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‘J´accuse’ o seu mal ao desenvolvimento da humanidade (Covid-19)

Por Marcos Araújo

Com muita raiva e indignação, o escritor francês Émile Zola escreveu um artigo no jornal L´Aurore, em 13 de janeiro de 1898, com o título “J´accuse” (Eu acuso).  O artigo era uma carta ao presidente da República Félix Faure, em defesa de Dreyfus.

Sem a habilidade de Zola, escrevo este rabisco a Deus, o Senhor do Tempo, para acusar o Senhor do Mal, o espectro da morte, o Mr. Hell chamado Covid-19, pelo malefício insanável causado principalmente à educação e à cultura, reconhecidamente os melhores agentes do desenvolvimento social humanitário.Montanha, no topo, vitória, êxito, sucesso, não desistir, persistência

Ao Criador, que controla a ação dos elementos da natureza e tem a ampulheta das horas em suas mãos, quero denunciar este desalmado ladrão do saber comunitário e assassino inconfessável do sentimento criativo das pessoas, pelo empobrecimento educacional, cultural, político-social, humanístico, religioso e sentimental de todo o planeta.

Assim como Zola, “Mon devoir est de parler, je ne veux pas être complice” (Meu dever é de falar, não quero ser cúmplice), eu acuso você, Covid-19, não só pelo morticínio dos seres humanos, mas pelo silêncio obsequioso e apagão intelectual que tem causado nos educadores, artistas, escritores, líderes sociais e religiosos.

Comecemos pelo prejuízo causado à educação…É incontestável o valor social e político da educação.  Emile Durkhein dizia no início do século XX que somente a educação implanta valores nos homens, formando princípios exteriores à sua própria vontade. Por isso, Edgar Morin gostava de repetir aos seus alunos nas calçadas da Écoele des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), em Paris: “O saber não nos torna melhores, nem mais felizes. Mas, a educação pode ajudar a nos tornarmos melhores, se não mais felizes, a nos ensinar a assumir a parte prosaica e viver a parte poética de nossas vidas”.

Educadores dizem que 2020 foi um ano perdido. E 2021 já está em vias de perdição. A formação educacional por mediação tecnológica longe de despontar como solução, tem sido um retumbante fracasso. Seja pelas desigualdades sociais que impedem a transmissão do conhecimento, porque não são todos os domicílios e famílias brasileiras que têm suporte para aulas por mediação tecnológica em casa, seja pela má qualidade no processo ensino-aprendizagem.

Se a educação tem um valor político (como defende Henry Peter com essa citação: “A educação faz um povo fácil de ser liderado, mas difícil de ser dirigido; fácil de ser governado, mas impossível de ser escravizado“), recrudescemos no nosso nível de consciência cidadã, capacitad os para pensar que fomos neste último ano apenas pelos rumores das redes sociais.

No campo cultural, também vivemos um período de “apagão”. Pesquisas demonstram que livros, peças teatrais, roteiros cinematográficos e outras produções do gênero, sofreram redução de publicação, ensaio e execução em quase 70% (setenta por cento). Tomados pelo pavor, escasseia a criatividade das autoras/es e animadores culturais, daí a risível – ou quase inexistente – produtividade setorial.

A humanidade não está “morrendo” somente por causas respiratórias, mais, muito mais, por causas “inspiratórias”; falta inspiração para viver, escrever, ler, criar, pensar, falar… Estamos letargicamente paralisados pelo medo. Vivemos dois lockdowns muito danosos à evolução humana: o educacional e o cultural.

Albert Schweitzer, um médico alemão que largou a riqueza para fundar hospitais no Gabão, na África Central, no seio da pobreza, costumava dizer que “A tragédia não é quando um homem morre. A tragédia é o que morre dentro de um homem quando ele está vivo.”

NÃO DEVEMOS “MORRER” POR ANTECIPAÇÃO.  É preciso resistir bravamente! Por isso, conclamo: vamos ao campo de batalha em favor da vida! Uma epígrafe machadiana motiva a lutar: “Que é a vida? Uma batalha, Tiro ao longe, espada à cinta; para os barbeiros, navalha; para os escritores, tinta.”  É preciso que o povo da literatura “carregue nas tintas”, para demonstrarem que estão vivos.

