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Perscrutando o futuro…

Por Marcos Araújo

Uma das divagações mentais mais frequentes no momento é sobre o futuro da humanidade pós-pandemia. Quem já não se pegou conjecturando como deve ser o amanhã, quando supostamente o mundo volte ao “normal”? Em pensamento mais restrito, geograficamente, quantos não se perguntaram: Quo vadis, Brasil? Num exercício de futurologia, podemos imaginar que viveremos assim…

De fato, haverá mudança, principalmente nos hábitos. As pessoas se acostumarão com o ambiente doméstico. O tempo será valorizado, e com isso menos eventos irrelevantes, menos viagens de avião desnecessárias ou reuniões inúteis.

Escritórios com pelo menos metade do tamanho atual. Mais gente trabalhando em casa, para alegria de Slack, Zoom, Teams, Webex, Hangouts, Classroom ou outros badulaques digitais de nome em inglês. Os restaurantes terão que trabalhar mais com delivery (mais estrangeirismo!), as salas de cinema sofrerão esvaziamentos com o uso das plataformas de streaming (não teria um similar em português?), os shows serão substituídos, em parte, pelas lives (arre égua, tem umas que bem poderiam se chamar dead).Na educação, haverá uma proliferação do ensino a distância (EAD), cuja eficácia eu tenho minhas dúvidas. A mobilidade urbana também será adaptada, com uso de transportes alternativos (Uber e táxis) e valorização da condução coletiva. A tecnologia continuará dominando, sendo ponto fundamental para as diversas formas de comunicação humana. Antes a tecnodependência em redes sociais estava nos jovens, no futuro, adultos e velhos estarão viciados da mesma forma.

Quanto ao nosso comportamento no campo cultural, político e moral (a nossa organização social como um todo), acredito que uma experiência de alguns meses em nada adiantará para promover uma mudança. Não antevejo que haja um aperfeiçoamento social.

Certas condutas típicas de um povo são tão repetitivas que acabam por receber um nome e uma explicação padronizados. Conduta, nome e explicação formam assim a unidade de uma auto-imagem que, ao tornar-se um lugar-comum, um topos, um modo de agir que particulariza os seus cidadãos.

São características positivas ou negativas a partir do padrão de conduta. O povo inglês tem fama de pontual (pontualidade britânica), o alemão de ser meticuloso, o teatralismo italiano, a ranhetice francesa, o praticismo americano, o sentimentalismo russo, a modéstia japonesa, a melancolia judaica, tudo isso é reconhecido mundialmente.

Sendo o esquema de conduta um padrão de reconhecimento, como somos reconhecidos lá fora?  Qual seria a nossa auto-imagem mais comum? O que nos caracteriza como povo? Não temos uma boa imagem externa…

É inegável que a sociedade brasileira atravessa uma crise política, jurídica, moral e ética sem precedentes. Maior do que a crise da saúde e da economia. O problema não é de agora.

O mal é do amálgama moral com que foi formada a nossa nação. Temos máculas enraizadas na cultura brasileira, com registros desde o Brasil Colônia. Tem-se como exemplo a denúncia do erudito PADRE ANTÔNIO VIEIRA endereçada ao rei de Portugal, cujo conteúdo alertava sobre a “arte de furtar” e a desfaçatez dos próprios funcionários do monarca.[1]

Na obra Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda relata sobre a má formação social brasileira, dando como característica do nosso perfil psicológico e da nossa essência exaltar a ética do aventureiro, estimular a audácia, imprevidência, irresponsabilidade, instabilidade, vagabundagem. A plasticidade social do povo brasileiro advém do colonizador português, que seguiu a ética da compensação imediata e buscava a “riqueza da ousadia e não a riqueza do trabalho”, que pudesse “extrair do solo grandes benefícios, sem grandes sacrifícios” (RAÍZES DO BRASIL, 1995, pág 49).

O Brasil é um laboratório da História em matéria de instabilidade política e institucional. Na colonização, viveu os atropelos dos usurpadores. Cada um deles oferecendo prebendas e roubando riquezas. Os donos “descobridores” e seus concorrentes instalaram uma luta constante no processo de rapinagem que durou cerca de três séculos.

O “homem cordial” descrito pelo sociólogo Sérgio Buarque é exatamente o produto de um processo de socialização daquele indivíduo subjugado aos valores da família patriarcal que não tem a capacidade de mensurar com uma exatidão segura os limites entre o público e o privado. Sua ética é pautada pelo personalismo, que confronta a impessoalidade, a abstração, a racionalidade e a coletividade pela cooperação.

