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Muito dinheiro, coronéis e várias dúvidas no rastro de Lampião

Por Marcos Pinto

Inquérito é um documento sobre dinheiro para resgate do coronel Antônio Gurgel
Inquérito é um documento sobre dinheiro para resgate do coronel Antônio Gurgel

Ainda recai pesado manto de sepulcral silêncio sobre a temática do cangaço, protagonizado pelo célebre cangaceiro Virgulino Ferreira – O Lampião, em terras da região Oeste-Potiguar. Em investidas às pesquisas de campo, observam-se veementes esquivas oriundas de pessoas de idades longevas, no que consiste às minudências que configuram um inédito libelo de alguns protagonistas da incursão lampionesca ao RN.

O forçoso silêncio denota uma espécie de ‘pagamento de pedágio’ para atravessar as situações envolventes de cruenta exorcização. Sobre alguns detentores de interessantes particularidades, como acumpliciamento, pesa-lhes a pobreza – que beira a indigência. Não há como servir de caixa de ressonância, ampliadora e diária, mesmo à boca miúda.

Assim, guardam no silêncio o heroísmo e a dignidade da coerência existencial. Minudências de circunstâncias estranhas e desconhecidas. Aos estudiosos e pesquisadores resta uma ilusão de que raciocínio e razão são flores aladas e sem raízes na terra comum.

Tenho cópias de um processo-crime originário em Pau dos Ferros- RN, cujo inquérito policial foi instaurado em 21 de julho de 1927, tendo como denunciante Tilon Gurgel do Amaral e como denunciado o senhor Avelino Holanda Bessa. A denúncia diz respeito a um capítulo do tumultuado sequestro e libertação do Coronel Antônio Gurgel do Amaral, pelo bando do sinistro Lampião.

O narrado sequestro ocorreu durante as primeiras horas da tarde do dia 12 de junho de 1927 quando o citado Coronel vinha de Mossoró em automóvel próprio, com motorista profissional, e se aproximava do sítio Santana, situado na fértil “Várzea do Apodi” (vide livro “Nas garras de Lampião” (diário) – fundação Vingt-un Rosado – coleção mossoroense -série c – vol 910 – ano 1996).

Livro conta o sequestro de Antônio Gurgel (Reprodução do BCS)
Livro conta o sequestro de Antônio Gurgel (Reprodução do BCS)

Quando o coronel chegou ao sítio Santana já encontrou os seus irmãos Fausto e José Tibúrcio como reféns. Logo foram estipuladas as quantias de cinco contos de réis para o resgate/libertação de Fausto e um conto de réis para a liberdade de José, e 15 contos de réis para o resgate de Antônio Gurgel, que assumiu o compromisso de pagar todo o valor cumulativo dos três aprisionados.

A seguir escreveu um bilhete para o seu genro, Jaime Guedes, então gerente do Banco do Brasil em Mossoró, encarregando o seu irmão Fausto para ir a Mossoró entregar a correspondência e trazer o dinheiro (21 contos de Réis).

Fausto não retornou e no dia seguinte ocorreu o ataque a Mossoró.

Há uma importante minudência a ser sublinhada nesse episódio, entre tantas e tantas outras, carregadas de interrogações. No dia 15 de junho de 1927, o coronel Antônio Gurgel afirma literalmente que já estava familiarizado com cangaceiros, citando até a particularidade de que Massilon lhe entregara/devolvera o cinturão e pistola de seu uso pessoal.

Em pesquisa de campo, deslindei a razão e o motivo de tal familiaridade e apreço de Massilon para com o Antônio Gurgel: Gurgel informara ao cangaceiro que era irmão do sogro de Décio Holanda (Tilon Gurgel) dono da fazenda “Bálsamo”, na Serra do Pereiro-CE.

Nesse local, o bando passara um mês acoitado e lá recebeu de Décio duas mil balas de fuzil. Essa munição estivera escondida no sítio “Pacó” (várzea do Apodi) no ano de 1925, terras que pertenciam a Décio Holanda.

Fora transportada – segundo fonte segura – em abril de 1925 em um comboio de animais (burros/cavalos) que carregavam caixões com mercadorias diversas, como mantimentos – encobrindo os artefatos ilegais. A viagem foi tranquila e chegou a seu destino sem qualquer sobressalto, valendo-se do sutil disfarce.

Massilon soube em conversa com coronel Antônio Gurgel, que ele e seu irmão Tilon eram amigos íntimos dos irmãos Benedito e Quinca Saldanha. Esse último, o cangaceiro se referia como sendo seu “padrinho.” Quinca acolheu-o e o protegeu em 1923, quando matou um fiscal na feira de Brejo do Cruz-PB. Em 1925, Massilon foi acoitado por Benedito em sua fazenda “Várzea Grande”, próximo a Alto Santo, no Ceará.

