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Todos têm chance

Por Inácio Augusto de Almeida

Quase todas as tardes, ao sair da faculdade, cruzava com aquela mocinha franzina e de olhos tristes. Seu vestido simples e as suas já gastas sandálias japonesas, destoavam do seu ar gracioso e inteligente.

Até que um dia…

– O senhor é o seu Inácio de Almeida?

A voz humilde e fraca surpreendeu-me. Fiquei meio atarantado, sem nem sequer saber o que responder. E para não ficar calado…

– Sim, sou eu.

Com a  vista baixa e tendo nas mãos alguns livros, ela se apresentou:

– Eu sou a Regina. Já li os seus livros.

– Ótimo.

Falei e já iniciava a caminhada quando ela insistiu:

– O senhor fala muitas coisas com as quais eu não concordo. É engraçado o que o senhor escreve, mas é irreal.

O português correto, a crítica, para ela, lógica; enfim, como poderia uma criatura tão simplória possuir tais conhecimentos? Respirei fundo e olhando-a nos olhos, para isso quase me abaixando, respondi-lhe:

– Você, minha filha, ainda é uma criança. Não se deixe influenciar por esta gente que eu ridicularizo. No fundo são bem piores, na realidade são uns calhordas. Usam as pessoas como instrumentos e depois fazem o que fazem…

Ela apenas riu. Riu e se despediu dizendo já ser hora de preparar o jantar, senão a patroa iria passar-lhe uma reprimenda.

O vulto se perdendo na distância e eu a rir…

Uns três dias depois, eis a mocinha novamente.

– Seu Inácio.

– Diga mocinha (não conseguia me lembrar do nome dela).

– Meu nome é Regina, disse rindo.

– Claro, claro que é Regina, e ri também.

– Eu vim aqui para ver se o senhor conseguia na biblioteca da faculdade alguns livros para mim. Eu lhe garanto que devolvo todos. O senhor não precisa se preocupar.

A coisa começava a ficar meio embaraçosa. Uma empregada doméstica a querer ler livros de nível universitário. A querer, não, pois segundo ela já os lia há tempos. Resolvi arriscar-me a pagar alguns livros…

– Vou conseguir para você os livros que desejar. Se não tiver na biblioteca eu os arranjarei em outro local.

Seus olhos encheram-se de brilho. Uma alegria enorme iluminou todo o seu semblante. A mocinha era pura vibração.

– Consiga para mim aquele do Josué de Castro, Geografia da Fome.

Passei a mão no queixo. E engoli a saliva umas duas ou três vezes.

– Claro. Venha amanhã que eu estarei com o livro.

E lá se foi a Regina preparar o jantar de uma patroa qualquer.

– Trouxe o livro?

– Boa tarde, Regina. O livro está aqui. Agora, diga-me uma coisa. A que horas você lê?

– À noite, depois de lavar os pratos do jantar. É quando minha patroa fica vendo novela e não me aperreia. Aí eu leio até tarde da noite. Tem dia, seu Inácio, que quase não durmo.

– Regina, acabe com este negócio de seu Inácio. Por que você não frequenta um colégio como todas as pessoas? Você é inteligente e tem muita força de vontade. É só você querer e dentro de alguns anos estará dentro de uma Faculdade.

Ela apenas riu. Não, não me disse nada, apenas riu. E quando iniciou a sua caminhada, virou-se e, com aquela sua extrema humildade:

– Eu tenho que ir. Está na hora de fazer o jantar.

E muitos e muitos foram os livros que consegui para Regina. O tempo passando, eu quase terminando o curso, ela, cada dia me parecendo mais magrinha.

E terminei tendo que pagar alguns livros. Regina há mais de um mês não aparecia.

“É a humanidade. A gente faz a coisa com a melhor das intenções e recebe como troco a desonestidade, a ingratidão. Mas isto não vai ficar assim não. Vou descobrir onde ela mora. Os livros eu recebo!”

Pergunta aqui, pergunta ali, consegui descobrir o endereço da patroa de Regina.

– Boa tarde, senhora. Eu desejo falar com a Regina.

A mulher baixinha, gorducha e com cara de imbecil olhou-me como quem olha para um ser do outro mundo.

– Aquela maluca eu mandei embora. Andava tossindo muito. Desconfiei que estivesse tuberculosa. Também, gastava o dinheiro todo com livros. Toda semana chegava com dois três livros diferentes.. Tinha a mania de passar as noites lendo. Era maluca e…

A velhota gorda a falar e eu a não ouvir mais nada. Tudo girava em torno de mim, como se eu estivesse embriagado. A muito custo consegui perguntar onde moravam os pais de Regina.

– Sei muito bem não. Parece que é para os lados das Barrocas.

E bateu a porta na minha cara. Certamente a novela da tarde ia começar…

Depois de gastar quase um dia todo, finalmente chego à “casa” dos pais de Regina. Uma choupana feita de estacas, enrolada em esteiras de palha e coberta de latas. No fundo de uma rede que avistei ainda de dentro do carro, um velho deitado. Ao seu lado, uma velhinha tão magra que tive dúvidas se era uma pessoa ou um esqueleto.

– Pode entrar moço. O senhor deve ser o seu Inácio. Regina falava muito no senhor. Mas não se preocupe, não. Os seus livros estão aqui. Era no que ela mais falava nos últimos dias. Pedia demais, chegava até a implorar para que eu não deixasse de entregar os livros ao senhor. Eu só ainda não tinha ainda ido porque estava esperando o Nicó (apontou para a rede) melhorar. Ele pede esmolas, é cego, e como está doente, não pode sair. E sem o dinheiro da passagem não pude ir entregar os seus livros. Mas eles estão aqui.

– No caminho de volta, lembrei-me do sorriso de Regina. Eu a dizer para ela que todos têm chance, ela a rir aquele seu sorriso puro.

“Todos têm chance, todos têm chance, todos têm chance…”

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor