Arquivo da tag: El País

“A inovação destrói empregos com grande rapidez”

Por Tiziana Trotta (El País)

Numa das primeiras cenas do filme 2001 – Uma Odisseia no Espaço, um símio levanta um osso e o utiliza para bater em outro. Quando entende que pode usá-lo como ferramenta, coloca-se numa situação de vantagem.

“Essa inovação imediatamente cria desigualdade, pois faz com que um indivíduo seja mais forte que outro”, explica o economista Michele Boldrin.

O docente italiano, de 61 anos, que leciona no Departamento de Economia da Universidade Washington, St. Louis (Estados Unidos), visitou Madri no final de junho para participar de um fórum organizado pela Fundação Ramón Areces e o Centro de Estudos Monetários e Financeiros, onde falou de uma “hipótese sobre desigualdade que dá medo”.

É preciso que "os sistemas educativos possam formar estudantes mentalmente flexíveis", diz Boldrin (Foto: Fundación R. Aceres)

Por que essa hipótese dá medo?

A desigualdade é fruto da inovação. E como não há crescimento sem inovação, a desigualdade é um efeito secundário do crescimento econômico. Cada coisa que você inventa tende a dar vantagem a algumas pessoas e substituir outras, diminuindo a utilidade destas últimas do ponto de vista social. Uma vez iniciado o jogo, já não há retorno. Você inventa algo que transforma minhas habilidades em inúteis. Se tenho a capacidade cognitiva e legal para te imitar, posso recuperar, fazendo o mesmo e voltando a ser útil.

Esse mecanismo tem sido contínuo ao longo da história, mas hoje cada inovação origina uma perturbação muito forte, com um impacto social maior, assim como os custos de reajuste. Todos somos capazes de imitar o macaco que levanta o osso. Copiar o software de busca do Google, no entanto, é muito complicado.

Toda inovação determina um ganhador – o que a realiza –, quantas pessoas podem imitá-la e quem pode ser substituído. Cada vez são eliminados setores mais amplos da população, com mais conhecimentos. Dentro de alguns anos, por exemplo, os carros sem motorista já terão ampla presença no mercado. Nos EUA, pelo menos oito milhões de pessoas trabalham dirigindo algum tipo de veículo. Em pouco tempo, serão inúteis do ponto de vista econômico. A educação pode mudar alguma coisa, mas a rapidez na destruição do emprego é muito maior frente à velocidade para voltar a formar capital humano.

A imitação da inovação reduz a desigualdade e permite que os excluídos do mercado recuperem seu papel, embora com um produto de pior qualidade. Há um fator tecnológico segundo o qual o Google, por exemplo, mantém uma posição dominante: ele funciona melhor que os demais. Mas também existe um fator legal. A propriedade intelectual protege quem chega primeiro e impede a competição de quem tenta imitá-lo. Esses mecanismos são cruciais na geração de desigualdade e contribuem para formar super-riquezas, de maneira muito mais rápida, com menos riscos e menos investimentos em comparação com o passado. Esse fenômeno, contudo, pode ser atacado através da política.

“As farmacêuticas utilizam as patentes para manter o monopólio sobre alguns medicamentos”

Existem alternativas?

Até agora conseguimos seguir em frente. Existem diversas medidas que podem ser tomadas para minimizar o problema. Em primeiro lugar, reestruturar os sistemas educativos para que possam formar estudantes mentalmente flexíveis. A cultura clássica tornou-se um luxo neste mundo. Ler Horácio é muito bonito, mas para poucos. Posso saber tudo sobre a rainha Isabel, de Castela, mas isso não me permitirá sobreviver. Antes de falar a uma criança de seis anos das glórias ocorridas no Egito, tenho que ensiná-la a entender o mundo que a rodeia.

Uma vez que tenha conseguido seu lugar na sociedade, aí sim poderá se dedicar à leitura de Ovídio. Não se pode perder o tempo em que o cérebro está mais ativo, entre os 14 e os 19 anos, aprendendo declinações do latim. Isso é criminoso. Você não é útil para a sociedade se sabe tudo sobre De Bello Gallico [de Júlio César], mas não sabe produzir nada que os outros possam usar.

Em seu último livro, Against Intellectual Monopoly (contra o monopólio intelectual, em coautoria com David K. Levine), o senhor critica a existência de monopólios. Por que acha que o sistema não funciona, sobretudo no caso da indústria farmacêutica?

É preciso abolir os monopólios. Ponto. O caso das farmacêuticas é só um exemplo, um dramático monopólio criado pelo sistema de regulação do setor. A pesquisa tornou-se excessivamente cara e complicada. Pedir às indústrias farmacêuticas que sejam benfeitoras na África e que deem seus produtos de presente é uma estupidez, pois ninguém pede à Ferrari que faça muitas cópias de seus carros para distribuir. Existem doenças difíceis de curar e outras, talvez mais simples, embora raras. Ou seja: a pesquisa seria cara e os potenciais beneficiários, muito poucos. Os idosos também representam um problema na Europa.

São um coletivo muito amplo com poder aquisitivo, e os laboratórios produzem o que eles querem. Seu interesse é viver muitos anos, e seu consumo do serviço nacional de saúde disparou à custa de todos os contribuintes. As farmacêuticas, nesse contexto, podem utilizar as patentes para manter uma situação de monopólio sobre alguns medicamentos, obtendo enormes lucros em alguns mercados, como o norte-americano. Eliminando as patentes, solucionaríamos em parte esse problema.

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo  TwitteAQUIInstagram AQUIFacebook AQUIYoutube AQUI.

As emoções comandam e polarizam nossas redes sociais

Por Jaime Rubio Hancock (El País)

No Twitter (e nas demais redes sociais) têm mais sucesso as mensagens que apelam às nossas emoções. Um novo estudo mostra que não somente nos sentimos mais impulsionados a compartilhar esses tuítes, como além disso as palavras que se referem às emoções e à moral captam mais nossa atenção do que as neutras.

O trabalho dos psicólogos Ana P. Gantman, William J. Brady e Jay Van Bavel mostra que os termos que apelam ao que acreditamos que é bom ou ruim “são particularmente efetivos no momento de captar nossa atenção”. Isso, como escrevem em um artigo publicado na revista Scientific American, “pode ajudar a explicar a nova realidade política”.Na primeira experiência de seu trabalho, foram mostrados aos participantes tuítes fictícios com diferentes tipos de palavras usadas como hashtags: as referidas à moral (“crime”, “piedade”, “direito”), à emoção (“medo”, “amor”, “choro”) e às duas coisas ao mesmo tempo (“abuso”, “honra”, “despeito”) captavam mais atenção do que as neutras.

Além disso, também examinaram quase 50.000 tuítes reais sobre três assuntos: o controle de armas, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a mudança climática. Os mais compartilhados tendiam também a incluir termos emocionais e morais. De fato, e de acordo com outro estudo anterior dos mesmos autores, é pelo menos 20% mais provável compartilharmos um tuíte se contém uma palavra dessa classe.

Os autores alertam que esse não é o único motivo que explica o sucesso de uma publicação. Por exemplo, o fato de que está sendo muito compartilhada e já seja muito popular pode fazer com que seu sucesso aumente ainda mais.

É mais fácil se indignar

O papel das emoções nas redes sociais já era conhecido, ainda que isso não tenha evitado que sejam usadas para nos manipular (ou tentá-lo) com boatos, mensagens políticas extremamente partidarizadas e provocações.

Jonah Berger, professor da Universidade da Pensilvânia, explicou em seu livro Contagioso, de 2013, que as emoções que nos impulsionam em maior medida a compartilhar conteúdos na Internet estão ligadas ao espanto. Pode ser pela parte negativa, como a indignação por um fato reprovável que nos surpreende, como em sua vertente positiva, como o humor.

A neurocientista norte-americana M. J. Crockett revisou recentemente na revista Nature Human Behavior os últimos estudos sobre o assunto, lembrando que nas redes encontramos mais ações que nos parecem censuráveis do que em pessoa. Talvez um dia vejamos um vizinho que não recicla e constatamos com aborrecimento que o prefeito colocou outra rotatória caótica, mas nas redes podemos encontrar inúmeros erros e más ações de qualquer parte do mundo sem sequer sair do sofá.

Além disso, é mais fácil mostrar nossa indignação: não temos que discutir com nosso vizinho, nos manifestar nas ruas e escrever uma raivosa carta à diretoria do jornal, basta retuitar.

Os riscos da manipulação

Tudo isso não precisa ser negativo: a indignação pública também tem benefícios à sociedade, ao permitir que todos nós possamos castigar ou pelo menos recriminar comportamentos censurados pela maioria (como a corrupção), além de reforçar nossa adesão a uma causa e grupo social com o qual nos identificamos.

Mas tem riscos, como aponta Crockett. Pelo menos três: primeiro, a possibilidade de que nossa participação em movimentos cívicos e sociais seja menos significativa. Já não precisamos cooperar como voluntários e fazer doações, nos satisfazemos somente retuitando.

Segundo, também diminui o nível da indignação: como é fácil nos indignar, pode chegar um momento em que não distinguiremos entre as ofensas reais e as coisas que nos são somente desagradáveis. Para dar um exemplo próximo: é realmente tão indignante que uma conta anônima e quase sem seguidores do Twitter publique piadas ouvidas milhares de vezes sobre Carrero Blanco?

