Por Gaudêncio Torquato (Coluna Porandubas Políticas)
O PT passou a adotar o medo como alavanca de campanha. Dilma representa a garantia de que as conquistas do povo não serão tiradas. Os adversários, se chegarem ao poder, eliminarão os benefícios. Essa é a mensagem embutida no programa partidário e anúncios publicitários. Pois bem, vamos aos fatos : em 1989, Fernando Collor ganhou usando o medo. Se Lula vencer o Brasil será um inferno. Mário Amato, então presidente da Fiesp, prometia : 800 mil empresários irão embora do Brasil. Em 1994, Fernando Henrique ganhou o mandato com o conforto (e a esperança) do Plano Real. Em 1998, ganhou no primeiro turno com o discurso do medo, tendo a volta da inflação como motivação.

O medo – II
Em 2002, José Serra usou também o medo. A atriz Regina Duarte apareceu como porta-voz das trevas caso o PT ganhasse. Deu errado. “A esperança venceu o medo”. Lula chegava ao poder. Em 2006, Lula também se valeu do medo, desta feita contra Geraldo Alckmin, acusando-o de que, eleito, ele privatizaria a Petrobras, a CEF e o BB. Deu certo. Em 2010, Serra voltou a usar o medo, tentando mostrar a ligação do PT com Farcs (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, movimento com envolvimento no narcotráfico). Deu errado. Dilma ganhou com discurso da continuidade das políticas sociais de Lula. Hoje, o PT insiste no medo como alavanca de campanha. Dará certo ? Vejamos.
A teoria do medo – I
O medo não elege. Pode, sim, fazer parte do composto do discurso. Vejamos. Collor sinalizava a inovação na gestão. Era o novo, encarnava o espírito do tempo. O medo era apenas o pano de fundo da paisagem social. Fernando Henrique encarnou, por sua vez, a luta contra a inflação, era o artífice-mor do Plano Real. Foi eleito sob esse escudo duas vezes. Da mesma forma, Lula representou o contraponto à velha política. Era o ícone da dinâmica social. Comandou gigantesco programa social, tirando parcela da base da pirâmide social para o meio. E Dilma ganhou seu mandato sob essa engrenagem. A pergunta que agora se faz é : qual é a paisagem brasileira ? Como está o Produto Nacional Bruto da Felicidade ?
A teoria do medo – II
O que significa o medo como discurso de campanha ? 1. Ameaça de retorno do cidadão a uma situação pior do que a vivida por ele hoje ; ameaça de perdas de benefícios ; 2. Risco do país entrar numa era obscura, com volta da inflação e de ganhos obtidos pelas pessoas em diversas frentes. Lembremos que tais ameaças e riscos se manifestam ante os quatro impulsos do ser humano : a. o impulso combativo ; b. o impulso nutritivo ; c. o impulso sexual e d. o impulso paternal. Os dois primeiros impulsos estão ligados à conservação do indivíduo. A luta pela sobrevivência implica competitividade, oferta de emprego, dinheiro no bolso para cuidar das necessidades básicas do cidadão e de sua família. Nesse sentido, inflação, emprego, mais dinheiro no bolso, barriga cheia, harmonia social, segurança – são ingredientes do discurso eleitoral.
A teoria do medo – III
Ocorre que os programas sociais implantados pelo governo Lula e continuados no governo Dilma – que estão no foco dos impulsos acima mencionados – perderam muito sua capacidade de moeda eleitoral. O Bolsa Família já deu o que tinha de dar em matéria de voto. Pode cooptar as massas assistidas, mas grande parte delas considera que esse é um dever do Estado, a cargo de qualquer governante. Este é um fato que, possivelmente, o PT não tenha percebido. As manifestações de rua por todo o território abrem novos horizontes. Surgem no panorama os grupos do slogan : “queremos mais”. Saúde, educação, segurança, transportes. Coisas e equipamentos melhores e em maior quantidade.
A teoria do medo – IV
O medo só funciona quando as pessoas fazem a comparação : “estou no paraíso e poderei ser recambiado para o inferno”. Donde emerge a pergunta : estamos no paraíso ? As pessoas se sentem saudáveis, com saúde, com dinheiro no bolso, tendo fortes estruturas de segurança e meios de mobilidade urbana ? Se não estão vivenciando uma boa situação, o medo do amanhã arrisca a ser um bumerangue sobre a cabeça de quem patrocina o terror. Esta é a leitura que se deve fazer nesse momento sobre o medo. Incutir medo só dá certo quando o Produto Nacional Bruto da Felicidade for alto. A recíproca é verdadeira. Cuidado com o discurso do medo, senhores marqueteiros.
Nota do Blog Carlos Santos – Disse tudo, professor. Excelente exposição.
A estratégia não é nova ou artifício do PT. É recorrente. Serve a todas as ideologias em qualquer tempo ou conjuntura.
Quanto maior a ignorância da massa, mais fácil de a mensagem ser absorvida.