Dinheiro de resgate

Massilon, cangaceiro e acoitado por coroneis. Isaías Arruda, força política e coiteiro; Lampião,
Massilon tinha proteção de coroneis; Isaías Arruda, político e coiteiro; Lampião tinha força bélica (Fotomontagem do BCS)

Houve ingentes esforços para a libertação do coronel Antônio Gurgel. Tive conhecimento por fonte fidedigna de que o senhor Otílio Diógenes informara o Jaime Guedes que Lampião e seu bando pernoitaram em suas terras nas encostas da famosa Serra da Micaela. No dia 15 de junho de 1927, o coronel Antônio Gurgel recebeu telegrama do genro Jaime Guedes informando que o dinheiro para o seu resgate estava a caminho. O portador era o senhor Francisco Alves Maia.

Nesse mesmo dia, Tilon Gurgel seguiu da sua casa no “Brejo do Apodi” em carro fretado por Jaime em Mossoró, de propriedade do senhor Moacir Gomes de Matos, cujo motorista era popularmente conhecido como “Italiano”. Francisco Alves Maia aguardava o Tilon no lugar denominado de “Arara,” onde efetivamente se encontraram.

Francisco Alves Maia conduzia consigo 21 contos de réis para o resgate de Antônio Gurgel. Dali resolveram voltar a cavalo para o povoado do Alto Santo, onde se dirigiram até à casa de Avelino Holanda Bessa, onde deixaram  os pacotes de dinheiro enrolados em papel, no total de 21 Contos de Réis, sem contudo contarem e conferirem se realmente essa esse o total.

No dia 25 de junho, Lampião recebeu carta do coronel Isaías Arruda (líder político no Cariri, um dos maiores coiteiros do cangaceiro no Ceará), através de Massilon, que saiu à noite do lugar “Riacho da Fortuna”, situado entre Macambira e Vaca Morta, município de Riacho do Sangue. Neste mesmo dia, Lampião e Sabino conversaram, e esse se dirigiu ao Antônio Gurgel para lhe comunicar que seria libertado.

Sabino ainda orientou Gurgel a se despedir de Lampião. Acabou solto sem pagamento de resgate. ‘Numa boa’, usando-se uma expressão coloquial do nosso tempo.

Impasse

Por volta do dia 28 de junho, Tilon Gurgel enviou um filho até à casa de Avelino Bessa, com objetivo de pegar os 21 contos de Réis. Mas, esse alegou que deixasse aplacar as coisas e então mandava. Dias depois,  Tilon foi entender-se pessoalmente com o Avelino, que prometeu-lhe que no dia 14 de julho estaria em Mossoró onde entregaria o dinheiro.

Em Mossoró, Tilon Gurgel esperou Avelino até o dia 16 de julho. Em vão. Nesse dia, recebeu telegrama de Alto Santo, com Avelino informando que iria para Pau dos Ferros. Já em sua residência, o Tilon recebeu telegrama no dia 18 de julho (de Avelino) chamando-o a Pau dos Ferros.

A essa altura, o coronel Antônio Gurgel prestara depoimento diretamente ao diretor de segurança pública – atual cargo de secretário – desembargador Benício Filho, no dia 19 de julho, ocasião em que citou apropriação indébita do Avelino Bessa, tendo aquela autoridade enviado telegrama ao delegado de polícia de Pau dos Ferros (Martiniano Rêgo) determinando imediata instauração de inquérito policial.

Avelino foi interrogado e entregou 15 contos de Réis, alegando que fora essa a quantia guardada em sua residência por Tilon Gurgel. No dia 22 de julho, Tilon Gurgel foi ouvido em termos de declarações pelo delegado de polícia de Pau dos Ferros, ocasião em que se fazia acompanhar pelo seu cunhado, o desembargador Felipe Guerra, companhia usado como forma de pressão à autoridade policial.

Remetido o inquérito para o então juiz de Direito da Comarca de Pau dos Ferros, João Vicente da Costa, ele determinou o encaminhamento do processo para a Comarca do Limoeiro, jurisdição do lugar de residência do Avelino Bessa, que era o povoado “Alto Santo”.

Em seu depoimento, Avelino informou que Massilon estivera em sua residência cobrando o dinheiro. Sua resposta foi de que entregara todo o montante que estava em seu poder ao delegado de Pau dos Ferros, Martiniano Rêgo.

Soube-se depois, que Tilon Gurgel pedira a Benedito Saldanha enviar o cangaceiro Massilon para resgate do dinheiro.

Vale lembrar

Pergunta que não quer calar: teria realmente Avelino Bessa subtraído a significativa quantia de seis contos de réis do dinheiro que lhe fora confiado pelo Tilon Gurgel, fazendo-se valer do poderoso álibi de que era sabedor da trama urdida por Jerônimo Rosado, Felipe Guerra e seu cunhado Tilon Gurgel à invasão do bando de Lampião a Mossoró?

Resumo histórico: os senhores Tilon Gurgel e Antônio Gurgel “perdoaram” a suposta apropriação indébita dos seis contos de réis. É o que me cumpre descrever.

Vale ser reiterado: Tilon Gurgel se acumpliciara com o seu genro Décio Holanda para acoitar o bando de Lampião em sua fazenda Bálsamo, na Serra do Pereiro-CE, como realmente acoitou, por mais de um mês. Inclusive, reforçando os cangaceiros com duas mil balas de fuzil, munição de sobra para ataques a Apodi e Mossoró.