Na França do Século XVIII, as ideias de Rousseau e do iluminismo inspiraram profundamente a Revolução francesa. Também parte das revoluções do Século XX tinham a inspiração do existencialismo de Kierkegaard, Edmund Husserl e Martin Heidegger.  A preocupação do ser no mundo e suas variadas e possíveis relações com o outro e com tudo ao redor de si fez com que se criasse uma ordem mundial em defesa dos direitos humanos.

Como vivenciamos essa política mundial humanista aqui no Brasil? O que dizer quando o passeio dominical dos brasilienses e de elevada parte da classe média-alta que vive nas capitais brasileiras ainda é de se aboletar em seus veículos para, em carreata, propugnarem por uma intervenção militar? Lembrando o Marechal Castelo Branco, essa população andeja e desinformada são como vivandeiras alvoroçadas, vêm aos bivaques bulir com os granadeiros e provocar extravagâncias ao Poder Militar”.

Tudo está irremediavelmente perdido? Será que alguma solução se nos apresenta?

Embora não possamos adivinhar o tempo que será, temos, sim, o direito de imaginar o que queremos que seja. Que tal começarmos a exercer o jamais proclamado direito de sonhar?  É preciso saber, contudo, quais os sonhos nos orientam.

Morrem as ideologias e envelhecem as filosofias, mas os sonhos devem permanecer. Eduardo Galeano pedia, em um de seus textos célebres, que fixássemos  nosso olhar num ponto além da infâmia para adivinhar outro mundo possível, onde o ar fosse livre de todo o veneno que vem dos medos e das paixões humanas.

Que atitudes tomaremos, para melhorar o nosso espaço público depois da pandemia? Quais as mudanças sociais que empreenderemos no nosso meio social? Quais sonhos alimentamos?

Sonho com um pais que não seja polarizado politicamente entre “comunistas” e “não-comunistas”; que não fosse privado e apropriado aquilo que é público; que nossos políticos entendessem que a política é a arte de fazer o bem, e não de se dar bem; que Justiça se faz também com igualdade social, e não por injusta acumulação patrimonial;  que o capital possa sempre exalar o cheiro da honestidade, e não da putrefação do ilícito; que a tolerância seja a nossa maior característica, longe da turrice da ignorância; que a estultície seja punida e a burrice da manipulação política seja considerada crime grave, com a condenação em estudos mínimos dos compêndios clássicos de Platão, Sócrates e Aristóteles; que a educação, bem maior de um povo, passe muito além da leitura superficial do maniqueísmo filosófico de autores considerados da “direita” ou de “esquerda”; que a merenda escolar deva ser apenas um alimento, e nunca uma forma de promoção de política educacional; que sejam proibidas todas as formas de censura; que seja condenado com prisão perpétua o racista, o agressor da mulher, ou o que comete crimes contra a criança ou contra o erário.

O melhor dos mundos ainda é aqui. Nosso povo é único, mesmo com tantas mazelas. É na criatividade, no instinto de sobrevivência coletiva, na valorização do outro, na interdependência, no afeto e no engenho do cérebro humano que depositamos nossas esperanças.

Este é um futuro possível. Basta sonhar!

Marcos Araújo é professor e advogado


[1] VIEIRA, Padre Antônio. Arte de Furtar. São Paulo: Martin Claret, 2006, p.30-31

A inimiga do rei que se tornou a 1ª presa política do país

Por Camilla Veras Mota (Da BBC News Brasil em São Paulo)

Foram dias pendurada no lombo seco de um cavalo, com os braços acorrentados, até que Bárbara de Alencar percorresse quase 500 km entre o Crato e o Quartel da 1ª Linha em Fortaleza, onde seria encarcerada por oito meses por ter declarado a independência de uma pequena vila na capitania do Ceará de Portugal.

O ano era 1817 e ela tinha 57 anos. Era a primeira vez que uma mulher era presa por motivos políticos no Brasil.

Bárbara foi um dos expoentes da Revolução Pernambucana, movimento de oposição à monarquia que fundou uma república em parte do Nordeste mais de 70 anos antes de o marechal Deodoro da Fonseca dar fim ao Segundo Reinado e transformar o Brasil independente em República.

Capa do livro Bárbara, de Ariadne Araújo, que conta a saga de um nome quase desconhecido (Foto: reprodução)

Para a diretora executiva da Biblioteca Nacional, Maria Eduarda Marques, o movimento é o “berço da democracia brasileira” e, apesar de ter sido mais reprimido – e com maior crueldade – do que a Inconfidência Mineira de Tiradentes, é “pouquíssimo estudado”.

