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Sob chaves…

Por Marcos Araújo (Especial para o BCS)

Arte ilustrativa do Vaticano em estilo impressionista com recursos de IA para o BCS
Arte ilustrativa do Vaticano em estilo impressionista com recursos de IA para o BCS

Começa nesta quarta-feira (dia 07), o conclave que definirá o substituto do Papa Francisco. A palavra conclave vem do latim cum clave, que significa “com chave”, aludindo ao isolamento dos cardeais em local fechado até que escolham um novo Papa. Esse processo foi institucionalizado em 1274 pelo Papa Gregório X, após um longo período de instabilidade causado por eleições papais demoradas e politizadas.

A expressão “cum clave”, sob chaves, vem de um fato histórico ocorrido em Viterbo, na Itália em 1271.  Após a morte do Papa Clemente IV, os cardeais reunidos em Viterbo não conseguiam chegar a um consenso, reunidos que estavam de 1268 e 1271, durante impressionantes 33 meses. Neste período, três cardeais faleceram. A impaciência popular fez a cidade restringir comida e remover o telhado do Palácio de Viterbo, local do conclave. Ficaram os cardeais trancados à chave e com fome.

A pressão surtiu efeito, e finalmente, após quase três anos, foi eleito Teobaldo Visconti, que não era nem cardeal e não estava entre eles. Foi escolhido de fora, quando voltava de uma cruzada de guerreiros cristãos a Jerusalém, sendo coroado como Papa Gregório X. Da notícia de sua nomeação até a sua posse, levou seis meses para chegar à Roma.

O mais breve conclave moderno ocorreu em 1939, após a morte do Papa Pio XI. Em apenas um dia, o cardeal Eugenio Pacelli foi eleito e assumiu o nome de Pio XII. Foram necessárias apenas três rodadas de votação. Outro conclave extremamente curto foi o de 1503, em que Giulio della Rovere (Papa Júlio II) foi eleito em menos de 10 horas.

Na história papal, o Papa Pio XII (1939), foi o mais votado, eleito com 61 dos 62 votos possíveis. João Paulo I (1978) também foi eleito rapidamente com ampla maioria logo na quarta votação. O Papa Bento XVI (2005) também foi eleito em apenas dois dias e quatro votações, com maioria sólida, refletindo um bloco conservador coeso. O Papa Francisco (2013) havia sido o segundo mais votado no conclave anterior (2005), mas sua eleição em 2013 foi outra surpresa, fruto de articulações entre os cardeais reformistas.

O conclave de agora se apresenta muito confuso e indefinido, esperando-se longas votações pelas tendências dos dois lados da Igreja em embate (progressistas e conservadores).

Os vaticanistas apostam em surpresas. É lembrado que o Papa João XXIII (1958) era considerado um “papa de transição” e pouco cotado. Surpreendentemente, foi escolhido como figura de compromisso entre alas rivais.

O conflito entre as diferentes ideologias está agora em evidência. Conservadores e progressistas se engalfinharão para assumir o trono de Pedro. Não será fácil a escolha. Não devemos ter outro papa sul-americano nem tão cedo. Papa Francisco foi o primeiro papa jesuíta da América Latina e o primeiro não europeu em mais de 1.200 anos (desde Gregório III, sírio, em 741).

Uma dificuldade dos tempos modernos é a imposição do sigilo absoluto a todos que estão relacionados ao evento.  Além dos trabalhadores, os cardeais são proibidos de revelar discussões internas do conclave, sob pena de excomunhão.  Somente cardeais com menos de 80 anos podem votar. São 133, ao todo. Uma maioria de dois terços é necessária para eleger o novo pontífice.

Quinze se destacam entre os “papabili”, os papáveis. Entre os fortes candidatos, nove são europeus (quatro italianos – Pietro Parolin, Pierbattista Pizzaballa, Matteo Zuppi e Claudio Gugerotti; um francês – Jean-Marc Aveline; um sueco – Anders Arborelius; um maltês – Mario Grech; um húngaro – Péter Erdö, e um luxemburguês – Jean-Claude Hollerich). Dois são asiáticos (Antonio Tagle – Filipinas, e Charles Maung Bo – Belarus).  Dois do continente africano (Peter Turkson – Gana – e Fridolin Ambongo – República Democrática do Congo). Para finalizar, temos dois americanos (Robert Francis Prevost e Timothy Dolan – arcebispo de Nova York).