É o que consta sobejamente em subsídios históricos colhidos em pesquisa de campo. Noutro momento, vamos abordar mais detalhes desse enredo, que tem muitos fatos e detalhes omitidos da história oficialmente escrita e espalhada há muitas décadas. Publicaremos neste prestigiado Blog Carlos Santos (BCS).

Adianto, como referência e expectativa: o senhor Anísio dos Santos (vide foto de Anísio dos Santos no livro “Nas Garras de Lampião” 2° edição – Raimundo Soares de Brito. Coleção Mossoroense), dono da fazenda “Lagoa do Rocha,” no Ceará, acoitou Lampião e seu bando com aval do clero do Limoeiro-CE. Pode acomodá-los em harmonia e paz. Anísio dos Santos era primo do meu avô materno Joaquim Rosa dos Santos.

Inté.

Marcos Pinto é advogado e escritor

Sob a mira do tempo – entre histórias e estórias

Por Marcos Pinto

Foto ilustrativa, a partir de vídeo dos anos 30, com Lampião e outros cangaceiros.
Foto ilustrativa, a partir de vídeo dos anos 30, com Lampião e outros cangaceiros.

Não há imprescindibilidade em se recorrer à filosofia e à dialética do conhecimento para se constatar com veemência a versatilidade e as paralelas cheias de nuances do Sr. Tempo. Os grandes passados, de tão profundos e abrangentes rasgam o sudário da vida, para se esvaírem numa súplica.

Pretéritos  que insistem em serem revelados, traduzidos, explicados e interpretados por diversos olhares, por ângulos inimagináveis de vários pontos de vista. Não consistem num ajuntamento coerente e translúcido, mas antes numa massa quase infinita de nuances mais ou menos incompreensíveis e resistentes.

A tessitura da historiografia revela que estamos, segundo parece, condenados a escrever e escolher entre diversos regimes de verdade. Foi assim com o grande romancista Guimarães Rosa, quando filosofou através do instigante personagem Riobaldo (vide “Grande Sertão: Veredas”): “A natureza da gente não cabe em nenhuma certeza”.

Nesta mesma dialética, surge o exponencial intelectual da prosa Machado de Assis, sobejando razões enfáticaa: “Mas – dirás tu – como é que podes assim discernir a verdade daquele tempo, e, exprimi-la depois de tantos anos?” (vide obra literária “Brás Cubas”).

Não há como esquivar-se em fazer uma comparação com a sutil ironia e o grau de pessimismo de nosso Machado, quando no discurso metafórico de Brás Cubas.

Sob a temática do cangaço, alguma luz tem sido lançada sobre essa página da história, resgatando-a das sombras voluntariosas impostas por pesquisadores e historiadores atrelados ao amálgama das elites dominantes. A matéria tem sido objeto de múltiplos estudos, oriundos da árdua e incompreendida “pesquisa de campo”.

É nesta metodologia de pesquisa que não se poupa a pormenores pessoais. Às vezes, encontro na imprensa virtual e, também, na imprensa escrita, referência às incursões de pesquisadores/historiadores do cangaço, em especial à investida banditícia da sinistra horda lampionesca nos sertões da região Oeste-Potiguar, pautando pesquisa de campo no antigo “Brejo do Apodi”, atualmente município de de Felipe Guerra.

Por ser feudo territorial da tradicional família Gurgel, oriunda do Aracati-CE, injustificadamente, esquivam-se em abordarem os antigos habitantes sobre o grupo de jagunços pertencentes e comandados pelo truculento Décio Holanda (Décio Sebastião de Albuquerque) genro de Tilon Gurgel, cujo grupo de celerados era acoitado nos sítios “Pacó”, pertencente ao Décio, e no sítio “Brejo do Apodi”.

Acerca desta particularidade de milícia particular, escrevi e publiquei em plaquete da famosa e respeitável “Coleção Mossoroense”, com o título “O fogo de Pedra de Abelhas” (antigo referencial toponímico da atual cidade e município de Felipe Guerra-RN), fato ocorrido  a 12 de maio de 1925, nas imediações do sítio “Boqueirão.” São abordagens com nuances sobre o embate entre a jagunçada do Décio Holanda e uma “força da polícia militar” composta por 40 soldados comandados por um tenente, enviado exclusivamente pelo então governador Dr. José Augusto.

Intuito do governador era desbaratar essa milícia particular, que, efetivamente fugiu para o Ceará, após perder um dos jagunços baleado e morto pelo contingente policial. O grupo foi acoitado na fazenda “Várzea Grande”, pertencente a Benedito Saldanha, situado no município de Limoeiro do Norte, e atualmente ao município de Alto Santo, também no Ceará.

Outra história do ataque de Lampião a Mossoró, ainda cheio de evasivas, diz respeito ao processo de eliminação na modalidade “queima de arquivo,” feita por Benedito Saldanha dias após o ataque a Mossoró, em sua fazenda “Várzea Grande.” O cabra conhecido por “Coqueiro” foi acoitado por Benedito que tomou conhecimento que fora o responsável pelo ataque ao veículo do sr. Antônio Gurgel, fato ocorrido na Várzea do Apodi, ocasião em que o Lampião o fez refém. No episódio, de imediato já fora exigida quantia à família para liberação de Gurgel.

Benedito era amigo íntimo do Tilon Gurgel.

