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Exercício do atraso

Acompanho outro ramerrame da política potiguar, preliminar da campanha 2014. Observo que a engrenagem não muda. Não mudam os personagens.

Nada muda.

De algum modo, esse quadro me remete a outras sucessões. É triste percebermos que só falamos de nomes e siglas, composições e alianças que tratem da conquista do poder.

A partir de nós, da imprensa, nada é provocado para obrigar os personagens que compõem essa história à apresentação de algum esboço de ideias. Tudo é muito vago ou nem isso. Inexiste mesmo. Continuamos promovendo o exercício do atraso.

Empobrecemos como organização institucional, ou seja, a figura do Estado, mitigamos sobras como sociedade e estamos órfãos de lideranças com espírito público.

O Rio Grande do Norte rumina discursos com odor de naftalina e quase nada transpira confiança. Estamos no rabo-da-fila do progresso e do desenvolvimento humano.

Um estado rico, que continua empobrecido, com densa concentração de riqueza nas mãos de poucos, não consegue interiorizar o crescimento econômico-social.

Vivemos uma era perdida. São décadas de trevas.

Um período que não aproveitamos os ventos da bonança de uma conjuntura favorável.

O pior ainda pode estar por vir.

Nossa energia volta ao passado e freia futuro

Mal começou o dia e a oscilação de energia resulta em seu corte abrupto na região de minha casa, antecedido por barulho de uma explosão.

Precária manutenção de seus equipamentos deve levar Cosern a ser campeã de queixas num esperado inverno.

Volta aos tempos de estatal.

Ruim.

Meu hábito de manter computadores ligados de forma ininterrupta, como uma “geladeira”, precisa ser revisto em período como esse.

O temor é de enormes prejuízos e considerável burocracia administrativo-judicial, caso tente reparo de eventuais danos materiais etc.

Falamos em crescimento, numa “Mossoró do Futuro”, com gargalos consideráveis no setor energético, telefonia, Internet e mobilidade urbana.

Nem é bom falarmos em educação, saúde e segurança pública.

O conceito de desenvolvimento, que muitos falam e poucos compreendem ou sabem seus indicadores, não bate com a realidade mossoroense de hoje.

Fazer edifício ganhar corpo às nuvens, necessariamente não é sinônimo de desenvolvimento.

Caminhos de um novo modelo de vida para Mossoró

"Bolo" não para de crescer, mas cidade continua incapaz de discutir suas mazelas

A oposição em Mossoró praticamente não existe. É massa dispersa, time de amadores que se reúne na borda do campo faltando minutos para o jogo começar. Os Rosado comandam Mossoró desde 1948 porque exercem a política como profissão diuturna. São do ramo.

Até divididos, somam. Política é coisa muito séria. E eles transformaram esse ofício em ganha-pão, meio de vida.

Ninguém, de fora do sistema Rosado do A ou do B, tomará o “fascio” desse clã só com bla-bla-blá e  sobrenome diferente. Tem que ter foco e conteúdo, ousadia e capacidade de luta. É fundamental um trabalho de médio e longo prazos,  que podedar resultado mais rápido do que muitos imaginam.

Tem que cair, levantar, seguir em frente.

Em 2008, por exemplo, o vereador Renato Fernandes (PR) foi candidato a prefeito. Perdeu, sumiu. Aportou em Brasília, em seguida ancorou em Natal. Cadê a continuidade?

O PT de Mossoró, depois de décadas de combatividade, foi “arrendado” pela banda Rosado de Sandra Rosado (PSB). Hoje luta para eleger um vereador e olhe lá.

Os Rosado vivem momento de grande estresse político, mas sabem que sobram mesmo divididos. A luta fraticida, quase silenciosa, que eles vivem agora, é resultado do próprio esgotamento da fórmula oligárquica que cultuam há décadas, onde não cabem novidades fora do círculo consanguíneo.

A oposição é cooptada ou demolida. Não avança. Parece aquele sujeito que monta uma bodega e quer, em poucas semanas, ter a dimensão de um Carrefour. Aspira o poder em forma de aclamação, sem sangue, suor e lágrimas. Como uma benção divina.

Conservador

A discussão política em Mossoró é sempre em cima de nomes ou sobrenomes. Ninguém tem projeto para presente ou futuro do município. É fato. Os próprios Rosado se revelam assim. Há permanente empenho pelo poder e quase nenhuma ideia do coletivo.

Por sua natureza, o ser humano é conservador, não costuma dar passo adiante sem perscrutar bem o ambiente. Mossoró é conservadora. Com razão. Tem mantido os Rosado no poder porque quase nada diferenciado, consistente e confiável surgiu em décadas.

Qualquer projeto político em Mossoró, de força alternativa, precisa pensar Mossoró bem adiante, com foco e atuação continuada na sociedade. Levar em conta, por exemplo, que somente este ano e o próximo, a Prefeitura de Mossoro vai movimentar mais de R$ 1 bilhão. O Estado, comandado também por outra fatia do clã Rosado, terá em mãos mais de R$ 20 bi.

Não acho que devamos fazer campanha contra os Rosado. O trabalho é a favor de Mossoró, mudança de ordem, definição de outro modelo gestor e de política. Existem Rosado capazes, competentes, bem-intencionados e com espírito público, sim.

Mossoró transformou-se em centro acadêmico, a iniciativa privada muda sua face econômica, a intervenção pública tem hoje um efeito menor. Precisamos pelo menos eleger um prefeito que realmente exerça o cargo e não seja tutelado por irmão, esposa ou chefete político. O que temos há vários anos é o suprasumo do atraso.

São mais de 250 mil habitantes, população flutuante superior a 30 mil pessoas, quase 100 mil veículos automotivos; riquezas múltiplas, posição geopolítica estratégica, mas mesmo assim somos uma comuna refém do compadrio, do interesse espúrio, da ganância de predadores e da voracidade de gente que se acha iluminada.

Mossoró há anos que sequer tem um seminário para discutir seu modelo de crescimento econômico e sua pobreza de desenvolvimento humano. Faculdades e universidades fecham-se em copa, não conseguem chegar ao cidadão comum e abrem mão do estratégico poder da extensão acadêmica.

Discutir Mossoró é fundamental para entendê-la, compreender seu progresso econômico e atraso político; vocação à vassalagem e pobreza crítica. Mas discutir sem dogmatismo, ouvindo para ter direito à voz, falando para ser escutado.

Os que berram nada têm a dizer, porque só ouvem o que seus senhores determinam como certo ou errado.

Mossoró está aí, pronta para ser conquistada. E a tese de crescer o bolo, para dividi-lo, não cola mais. O bolo não para de crescer, mas da mesa farta de seus captores, só caem migalhas à grande maioria, além de “circo”.