Em 2017, a Biblioteca Nacional fez uma ampla exposição sobre a Revolução Pernambucana. Entre os documentos daquela época, diz a historiadora, aparecem os nomes de apenas três mulheres: duas escravas e dona Bárbara do Crato, como era chamada.

“A Revolução Pernambucana foi um movimento que nasceu entre os padres carmelitas, com lideranças urbanas e participação ativa de intelectuais que estudaram em Coimbra, em Londres. O caso da Bárbara é interessante porque ela não era nada disso”, diz.

Um sertão sem fronteiras

Ela era uma rica proprietária de terras, de escravos e de um sobrenome bastante influente. Três de seus cinco filhos, assim com ela, lutaram para que o Nordeste se tornasse uma república.

O caçula, José Martiniano, é pai do escritor José de Alencar – autor do clássico Iracema e, ironicamente, defensor do regime monárquico durante o período de D. Pedro 2º.

“Não encontrei qualquer menção dele à avó”, diz o escritor Gylmar Chaves, que há 15 anos se dedica a pesquisar a vida da sertaneja e que se prepara para lançar uma biografia romanceada sobre sua vida.

Natural de Exu, em Pernambuco, Bárbara foi parar no interior do Ceará quando casou com o comerciante português José Gonçalves dos Santos, vendedor de tecidos, loções e miudezas na feira do Crato.

As viagens entre as duas cidades, separadas por 60 km de sertão, se tornaram comuns quando ela atingiu a adolescência e acompanhava o pai nas incursões pelas feiras que faziam do interior do Nordeste daquele Brasil um espaço muitas vezes sem fronteiras.

Livro de José de Carvalho publicado em 1917, que conta história de Bárbara (Reprodução: Biblioteca Nacional)

Aos 22, ela casou com um homem 30 anos mais velho, às escondidas, sem o consentimento do pai – e ainda convenceu um padre da Igreja Católica a sacramentar o matrimônio.

Não foi a primeira vez que Bárbara transgrediu os costumes da época, nem a última.

Depois de um ano vivendo no Crato, conta Chaves, ela já administrava em seu Sítio do Pau Seco um engenho onde fabricava rapadura e cachaça e produzia tachos e panelas.

Tudo à revelia do companheiro, que julgava que aqueles eram “negócios de homem”. Bárbara tornou-se viúva jovem, com pouco mais de 40 anos, mas virou uma matriarca muito antes disso.

“Ela não deu muito espaço para o marido (dominar)”, diz Chaves, divertindo-se.

Nos últimos quatro anos, o cearense rodou mais de 15 mil km a partir de Fortaleza para falar sobre Bárbara nas escolas.

O projeto, feito inicialmente de forma voluntária e hoje financiado pelo Edital Mecenas do Ceará, compreende entre 60 e 90 palestras por ano, para alunos de escolas públicas em sua maioria do ensino médio.

De matriarca a ‘inimiga do rei’

“Para dar a justa medida do papel das mulheres da época, ela era vista como masculina, o ‘macho’ da família, uma vez que tomava decisões e gerenciava os bens, sem conselhos dos homens”, diz Ariadne Araújo, autora do livro Bárbara de Alencar.

O caminho para que ela se tornasse revolucionária foi pavimentado dentro do Seminário de Olinda, em Pernambuco, por onde passaram dois de seus filhos.

Fundado em 1800 para formar clérigos para a Igreja Católica, o seminário foi criado pelo bispo Dom Azeredo Coutinho, que, apesar de ser inquisidor-geral de Portugal, era “mais progressista” quando se tratava de educação, conta George Félix Cabral de Souza, do departamento de História da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco).

“Ele acreditava que os sacerdotes deveriam ajudar as pessoas do sertão. Assim, a formação envolvia amplos conhecimentos e com viés prático – que incluía o estudo da Enciclopédia de Diderot e d’Alembert”, diz o historiador, referindo-se à obra referência do Iluminismo.

“Contaminados” pelos ideais iluministas e pela maçonaria inglesa – que difundia o pensamento republicano -, os padres carmelitas seriam protagonistas da Revolução Pernambucana, ressalta Maria Eduarda Marques, da Biblioteca Nacional.

Vista da cidade do Recife a partir do Forte de São João Batista do Brum por volta de 1800 (Reprodução: Biblioteca Nacional)

Amigo de dona Bárbara, o frei paraibano Manuel da Arruda Câmara, que circulava pelo convento em Olinda e foi idealizador do movimento, fundou a primeira loja maçônica do Brasil, esta de inspiração francesa.

Estudou filosofia natural na Universidade de Coimbra, em Portugal, e se mudou para a França revolucionária em 1790 – quando a Bastilha já havia sido tomada em Paris e a burguesia e os camponeses que haviam destronado Luís 16 realizavam a Assembleia Constituinte – para cursar Medicina em Montpellier.