O jornal “O Mossoroense,” edição de 25/04/1982, na coluna “Mossoró no passado,” informa que o bandido Coqueiro, do Bando de Lampião, fora eliminado na fazenda “Várzea Grande”, em confronto com a polícia.

Observe-se que o Benedito Saldanha enviou telegrama ao diretor de segurança pública do RN, informando que estava enviando o corpo do cangaceiro Coqueiro  para Mossoró, onde seria sepultado. Até hoje não há notícias sobre a chegada e sepultamento desse corpo. História que segue e requer profunda “pesquisa de campo”.

Inté.

Leia também: A historiografia do cangaço

Marcos Pinto é advogado e escritor

Cangaço no RN – A fantasiosa “estória do gato vermelho”

Por Marcos PintoCangaço - ilustação do Brasil paralelo

A envolvente história do cangaço lampionesco encontra-se repleta de fatos referenciais que não resistem ao mínimo cotejo com a realidade existente à época do protagonismo. A análise sucinta capta o cenário redimido, mesmo permanecendo no imaginário popular as falácias, o engodo, a débil transfiguração das elites egoístas e predatórias.

Antes de consolidar-se como historiador, o admirável caraubense Raimundo Soares de Brito cerrara fileira política seguindo fervorosamente as hostes partidárias comandadas pelos truculentos irmãos Benedito e Quinca Saldanha, proprietários da Fazenda “Setúbal” no município de Caraúbas. Antes, residiram no município de Brejo do Cruz, onde Quinca era dono da Fazenda “Amazonas”.

Benedito era dono da Fazenda “Várzea Grande”, encravada no município de Limoeiro do Norte-CE, isto já no ano de 1923. Observe-se que o ainda pouco conhecido cangaceiro Massilon Leite/Massilon Benevides cometeu crime de homicídio na feira de Belém do Brejo do Cruz -PB, no ano de 1923, matando um fiscal de feira. Daí, passou a protegido dos irmãos Quinca e Benedito. Acabou sendo acolhido na casa da Fazenda de Benedito, no Vale do Jaguaribe.

Em 1926, Massilon ataca a cidade de Brejo do Cruz na Paraíba, onde mata Manuel Paulino de Morais, Dr. Augusto Resende (juiz municipal) e fere Dr.Minervino de Almeida, o “Joca Dutra (juiz municipal) e Severino Elias (telegrafista). O Quinca Saldanha aparece como um dos autores intelectuais.

No início de Maio de 1927, Lampião encontrava-se “acoitado “ na , Fazenda “Bálsamo”, pertencente ao Décio Holanda, genro de Tilon, quando deu-se o encontro com o cangaceiro Massilon, protegido dos Saldanhas, Quinca e Benedito, ocasião em que Décio entregou duas mil balas de fuzil para serem usadas no ataque a Mossoró.

Ainda na fazenda de Décio Holanda, este informou ao Lampião que o Massilon era cabra de confiança e protegido dos Saldanhas. Acrescentou que o Massilon vivia homiziado vezes em Caraúbas com o seu padrinho Quinca, e ainda no Ceará, na fazenda de Benedito Saldanha.

Reportando a estória

Valendo-se da sua consagrada fama de historiador, Raimundo Soares de Brito (Raibrito) forjou a esdrúxula “estória do gato vermelho”, disseminando-a no imaginário popular como um fato histórico verossímil concreto. Observe-se que durante o mês de maio de 1927 o convívio diário de Lampião com o Massilon o fez usufruir da estreita amizade dos Saldanhas com o Décio Holanda e o Massilon, descartando-se desde logo qualquer investida a Caraúbas, onde predominava a liderança política dos irmãos Saldanhas.

Certa vez, indaguei ao historiador Raibrito, se ele sabia informar o nome do informante que, supostamente presenciara e ouvira o Lampião afirmar, quando se encontrava no sítio “Santana Várzea do Apodi”, que “não atacaria Caraúbas porque lá tinha o gato vermelho”. O historiador esboçou um sorriso e disse desconhecer qualquer informação sobre essa versão.

Confrontando com a realidade histórica, esta estória morre à míngua de veracidade. Não passa de “resto”, sobrevivência anacrônica e ridícula no imaginário popular, “silêncio” cuidadosamente mantido ou simples ruído ocultado no silêncio.

Em verdade, individualmente os irmãos Quinca e Benedito nunca foram valentes. Quando Benedito exercia o cargo de prefeito nomeado do Apodi, no ano de 1933, teve uma conversa áspera com o famoso temido apodiense Joaquim Ferreira Lima (Quinca Amarelo). Esse puxou de sua faca e chamou Benedito para o embate físico, que preferiu se esquivar, resmungando estridentemente.

Todas as análises acuradas conduzem à certeza irredutível de que os Saldanhas só tinham coragem quando se faziam acompanhar da sua jagunçada, espécie de milícia particular. Ressalte-se que esses jagunços eram acoitados em Caraúbas (na Fazenda Setúbal) e na zona rural de Limoeiro do Norte-CE (Fazenda Várzea Grande).

