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A sabedoria ameaçada

Por Marcos Araújo

O Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/2003), já com 17 anos de edição, foi pensado como um instrumento de inclusão social e de proteção aquelas e aqueles que já atingiram a maturidade biológica. Não atingiu ao seu propósito.

Ignorados e menosprezados, os idosos clamam por nossa atenção.

Na sociedade atual, capitalista e ocidental, qualquer valoração fundamenta-se na ideia básica de produtividade. Desse modo, não tendo mais a possibilidade de produção de riqueza, a velhice perderia o seu valor simbólico.No passado não era assim. Pelo menos na formação social e política antiga, os mais velhos tinham valor. Dizia o administrador grego Calistrato, no seu tempo, Semper in civitate nostra senectus veneralibilis fuit – (Na nossa cidade a velhice foi sempre venerável).

Na Grécia, a velhice era sinal de sabedoria.

Nas primeiras formações sociais, o mais idoso era obrigatoriamente transformado no líder, também por ser considerado o mais sábio. Entre os índios, o Cacique era escolhido dentre os mais velhos da tribo, e acima dele somente o Conselho de Anciãos. Na formação da monarquia romana, o rei era assessorado pelo Conselho dos Anciãos (Senado) e pela Assembleia Curiata, que reunia os patrícios mais idosos.

O próprio Sinédrio, na época de Cristo, era um Conselho de Anciãos. Até no Brasil, na formação republicana, a Constituição exige idade mínima de 35 anos para se exercer os cargos de Presidente ou Senador da República.

Lembro que em toda convulsão política enfrentada pelo Brasil nessas últimas décadas foi nos idosos que a sociedade encontrou respaldo e reserva moral para o resgate da cidadania. Sobral Pinto, Evandro Lins e Silva, Afonso Arinos, Austregésilo de Athaíde, D. Helder Câmara, Tancredo Neves, Josaphat Marinho, Ulisses Guimarães e outros idosos deram luz e força para que a juventude enfrentasse as trevas das tiranias e das vilanias ditatoriais.

Foi amparado por eles que vimos romper no horizonte a aurora e o resplendor da democracia.

De acordo com a americana neuropsicóloga Vivian Clayton, cognição, reflexão e compaixão são características que definem um sábio. E esses elementos são obtidos apenas com a maturidade e o envelhecimento.

Um estudo científico recente publicado na revista Topics in Cognitive Science verificou que “pessoas mais velhas têm muito mais informação em seus cérebros que as mais jovens e que a qualidade da informação no cérebro mais velho é mais nuançada”.

Para o neuropsicólogo russo-americano Elkhonon Goldberg, a sabedoria é uma forma de processamento mental muito avançada, que atinge seu auge apenas na velhice – justamente a época em que a capacidade do nosso cérebro começa a diminuir. Esses dois processos aparentemente contraditórios são o tema central do livro The Wisdom Paradox (“O Paradoxo da Sabedoria”, sem tradução para o português), publicado em 2005.

Sabemos que todos os seres vivos são regidos por um determinismo biológico e sendo assim, o envelhecimento envolve processos que implicam na diminuição gradativa da possibilidade de sobrevivência. Agora, com essa  pandemia de coronavírus,  os mais idosos estão sob velada ameaça.

Quando essa crise passar, o mundo constatará que o prejuízo econômico será mínimo em relação ao déficit intelectual e moral das sociedades dado ao perecimento de milhares dos nossos idosos. Como elemento social, sendo o idoso repositório do saber, da moral, da experiência, da dignidade e da virtude de uma nação, é dever nosso protegê-lo.

Como diziam os romanos, a velhice é sábia – sapiens senectus.

Marcos Araújo é professor e advogado