Terceiro, nossas opiniões tendem a se polarizar. As próprias redes permitem que nos agrupemos em câmaras de eco com audiências semelhantes. E, como escreve o psicólogo Jonathan Haidt em A Mente dos Justos, nos unimos a “equipes políticas que compartilham narrativas morais”. Ou seja, o famoso filtro bolha de Eli Pariser.

Por fim nos acostumamos a falar a um público com o qual concordamos, procurando principalmente “recompensas de reputação” ou, nas palavras de Berger, “divisa social”. Ou seja, queremos ganhar pontos com os nossos, não iniciar uma conversa.

Isso faz com que a troca de opiniões com pessoas que pensam diferente (e que simplesmente se enganaram) seja midiatizada (e caricaturizada) por outros membros do grupo. Como escreve o professor de Direito da Universidade Harvard Cass Susstein em seu livro #Republic, as conversas profundas que cruzam barreiras ideológicas são extremamente escassas nas redes sociais.

Consequentemente, corremos o risco de ver os outros como pessoas malvadas e estúpidas em vez de, simplesmente, como pessoas que opinam que há outra maneira de se fazer as coisas que não coincide com o que nós consideramos mais adequado.

Além disso, essas mecânicas nos fazem mais vulneráveis à manipulação: é fácil provocar uma onda de indignação com o objetivo de potencializar uma polarização que o político e o grupo da vez consideram benéfica aos seus interesses, como diz Susstein. De fato, é um dos motivos que ajudam a entender que Donald Trump dedique tanto tempo ao Twitter, diz o linguista George Lakoff. Soltar uma barbaridade nessa rede social o ajuda a marcar o debate: não importa que as mensagens sejam de apoio ou contrárias, seu objetivo é simplesmente pautar a agenda e o faz provocando a indignação e o confronto. Seu caso não é único, evidentemente.

Mas isso pode ser evitado?

O panorama parece desolador, mas os autores do estudo apontam algumas questões que dão um certo otimismo.

De entrada, ainda que se costume prestar atenção à indignação e à manipulação, pelo perigo que significam, somos movidos tanto pelas emoções negativas como pelas positivas. A experiência não oferecia somente etiquetas como “inimigo”, “ódio” e “vergonha”, e sim também “bom”, “herói” e “honra”. De fato, em seu artigo dão o exemplo real da difusão da hashtag #lovewins em 2015: o dia em que os Estados Unidos legalizaram o casamento homossexual em seus 50 Estados, a hashtag teve mais de 2,5 milhões de mensagens no Twitter.

Uma segunda questão é que entender como as emoções nos motivam (indignação incluída) pode nos ajudar a parar segundos antes de compartilhar e tuitar certos conteúdos.

Chris Wetherell, o programador do botão de retuitar no Twitter, introduzido em 2009, se manifestou de maneira semelhante. Recentemente falou sobre essa inovação, afirmando que “provavelmente demos uma arma carregada a uma criança de 4 anos. Antes era preciso escrever esse RT à mão, o que nos dava alguns segundos para refletir sobre o que iríamos compartilhar.

Em seu editorial da publicação de setembro a Scientific American sugere imaginar que ao lado do botão de retuitar há um botão de pausa. Clicar nele poderia nos servir para pensar se estamos respondendo a um tuíte que somente quer causar barulho, se vale a pena ler o artigo e não somente a manchete, e se só queremos ficar bem diante de nossos amigos e seguidores, demonstrando-lhes que, mais uma vez, somos os bonzinhos.

Precisamos imaginar esse botão porque o Twitter dificilmente o incorporará. Como disse a jornalista Delia Rodríguez, “se a essa altura as plataformas não desenvolveram redes menos nocivas é pela mesma razão pela qual as fábricas tabagistas não criaram cigarros de plantas medicinais. Vai contra a própria essência de seu negócio”. Quanto mais conteúdo publicarmos e compartilharmos, melhor para elas. Mesmo que nos custe uma úlcera.

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo  TwitteAQUIInstagram AQUIFacebook AQUIYoutube AQUI.

Os grandes malvados da história tem algo em comum

Por Lola Moróm (El País)

O que os grandes malvados da história têm em comum? Todos eram vaidosos e impuseram a sua verdade em nome de um bem maior.

filósofa alemã Hannah Arendt definiu o tão celebrado quanto criticado conceito de “banalidade do mal” em referência ao que observou durante o julgamento de Adolf Eichmann, realizado em Jerusalém, em 1961. Coronel da SS, o trabalho diário de Eichmann consistia em garantir o transporte das massas de judeus para a morte nos campos de concentração.

Arendt falou de um mal banal, sem sentido, devido à submissão cega de quem o havia exercido e à absoluta ausência de um critério próprio. Eichmann era um ser despojado de toda humanidade, porque o ser humano é dotado de capacidade reflexiva e voluntariedade. O seu era um mal sem intenção direta; um mal impessoal, submisso e irrefletido. Um mal diante do qual, segundo Arendt, “as palavras e o pensamento se sentem impotentes”.Quando nos deparamos com atos desapiedados tão difíceis de explicar, nos vemos tentados a considerar aqueles que os cometem como seres especiais, irracionais e doentes. Seres diferentes de nós, já que nós, afirmamos, teríamos sido capazes de desobedecer a uma ordem para escolher o bem. Não estamos interessados em pensar nesses indivíduos como pessoas “normais”. “Não, eles não podem ser como eu”, dizemos a modo de consolo.

Os atos banais, mas malignos, só podem ser cometidos em nome de alguém ou de algo sempre por “obediência devida”; isto é, porque um terceiro nos indica e inclusive nos obriga a fazê-lo. As críticas ao conceito da banalidade do mal afirmam que os autores desse tipo de crimes não são pessoas obedientes, mas seres absolutamente cruéis —desse modo voltamos a nos excluir como vulneráveis, pois sabemos que não somos cruéis— que têm a habilidade de oferecer um argumento que justifique seus atos.

Sem nos determos para avaliar a pertinência do conceito, é verdade que não é aplicável a todo ato malvado. Quando o mal é exercido em nome de si mesmo, quando alguém é inteiramente uma pessoa física e psíquica, quando sou eu e não outro quem empreende de forma direta o ato malvado, este não é banal. A maldade individual nunca é banal. É um ato de soberba, um ato de vaidade. A natureza do homem, sua humanidade, não reside no bem nem no mal. O que nos torna humanos é a capacidade, a possibilidade e o dever de resolver o conflito que existe entre ambos.

Quando agimos, tomamos uma decisão. Se diante de nós se abre a possibilidade de escolher entre um ato bom e um mau, estamos diante de um conflito de valores. Para resolver o dilema, estabelecemos uma série de critérios de acordo com nossos próprios valores e com a forma como consideramos os valores do outro. Quando eu imponho meu benefício ao de outra pessoa, isso é egoísmo, outra forma de vaidade. Quando o único benefício que obtenho é provar minha teoria, é pura vaidade.

O estuprador que, frente à liberdade sexual de uma mulher e o dano físico e psíquico que lhe inflige —com seu rastro  inquebrantável— escolhe a possessão e seu próprio prazer é cruel e é vaidoso. Quando escolhemos ter mil retuítes diante do direito à honra e à dor que causamos a uma pessoa ou a um grupo, estamos sendo vaidosos em nossa maledicência. O mal é vaidoso.

Hitler era vaidoso, como vaidosos são todos os grandes malvados da história. Na ficção, Thanos, o supervilão de Vingadores: Guerra Infinita, acaba com metade do universo vivo, caótico e hiperpovoado, pelo bem do próprio universo. Mais repercussão teve a decisão final de Daenerys Targaryen, na famosa série Game of Thrones, quando se dispõe a arrasar todas as aldeias para começar de novo sobre as bases do que para ela é aceitável, conveniente e tolerável, erigindo-se em luminar da verdade e impondo-a em nome de um bem maior. Isso é vaidade.

O supremacismo é vaidade. Matar ou governar pela graça de Deus é vaidade. Existe maior vaidade do que se arrogar o papel de ferramenta divina? Matar ou governar com a exoneração de culpa castrista —“A história me absolverá”— é vaidade.

No curso da história, a tendência foi minimizar e tentar eliminar os atos que hoje consideramos inaceitáveis. Há pouco mais de um século, bater-se em duelo não era apenas legal, mas obrigatório. Dar morte a uma pessoa para resolver uma ofensa.

A honra como valor estava acima da vida como valor. Antes dos duelos, o forte se limitava a executar aquele que o ofendia, sem oferecer-lhe sequer a possibilidade de se defender, sem jogar nesse mesmo ato sua própria vida para limpar sua honra. Isso faz parte da evolução moral do coletivo: se honra e vida são valores comparáveis, ao menos que a parte ofendida esteja disposta a arriscar também a sua. E um passo adiante está a proibição de que duas pessoas possam arriscar suas vidas por honra. Quem mata é um assassino, não um duelista.

A vida se torna o valor mais precioso. Nada justifica o assassinato. Nada.

Isso não significa que sejamos melhores ou piores do que os homens das cavernas, significa apenas que nos adaptamos a sistemas de conduta que respondem a uma aprendizagem trans-histórica. As sociedades que prosperam são aquelas regidas por sistemas de conduta mais benéficos para a evolução.