À luz dos jornais das décadas de 20 e 30 (1920-1939) constata-se a existência de três grupos de jagunços/cangaceiros. Era a milícia particular dos Saldanhas, a de Décio Holanda (genro de Tilon Gurgel) acoitada no “Brejo do Apodi” até maio de 1925 quando foi expulsa por um contingente policial do Estado comandado pelo Tenente Napoleão Agra. O episódio é conhecido como “O fogo de Pedra de Abelhas”, objeto de publicação de plaquete pela coleção mossoroense, de nossa autoria.

O terceiro grupo de jagunços pertencia ao virulento Balthazar Meireles, acoitado em sua fazenda situada no município de Luis Gomes. Existiam dois subgrupos esporádicos, pertencentes a Juvêncio Barreto, que os acoitava em sua Fazenda “Unha de gato” à época município de Apodi, e depois ao município de Itaú-RN.

Vez por outra este subgrupo  atrelava-se aos grupos dos Saldanhas e do Décio Holanda. O outro subgrupo pertencia ao sr. Joaquim Cirilo de Andrade, com várias incursões criminosas nos sertões do Vale Jaguaribano, conforme consta nos jornais do RN e do Ceará.

Há uma curiosidade reinante nesses grupos armados, concernente ao fato de que alguns donos dessas milícias aproveitavam o gasto no acoitamento desses elementos criminosos utilizando-os na lida do campo, quer seja na agricultura ou na pecuária extensiva. Os mais afoitos e ousados eram eliminados sumariamente como queima de arquivo e sepultados nas caatingas de suas fazendas.

Inté.

Marcos Pinto é advogado e escritor

*Ilustração da postagem do Brasil Paralelo

Quem foi o idealizador da invasão de Mossoró em 1927?

Por Honório de Medeiros

Quem foi o idealizador da invasão de Mossoró, em 13 junho de 1927 (que nesse sábado – 13 de junho de 2020 – fez 93 anos)? Não o planejador ou o executor, mas o idealizador?

Sabemos que o planejamento coube ao Coronel Isaías Arruda, a Massilon, e a Lampião. A execução, a Massilon e Lampião.

Mas quem foi seu idealizador?

O ponto de partida para respondermos essa pergunta é a análise da participação, no episódio, desses três personagens principais: Lampião, o Coronel Isaías Arruda, e Massilon.

Massilon, coronel Isaías Arruda do Ceará e Lampião fazem parte de um intrincado jogo de poder e crime (Fotomontagem BCS)

A importância deles é tal, que sem qualquer um dos três, não teria havido a invasão. Todos os outros participantes são secundários, embora possam ser importantes.

Entretanto, Lampião pode ser retirado, com alguma segurança, dentre os possíveis idealizadores, por uma razão muito simples: Jararaca, testemunha da conversa entre o cangaceiro e  o Coronel Isaías Arruda, acerca do projeto de ida a Mossoró, foi muito claro quando afirmou que nunca houve a intenção, do bando, de penetrar no Rio Grande do Norte.

Manoel Francisco de Lucena Filho, o “Ferrugem”, Manoel Ferreira, o “Bronzeado”, assim como Francisco Ramos de Almeida, o “Mormaço”, disseram o mesmo.

Três personagens e um ataque improvável

E é praticamente consenso na literatura do cangaceirismo, a resistência inicial de Lampião de levar a frente tal aventura.

Sobram o Coronel Isaías Arruda e Massilon.

O Coronel Isaías Arruda também poderia ser retirado, levando-se em consideração o seguinte: ele não chamou Lampião a Aurora, pois vinha sendo pressionado insistentemente pelo Governador do Estado, José Moreira da Rocha, o “Moreirinha”, seu aliado, para se afastar de cangaceiros e jagunços. “Moreirinha”, por sua vez, sofria intensa pressão do Governo Federal nesse sentido.

Mas é notória a participação do Coronel no ataque a Apodi, em 10 de maio de 1927. Como é notório o viés político desse ataque: Coronéis cearenses, paraibanos e potiguares agiram em conjunto, nas sombras, contra a liderança do Coronel Chico Pinto, em crime executado por Massilon.

Alvo, prefeito fez defesa em sua casa ao lado da São Vicente (Fotomontagem BCS)

Então, é de se supor que o Coronel Isaías Arruda não chamou Lampião, mas aproveitou a oportunidade de sua chegada repentina.

Dizemos que aproveitou a oportunidade porque, aparentemente, o projeto de invadir Mossoró já existia há algum tempo e, para tanto, Massilon já recrutava cangaceiros pelo Sertão paraibano, provavelmente em comum acordo com o Coronel.

Existem dois fatos que asseguram a forte ligação entre o Coronel Isaías Arruda e Massilon, fundada em interesses mútuos:

a)      em junho de 1926, Massilon e José Gonçalves de Figueiredo mataram João Vieira, em uma emboscada cujo objetivo era eliminarem integrantes da família Paulino, inimigos figadais do Coronel Isaías Arruda. Isso significa que Massilon era da mais estrita confiança do Coronel[1];

b)      em maio de 1927, Massilon atacou Apodi, executando projeto do Coronel Isaías Arruda e seu sobrinho José Cardoso, a pedido de Décio Holanda, genro de Tylon Gurgel, chefe da oposição ao Coronel Chico Pinto naquela cidade.