Para quem tem ideal, a morte não chega cedo. Fernando Pessoa poetisa sobre a morte que se antecipa aos sonhos: “O amor foi começado, O ideal não acabou, e quem tenha alcançado, Não sabe o que alcançou.”

É mais do que preciso ressuscitar uma ética de vida e rejeitar veemente a replicação da cultura da morte, senão, restará somente o caos a enterrar as nossas últimas quimeras. Devemos sonhar e esperançar que tudo logo passará! O resgate dos valores humanos, o estimulo à educação e o retorno urgente às atividades criativas e culturais é o nosso grande desafio, pois estes promovem a verdadeira prosperidade e a felicidade no ser humano.

A Deus, clamo para que, caso venha a nos faltar a beleza da saúde, que sejamos confortados com a graça da fé. Dê-nos a esperança de dias melhores, para a educação e para a cultura, ânimo aos professores e aos agentes culturais, para que continuem manifestando em seus eflúvios espirituais, a criação e a formação que nos alimenta a alma e que traz causa para as nossas alegrias.

A sociedade nos precedeu e sobreviverá a nós. Nossas vidas não são mais que episódios em sua marcha majestosa pelo tempo. Você não nos vencerá, Senhora Covid-19!

Marcos Araújo é professor e advogado

Uma batalha para lembrarmos de Florence, Albert e Raoul

Por Marcos Araújo

Zygmunt Bauman, professor emérito das universidades de Leeds (Inglaterra) e Varsóvia (Polônia), um dos mais importantes sociólogos da atualidade, disse que vivemos uma modernidade líquida. Para ele, são características da modernidade líquida a substituição da ideia de coletividade e de solidariedade pelo individualismo. Para ele, as relações afetivas se dão por meio de laços momentâneos e volúveis (amor líquido). Por sua teoria, o sentimento pelo próximo é uma quimera.

A teoria da “modernidade líquida” de Bauman, de uma suposta individualidade e da perda do sentimento de coletividade não se sustenta nessa pandemia, diante do árduo trabalho e do devotado esforço em salvar vidas desempenhados por enfermeiras(os) e médicas(os) em seus ambientes ocupacionais.Em tempos de coronavírus, enfermeiros e médicos (sem indicação de sexo e ficando no gênero humano), têm sido a marca perene do que há de esperança para a humanidade. Correndo risco pessoal, diuturnamente eles têm se exposto arriscadamente em prol dos seus pacientes, já se contando às centenas o número de óbitos desses profissionais da saúde.

Uma coisa pode ser dita: num tempo em que escasseiam os lideres (políticos, religiosos, sociais e profissionais), as(os) médicas(os) e enfermeiras(os) têm sido os únicos elementos remanescentes de um mundo catársico que esperanceia salvação.

Como prova de amor ao próximo na área da saúde, numa recordação de antecedência histórica, trago à memória Florence Nightingale, Albert Schweitzer e Raoul Le Clezio, uma enfermeira e dois médicos, respectivamente.

No dia 12 de maio último, fez 200 anos do nascimento de FLORENCE NIGHTINGALE. Nascida em Florença (por isso o nome “Florence”), com o sobrenome Nightingale (rouxinol), à semelhança do pássaro, ela “cantaria” de dia e de noite em favor dos seus pacientes. Em 1859 ela criou a primeira escola de enfermagem do mundo, no Hospital St. Thomas, em Londres.

Também é dela a Teoria Miasmática, método utilizado na época em hospitais considerados avançados como o de Paris, onde a limpeza e a assepsia dos ambientes são indicados como meio de cura, provando que as doenças poderiam ter origem espontânea em locais escuros e do contato com o lixo. Foi ela a primeira mulher enfermeira a participar de uma academia de ciências.

ALBERT SCHWEITZER era um médico alemão de classe média alta, primo de Jean-Paul Sartre, que mesmo sendo um intelectual (um dos melhores intérpretes de Bach de sua época) e professor louvado na sua região, deixou todo o seu prestígio e conforto da sua terra natal e migra para o Gabão.