Lola Morím é psicanalista e especialista em neuropsiquiatria

Internet não pode ser vista como uma ameaça para a imprensa

Por Jordi Pérez (El País)

O professor Jeff Jarvis tem um dos trabalhos mais infelizes do mundo: guru do futuro do jornalismo. A longa crise do ofício resiste por enquanto a todos os tipos de profecias. Mas Jarvis, professor da City University de Nova York, continua sugerindo novas ideias apesar de previsões erradas anteriores. Seu entusiasmo é contagiante: a Internet mudou tudo, mas continua existindo demanda de informação.

Continuamos em uma transição que talvez dure mais uma década. Nos Estados Unidos, com mais de 3.000 demissões, esse ano ruma para ser o pior para jornalistas em uma década: e isso porque entre 2009 e 2017 as redações norte-americanas já perderam 23% de seus repórteres. Jarvis, pelo visto, acha que deve ser mais radical.

Falou com o EL PAÍS em sua passagem por Madri para o encontro da Associação Internacional de Pesquisa de Imprensa e Comunicação (IAMCR na sigla em inglês), realizado na Faculdade de Ciências da Informação da Universidade Complutense de Madri.

O professor Jeff Jarvis em entrevista ao El País em Madrid tenta enxergar um futuro ainda muito confuso (Foto Carlos Rosillo)

Pergunta. O senhor está há mais de 10 anos tentando adivinhar como será o jornalismo do futuro.

Resposta. Não fui bem-sucedido.

P. Nesses 10 anos ocorreram histórias de sucesso: New York TimesWashington PostGuardian. Mas jornais menores e países e regiões com audiências menores continuam sofrendo.

R. Isso acontece por serem negócios fantásticos. Em muitas cidades dos Estados unidos eram monopólios. Existiam jornais que no ano 2000 ganhavam 40 milhões de dólares (150 milhões de reais) somente com anúncios classificados. E puf, tudo desapareceu. É muito difícil se desmembrar e se recompor. É difícil abandonar algo que deseja que continue sempre assim.

P. Há anos o senhor tenta encontrar soluções que desmoronam.

R. Posso ser um farsante. Não defendo que eu tenha razão.

P. O jornalismo empreendedor, por exemplo.

R. Sim, acreditava que os blogues superlocais seriam um pilar do ecossistema do futuro. Mas é muito difícil e arriscado. Os jornalistas não querem vender e tocar um negócio. Eu me enganei. Não é um pilar. Também existem coisas interessantes em jornalismo sem fins lucrativos: Texas TribuneThe City em Nova York, Propublica. É excitante, mas não há financiamento suficiente para resolver todo o problema.

P. A solução é um mistério, mas e o problema?

R. A evidência é clara: precisamos mudar. Há muitas oportunidades. Enquanto enxergarmos a Internet como uma ameaça, ficaremos incomodados. Se olharmos a Internet como a base para mudar nossa relação com o público, há base para algo. Na verdade, acho que não fui radical o bastante.

P. Mas sem dúvida é o mais radical.

R. Não fui radical o suficiente com o futuro. Agora penso assim: precisamos repensar para que serve o jornalismo em uma sociedade, começar a enfrentar os problemas e aprender com outras disciplinas. Se estamos muito polarizados e as comunidades não se entendem entre si, é preciso construir pontes. Temos também que aprender com os antropólogos e perguntar a eles como entender uma comunidade, como escutá-la, como conseguir evidência, como se conectar. Há também uma crise de Inteligência: como é possível que 40% dos americanos achem que Donald Trump vale a pena? Precisamos olhar a neurociência. O que diz a ciência sobre o fato das pessoas se enganarem sobre seus melhores interesses?

P. O senhor usa uma metáfora sobre uma casa em chamas. Enquanto ela queima, a indústria deve construir uma nova moradia diferente em outro lugar. Mas não é mais correto dizer que estamos reconstruindo a mesma casa enquanto queima?

R. Sim. As empresas continuam dependendo do volume: os anúncios do papel, os cliques, a publicidade programática online. Estão fechadas em um ciclo. Não podem reconstruir a casa em chamas e ao mesmo tempo criar mais chamas.

P. É difícil se libertar?

R. Olhamos o Google e o Facebook, vemos seu alcance e queremos ser como eles. Continuamos no negócio das massas. É um problema fundamental. Temos que aprender a personalizar, temos que aprender valor. Devemos repensar nossa economia ao redor da variável usuário valioso. O Telegraph optou por um muro de pagamento (pay wall), o Guardian por ter membros, mas os dois passaram por um processo de redução do conteúdo. Antes só produziam páginas visualizadas.

P. O problema é onde cortar.

R. Um, deixe de copiar os outros. Seja único. Não faça notícias baratas, comuns. Algumas devem ser feitas, mas não gaste dinheiro nisso. Dois, procure valor. O que é valioso na vida das pessoas? O que posso fazer que elas realmente irão usar? Isso inclui jornalismo investigativo, inclui agir como vigilantes do poder. Mas não falo de oferecer somente jornalismo. Tenho uma posição única no mercado. Um jornal de Seattle está premiando os jornalistas pela quantidade de assinaturas que conseguirem com seus artigos. Também não irá funcionar. Porque, primeiro, acontece só uma vez. Segundo, é mais uma métrica, mas há algo que cause retenção? Precisamos de novas métricas sobre valor. É necessário inventar algo novo.

P. O negócio do jornalismo era o conteúdo.

R. Já não pode ser a única recompensa. É preciso oferecer acesso a membros de uma comunidade, a contatos com jornalistas, a eventos, descontos, educação.

P. É fácil imaginar jornalistas lendo isso e pensando ‘que complicado’.

R. Sim. Mas com um muro de pagamento você limita as conversas, separa seus leitores. Os que gostarem muito de você, pagarão. Mas limita sua influência.

P. Os muros de pagamento não são uma salvação?

R. Estamos enganados se acreditamos que são a salvação. Sempre esperamos o próximo messias: tablets, publicidade programática, muros de pagamento. Acabo de ver um estudo do Instituto Reuters de Oxford e descobriram que a metade dos pagamentos de assinaturas digitais vai para três marcas: New York TimesWashington PostWall Street Journal. De modo que se você é o Cleveland Plain Dealer seguir adiante é um desafio: não tem a mesma audiência e alcance, a mesma conversa leitor-assinante, não pode cobrar o mesmo, irá perder mais assinantes porque não é tão valioso. Os muros não irão salvá-lo.

P. Algumas marcas irão se salvar.

R. Trabalho com o Guardian, que optou por não erguer um muro para que seu jornalismo estivesse disponível para todos, com o que concordo. Trabalho com eles em seu programa de membros. Imediatamente percebemos que não se tratava de membros, e sim de mendigar. E pedir esmola funciona.

P. Funciona nos Estados Unidos e no Reino Unido.

R. Funciona nos Estados Unidos e um pouco menos no Reino Unido. Há oportunidades para que uma empresa de comunicação obtenha dinheiro do consumidor. Isso não significa necessariamente um muro. Muita gente dá dinheiro ao Guardian e não entra regularmente, mas está preocupada pelo meio ambiente. Por que o Guardian não cria um movimento ambiental? Têm uma oportunidade de comunidade: não pertencer ao Guardian e sim ao clube. É preciso procurar novas afinidades. As pessoas estão aí não só porque gostam de nossa marca. Sei que é difícil.

P. A reputação da imprensa é baixa. Talvez o jornalismo precise deixar de ser feito por alguém chamado jornalista?

R. Temos um papel diferente. Já não se trata somente de produzir conteúdo. É preciso pensar o que fazer com a sociedade. Meu conselho é ter coragem e testar novas ideias malucas.

P. Qual é sua opção agora?

R. Uma estratégia baseada na relação com comunidades. Precisamos ampliar a definição de comunidade. Quando pergunto aos meus alunos de jornalismo social em Nova York de quais comunidades são membros, começam com obviedades: moro no Queens, sou estudante. Então alguém na classe diz: ‘Tenho problemas de saúde mental’. Bum, a discussão muda. Há outro que diz o mesmo e, de repente, há uma conexão. É uma pequena comunidade. Temos que ampliar o conceito de comunidade além do óbvio da geografia e da demografia. Uma comunidade não são os millenials, e sim os proprietários de gatos e pais jovens. Não existem muitas notícias sobre cocô de bebê e fraldas, mas por que não podemos oferecer-lhes um mapa de sua cidade acessível aos carrinhos?

P. Mas isso ganha relevância? Serve para grandes redações?

R. Sempre ouço que não. Vamos trabalhar com diabéticos em Madri. Vamos fazer bem feito. Aprendendo a fazê-lo, poderemos repetir para muitas outras comunidades. Não acho que tenha sido feito em jornais. Quero ver.

P. Pode ser outra invenção fracassada.

R. Claro. Continua sem estar demonstrado. Há uma pequena empresa, a Spaceship Media, que por enquanto funciona em algumas cidades. Pode crescer? Talvez.

P. Alguns veículos de comunicação podem pensar que lhes resta a opção de pedir dinheiro a pessoas poderosas?

R. E que recebam o dinheiro e ouçam: se comportem. Não é o que aconteceu nos últimos 15 anos em tantos países da Europa? É algo que prejudica sua reputação. Por desespero vão à fonte do dinheiro. Também acontece com os jornais locais nos Estados Unidos. É um assunto de relevância.