O recrutamento de cangaceiros por Massilon, no intuito de invadir Mossoró, pode ser indiretamente comprovado: antes de Lampião chegar inesperadamente a Aurora, ele não sabia, mas o projeto de invadir Mossoró já existia. É o que se lê às folhas 30, da quarta edição de A Marcha de Lampião[2], Raul Fernandes, no item 2, do 1º Capítulo:

“Em dezembro de 1926, Joaquim Felício de Moura, sócio da firma Monte & Primo, em Mossoró, viajava pelo interior da Paraíba. Na cidade de Misericórdia, encontrou-se com o destacado comerciante e fazendeiro Antônio Pereira de Lima, que lhe falou da acirrada perseguição do bandido Virgulino Ferreira à sua família. Sem maiores rodeios, contou-lhe o plano de Jararaca, Sabino, Massilon e Lampião de assaltarem Mossoró com quatrocentos homens. Adiantou ser impossível reunirem tanta gente. Advertiu-o, porém, sobre o costume de mandarem espiões disfarçados de feirantes, mendigos e cantadores, aos lugares previamente escolhidos. Conversou sobre a possibilidade de defesa da cidade e pediu-lhe levar esses fatos ao conhecimento do Prefeito Rodolpho Fernandes.

Daí por diante os boatos se sucederam. Na última quinzena de abril, 27, a notícia veio à luz de modo concreto. Argemiro Liberato, de Pombal, escreveu ao compadre Rodolpho Fernandes sobre a pretensão do chefe dos bandidos. Dos remotos sertões de Pernambuco, da Paraíba e do Ceará surgiam indícios dos agenciadores da vergonhosa empreitada”.

Em “Notas” (p. 40) ao 1º Capítulo, Raul Fernandes observou:

“Afonso Freire de Andrade e inúmeras outras pessoas conheceram a carta. Mossoró (RN), 23.12.1971. – Informações prestadas ao autor.

Obs.: Ouvi de meu pai referências à missiva”[3].

Quanto a Argemiro Liberato, no meu Histórias de Cangaceiros e Coronéis[4] (p. 119), transcrevo artigo de Kydelmir Dantas, cofundador e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC), intitulado Cartas e Bilhetes Antes de Lampião, no qual se lê o que segue:

“Esta carta[5] foi levada ao conhecimento dos amigos de confiança do prefeito, por este, que estavam preparando a estratégia para a formação das trincheiras nos pontos principais da resistência. Dentre estes, Joaquim Felício de Moura, Afonso Freire de Andrade e outras pessoas mais chegadas confirmaram tê-la visto nas mãos do ‘coronel Rodolpho’.

Argemiro, com sua 2ª esposa, Maria Amorim Mafalda de Alencar, alertou (Reprodução BCS)

Para a família, dias após o ataque, Rodolpho Fernandes fez referências sobre esta missiva do amigo paraibano de Pombal.

Outra confirmação do envio desta carta está no artigo “Major Argemiro Liberato de Alencar: o amigo de Rodolpho Fernandes”, escrito pelo seu neto Geraldo Alves de Alencar, hoje residente em São Luiz do Maranhão, que cita o seguinte sobre o avô:  ‘Era fazendeiro, proprietário da Fazenda Estrelo, situada em sua cidade natal. Exercia também a profissão de comerciante, trazendo da Paraíba algodão transportado em costas de burros e vendido em Mossoró, estado do Rio Grande do Norte. O principal comprador era a firma cujo maior acionista era seu amigo e compadre o Cel. Rodolfo Fernandes.

Em suas viagens como almocreve retornava a Pombal com sal e outros gêneros. Mesmo tendo um sobrinho nas hostes do cangaço, o qual atendia pelo nome de Ulisses Liberato de Alencar, Argemiro era profundamente contra o banditismo rural, chegando inclusive a avisar ao Cel. Rodolfo Fernandes, quando este era prefeito de Mossoró em 1927, que o cangaceiro tencionava atacar a cidade considerada capital do oeste potiguar.

Declaradamente anti-Lampiônico, Argemiro Liberato de Alencar nunca chegou a ser perseguido pelo “rei do cangaço” porque Lampião sabia da amizade existente entre ele e o Padre Cícero.’

Evidentemente o aviso não era acerca de um futuro ataque de Lampião, mas, sim, de um futuro ataque de cangaceiros”.

Provavelmente Joaquim Felício estivesse errado quanto a José Leite de Santana, o Jararaca. Como nos assevera Frederico Pernambucano de Mello[6], a área de atuação do cangaceiro eram as ribeiras do Moxotó e Pajeú, em Pernambuco. E o próprio Jararaca, declarou, quando preso em Mossoró, além de outros cangaceiros, que Lampião nunca pensara em atacar a cidade[7].

Já Sabino Gomes de Góis, embora atuasse nos arredores do município de Cajazeiras, Paraíba, estava, naquele momento, integrado ao bando de Lampião, desde o ataque à Souza, no mesmo Estado, em 27 de julho de 1924, do qual não se separara até sua morte (dele), em fevereiro de 1928, após o conhecido tiroteio de Piçarra, em Porteiras, Ceará.