Um de seus discípulos, o padre João Ribeiro, que o acompanhava nas expedições para investigar a flora do sertão e ilustrava seus livros de botânica, também estudou na Europa, onde teve contato com os conceitos de liberdade, igualdade e fraternidade – que, na prática, questionavam o caráter divino da figura do rei e a hierarquização estratificada da sociedade.

Professor do Seminário de Olinda, ele se suicidaria em 1817, com a derrota das tropas republicanas, enforcando-se em uma capela. Seu corpo sepultado foi violado, a cabeça separada do corpo e exposta espetada em um estandarte nas ruas do Recife.

“O padre João Ribeiro, ao lado do padre Miguelinho, estava entre aqueles que tinham as ideias mais radicais”, diz George Félix, da UFPE, citando também o nome do professor de retórica do Seminário.

Bárbara tinha contato com as ideias revolucionárias tanto através dos filhos radicados em Pernambuco – José Martiniano de Alencar e Carlos José dos Santos – quanto através dos religiosos com quem tinha amizade.

“Em sua casa do Sítio Pau Seco recebeu a visita de um dos mais ilustres ideólogos do sistema de governo republicano na colônia, o frei Manuel da Arruda Câmara, o qual fez menção sobre ela em sua carta-testamento, em 1810”, destaca Gylmar Chaves.

A partir de sua fazenda no Crato, ela “assumiu para si a missão de cooptar simpatizantes e fundar núcleos republicanos em fazendas e povoados”.

Dom João 6º como rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (Reprodução: Biblioteca Nacional)

Ariadne Araújo pontua que, naquela época, o clã dos Alencar gozava de poder e prestígio não apenas na região do Cariri, hoje o sul do Ceará, onde estava instalado. A influência da família se estendia a outras áreas da capitania como Barbalha, Jardim e Araripe – na divisa com o atual Estado de Pernambuco – e Várzea da Vaca, hoje conhecida como Campos Sales, no limite com o Piauí.

“Bárbara certamente não só apoiava as novas ideias de liberdade como as assumiu publicamente, ao apoiar o movimento. Isso que torna o papel dela importante para a época”, comenta a escritora.

Isso porque, no Nordeste do século 19, diz Maria Eduarda, da Biblioteca Nacional, a atividade política e as revoluções eram espaços praticamente exclusivos dos homens. As mulheres, em geral, nem emitiam opiniões sobre esses assuntos.

“As mulheres que viviam nos sertões nordestinos na época em que viveu Bárbara de Alencar não tinham direito a nada. Se ela teve o papel que teve nesse movimento político é porque veio de uma família com muita força, dinheiro, terras e prestígio, orgulhosos de sua independência”, acrescenta Ariadne.

“Estas condições transformaram Bárbara em uma mulher que sabia o que queria, forte e corajosa, com um espaço – muito raro por aqueles tempos e naquelas bandas do interior – para existir como sujeito.”

A escritora pondera que, ainda que a participação política tenha colocado a matriarca como ponto fora da curva, ela ainda era “fruto de uma cultura local extremamente moralista e católica”.

Nesse sentido, destaca-se o fato de que ela, até onde se sabe, não era abolicionista – ao contrário de alguns dos seus contemporâneos rebeldes. Bastante religiosa, exigia que os escravos seguissem preceitos do catolicismo e não permitia, por exemplo, que fossem amasiados.

Os cativos, entretanto, não dormiam em senzalas, não sofriam os maus tratos comuns da época e a chamavam de “madrinha”, lembra Chaves. Um deles, Barnabé, chegou a decepar a própria língua entre os dentes quando foi interceptado pelas tropas reais, para não denunciar o paradeiro da “sinhá”. Outra, Brasilina, acompanhou pela mata a peregrinação de Bárbara, depois de capturada, até a prisão em Fortaleza.

Por que o Nordeste queria se separar de Portugal?

A vinda da família real portuguesa para o Brasil em 1808, fugindo das invasões patrocinadas por Napoleão Bonaparte na Europa, mudou o eixo político e econômico da colônia – concentrado nos primeiros séculos na empresa açucareira do Nordeste.

Dom João 6º, então príncipe regente do Brasil, instalou-se com a corte no Rio de Janeiro e, dali em diante, parte considerável dos impostos arrecadados em todo o território passou a fluir para a capitania, que ganhou chafarizes, iluminação pública, praças e grandes avenidas.