P. Não parece bom.

R. É complicado. Sempre uso a invenção de Gutemberg. Ele introduziu a imprensa em 1450. Mas o primeiro jornal é de 1605. Algo que agora vemos como óbvio levou um século e meio. E os primeiros jornais fracassaram porque não tinham modelo de negócio. De modo que agora estamos como em 1475. Nos primeiros dias. O caso do Guardian é fascinante. Tinham um bilhão de dólares (4 bilhões de reais) no banco, estavam tranquilos até que lhes disseram: nesse ritmo de gasto irão durar oito anos. Isso lhes motivou. Agora não perdem dinheiro, mas continuam sofrendo. Ficaram motivados ao ver uma data de morte certa.

P. Mas continuam sofrendo.

R. Sempre. Mas só precisam sobreviver.

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo  TwitteAQUIInstagram AQUIFacebook AQUIYoutube AQUI.

A realidade e a invenção no mundo de García Márquez

Por Jesús Ruiz Mantilla (El País)

Quando Gabito era pequeno, doña Luisa e don Gabriel se preocupavam que o menino piscasse tanto. Seu pai chegou a lhe pingar um colírio homeopático, mas de pouco serviu. Anos depois, quando aquele tique parecia desaparecido, sua mãe se atreveu a lhe perguntar: “Ele me disse que fazia assim para ver as coisas melhor”, contou ela.

“Para recordar…”, observou Gabriel García Márquez a quem o trouxe ao mundo em Aracataca (Colômbia), durante uma das visitas que lhe fez Gustavo Tatis Guerra, jornalista, escritor, amigo da família e autor do livro La Flor Amarilla del Prestidigitador.

O escritor Gabriel García Márquez durante uma entrevista em 1990 (Foto: Raúl Cancio)

Tatis apresenta sua obra nesta quinta-feira na Casa da América de Madri, junto com Dasso Saldivar, autor do prólogo, e Juan Cruz, um dia depois de a Netflix anunciar que produzirá uma série baseada em Cem Anos de Solidão.

Em suas páginas, o autor esmiúça segredos de família e chaves ocultas da obra de Gabo: todo um constante malabarismo entre realidade e invenção a serviço do autor, para criar um dos mundos literários mais ricos da literatura universal.

As testemunhas de tudo aquilo, seus pais, costumavam despir o imaginário de García Márquez com um jorro de realidade que colocava a magia em seu devido lugar.

Algo que, por outro lado, engrandece sua genialidade criatividade sobre bases muito firmes. “Era o maior embusteiro do mundo”, confessou don Gabriel Eligio García Martínez a Tatis. “Tinha uma capacidade de inventar além da realidade que via. Sempre disse que tinha dois cérebros. Ninguém me tira da cabeça que Gabito é bicéfalo”, confessou-lhe o pai ao autor do ensaio. Também ele uniu seu ofício de telegrafista ao de escritor. “Sempre sentiu certa concorrência do filho por causa disso”, comenta Tatis.

O mundo de Gabito

Ao menos o pai do Nobel de Literatura de 1982 pôde comprovar sobre as obras de seu filho a escala de sua transmutação. Esse mecanismo que o levava da realidade à invenção de uma mentira, e que por sua vez refletia uma grande verdade. “Nada do que García Márquez conta em seus romances é falso, tudo foi tirado daquele mundo”, diz Tatis.

Don Gabriel leu seus livros com atenção. Não foi o caso da mãe, que se orgulhava mais de ter em casa uma filha freira que um rebento ganhador do Nobel. Dentro de seu insuperável ceticismo, tentou tirar um único proveito da honraria dada ao filho: que finalmente arrumassem o telefone da sua casa. Seu mantra foi minimizar a importância. Assim, Luisa Márquez repelia as entrevistas, entre outras coisas, porque os repórteres que compareciam à sua casa costumavam saber mais que quem devia responder.

Mas com Tatis tudo foi diferente. Tratavam-no como alguém da família, alguém que ficava por lá ouvindo histórias até a hora do jantar. Uma delas foi do germe de Remédios, a bela, personagem de Cem Anos de Solidão que se elevava ao céu.

Baseia-se, segundo a mãe, em uma criada do mesmo nome que fugiu com seu amante. Quando um dia perguntaram a dona Luisa o que tinha acontecido com ela, respondeu: “Foi embora voando”. E Gabito, presente, associou os termos até transformar a explicação em literatura. Dona Luisa se vangloriava de não ter lido o romance porque já tinha vivido tudo aquilo. Tampouco se interessou por Crônica de Uma Morte Anunciada, mas isso por uma razão diametralmente oposta: “Porque aquela eu sofri”.

As razões de Luisa talvez incomodassem seu filho. Mas, como ele havia descrito Úrsula segundo seus parâmetros, como uma mulher mais que submissa a Deus, com atitude de combate contra ele, deve ter entendido. Com as histórias que pegava no ar, García Márquez começou a construir seus métodos característicos: “A chave está em saber atarraxar as mentiras”, confessou o escritor a Tatis Guerra.

“Tinha uma capacidade de inventar além da realidade que via. Sempre disse que tinha dois cérebros. Ninguém me tira da cabeça que Gabito é bicéfalo.”

GABRIEL ELIGIO MÁRQUEZ, PAI DE GABO

O mesmo havia ocorrido com Melquiades. Era o retrato vivo de seu avô, o coronel Nicolás Márquez, militar entre alquimista e curandeiro, aficionado a desenhar peixes coloridos em sua oficina e a fundar povoados. Melquiades tem duas bases: “Seu avô e Nostradamus”, comenta Tatis. “Contou-me isso em 1992 durante a primeira entrevista que fiz com ele”, acrescenta.

Conheceram-se antes que desse a volta ao mundo com seu prêmio em Estocolmo. Mas depois chegaram várias outras conversas que completaram aquele primeiro encontro. “Dei o suficiente a você para um livro”, comentou o escritor ao amigo.

Uma obra que Tatis vinha escrevendo desde que o conheceu. Agora sai publicada. Isso é La Flor Amarilla del Prestidigitador. O retrato de um homem que soube tirar partido do seu gênio natural de romancista entre o impulso poético e a precisão do jornalista.

Um mentiroso eminente que ao receber a notícia de que ganhara o Nobel não teve vergonha de exclamar: “Merda, eles acreditaram!”.

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo  TwitteAQUIInstagram AQUIFacebook AQUIYoutube AQUI.

Município do Piauí quer ser a Finlândia brasileira em Educação

Por Regiane Oliveira (Do El País, Brasil)

O dia amanhece “bonito pra chover” no inverno de Oeiras. Na cidade do sertão do Piauí, dezembro é um alívio ao temível be-erre-ó-bró, como é popularmente conhecida a temporada de calor intenso, superior a 40 °C, dos meses terminados em b-r-o. As chuvas que esverdeiam a paisagem trazem diferentes desafios para quem trabalha com educação no município de 37.000 habitantes. Se o ar condicionado, ou a falta dele, já não preocupa tanto, é a frequência das crianças às aulas que toma o protagonismo. Quando o rio Corrente transborda, alunos da área rural ficam isolados.

Na cidade, muitos pais decidem que o aguaceiro é justificativa para poder faltar. E dá-lhe a direção das escolas ligar ou bater nas portas para cobrar presença. “Se chuva fosse desculpa, em São Paulo não haveria aula”, argumentam.

Tiana, secretária de Educação, em visita à Escola Municipal Agrotécnica, na área rural de Oeiras (Foto: Reginaldo Rodrigues)

Problemas da educação de um Brasil real passam todos os dias pelo divã de Tiana Tapety, como a secretária de educação de Oeiras chama seu período de atendimento das 7h as 13h. Sobre sua mesa, nenhum computador. Pastas e livros dividem o espaço com uma pequena imagem de Jesus, que assiste ao entra e sai de funcionários, pais e professores, e às discussões sobre estratégias para driblar recursos escassos, problemas sociais de todo tipo, o excesso de calor e, quem poderia imaginar, até mesmo os transtornos causados pela tão esperada queda da temperatura, como a chuva de besouros bufão.

Oeiras é hoje uma cidade que respira educação. Enquanto em Brasília se discutia o Escola sem Partido, projeto que visa proibir posicionamento ideológico ou político na sala de aula —arquivado recentemente na Câmara—, o foco da primeira capital do Piauí era garantir equidade nas escolas rurais, crianças 100% alfabetizadas, cultivo do gosto pela leitura e abordagem individual do ensino.

É assim desde 2013, quando Tapety assumiu a Secretaria Municipal de Educação (SEMED), que atende a 6.200 crianças no ensino fundamental (da educação infantil ao 9º ano), e que em 2017, conseguiu atingir 7,1 no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) no 5ª ano.

O indicador, que varia de 0 a 10, é calculado a partir dos dados sobre aprovação escolar e médias da Prova Brasil, que avalia o conhecimento em língua portuguesa, com foco em leitura, e em matemática, voltado para a resolução de problemas. Oeiras superou a meta proposta pelo Inep para 2021, quando, espera-se, todo o Brasil deve alcançar a nota 6,0 —o que corresponderá a um sistema educacional com o mínimo de qualidade para arriscar uma comparação com alguns países desenvolvidos. Em 2017, a média do país ficou em 5,8 nos anos iniciais.