Ora, se Sabino tinha intenção de aventurar-se até Mossoró, é evidente que Lampião seria o primeiro a sabê-lo. Repita-se, entretanto: Lampião nunca teve a intenção de invadir o Rio Grande do Norte. Sequer sabia da existência desse projeto. Os escritos acerca da história da invasão de Mossoró são consensuais quanto a isso, a partir dos depoimentos de vários cangaceiros, dentre eles, Jararaca.

Capela de São Vicente simboliza o núcleo da resistência ao ataque do dia 13 de junho de 1927 (Foto: reprodução BCS)

Ainda a favor dessa hipótese, a de que o ataque foi idealizado bem antes de sua realização há, também, além da correspondência de Argemiro Liberato e do recado de Joaquim Felício, a notícia veiculada pelo “O Mossoroense” de 15 de maio de 1927, de que na invasão de Apodi, por Massilon, o projeto de invadir Mossoró já existia, insinuando, sem rodeios, que essa pretensão, a ocorrer em dias vindouros, integrava empreitada de grande vulto, e dele dera conhecimento, ao Coronel Rodolpho Fernandes, a carta de Argemiro Liberato.

Observe-se que essa edição de “O Mossoroense”, jornal dirigido por Rafael Fernandes, primo e correligionário do Coronel Rodolpho Fernandes, veio a lume cinco dias após a invasão de Apodi por Massilon.

Basta, então, darmos a devida importância à ligação entre essa matéria do jornal e a anterior correspondência de Argemiro Liberato encaminhada ao Prefeito, bem como ao recado de Joaquim Felício.

Muitas interrogações

Se assim o é, se de fato o Coronel Isaías Arruda e Massilon trabalharam juntos nessa empreitada antes da chegada de Lampião, desde, pelo menos, meados de 1926, se a ambos podemos atribuir todo o planejamento do projeto, a pergunta, agora passa a ser outra: foram eles que idealizaram (arquitetaram) o projeto da invasão a Mossoró?

É muito difícil acreditar que Massilon recrutasse cangaceiros e jagunços pelo Sertão, sem que disso soubesse o Coronel Isaías Arruda.

Outra questão: por que Mossoró? Por que não Cajazeiras, Souza, Patos ou Pombal, na Paraíba? Caicó, Currais Novos, São Miguel, Pau dos Ferros ou Martins, no Rio Grande do Norte, ou as cidades do Vale do Jaguaribe, no Ceará, se o objetivo fosse meramente arrancar dinheiro?

E se o objetivo era meramente arrancar dinheiro, por que o alvo do ataque foi a residência do Coronel Rodolpho Fernandes, e, não, a agência do Banco do Brasil ou o comércio da cidade?

Então, cabe perguntar: quem, na verdade, idealizou (arquitetou) o ataque a Mossoró?

Qualquer que seja a resposta, de tudo quanto se disse algo fica claro: o Coronel Isaías Arruda e Massilon foram os grandes responsáveis pela invasão de Mossoró. Principalmente Massilon, que planejou com o Coronel, e executou com Lampião.

Ele é o personagem principal desse drama épico, e somente é possível uma história de tudo quanto aconteceu, uma história que tenha causas e efeitos, e não apenas a descrição horizontal do acontecimento em si, se o investigarmos, bem como suas conexões com os coronéis da Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte, para os quais “jagunçou”, mas sempre como chefe de bando.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN


[1] Conforme Vida e Morte de Isaías Arruda; TAVARES CALIXTO JÚNIOR, João. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora; 2019.

[2] Natal: Editora Universitária, 1982.

[3] Raul Fernandes era filho do Coronel Rodolpho Fernandes.

[4] MEDEIROS, Honório de. Natal: Sebo Vermelho, 2015.

[5] A de Argemiro Liberato para o Coronel Rodolpho Fernandes.

[6] “GUERREIROS DO SOL”; 2a. edição; A Girafa; 2004; São Paulo, SP.

[7] No “Auto de Perguntas” feitas a Jararaca consta, também, a seguinte declaração sua: “que saíram em dias do mês de maio findo, do Pajeú, estado de Pernambuco, e que acompanhava Lampião há pouco mais de um ano”. Antes de Lampião, Jararaca, ainda segundo seu depoimento, estava no Primeiro Regimento de Cavalaria Divisionária, tomando parte na revolta de São Paulo a favor da legalidade, com a Coluna Potiguara (“LAMPIÃO EM MOSSORÓ”; NONATO, Raimundo; sexta edição; Coleção Mossoroense; 2005; Mossoró).

Cangaço na região Oeste do RN

Por Marcos Pinto

Em  15 de  Abril de  1925, com  o  seu  eleitorado  sofrendo  contínuas  ameaças  veladas,  chibateamentos  e  tropelias  praticadas  pelos  jagunços  de  Décio  Holanda  e seu  sogro  Tilon  Gurgel,  deliberou  o  Coronel  João Jázimo Pinto  ir  até Natal  para, em  audiência  com  o  governador  Dr.  José  Augusto  Bezerra  de  Medeiros, narrar-lhe  a  triste  situação de  apreensão   pela  qual  estava  padecendo a  grei  Apodiense, com  as  frequentes  incursões  da  jagunçada  comandada   pela  satânica  dupla,  na  cidade,  e  nos  sítios  pertencentes  aos  eleitores  da  sua  facção  política  pacifista.