Entre os cristãos, tem-se a ideia (nem sempre realizada) de que o Espírito Santo guia os cardeais eleitores. Tivemos algumas situações de eleições papais que o Espírito Santo andou dando um “cochilo”.  Torço imensamente pela eleição de um cristocêntrico autêntico à semelhança de Bergoglio, e que a Igreja não retroceda ao conservadorismo canonista dos tempos de Ratzinger.  Que venha, com urgência, a exclamação, precedida da fumacinha branca: – Habemus papam!

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Marcos Araújo é advogado, professor da Uern e escritor

Sete brasileiros e um conclave

Por Amanda Gorziza, Luigi Mazza e Pedro Tavares (Revista Piauí)

Escolha do substituto do Papa Francisco não tem qualquer brasileiro em boa cotação (Foto: Observatório do Vaticano/Getty Images)
Escolha do substituto do Papa Francisco não tem qualquer brasileiro em boa cotação (Foto: Observatório do Vaticano/Getty Images)

Dom Odilo Scherer aparece sorridente, de batina e mãos cruzadas, em uma reportagem publicada em março de 2013 pelo centenário jornal britânico The Catholic Herald. Aos 63 anos na época, o pároco brasileiro foi um dos perfilados em uma série de reportagens intitulada “Os homens que podem virar papa”. Ele estava entre os mais cotados, ao menos na imprensa especializada, para assumir o posto ao qual Bento XVI acabara de renunciar.

O raciocínio do jornal era cartesiano: se o Vaticano estava convencido de que era preciso eleger o primeiro papa latino-americano, quem teria mais chances do que o cardeal que comanda a Arquidiocese de São Paulo, cidade mais populosa do Brasil, país que concentra a maior população católica do mundo?

“Eu até brincava com ele, dizendo que ia instalar uma antena parabólica na catedral de Toledo para transmitir quando ele fosse eleito”, conta dom Anuar Battisti, arcebispo emérito de Maringá (PR). Toledo é a cidade do Paraná onde os dois se conheceram e cursaram juntos o seminário. Scherer, três anos mais velho, estudava teologia; Battisti, filosofia. Amigaram-se, tornaram-se presbíteros e, no começo dos anos 1980, trabalharam juntos na organização de um novo seminário que acabara de ser construído em Toledo. Scherer era o reitor.

“Ele é extremamente humano, sensível, organizado, decidido naquilo que pensa”, diz Battisti. “E, na maioria das vezes, tem que prevalecer a ideia dele.” O terreno onde o seminário foi construído era terra pura. Segundo conta o arcebispo, Scherer, apesar do alto posto que ocupava, quis cuidar de todos os detalhes de jardinagem: qual árvore vai onde, que flores serão plantadas, onde ficará o bosque. “É um biólogo por natureza”, diz Battisti.

A parabólica chegou a ser instalada pela TV Globo nos dias que antecederam o conclave, para viabilizar transmissões ao vivo em Toledo. A família Scherer, descendentes de alemães que migraram para o Brasil no século XIX, foi entrevistada em peso pela emissora. Mas todos se frustraram quando, na noite de 13 de março, subiu a fumaça branca na chaminé da Capela Sistina, em Roma: o novo papa se chamava Jorge Mario Bergoglio e era argentino.

Battisti acha que o amigo não se decepcionou. “Quando eu fazia aquelas brincadeiras, ele mandava risadinha. Ou seja, nem ele mesmo acreditava.” Três dias depois, quando a esperança alimentada pelo Catholic Herald já tinha virado pó, a Folha de S.Paulo publicou um perfil de Scherer, apresentando-o dessa vez como “o homem que teria sido papa”.