À primeira vista, o salto de Oeiras na educação até parece conto de vendedor, mas não é preciso mais do que meia hora de conversa com educadores e alunos para saber que o olhar da cidade está muito mais para Finlândia, que tem um dos melhores sistemas de educação do mundo, do que para Brasília. As metas pouco ambiciosas do INEP, assim como os temas que distraem o debate sobre educação não parecem interessar. ‘Kit gay’? “Não existe”, afirma Tapety. Escola sem partido? “Coisa de quem quer censurar a sala de aula, negar a criticidade”, resume a secretária, sem dar muito assunto.

Tapety tem clara qual é a sua prioridade: “Oferecer condições para que os estudantes disputem em pé de igualdade e possam se sobressair”. O 10 no IDEB é desejável, mas a prova não é prioridade. Há outros benefícios na evolução da educação além do destaque em avaliações. O resgate da credibilidade da escola e a melhoria da autoestima da população, por exemplo. “Você é de São Paulo?”, pergunta Washington Luís Santos, diretor da escola de educação infantil Girassol. “Temos recebido muitas crianças de lá sem saber ler”, comenta o diretor com um tom de decepção, mas sem esconder o orgulho de quem pode se comparar com a rica metrópole do Sudeste.

Nem sempre foi assim. A extrema vulnerabilidade econômica tornou o Piauí um dos principais polos exportadores de mão de obra escrava do país. A baixa qualificação dos trabalhadores locais, muitos analfabetos, aliada à pouca oportunidade de emprego, até hoje atrai aliciadores de fazendeiros e empreiteiros da construção em busca de mão de obra barata.

Ser reconhecido pela excelência da educação e se tornar um exportador de cérebros será uma mudança de paradigma. “Agora as escolas particulares ligam para oferecer ajuda aos meninos, como se eles já tivessem vindo prontos”, conta Tapety, que ainda não sabe como lidar com o assédio sobre os estudantes que ganharam 18 premiações na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), sendo uma medalha de ouro, duas de prata e quatro de bronze.

Qualidade pública fecha escolas privadas

O esquema é conhecido. Escolas particulares de todo o país caçam na rede públicas alunos de excelência para alavancar seus resultados nas avaliações governamentais. Talvez não saibam que o menino de ouro da rede, Igor Gabriel Oliveira da Silva, de 12 anos, ganhador da medalha de ouro da OBMEP 2018, estuda na Escola Juarez Tapety, até pouco tempo atrás chamada de Carandiru, uma homenagem pouco honrosa à penitenciária de São Paulo, com quem compartilhava um histórico de violência, indisciplina e a incapacidade de educar (ou reabilitar) alguém.

A mudança na escola é recente e foi sentida pelos alunos. “Minha impressão não foi das melhores quando mudei para cá”, conta o estudante Pedro Campos, de 14 anos, sobre sua chegada ao Juarez Tapety. A maior escola da rede atende 735 alunos do 6° ao 9° ano. “Vim de uma instituição particular pequena, era muito tímido”, conta. Hoje quem conversa com Pedro já não nota a timidez. “Infelizmente vou ter que sair [da escola]”, lamenta, já a caminho do ensino médio.

O céu "bonito pra chover" é focalizado da Igreja Matriz, no centro de Oeiras no estado do Piauí (Foto: Reginaldo Rodrigues)

A rede municipal de Oeiras ganhou a fama de fechadora de escolas particulares, após três unidades deixarem de existir desde 2013. A educação pública forte e gratuita virou concorrência direta. Tiana não parece se importar com as críticas. “Há oportunidade ainda no mercado de ensino médio”, avalia, com a experiência de quem já atuou na iniciativa privada.

O ensino médio, aliás, é o grande calcanhar de Aquiles da cidade, e onde Tapety encontra um descasamento com o esforço para virar o jogo da educação. A rede municipal vai mandar neste ano mais de 1.000 alunos para a rede estadual, que é responsável no pacto federativo pelos últimos anos do ensino básico. O desempenho da rede do Estado, no entanto, fica muito aquém dos resultados do fundamental. As escolas estaduais presentes em Oeiras tiveram uma média de 3,7 no IDEB, em 2017, um pouco abaixo da média brasileira, de 3,8.

Quando perguntada sobre o plano para os alunos da cidade, a Secretaria de Estado da Educação (Seduc) enviou uma nota sobre o ensino médio “inovador” da região, cujos “excelentes resultados refletem os esforços de toda a rede na execução de programas e projetos que garantam ao estudante um ensino público de qualidade”.

Vale ressaltar que a crise do ensino médio, bem como a falta de autocrítica dos Governos que tentam vender excelência onde não existe, não é uma particularidade do Piauí e seus 3,3 no IDEB. São Paulo (3,8), Minas Gerais (3,6), Rio Grande do Sul (3,4), Rio de Janeiro (3,3) também amargam resultados ruins. O prêmio “melhores entre os piores”  fica apenas com Goiás (4,3), Espírito Santo (4,1) e Pernambuco (4,0). Ainda assim, nada a celebrar.

Se dependesse só de Tiana Tapety, o ensino médio seria municipalizado —ideia defendida em publicações pelo futuro ministro da educação, Ricardo Vélez Rodríguez, mas longe de ser algo além de um sonho, uma vez que a grande maioria das cidades não demonstram, pelos resultados em suas próprias redes, terem condições de assumir mais responsabilidade. Além do mais, há sempre a questão financeira: o número de alunos da rede é que garante os vultosos valores recebidos do Governo Federal.

Várias “ações positivas” estão em andamento na esfera estadual, como programas para combater o abandono e evasão escolar, formação de professores e incentivo ao aprendizado de matemática. Mas nada que anime os pais dos alunos, que agora pedem que a Prefeitura assuma as classes de ensino médio.

Rivalidade entre famílias e união improvável

O princípio de revolução em Oeiras começou de uma parceria improvável entre Tiana Tapety e o prefeito Lukano Sá (PP), eleito em 2011. Improvável porque em Oeiras o fenômeno de polarização que assustou no Brasil nas últimas eleições é histórico, e não entre dois partidos ou ideologias políticas, mas entre duas famílias: a Sá e a Tapety. O roteiro de novela é conhecido. As famílias dividem o poder político e as paixões há mais tempo do que as pessoas conseguem se lembrar. O resultado são embates violentos, boicotes, aparelhamento do município em função de oligarquias, que, como na acepção na palavra no grego, fazem um “governo de poucos”, para poucos.

A Tapety da educação jura que nunca votou em ninguém com seu sobrenome. Ela é da parte mais descolada da família tradicional —seu avô, Sebastião, é filho de uma relação extraconjugal do patriarca Antônio Tapety. Mesmo assim o acordo simbólico entre os sobrenomes em prol da educação chama atenção.

Em 2013, quando chegou à secretaria, Tiana Tapety tinha 15 anos de trabalho na rede pública e privada, inclusive a experiência de abrir uma escola de pré-vestibular e uma escola de 6ª ao 3º ano, com princípio de fomentar a educação pela liberdade de pensamento, aproveitando as potencialidades artísticas, sobretudo as locais, para que elas não se perdessem. Ex-petista —foi filiada ao partido até 2011, quando saiu “extremamente frustrada”—, acredita que a educação tem um senso de justiça a atender.

“O PT tentou romper as oligarquias e despontar uma terceira via, mas não conseguiu e acabou fazendo conchavo, ora com uma família, ora com outra”, conta. Hoje não congrega em nenhum partido político. “Defendo a administração pública, seja lá que partido for. Minha ideologia é o saber”, afirma.

Tapety foi para o Governo com a promessa de que Cultura e Educação não seriam loteadas como secretarias de indicação política. A prefeitura vinha de um governo tampão, após cassação de Benedito de Carvalho Sá (PSB), em 2010, acusado de compra de votos. Parte da população percebeu a cassação como motivação política e acabou elegendo o filho de Benedito Sá, Lukano, na época com 35 anos.

“O que se fazia na secretaria era o empreguismo. Mais de oitenta escolas e tudo o que se arrecadava era para pagar pessoal, apaniguados e correligionários. As escolas não tinham orientação pedagógica. Era a educação feita por fazer, como em muitos lugares neste país”, explica Tapety, famosa por ser radical em suas colocações, mesmo em relação aos aliados.

Alunas da escola de educação infantil Professor Balduíno Barbosa de Deus em Oeiras (Foto: Reginaldo Rodrigues)

Vontade política muda educação

Ela atribui à vontade política a pedra fundamental da mudança. “As pessoas pensam que a corrupção está só em Brasília”, ironiza a educadora licenciada em Letras e que hoje estuda Pedagogia. O cenário que encontrou era de uma terra devastada. “Primeira coisa que pedimos foi um banheiro dentro da própria secretaria. Era tudo depredado. Tínhamos 26 escolas com adolescentes e sem banheiro”, conta. Salas que começaram a ser construídas e não foram terminadas. Internet sem velocidade para encaminhar um email. Material encaixotado. Computadores obsoletos. A folha de pagamento não atrasava e o prefeito até dava bônus no final do ano. Mas a educação não acontecia.