Ao chegar na África, se deparou com muita pobreza e sofrimento, fazendo de um galinheiro o seu consultório, enfrentando obstáculos como o clima hostil, a falta de higiene, o idioma que não entendia, a carência de remédios e instrumental insuficiente.

Banca a construção de um hospital com recursos próprios, tratando seus pacientes com tanta dedicação que lhe fez merecer o premio Nobel da Paz, em 1952. Nunca deixou a África, estando enterrado em Lambaréné, Gabão.

Por fim, RAOUL LE CLEZIO. Médico inglês, oficial militar que enviado em campanha para a Nigéria na época da guerra, por lá ficou até o fim da vida. Apenas lembrando, Nigéria era uma colônia inglesa.

Seu filho, o escritor Jean Marie Le Clezio, prêmio nobel de literatura em 2010, conta a vida do seu pai na premiada obra “O Africano”. Causa espécie e perplexidade ao filho, escritor famoso, o fato do seu pai, um homem de muita formação e relativamente de posses, ter optado por viver solitário na África, tratando “de vítimas de malária ou de encefalite” (p. 43).

Ao visitar o pai, em seu consultório improvisado (uma cabana no meio do nada), Jean Le Clézio narra a verdade da realidade africana, destoante da Europa onde vive, a partir da análise do corpo desnudo de uma senhora:

– “O corpo nu dessa mulher feito de dobras, de rugas, sua pele como um odre vazio, seus seios longos e flácidos, caindo sobre a barriga, sua pele rachada e desbotada, meio cinzenta, tudo isso me pareceu estranho e, ao mesmo tempo, verdadeiro” (CLÉZIO, 2012, p. 11).

A escolha de Raoul foi gratuita e altruística, permanecendo na Nigéria até a sua morte. Presumiu seu filho que a sua estada poderia ter sido para “escapar da mediocridade da vida inglesa” (p.43).

Uma coisa os três exemplos acima citados tinham em comum: assumiram suas missões ainda muito jovens.

Nesse tempo pandemônico (e não mais pandêmico), a salvação tem vindo dos herdeiros etiológicos e descendentes profissionais de Florence, Albert e Raoul.

Em que pese haver muitos profissionais experientes e maduros à frente do “teatro de operações de guerra”, que são esses nosocômios improvisados, onde tudo falta, marca muito a atuação dos mais jovens.

Recém-saídos das universidades de Enfermagem e Medicina, alguns até abreviados na formação educacional-curricular por força de ato governamental, têm sido eles arregimentados como “soldados” para se postarem no front contra o coronavírus.

Para esses jovens, a meninice foi suplantada, o riso foi suspenso, a alegria interrompida e os sulcos da preocupação passaram a marcar a silhueta dos seus rostos. Nem à tradicional festa de colação de grau tiveram direito.

Como bem os definiu recentemente o célebre pintor inglês Banksy, num quadro em que uma criança troca bonecos de super-heróis conhecidos por um boneco de uma enfermeira como super-heroína, são os profissionais da saúde verdadeiros heróis. Aliás, a palavra herói nem os define com precisão. Melhor dizer que são mártires. A palavra “mártir”, vem do grego “martys” e seus termos afins “martyria”, “martyrion”, significando testemunha.

De fato, no sentido cristão, mártir é aquele que dá a sua vida pelo próximo. João Batista foi o primeiro mártir do Novo Testamento, sendo tirada a sua vida por denunciar os opressores (Mc 6,17-29). Pedro e Paulo, as duas colunas da Igreja, também sofreram o martírio, por ordem do imperador Nero.

As Igrejas cristãs (católica e evangélica), que nasceram de um Jesus Cristo morto na cruz, inspiradas pelo derramamento do sangue de inocentes, presentemente são fortalecidas pelo testemunho de mulheres e homens que, independentemente de credo, por causa da profissão de enfermeiros e médicos, oferecem suas vidas em favor da salvação de outros.

Como “guerreiros” que não temem o “bom combate” (lembrando as palavras de Paulo, apóstolo), esses jovens médicos e enfermeiros são edificadores de uma história de heroísmo e compaixão no trato de milhares de “cristos” padecentes de uma crucificação viral que atomizou o mundo, orgulhando em muito sua antecedência genealógica.