Após  minuciosa  exposição  feita  pelo  Cel. Jázimo,  o governador  prontamente  enviou   para  a  cidade  de  Apodi  um  contingente  policial  formado  por  40  praças, comandada  pelo  respeitado  e  temido  Capitão  Jacinto Tavares  Ferreira, onde  ficou  aquartelada.

Casa de Quincas Saldanha (Foto: reprodução)

No dia  imediato  à  sua   chegada, o  Capitão  Jacinto  fez  uma  varredura  no prédio/sobrado  pertencente  ao Sr.  Martiniano  de  Queiroz  Porto (Natural do Ceará), truculento  capitalista  que  compunha  a  virulenta  facção política   oposicionista  comandada  por  Tilon  Gurgel, Sebastião  Paulo  Ferreira  Pinto, João  de  Deus  F. Pinto, Juvêncio  Barrêto,  e  os  irmãos  Benedito  Saldanha  e  Quincas  Saldanha.

Na  incursão  feita  à  residência  do  Martiniano, foram  encontradas  farta  munição e  30  fuzis, razão  pela  qual  despertara a  atenção  do  Capitão  Jacinto  para  a  possibilidade  de que  o  mesmo  estava  intentando  formar  milícia particular.  Martiniano  tinha  um jagunço  que  residiu  muitos  anos  com  ele  e  que atendia  pelo  nome  de  Júlio  Porto, que  em 1927  já  integrava o  bando  de  Lampião, quando  este  acoitou-se  na  fazenda  Bálsamo, no  Pereiro-CE, preparando-se  para  os   ataques  à  Apodi  e  Mossoró.

Há  quem  afirme  que  a  fazenda  “Bálsamo”  tinha  uma  parte  que  pertencia  a José  Cardoso.

Com  a  atuação  de  eficaz  comando  e  vigilância  do  Capitão  Jacinto, que  os  celerados  Benedito  e  Quinca  Saldanha  referiam-no   como sendo  “O Jacintão”,(Pela  estatura elevada) os  sicários  Juvêncio  Barrêto  e  Martiniano  Porto  mudaram-se  do  Apodi,(Final de Maio  de 1925). O  primeiro  voltou  para  Martins, de onde  era  natural,  e  o segundo fixou  residência  em  Pau  dos  Ferros-RN, onde  o  seu  genro  Dr. José  Vieira  era  o  Juiz  de  Direito  da  comarca.

Sentindo-se  coibidos  na  prática  contumaz  da  intimação, a  horda  virulenta  comissionou  a  Tilon  Gurgel  e  a Benedito  Saldanha  para  parlamentarem  com  o  governador, sob  a  falsa  alegativa  de  que  a  força  policial  estava  a  causar transtornos  na  região  do  Apodi, cuja  arguição  visava  retirar  a  força  policial  sediada  em  Apodi.

Quando  encontravam-se  em  audiência  com  o  governador, recebem  telegramas  informando-os  da  ocorrência  do  “Fogo de Pedra de Abelhas”. Na  manhã  do  dia  12  de  Maio  de  1925  a  tropa  policial  dirigiu-se  até  a  povoação  de “Pedra  de  Abelhas”, objetivando  efetuar  as  prisões  de  Décio, Tilon  Gurgel  e  toda  a  jagunçada.

Antes  da  força  policial  chegar  ao  seu  destino, já  Décio  e  Tilon  eram  sabedores  de  que  o  contingente  estava  vindo  aos  seus  encontros,  por  mensageiro  enviado  por  Martiniano  Porto  e  Sebastião  Paulo.

Massilon: com Lampião (Foto: reprodução)

Quando  Décio  Holanda preparava-se  para  debandar  com  seus ” cabras”, empreendendo  fuga rumo  ao Ceará, eis  que  surge  a  tropa  policial, travando-se  cerrado  tiroteio, no  lugar  “Barrocas  do  Boqueirão”, culminando  com  a   desesperada  fuga  da  jagunçada no  rumo  do  rio  Apodi,  situado  nas  imediações.

Na  ocasião  do  embate, morreu,  afogado, um  “cabra”  de  Tilon  Gurgel, de  nome  Mamédio  Belarmino  dos  Santos, da família  dos  “Caboclos”,  do  sítio  “Brejo  do  Apodi”. Após  este  entrevero bélico,  a  tropa  policial  retornou  ao  Apodi,  com  a  missão  de  retornar  no dia  seguinte, o que  não  se  efetivou  pela  informação  concreta  de  que  o  grupo  armado  do  Décio  se  homiziara  no Ceará.

Depois  desta  ocorrência coibitiva, a  paz  voltou  a  reinar  naqueles  rincões, mas, por  pouco  tempo, pois  em  10  de  Maio  de  1927  o  Tilon  Gurgel  arquitetou, via  Décio  Holanda,  o  ataque  de parte  do  grupo  de  Lampião ao  Apodi, comandado  por  Massilon, cujas  minudências  serão objeto  de  outro  artigo.

Marcos Pinto é advogado e escritor