A rede tinha uma escola com média 6 no IDEB —hoje a melhor escola do Piauí, com nota 8,3—, e outra com média 2. “Fomos organizando a casa. Tomando medidas antipáticas, que tirou a comodidade de muitas pessoas, sobretudo do docente que diz que ensina, mas que a criança não aprende porque é pobre, porque não tem pai, porque não tem mãe. Como se fosse problema da criança”, avalia.

A primeira medida foi organizar o trabalho. “Quando assumimos cada escola fazia de um jeito. Tinha o livro que queria. Planejava seu conteúdo. Cada um no seu próprio ritmo. Em rede, respeitamos os contextos e os projetos pedagógicos das escolas. Mas todas trabalham juntas, seguindo um mesmo calendário”, afirma. Se essa medida torna a rede engessada? “Os professores reclamam que sim. Mas Tapety garante que este não é o objetivo. “O planejamento é o mínimo esperado. Eles podem fazer mais”, conta.

Outra mudança foi o papel da leitura na escola, que se tornou um fio condutor do trabalho de todas as disciplinas. “Encontramos uma sala lotada de material do PNLD [Programa Nacional do Livro Didático] encaixotado. Os recursos do Governo Federal chegavam, mas aqui na ponta, não fazíamos o dever de casa.”

Tapety afirma que o trabalho na gestão de Lukano foi para reorganizar a rede e garantir o direito à aprendizagem. O prefeito não quis concorrer à reeleição. E foi seu primo, o empresário José Raimundo de Sá Lopes (PP), que atuou como secretário de administração e finanças na gestão anterior, quem ganhou as eleições em 2016. Na segunda gestão, o foco da rede passou a ser garantir a ensinagem, um neologismo usado na rede que define o processo pelo qual ocorre o aprendizado. “Se eu ensino e mesmo assim a criança não aprende, não há ensinagem“, diz Tapety.

Intervenção de alfabetização

Oeiras avançou de 4 no IDEB, em 2013, para 5,4, em 2015. A evasão diminuiu de 32% para 21%. Mas um fantasma ainda assombrava as escolas. Em uma avaliação interna no começo de 2017 foi identificado que sete em cada dez crianças que chegavam no 5º ano não sabiam ler. “Ficamos apavorados. Sabíamos que era preciso fazer diferente. Restava saber como”, afirma.

A rede participava de todos os programas de alfabetização do Governo Federal, mas nenhum dava resultado concreto. Foi o poeta e escritor piauiense, Cineas Santos, que mostrou um caminho. Ele contou que em uma escola municipal de Teresina chamada Casa Meio Norte, duas educadoras— Ruthnéia Lima e Osana Morais— desenvolveram uma metodologia capaz de alfabetizar crianças de forma rápida e efetiva, mesmo em situação de extrema vulnerabilidade.

Tapety admite que desconfiou da promessa. Mas depois de bater em várias portas, inclusive em Sobral, no Ceará, que se tornou famosa pela qualidade do ensino —a rede municipal registrou nota no IDEB de 9,1 nos anos iniciais do ensino fundamental, em 2017—, não viu outra opção e decidiu apostar na intervenção de educação proposta pelas pedagogas.

Oeiras contratou as educadoras de Teresina para fazer uma intervenção de alfabetização. Batizado de Projeto Borboleta, o programa consiste, na prática pedagógica, no desenvolvimento de uma série de sequências didáticas alternativas, que tem como foco a evolução das habilidades de leitura e interpretação —em português e em matemática—, a ser realizado por todas as disciplinas.

A gestão administrativa também precisou mudar. Profissionais e pais foram convidados a “adonar-se” da escola, ou seja, a se tornarem responsáveis pelo êxito ou fracasso dos alunos.“Começamos em março de 2017, com formação de diretores e professores. Na primeira semana de abril, fizemos a aplicação do projeto e qual não foi a nossa surpresa, os meninos de 5º ano em junho já liam. Fiquei impressionada”, conta Tapety. “Nos anos finais, evoluímos, mas não crescemos como gostaríamos. Está melhorando a disciplina, gosto pelo estudo. Temos o adolescente apático, com problemas psicológicos, mas não temos a presença da violência.”

Leitura e leitores

betização adequada foi sentido em toda a cidade. “Tínhamos um projeto de leitura na rede, mas não tínhamos leitores”, conta Tapety, que comemora o sucesso da VI Feira Literária de Oeiras (FLOR), realizada no final de novembro. Cerca de 30.000 pessoas, da cidade e municípios vizinhos, compareceram ao evento, que homenageou a escritora e poeta Roseana Murray.

A poeta assim descreveu sua experiência na cidade: “Vi seis mil crianças pobres do sertão fazendo arte verdadeira, fazendo poesia, música, teatro, dança e ganhando medalhas de matemática e astronomia. Vi crianças falando no palco com a segurança de velhos atores, sabendo de cor textos imensos, sem tropeçar em nenhuma sílaba (…) Queria que o Brasil inteiro soubesse: Oeiras existe e o que se faz aqui poderia ser feito em todo o Brasil.”

Na programação do evento, contos e poemas de crianças como Ana Clara Menezes Araújo, de 11 anos, ex-aluna da rede privada, que cursa o 5º ano na Escola Lourenço Barbosa Castelo Branco, municipal, maior IDEB do Piauí (8,3), e destaque literário da rede com suas publicações Caixalote, uma baleia em perigo e o Palhaço Maluquinho (2013); ABCzinho da Ecologia(2017) e Falando de Roseana Murray & Flor (2018). “Quero ser escritora”, diz a prolífica menina.

“Tivemos mais de 30 obras selecionadas. Mas, financeiramente, só pudemos publicar dez livros, um informativo e uma revista”, afirma Tapety. Dinheiro é um limitador para os sonhos ambiciosos de Oeiras para a educação. “Não sejamos hipócritas de dizer que toda essa mudança aconteceu só por amor à educação. Ninguém resiste à falta de dinheiro, falta de estrutura, respeito”, afirma.

O prefeito José Raimundo é quem se vira para fazer a conta fechar e garantir que a educação continue blindada dos assuntos políticos no município, mesmo criando inimizades. É o que aconteceu quando decidiu montar uma gráfica na prefeitura e economizar 200.000 reais mensais. “Hoje gastamos cerca de 30.000 reais”, afirma. Ou quando se recusou a colocar na secretaria “afilhados” de vereadores de seu próprio partido. “Arriscamos”, afirma José Raimundo. “Colocamos o que é da educação na educação”.

A vontade política de hoje, no entanto, não é garantia de continuidade dos projetos no futuro. Mesmo assim Tapety é otimista: “Acredito na conscientização das pessoas em relação à educação. Quem vier depois vai ter que enfrentar uma população que não aceita mais retrocesso”.

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo TwitteAQUIInstagram AQUIFacebook AQUI.

Maria Madalena era uma ‘mulher rica’ em vez de prostituta

Por Patrícia R.Blanco (El País)

Maria Madalena foi “uma mulher rica, influente e crucial” na vida de Jesus Cristo. Esta é uma das conclusões da pesquisadora Jennifer Ristine em Mary Magdalene: Insights From Ancient Magdala (“Maria Madalena, percepções da antiga Magdala”), um livro lançado em 22 de julho que busca revelar os mistérios da mulher que a Igreja Católica tachou durante séculos como adúltera e prostituta.

A integração das referências bíblicas e históricas com os recentes descobrimentos arqueológicos feitos na cidade de Magdala (atual Migdal, Israel), onde se acredita que nasceu, permitiram a Ristine reconstruir parte de seu perfil.

Capa do livro sobre Maria Madalena (Ilustração de Danielle Storey)

“Durante os tempos de Maria Madalena, Magdala já era um povoado próspero na indústria pesqueira”, afirma Ristine, diretora do Instituto Madalena, numa entrevista por e-mail. As primeiras escavações foram feitas nos anos setenta. Mas foi em 2009 que os Legionários de Cristo compraram um terreno na região e “descobriram a parte norte do povoado de Magdala”.

“Encontraram uma sinagoga do século I, uma representação do templo de Jerusalém em pedra [a pedra de Magdala], banhos de purificação ritual, residências e um porto”, explica Ristine.

Mas era ou não uma prostituta? Ristine considera que houve “muitas más interpretações sobre a vida de Maria Madalena”. Os achados arqueológicos da cidade bíblica de Magdala, hoje um sítio arqueológico com mais de 2.000 anos de antiguidade, sugerem que se tratava de um enclave rico. E, ao integrar neste contexto as referências bíblicas, pode-se deduzir que Maria Madalena era “uma mulher rica, de um povoado economicamente bem posicionado”, e não necessariamente uma prostituta, acrescenta a autora.

Essa ideia se reafirma, por exemplo, nos versículos de Lucas 8:1-3: “Depois disso, Jesus andava pelas cidades e aldeias anunciando a boa nova do Reino de Deus. Os Doze estavam com ele, como também algumas mulheres que tinham sido livradas de espíritos malignos e curadas de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios; Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes; Susana e muitas outras, que o assistiram com as suas posses”.