Padre João Ribeiro é autor da bandeira da República de Pernambuco (Foto: Biblioteca Nacional)

“Pernambuco, que era uma capitania com superávits comerciais por causa do algodão, se sentiu sobrecarregada com a taxação imposta pela corte”, explica o historiador George Félix.

“A nobreza que expulsou os holandeses (que dominaram Pernambuco até 1654) se sentia como uma espécie de súdito privilegiado”, comenta Maria Eduarda.

“E se ressentiu com a mudança da coroa para o Rio”, acrescenta ela.

Combinado à difusão do ideário iluminista e das revoluções francesa e americana e à tradição de insurreição de Pernambuco, o aumento de impostos foi combustível para a Revolução Pernambucana.

Sai o vinho, entra a cachaça

Apesar de um início atropelado – os planos dos rebeldes foram descobertos um mês antes do início previsto para a deflagração da revolta e eles tiveram que entrar em ação antecipadamente – a República de Pernambuco durou 75 dias.

O padre João Ribeiro desenhou a nova bandeira, que é até hoje representa o Estado. No dia 7 de março de 1817, é instalada uma junta provisória e tem início a experiência de autogoverno.

Com a nova Constituição, que defende a república, os direitos humanos e a liberdade religiosa e de opinião, é abolida uma série de impostos.

Antônio Gonçalves da Cruz, o Cabugá, é enviado aos Estados Unidos como embaixador da república pernambucana com o objetivo de comprar armas e angariar apoio para a luta armada.

O vinho, visto como um produto ligado à metrópole, foi substituído por cachaça nas solenidades e as hóstias distribuídas nas missas, feitas de trigo, passaram a ser fabricadas com mandioca.

Em pouco tempo, a revolução se espalhou, com apoio dos senhores de engenho – que pediram como moeda de troca que os revoltosos não advogassem pela abolição da escravatura -, de intelectuais e das massas populares.

“Eles defendiam o pagamento de menos impostos e a redução do preço dos alimentos – duas mensagens muito simpáticas à população em geral”, diz o historiador da UFPE.

Decreto do governo provisório que extinguia o imposto sobre a carne (Reprodução: Biblioteca Nacional)

No Crato, ela chegou no dia 3 de maio de 1817 – para durar apenas 8 dias.

A república foi decretada durante a missa de domingo, com a leitura de uma carta do emissário José Martiniano, filho de dona Bárbara, acompanhado de cerca de 200 homens.

“Os revoltosos tentaram, a princípio, se organizar, convencer líderes políticos da região, testaram a adesão das novas ideias em reuniões secretas, aliciaram alguns e prometeram empregos e favores a outros”, conta Ariadne.

Três anos no cárcere

A repressão da monarquia foi rápida e truculenta. Os ataques às regiões separatistas envolveram cerca de 8 mil homens.

O saldo entre os rebeldes, segundo George Félix, foram 300 mortos em combate, 100 exilados, 11 executados em praça pública no Recife e outros 3 em Salvador.

Entre a prisão em Fortaleza, no Recife e em Salvador, Bárbara passou mais de três anos no cárcere e teve todos os bens confiscados.

Nas celas do Quartel da 1ª Linha, como narra Gylmar Chaves, os detentos estavam em meio às próprias fezes e urina, expostos a piolhos e pulgas.

A alimentação se resumia a vísceras de animais mal cozidas na água e sal, acompanhadas de uma pequena porção de farinha e servidas uma vez por dia nos mesmos cochos de madeira usados pelos porcos.

A pena, porém, não demoveu Bárbara de crença de que o Brasil deveria ser uma república. Em 1824, aos 64 anos, ela estava mais uma vez ao lado dos três filhos revolucionários, agora na Confederação do Equador. O Brasil já era independente de Portugal, mas governado pelo filho de Dom João, Pedro 1º.

No conflito separatista – que contaria, ao lado das tropas imperiais, com mercenários ingleses como o oficial Thomas Cochrane – ela perderia dois filhos, Carlos José dos Santos, o padre Carlos, e Tristão Gonçalves, que, depois de morto a tiros, teve a mão direita amputada por seus algozes e o corpo exposto por um mês ao sol.

Jurada de morte pelo coronel Pinto Madeira, dona Bárbara, já debilitada, se retirou na Fazenda Touro, na divisa com o Piauí.

Em 1833, um ano depois de o próprio coronel ter sido rendido e enforcado depois de participar de um movimento contrário à abdicação de Dom Pedro 1º, ela decidira voltar à Vila do Crato para ser madrinha de casamento da sobrinha.

Mas não chegaria ao destino: Bárbara de Alencar morreu aos 72 anos, na casa de um sobrinho de segundo grau, onde estacionara para descansar no caminho.

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