Eles já são vitoriosos pela militância inauguradora de uma nova ordem de defesa da vida, edificadores de uma nova moral filosófica que derrota a “modernidade líquida” de Bauman, a ressignificar palavras que estavam em desuso, como fraternidade, alteridade, caridade e amor ao próximo.

Esses jovens fazem antítese a uma medicina negocial, exploradora e financista, que graças a Deus – e a eles – necrosou.

É por minha sobrinha Isadora Araújo, os irmãos Iago e Iuri Estrela, os também irmãos Matheus e Gabriel Silveira, por Emanuel Nobre, por Hélio Silva, Arthur Diógenes e milhares de outros jovens médicos que estão destemidamente no campo de batalha, que elevo a minha prece a Deus.

São eles arautos da nossa esperança de um mundo melhor, mais justo e humano.

E que seja sem doenças!

Marcos Araújo é professor e advogado

Ariano Suassuna e o aristocrata pelo espírito

Por Honório de Medeiros

Acabei de ler a apresentação que Ariano Suassuna, fez da obra de um seu parente, Raimundo Suassuna, acerca da genealogia da família que lhes deu o sobrenome (“Uma Estirpe Sertaneja Genealógica da Família Suassuna”; A União; 1993; João Pessoa).

Ariano, a quem Raimundo Suassuna pedira que fizesse uma apresentação “simpática”, de seu livro, praticamente escreveu um ensaio onde, entre outras coisas, abordou duas coisas que me chamaram a atenção: seu orgulho por ser um “Suassuna”; e o seu conceito de “aristocracia”.

É preciso que se diga que o orgulho de Ariano com o fato de pertencer a essa lendária família nordestina é decorrente da intensa, profunda, ligação que ela tem com o Sertão.

Ariano Suassuna entende que existe uma aristocracia pelo espírito, que é profundamente diferente daquela resultante de títulos nobiliárquicos.

Ele estabelece essa diferença confrontando o “homem” com o “cortesão”. Neste caso, chega a manifestar, implicitamente, um verdadeiro asco dos títulos comprados, recebidos por favores prestados através de subserviência, barganhados, ou oriundos de qualquer outra forma utilizada por serviçais do poder que caracterizam, em última instância, o comportamento dos alpinistas sociais.

A verdadeira aristocracia, para Ariano, é aquela adquirida pelo espírito. Essa nobiliarquia é decorrente de uma postura moral ilibada, aliada a um exponencial senso de honra e vocação pública.

Aristocrata, então, seriam Albert Schweitzer, Gandhi, Albert Sabin, entre outros. Titãs morais, verdadeiros cavaleiros da távola redonda, homens sem mácula e sem medo, sempre à disposição dos injustiçados ou a serviço de causas mais que nobres.

Individualidades poderosas, que se recusaram ser conduzidas, cooptadas, amordaçadas. Não aceitam ser a folha que o rio leva para o mar; muito antes, pelo contrário, assemelham-se às represas que domam a marcha das águas.

Essa aristocracia pelo espírito de Ariano é fecundada, em termos ideológicos, por um socialismo que lembra o cristianismo primitivo em sua perspectiva ética.

É como se ele acreditasse que a verdadeira revolução seria aquela promovida através da encampação da dignidade como único fulcro da conduta humana, legitimando-a.

É um contraponto dialético à ética burguesa que exposta a olho nu por suas contradições básicas, mostra a conduta humana amesquinhada por obra e graça da lógica do capitalismo. Esse burguês, caricato, cortesão, jamais diria: “ao Rei tudo, menos a honra”, mas, sim, “à elite tudo, até o bolso”.

Trata-se de uma crítica ética ao capitalismo. A busca do lucro, revestida pelo fetiche ideológico da “competição”, da “livre concorrência”, amesquinha o homem que aceita participar de tal jogo.

Um aristocrata pelo espírito, cuja conduta é calcada na honra, no senso de justiça pública, recusa-se a aceitar uma competição cujo resultado final seja a obtenção de um ideal tal como, por exemplo, a obtenção de lucro.

Talvez haja algo de quixotesco na dimensão humana de Ariano Suassuna. É interessante, entretanto, observar o quanto sua concepção filosófica, nesse aspecto, aproxima-se daquela professada por Saint-Exupèry, aristocrata pelo espírito e por genealogia, em seus escritos de “Cidadela”, livro póstumo. E, por outra, do “bushido”, o caminho do samurai.

Note-se que Yukio Mishima, em seu comentário acerca do “Hagakure”, um manual escrito por um samurai, para samurais, critica asperamente os nobres por ele chamados de “aristocratas de contas de despesas”. Ou seja, tanto para Ariano, quanto para Saint-Exupèry e Mishima, o homem, assim considerado, é aquele que transcendeu o apequenamento, o amesquinhamento inerente à ética do capitalismo, da qual nos fala Max Weber, e tornou-se um aristocrata pelo espírito. Aristocrata pelo Espírito: Não considerei correto o título “aristocrata do espírito”.

Difícil dizer por quê. Acho que “aristocrata pelo espírito” expressa com maior clareza a ideia de uma nobreza obtida através do espírito – tudo aquilo que caracteriza o humano, como a razão, incluindo, inclusive, o seu pendor místico.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

Caridade e solidariedade como atos de fé

Amigos Carlos e Honório,

É sempre um prazer ler o Blog aos domingos. Primeiro, pelos escritos geniais (mas preguiçosos, nesse dia) de Carlos. Depois, porque sempre tem o mestre Honório de Medeiros com sua “pena de ouro”.

Ninguém tem mais sensibilidade e conhecimento de causa do que Honório para escrever sobre o egoísmo social, principalmente por ter sabido servir à sociedade no desempenho de elevados cargos públicos, sem servir-se do posto.

Exerceu com sabedoria e dedicação funções em prol do interesse coletivo, sem encantar-se com a finitude e a transitoriedade do poder. Isso merece uma observação à parte!

Mas, o comentário, além do elogio aos dois, era para registrar um fato: Albert Schweitzer (veja AQUI) era alemão, de família rica, que ao tornar-se pastor evangélico, fez uma opção para servir à pobreza.

Em Mossoró, duas religiosas alemãs (as freiras Liselotte Elfriede Scherzinger, a “Irmã Ellen”, e a irmã “Cristina” Scherzinger), também de rica família de Augsburg, vivem desde 1971, cuidando, medicando, educando e alimentando nossas crianças, em um ambiente não muito diferente de Lambaréné, no Gabão, onde morreu Schweitzer.

Outro exemplo que me vem à mente é o da rica Agnes Gonxha, a “Madre Teresa de Calcutá”, que deixou todo o conforto para dividir a miséria com enfermos de Calcutá.

Resumindo: a caridade e a solidariedade são atos de fé. O egoismo social é a demonstração da descrença no homem e em Deus.

Pena que as nossas igrejas (católicas, evangélicas, pentecostais…) esqueceram as ações sociais e estão cada dia mais voltadas para a teologia do infinito, buscando por meio da oração um Deus vertical, que está no céu, enquanto a teomorfia ensina que Deus está presente no rosto do próximo, do carente que anseia a comida, a bebida e o vestir.

Sem contar a prática da simonia (a venda do sagrado).

Abraços de bem-querer e admiração.

Marcos Araújo – Professor, advogado e webleitor

Nota do Blog – Professor, obrigado pelas palavras. Ao mesmo tempo, admito, meu jeito preguiçoso de encarar o domingo nesta página.

Mas o espaço é sempre aproveitado com textos diferenciados de autores consagrados, pensadores contemporâneos como Honório, poesia, folclore político, música e aforismos que possam contribuir à nossa vida.

Mas falta alguém. Cobro com ardor inquisitorial a sua presença regular entre nós, como bom escultor do verbo que és.

Então, recorro a Michelangelo em nova pressão para que sejas um de nossos colaboradores:

Parla! Parla!

As armadilhas do egoísmo social

Por Honório de Medeiros

Quando se dispôs a estudar medicina para, formado, morar na África e cuidar dos miseráveis, Albert Schweitzer já era famoso na Europa inteira como um dos maiores intérpretes de Bach.