De prostituta à Santa

A Igreja Católica canonizou Madalena, que é santa desde 2016 (com festa litúrgica em 22 de julho), quando o papa Francisco a nomeou apostola apostolurum, “a apóstolo dos apóstolos” – não por acaso, segundo a Bíblia, foi a primeira a ver Jesus ressuscitado. E, entretanto, foi o papa Gregório Magno, no ano 591, um dos introdutores do qualificativo de “prostituta” quando em sua homilia 33 afirmou:

– Aquela a quem o evangelista Lucas chama de mulher pecadora é a Maria da qual são expulsos os sete demônios, e o que significam esses sete demônios senão todos os vícios?” Com essa afirmação, o sumo pontífice fez uma fusão de três marias: Maria, a pecadora, “que unge os pés do Senhor”; Maria, a de Magdala, liberada por Jesus de sete demônios, e entre as mulheres que o assistem; e Maria de Betânia, irmã de Marta e Lázaro. “A Igreja do Oriente acredita que são três mulheres diferentes, enquanto a Igreja do Ocidente crê firmemente identificá-las como a mesma mulher, Maria Madalena -, diz Jennifer Ristine.

Mas não foi Gregório Magno o único responsável. Segundo a pesquisadora, alguns autores a associaram a uma mulher mencionada no século II no Talmud, chamada Miriam Megaddlela, que significa “Maria de cabelo trançado”.

“Na comunidade judaica, esse título era adjudicado a uma mulher de má reputação, uma adúltera ou uma prostituta”, acrescenta.

O mistério do papiro da mulher de Jesus

Para os que estão há anos analisando textos evangélicos não é novidade que Cristo estivesse casado e certamente fosse pai

Clique AQUI).

Papiro é considerado autêntico (Foto: Karen L. King/EFE)

Independentemente de ter ou não sido meretriz, um estigma do qual os movimentos feministas tentam livrá-la, “Maria Madalena foi uma mulher influente tanto econômica como socialmente; economicamente porque era uma mulher acomodada, e socialmente porque, apesar de crescer e viver numa sociedade religiosa estrita, decide romper esquemas e seguir Jesus”, considera Ristine, para quem a mulher de Magdala é acima de tudo “um modelo de liderança para as mulheres”.

E ainda resta muito a descobrir sobre ela.

Só foram escavados 15% da antiga Magdala, de modo que, segundo Jennifer Ristine, futuros achados arqueológicos podem ajudar a revelar mais detalhes sobre o passado religioso da cidade natal de Maria Madalena, esclarecendo fatos e verdades de uma das personagens mais misteriosas dos Evangelhos.

Veja reportagem original clicando AQUI.

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo Twitter clicando AQUI e o Instagram clicando AQUI.

A espiã da CIA que se apaixonou por Fidel Castro

Do El País (Yolanda Monge)

O destino da ilha caribenha dos cubanos e da Guerra Fria repousava em forma de pílulas envenenadas em um pote de creme rejuvenescedor Pond’s. Foi onde Marita Lorenz as escondeu quando embarcou em Miami, no início dos anos sessenta, com destino a Havana. Sua missão: matar Fidel Castro, seu amante durante oito meses. Era a Mata Hari do Caribe.

Nervosa, quase em pânico, e com medo de que ao chegar ao Aeroporto Internacional José Martí fosse registrada e as pílulas envenenadas encontradas, Lorenz as colocou em um pote de creme facial. “Me sentia incapaz de cumprir a missão queFrank Fiorini [Frank Sturgis, condenado posteriormente no caso Watergate] tinha me passado. Não ia matar Fidel, não falhei, como outras centenas [de pessoas] que tentaram o mesmo depois. Simplesmente era incapaz e não me arrependo”, diz Lorenz hoje.

Marita, a amante que não consumou tentativa de assassinato de Fidel Castro (foto: El País)

Mas, mesmo se houvesse decidido ir em frente com a chamada Operação 40, uma conspiração do governo que, de acordo com Lorenz, unia a CIA, o FBI, os exilados cubanos e a máfia, não poderia ter concretizado o plano.

Quando estava no quarto do hotel Habana Libre, que costumava dividir com Castro, abriu o pote de creme e percebeu que os comprimidos haviam desmanchado, restando apenas uma massa pastosa da arma que devia acabar com a vida do líder do Movimento 26 de Julho.

“Joguei fora pelo bidê”, relata tranquila. “Não descia pela descarga e tive que empurrá-la até que desapareceu completamente. Então me senti livre”, diz. “Não me arrependo de não ter matado Fidel, pelo contrário: é a decisão da qual mais me orgulho em minha vida.”

Contar a vida de Marita Lorenz é o mesmo que rever grande parte da história do século XX, de sua pior história, a do Holocausto, dos assassinatos políticos e da miséria humana. “Sempre estive destinada a estar sozinha. Não sei por quê”, escreve em sua biografia lançada em 2001, Lieber Fidel – Mein Leben, meine Liebe, mein Verrat (Querido Fidel – Minha Vida, Meu Amor, Minha Traição), ainda não publicada no Brasil. Hoje, com 75 anos, sobrevive com a ajuda do governo em Baltimore (Estados Unidos), em um escuro e minúsculo apartamento cujo banheiro em ruínas não tem nem porta.

Anne Frank

Lorenz deveria ter vindo ao mundo com sua irmã gêmea. No entanto, quando sua mãe chegou ao hospital, na cidade alemã de Bremen, para exames, o pastor alemão de um oficial da SS, que a repreendia por ter levado até o fim a gravidez, fruto da relação com um médico judeu, a agrediu e uma das meninas, Ilona, morreu.

Marita sobreviveu. Seus pais homenagearam a bebê falecida acrescentando seu nome ao da sobrevivente: Ilona Marita Lorenz. Era 18 de agosto de 1939. Hitler planejava invadir a Polônia.

Assim começa o primeiro capítulo da biografia, que será publicada em espanhol pela editora Península, do grupo Planeta. As primeiras 48 páginas do volume relatam os primeiros 19 anos da Alemanita, como Fidel a apelidou. Na Segunda Guerra Mundial, Lorenz, de mãe americana e pai alemão, acabou internada no campo de concentração de Bergen-Belsen, quando tinha 5 anos.

“No quartel onde eu estava, o mesmo onde Anne Frank morreu, nos abraçávamos. Crianças pequenas e adolescentes, para não morrer de frio, embora alguns já estivessem quase mortos”, relata com serenidade, concluindo que, no entanto, chorou até esgotarem todas suas lágrimas.

Não me arrependo de não ter matado Fidel. É a decisão da minha vida da qual tenho mais orgulho.

Marita Lorenz foi encontrada escondida sob uma cama de madeira, depois que o campo foi libertado pelos britânicos em 15 de abril de 1945. “Quando o motorista da ambulância me retirou do meu esconderijo, eu estava cheia de piolhos, vermes, hematomas e pesava menos de 20 quilos.” Foi uma das 200 crianças que sobreviveram sob o lema: “Não fale, não pense, não respire”.

A senhora Lorenz, que no dia da sua entrevista veste camiseta e duas camisas, uma em cima da outra, e a quem o filho Mark, de 45 anos, arruma o cabelo despenteado para sair melhor nas fotos, define o que aconteceu em 1945 como o fim de um pesadelo e o início de outro. Com 7 anos, Marita foi estuprada um dia depois do Natal de 1946 por um sargento norte-americano, na Alemanha libertada pelos aliados.

Marita no final dos anos 50 em Cuba

Conheceu Fidel Castro em Havana, em fevereiro de 1959, quando tinha 19 anos e ele, 33. “Me tornei sua amante e fiquei grávida. Em Cuba, fui drogada e forçada ao que classificaram como aborto. Décadas depois fiquei sabendo que meu filho tinha sobrevivido e se chamava Andrés”, diz.

“Alguém pode imaginar o que isso significa para uma mãe, de quem levam seu bebê em uma mesa de operação e que sai de Cuba com o ventre vazio?”, se pergunta Lorenz, enquanto acaba de comer uma banana e acaricia seu cachorro, Bufty. Há mais animais por perto, talvez sejam eles que impregnam o lugar com um cheiro forte que gruda na pele: um gato, uma tartaruga e um enorme peixe laranja, que “de vez em quando se joga como em uma missão suicida contra o vidro do aquário”.

Lorenz admite que foi uma mulher em um ambiente masculino, que inventou mentiras para se proteger e também seus filhos e que disse a verdade quando foi conveniente. “Agora quero deixar as coisas claras”, afirma.

A Mata Hari do Caribe já não tem o cabelo extremamente negro. Já não exibe a forma esbelta de seus anos de party girl da máfia de Nova York, de onde saíram alguns de seus amantes. Garante que não carrega arma e já não teme por sua vida.

Me tornei sua amante e fiquei grávida. Em Cuba, fui drogada e forçada ao que classificaram como um aborto.

Parece deprimida. “Nunca pensei em me matar, embora às vezes tenha desejado morrer. Mas morrer é fácil, o desafio é viver.”

Sentada em frente à televisão com a qual passa seus dias, ao lado de um pôster do filme The Doors, com dedicatória de Oliver Stone, que a contatou para fazer um filme sobre sua vida, a senhora Lorenz conta como foi testemunha da trama para matar John F. Kennedy, em Dallas.

