha? Se ao menos cuidassem os homens, de replantar, reflorestar… ou ainda se parassem de destruir. A terra mesmo se reveste, recupera e recobre.”

Paulo Menezes é meliponicultor

Exercício do bem comum e culto à felicidade na quarentena

Por Paulo Menezes

“Como não conheço nenhum escrito sob Jandaíra, fui obrigado a frequentar a escola das Jandaíras, observar seus hábitos, seu trabalho, sua família, sua casa, sua organização, manias e travessuras. Isto por mais de trinta anos. Serviu de aprendizado, lazer, higiene mental e reconstituinte, passatempo, espanta tédio e sobretudo é o segredo de manter-me em contato com Deus.” (Padre Huberto Bruening no livro “Abelha Jandaíra”)

A pandemia que atingiu toda a humanidade, ceifando milhares de vidas e transformando totalmente o nosso cotidiano num vale de lágrimas, alvejou de forma arrasadora nosso dia a dia, principalmente no que se relaciona com o distanciamento social. O afastamento da família, dos filhos, netos e amigos, entretanto, me alcançou numa proporção um pouco menor, graças a Deus e às minhas abelhas.

É que apesar de aposentado do Banco do Nordeste, empresa à qual dediquei 24 anos de minha vida laboral, adotei, em paralelo, uma atividade que além de prazerosa, serviu de terapia ocupacional, lazer e espanta tédio como afirma o padre Huberto no livro que citei. Sou meliponicultor desde o distante ano de 1983.Dedico-me com muito amor ao manejo da abelha Jandaíra. Tenho colmeias na minha residência e na zona rural. E como essa atividade tem me ajudado nessa quadra de dificuldade que atravessamos! Administro meu tempo dividindo-o entre o quintal da minha morada e a zona rural, sempre dedicado ao manejo das abelhas.

Na residência, além de acompanhar o desenvolvimento dos enxames, que vai da multiplicação de colônias até à coleta do mel, pratico também um pouco de marcenaria na confecção das caixas racionais, morada das fazedoras do saboroso mel.

O trabalho vai da serragem das tábuas, montagem, até à pintura.

O tempo dedicado à zona rural começa manhãzinha cedo e ocorre duas ou três vezes por semana, onde me desloco ao Meliponário situado no campo. Lá a Covid não chegou, pois só tem a natureza ainda em festa com a mata florida e cheirosa, fruto da quadra chuvosa e as queridas jandaíras. Nem de máscara necessito.

Vivo uma manhã diferente, em outro mundo, somente com as polinizadoras da natureza. O tempo passa rápido sem mesmo senti-lo. Não há o que pensar em outra coisa senão no nascimento de uma nova princesa que será entronizada como rainha e que conduzirá um novo enxame garantindo a perpetuação da espécie.

No manuseio, o que vemos é o milagre da criação onde uma família com castas bem definidas desempenha com perfeição a vida de cada colônia. Cada abelha tem uma função específica a partir da limpeza corporal na hora do nascimento, depois a alimentação da rainha, o controle da temperatura do ninho, a desidratação do mel e finalmente a saída para o campo a partir do décimo sexto dia, visitando milhões de flores até a morte, em busca do néctar que transformará em mel.

Abelha não tem infância, já nasce trabalhando do nascimento até o último dia de vida.

A existência de uma colônia de abelhas é de uma perfeição admirável.

Diferentemente de nós humanos, todas trabalham pelo bem comum.

Quanta diferença !

Paulo Menezes é meliponicultor

* Meliponicultura é a criação racional de abelhas sem ferrão.