Dom Odilo Scherer soube da morte de Francisco quando acordou na manhã de segunda-feira (21), feriado de Tiradentes. Organizou uma coletiva de imprensa na Catedral Metropolitana de São Paulo, depois rumou para a Catedral da Sé, onde conduziu uma missa em homenagem ao pontífice. À tarde, participou por videoconferência de uma reunião extraordinária da Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros (CNBB). Os conselheiros da entidade, ele incluso, decidiram suspender a assembleia geral que aconteceria entre 30 de abril e 9 de maio, em Aparecida (SP). “Não pode ter assembleia sem o papa estar vivo”, diz Arnaldo Rodrigues, assessor da conferência e professor de comunicação social na PUC-Rio. O evento ficou para 2026.

Mais tarde, em casa, Scherer começou a cuidar dos preparativos da viagem a Roma. Horas antes, ele recebera, por e-mail, a convocação oficial do Colégio Cardinalício para que comparecesse ao funeral do papa, marcado para sábado (26), e ao conclave que elegerá o novo chefe máximo da Igreja. Scherer é um dos sete cardeais brasileiros que podem votar e ser eleitos, em um grupo de 135 (o Brasil só não tem mais cardeais do que Itália, com dezessete, e Estados Unidos, com dez).

Entre os brasileiros, somente ele e João Braz de Aviz, arcebispo emérito de Brasília, já participaram de um conclave (“uma vivência única”, diz Scherer no livro Um padre a vida toda, recém-lançado). Habituado a frequentar o Vaticano, ele embarcou sozinho na quarta-feira (23) em um voo sem escalas de Guarulhos a Roma, levando consigo o hábito coral – a veste vermelha exclusiva dos cardeais e vestida em ocasiões especiais. Scherer conduziria, esta semana, a cerimônia de batismo de um sobrinho-neto em Toledo. A família preferiu adiar o evento.

A rigor, qualquer um dos 135 cardeais pode se tornar o pontífice, se assim desejar o Espírito Santo. Dessa vez, contudo, Scherer não tem sido citado como um dos favoritos pelos jornalistas entendidos do assunto. Os outros brasileiros, tampouco. Entre eles há cinco arcebispos (Jaime Spengler, de Porto Alegre; Leonardo Steiner, de Manaus; Orani Tempesta, do Rio de Janeiro; Paulo Cezar Costa, de Brasília; Sergio da Rocha, de Salvador) e dois arcebispos eméritos – isto é, que não ocupam mais o cargo (João Braz de Aviz, de Brasília; e Raymundo Damasceno Assis, de Aparecida). Todos votam, com exceção de Assis, que já passou dos 80 anos e, pela regra, não pode participar do conclave.

Cardeal arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, uma liderança na Igreja do Brasil (Foto: Web, sem identificação de autoria)
Cardeal arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, uma liderança na Igreja do Brasil (Foto: Web, sem identificação de autoria)

Dom Anuar Battisti não tem esperanças de que um brasileiro se eleja papa. Desanca os colegas: Paulo Cezar Costa, de Brasília, “é muito jovem para assumir essa peteca”; Sergio da Rocha “não está conseguindo administrar nem Salvador”; Jaime Spengler, de Porto Alegre, “fala mais ou menos italiano e não tem uma formação de ponta”; Leonardo Steiner (“o de Manaus”) tem “problema sério de saúde”; Orani Tempesta, do Rio de Janeiro, “seria bom candidato, mas é uma figura pesada”; e Odilo Scherer, seu amigo, “já completou 75 e está entregando os pontos”.

Rito

Os oito cardeais estão hospedados no Pontifício Colégio Pio Brasileiro, instituição mantida em Roma pela CNBB. Fundado em 1934, o colégio forma presbíteros brasileiros e cabo-verdianos, mas também recebe hóspedes com frequência. Lá costumam dormir os religiosos que vão a Roma estudar ou participar de solenidades no Vaticano. Assim que se iniciar o conclave, no entanto, os brasileiros e todos os demais cardeais eleitores serão conduzidos até a Casa Santa Marta (Domus Sanctae Marthae), edifício onde vivia Francisco. Permanecerão trancados, sem acesso a celulares e notícias, até que dois terços deles votem no mesmo candidato.

O rito foi retratado no filme Conclave (2024), que venceu o Oscar de melhor roteiro adaptado. Mas nem todos os religiosos gostaram do que viram. Scherer tem dito que, “como romance, o filme é interessante, mas não mostra a realidade”. Battisti ainda não assistiu, mas tem colhido opiniões similares. “Me disseram que é muito crítico à Igreja e mostra bispos com tendências homossexuais. Ouvi dizer que o filme não soma nada.”

