Nesses tempos de pandemia, não tenho ocupado muito minhas redes sociais (pessoais) para botar o focinho por lá, ou expor mesa com vinho e queijos. Não tenho vinho nem queijos em casa.
Posso comprar, mas não os tenho.
Opção, coisa de prioridade mesmo. Eles não o são.
Prefiro gente, à coisa. A primeira, gosto; a outra, uso.
Onde moro, quase nada que ocupa espaço é acessório, cumulativo ou dispensável. Tudo tem serventia, inexiste penduricalho – inclusive o imã com escudo do Fluminense à porta da geladeira.
Tenho visto muita gente berrando, cobrando, esperneando, apontando o dedo para políticos e poderes públicos, exigindo providências contra efeitos imediatos e, outros que se avizinham, derivados da Covid-19.
“Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, mas realmente, mas realmente…” Uso trecho de uma música que fez muito sucesso nos anos 80, como preâmbulo de uma reflexão. Não seria a hora de perguntarmos: “E o que eu posso fazer por quem não tem nada ou está prestes a fazer parte de uma manada famélica e desesperada?”
Fui confrontado em recente entrevista à TCM-Telecom, se não considerava o coronavírus um divisor de águas à reflexão da humanidade e, do ser humano, quanto ao seu papel em sociedade.
Fui absolutamente sincero, sem rodeios ou utilização de qualquer tipo de alegoria filosófica: “Não acredito, não creio. O ser humano continuará sendo o que sempre foi. Teimamos em não dar certo!”
Passamos por pestes que dizimaram multidões incalculáveis na Idade Média, Gripe Espanhola com mais de 50 milhões de cadáveres no século XX, duas guerras mundiais, matança urbana sem fim, mas até hoje milhões de pessoas morrem de fome e desprezo, em todas as partes do mundo “civilizado”.
Para o neodarwinista Richard Dawkins, autor dos célebres e encorpados “O Gene egoísta” e “Deus, um delírio”, somos geneticamente predatórios, competitivos e estamos em permanente luta pela sobrevivência – numa seleção natural sem fim, que é replicante a todo tempo e hora, ad infinitum (ao infinito).
Com vinho e queijos à mesa, não acredito que essa quarentena, confinamento, isolamento social e qualquer outro termo que adotem à segregação compulsória, sejam capazes de mudar o indivíduo e essa humanidade. Continuaremos individualistas e pequenos.
Isso é tão comum, que ser solidário, altruísta e ter compaixão por quem sofre, acabam virando notícia, manchete e dão belas reportagens à mídia. Nos levam ao choro. Por quê? Por que são exceções, situações estranhas até.
A Covid-19, doença espalhada pelo coronavírus, vai passar e deixará para trás lições que de novo não vamos aprender. Sobreviveremos.
* Esse artigo foi publicado originalmente no dia 1º de abril de 2020, às 13h24, portanto há um ano e 20 dias, ainda no começo da pandemia (confira AQUI). O RN tinha apenas 2 óbitos (veja AQUI) e 92 casos confirmados. Até ontem (20 de abril), eram 5.156 mortes (18 nas últimas 24 horas) e 213.668 casos confirmados.
O Brasil somava 244 vítimas e 6.931 casos confirmados da Covid-19 em 1º de abril de 2020. Nesse dia 20 de abril de 2021, as mortes chegaram a 378.003 (3.321 nas últimas 24 horas). Os casos confirmados são 14.043.076.
Absolutamente, não tenho sequer uma vírgula a modificar do que foi postado no início dessa tragédia.
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