Terminado o curso, fundou um hospital no Gabão e, durante o restante de sua vida, enfrentando toda a sorte de adversidades, se doou por inteiro a mais nobre das missões: salvar vidas humanas.

Ele, mais que ninguém, tornou possível acreditarmos na espécie humana, principalmente porque suas ações não foram estimuladas por um projeto político ou vocação religiosa, mas, sim, e somente, pela nobreza de sua alma e pureza de intenções.

Longe de nós acreditarmos que temos o mesmo estofo moral de Albert Schweitzer. Quando muito, se possível, podemos apresentar a virtude de tentarmos ser honestos no dia‑a‑dia. Não é muita coisa, mas, dentro dos nossos limites, é o possível.

Entretanto, parece que até mesmo essa tentativa de honestidade está desaparecendo lentamente do nosso cotidiano.

Basta fazermos um pequeno exame de consciência e a constatação salta aos olhos. Por exemplo: quantas vezes não desrespeitamos as regras do trânsito? Quantas vezes não furamos filas, desrespeitando o direito de quem nos antecedeu? Quantas vezes não aceitamos o jogo do guarda‑de‑trânsito corrupto, e lhe damos a “bola” que ele deseja?

Alguém poderia argumentar que tais infrações são muito pequenas, “o importante é ser honesto no essencial”, e que tudo isso faz parte da sordidez que é, hoje, a vida em sociedade. Ledo engano.

Esses exemplos são reveladores de uma doença social: vivemos hoje em uma sociedade egoísta, narcisista, fútil, enfim totalmente construída a partir de valores negativos: o honesto passa por tolo, o altruísta é visto como excêntrico e, ao contrário, aquele que leva vantagem em tudo é esperto e o mundo, por derradeiro, pertenceria aos cínicos, aos amorais.

Já não existe, por exemplo, nas Universidades, o “espírito” de grandeza que caracterizava os estudantes de antigamente. Fazia‑se direito para lutar pela justiça, e medicina para curar. Hoje, a meta é a profissionalização, no mais curto espaço de tempo e o enriquecimento imediato.

Somos todos “alpinistas sociais” e nos medimos e avaliamos pelo que temos, e não pelo que somos. Esta é a realidade de uma época.

O que não dizer, por exemplo, dos nossos homens públicos? Se analisarmos os candidatos que postulam, nas eleições, esse ou aquele cargo, a qual conclusão chegaremos?

E o resultado de nossa conduta nos agride diariamente: somos vítimas de nossa omissão, colhemos aquilo que semeamos.

Que fazer? Cruzar os braços? Fazer parte, também, da multidão de indigentes morais? Ou dar, pelo menos, na medida de nossa capacidade, pequenos passos para tentar construir um mundo melhor?

Vale salientar que essa opção apresentada diariamente a cada um de nós envolve nosso presente e o futuro de nossos filhos.

Então, a título de exemplo, não deveríamos escolher nossos candidatos a partir de critérios tais como honestidade, competência, amor à coisa pública? Não deveríamos analisar, por exemplo, a conduta passada de cada um deles? Se foi honesto; se prestou algum serviço relevante à comunidade e o fez sem interesse imediato; se foi coerente ideologicamente…

É evidente que, assim como Diógenes, o Cínico, que na Grécia antiga procurava nas ruas de Atenas um homem totalmente honesto, e não o encontrava, possivelmente também não acharemos algum que esteja de acordo com nossa esperança. Mas talvez encontremos um ou outro que tenha pelo menos uma qualidade essencial: não ser corrupto.

Desprezemos, também, os arrivistas, os carreiristas, aqueles reconhecidamente incompetentes e, principalmente, os desonestos ‑ a eles, o ostracismo político. Assim, valorizando nosso voto estamos, mesmo que de forma imperceptível, dando um pequeno‑grande passo para a construção de um mundo melhor.

E, mesmo que seja difícil a luta diária que travamos conosco para sermos um pouco melhor do que éramos ontem, convém ir em frente, pelo menos por dois motivos: somos nós, através de nossas ações e omissões, que construímos o futuro que nossos filhos herdarão; por outro lado, assim agindo, talvez não tenhamos tanta vergonha (para os que a sentem) de sermos tão diferentes de Albert Schweitzer.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Estado do RN