Dona Lourdinha Fontão, uma famosa catequista de São José do Rio Pardo (SP), fez uma previsão há mais de quarenta anos olhando para o jovem Orani Tempesta: “Esse menino aqui um dia vai ser padre e vai chegar a papa.” Dom Paulo Celso DeMartini, abade que o conhece desde a juventude no interior de São Paulo, torce pela profecia. “Se bem que, nesses tempos atuais, eu penso: ‘Ai, poupe-o senhor.’ Mas que ele e o mundo merecem, não há dúvida.” Dom Filipe Silva, abade no Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro, acha que Tempesta tinha mesmo perfil para virar papa, e que se fosse mais novo estaria bem cotado.

Tempesta tem 74 anos e há dezesseis comanda a Arquidiocese do Rio de Janeiro. Em mensagem por escrito à piauí, relembrou a convivência com o papa Francisco durante a Jornada Mundial da Juventude, em 2013. Os dois passaram, segundo ele, “uma semana juntos, no café da manhã, almoço, jantar”. Francisco, a bordo do papamóvel, lhe oferecia chimarrão. Sempre que via o Cristo Redentor, o pontífice fazia uma oração e o sinal da cruz. Como todo cardeal, Tempesta não se coloca como candidato a sucedê-lo e não cita favoritos. “Quem entra no conclave como papa sai como cardeal”, lembra o amigo DeMartini. Os dois têm conversado por WhatsApp, apesar do fuso horário que os separa em cinco horas.

Conservador ou progressista?

Não há, entre os brasileiros, um notório conservador ou progressista. “Os cardeais do Brasil não são tão conservadores quanto os americanos, mas não sei se poderiam ser classificados como progressistas. Acho que podemos chamá-los de moderados”, diz Virgílio Arraes, professor de história da Universidade de Brasília (UnB) especializado em Vaticano. Desde o fim da Guerra Fria, segundo ele, correntes de viés socialista como a Teologia da Libertação, que já foi muito forte no Brasil, perderam espaço. Hoje, a disputa na Igreja se dá entre moderados e conservadores. Dom Orani Tempesta costuma ser citado pelos colegas como um conservador. Dom Odilo Scherer tem reputação de moderado.

Brenda Carranza, professora de antropologia da religião na Unicamp, é um pouco mais pessimista que o colega. “Acho que esse conclave vai ser um divisor de águas para a direita e o conservadorismo católico. Meu palpite é de que a disputa será entre ultraconservadores, conservadores e conservadores moderados.” A seu ver, nem mesmo Francisco podia ser considerado um progressista – se assim era chamado, isso se devia mais ao contraste com o papa Bento XVI do que às suas ideias.

Historicamente, na Igreja, progressistas são aqueles que usam a teologia como ferramenta de transformação social, de conscientização e combate às desigualdades. Francisco, diz Carranza, estava mais próximo daquilo que se convencionou chamar “teologia do povo”, algo como uma Teologia da Libertação desprovida de marxismo. Mas a pesquisadora destaca dois legados do papa que, segundo ela, impactaram a configuração interna da Igreja: a transparência econômica e maior paridade de gênero. “O banco do Vaticano deixou de ser o que era, quase um paraíso fiscal. E agora temos mulheres em posições de liderança na Igreja.”

Nem Brenda Carranza nem Virgílio Arraes arriscam palpites para o conclave. “Toda previsão desmancha no ar”, diz o professor, que em 2005 achava graça de quem apostava em Joseph Aloisius Ratzinger. Ele não acreditava que, depois do conservador João Paulo II, a Igreja elegesse outro conservador. Espantou-se quando Ratzinger foi anunciado como papa Bento XVI. “Durante séculos não houve um papa alemão, até que houve. Nunca um jesuíta seria papa, aí veio Francisco. Na época da Guerra Fria, ninguém imaginava um papa que não fosse italiano, e aí foi eleito João Paulo II, polonês.”

Se fosse apostar em um latinoamericano, Arraes diria que o México talvez tenha mais chances que o Brasil. Mas só Deus sabe.

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