Antes do assassinato houve mais histórias. Fruto de seu relacionamento em Miami com Marcos Pérez Jiménez, cruel ditador venezuelano a quem Franco acabou oferecendo asilo na Espanha, nasceu sua filha Mónica Mercedes. Também não teve sorte. Foi abandonada na selva venezuelana com uma tribo de índios Yanomami e a filha de 14 meses. Queriam que fossem mortas.

A história de Marita Lorenz tem luzes e sombras. “Alguns podem achar que é bastante incrível”, diz. “Mas, já se sabe, a realidade supera a ficção.” No caso de Lorenz, essa realidade é construída com lembranças que, ocasionalmente, se misturam com a história oficial. “Essa que, quando posso lembrá-la, nem sempre é confiável.”

Veja vídeos da entrevista clicando AQUI.

“As redes sociais são uma armadilha”, avisa sociólogo

Do El Pais

O polonês (Poznan, 1925) era criança quando sua família, judia, fugiu para a União Soviética para escapar do nazismo, e, em 1968, teve que abandonar seu próprio país, desempossado de seu posto de professor e expulso do Partido Comunista em um expurgo marcado pelo antissemitismo após a guerra árabe-israelense.

Renunciou à sua nacionalidade, emigrou a Tel Aviv e se instalou, depois, na Universidade de Leeds (Inglaterra), onde desenvolveu a maior parte de sua carreira. Sua obra, que arranca nos anos 1960, foi reconhecida com prêmios como o Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades de 2010, que recebeu junto com Alain Touraine.

Zygmunt Bauman faz reflexões sobre um tempo de incertezas no mundo dito moderno (Foto: Web)

Bauman é considerado um pessimista. Seu diagnóstico da realidade em seus últimos livros é sumamente crítico. Em A riqueza de poucos beneficia todos nós?, explica o alto preço que se paga hoje em dia pelo neoliberalismo triunfal dos anos 80 e a “trintena opulenta” que veio em seguida.

Sua conclusão: a promessa de que a riqueza acumulada pelos que estão no topo chegaria aos que se encontram mais abaixo é uma grande mentira. Em Cegueira moral, escrito junto com Leonidas Donskis, Bauman alerta sobre a perda do sentido de comunidade em um mundo individualista. Em seu novo ensaio, Estado de crise, um diálogo com o sociólogo italiano Carlo Bordoni, volta a se destacar.

O livro da editora Zahar, que já está disponível para pré-venda no Brasil, trata de um momento histórico de grande incerteza.

Bauman volta a seu hotel junto com o filósofo espanhol Javier Gomá, com quem debateu no Fórum da Cultura, evento que terá sua segunda edição realizada em novembro e que traz a Burgos os grandes pensadores mundiais. Bauman é um deles.

Pergunta. Você vê a desigualdade como uma “metástase”. A democracia está em perigo?

Resposta. O que está acontecendo agora, o que podemos chamar de crise da democracia, é o colapso da confiança. A crença de que os líderes não só são corruptos ou estúpidos, mas também incapazes. Para atuar, é necessário poder: ser capaz de fazer coisas; e política: a habilidade de decidir quais são as coisas que têm ser feitas. A questão é que esse casamento entre poder e política nas mãos do Estado-nação acabou. O poder se globalizou, mas as políticas são tão locais quanto antes.

A política tem as mãos cortadas. As pessoas já não acreditam no sistema democrático porque ele não cumpre suas promessas. É o que está evidenciando, por exemplo, a crise de migração. O fenômeno é global, mas atuamos em termos paroquianos. As instituições democráticas não foram estruturadas para conduzir situações de interdependência. A crise contemporânea da democracia é uma crise das instituições democráticas.

P. Para que lado tende o pêndulo que oscila entre liberdade e segurança?

R. São dois valores extremamente difíceis de conciliar. Para ter mais segurança é preciso renunciar a certa liberdade, se você quer mais liberdade tem que renunciar à segurança. Esse dilema vai continuar para sempre. Há 40 anos, achamos que a liberdade tinha triunfado e que estávamos em meio a uma orgia consumista. Tudo parecia possível mediante a concessão de crédito: se você quer uma casa, um carro… pode pagar depois. Foi um despertar muito amargo o de 2008, quando o crédito fácil acabou.

A catástrofe que veio, o colapso social, foi para a classe média, que foi arrastada rapidamente ao que chamamos de precariat (termo que substitui, ao mesmo tempo, proletariado e classe média). Essa é a categoria dos que vivem em uma precariedade contínua: não saber se suas empresas vão se fundir ou comprar outras, ou se vão ficar desempregados, não saber se o que custou tanto esforço lhes pertence… O conflito, o antagonismo, já não é entre classes, mas de cada pessoa com a sociedade. Não é só uma falta de segurança, também é uma falta de liberdade.

P. Você afirma que a ideia de progresso é um mito. Por que, no passado, as pessoas acreditavam em um futuro melhor e agora não?

R. Estamos em um estado de interregno, entre uma etapa em que tínhamos certezas e outra em que a velha forma de atuar já não funciona. Não sabemos o que vai a substituir isso. As certezas foram abolidas. Não sou capaz de profetizar. Estamos experimentando novas formas de fazer coisas.

A Espanha foi um exemplo com aquela famosa iniciativa de maio (o 15-M), em que essa gente tomou as praças, discutindo, tratando de substituir os procedimentos parlamentares por algum tipo de democracia direta. Isso provou ter vida curta. As políticas de austeridade vão continuar, não podiam pará-las, mas podem ser relativamente efetivos em introduzir novas formas de fazer as coisas.

Veja material mais completo AQUI.

Quando mães jogavam os filhos no rio

Por Luís Doncel (El País)

O documento é estremecedor. Vinte e oito páginas repletas de nomes acompanhados da data e do motivo da morte. Escolhida um aleatoriamente, aparecem várias famílias —os Gaut, os Schubert (mãe e filha), os Rienaz (também mãe e e filha)…—. Todos morreram em 8 de maio de 1945. E todos por uma mesma causa: suicídio. Estamos no Museu Regional de Demmin, uma pequena cidade no noroeste da Alemanha, que nesses dias revive seus dias mais dramáticos.

Bärbel Schreiner, com sua mãe e seu irmão em Demmin em 1944

Nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial, quando a vitória final tantas vezes anunciada por Adolf Hitler parecia cada vez mais irreal e o Exército Vermelho se aproximava, entre 700 e 1.000 cidadãos de Demmin –que à época tinha 15.000 habitantes— preferiram morrer a ter que viver em um mundo que não fosse governado pelos nazistas. Foi o maior suicídio em massa na história da Alemanha.

Bärbel Schreiner, então uma menina de 6 anos, esteve a ponto de ser vítima dessa loucura coletiva. Mas seu irmão conseguiu convencer sua mãe a não fazer com os dois filhos o que tantos pais faziam naqueles dias. “Mamãe, nós não, né?”, recorda Schreiner da fala de seu irmão disse, enquanto observava o rio Peene, cheio de cadáveres.

“MAMÃE,
NÓS NÃO, NÉ
?”

“Ainda me lembro da água avermelhada pelo sangue. Sem essas palavras, tenho certeza que minha mãe teria afogado nós dois”, afirma, com a voz embargada, essa mulher de 76 anos.

O caso de Schreiner não foi uma exceção. Uma onda de suicídios atingiu a Alemanha entre janeiro e maio de 1945. Não existem números exatos, mas os historiadores calculam que entre 10.000 e 100.000 pessoas tenham tomado essa decisão.

Ao tirar a própria vida, era normal que os adultos levassem também seus filhos. Foi o que fez Joseph Goebbels, ministro da Propaganda e chanceler nos últimos dias do III Reich, quando ele e sua mulher, Magda, envenenaram os seis filhos.

Escreveu-se muito sobre o suicídio dos líderes nazistas. Além de Hitler, cuja morte completará 70 anos em 30 de abril, e Goebbels, também tirou a própria vida o chefe das temidas SS, Heinrich Himmler. Mas, até agora, não se havia prestado muita atenção aos cidadãos comuns que seguiram o destino de seus líderes fanáticos.

Justamente essa falta de conhecimento sobre a tragédia que milhares de pessoas anônimas viveram levou o historiador Florian Huber a escrever Filho, Me Promete que Vai Atirar. O sucesso do livro, que em dois meses já vendeu mais de 20.000 exemplares, surpreendeu inclusive o autor.

Medo

“Estudei história e nunca tinha ouvido falar desse episódio trágico. Um dia, vi em um livro um pé de página que mencionava a onda de suicídios nos últimos meses da guerra e decidi investigar”, conta em um café de Berlim. Mas, o que levou esses homens e mulheres comuns a dar um tiro em si mesmos, se enforcar numa árvore ou se jogar no rio mais próximo? Medo das represálias dos vencedores? Fanatismo nazista? Ou sentimento de culpa pelos abusos de 12 anos de nacionalismo e seis de guerra?

“Uma mescla de todos esses fatores. Também teve influência um efeito psicológico que transforma o suicídio em algo contagioso, quase como uma infecção. Se você visse nesse café todo mundo começando a se matar, talvez você cogitasse também”, responde.

A epidemia suicida se estendeu por muitos rincões da Alemanha, mas por que afetou principalmente alguma áreas, como o leste do país, e muito especialmente lugares como Demmin? Huber explica a mescla de circunstâncias históricas e geográficas que tornaram essa localidade uma ratoeira da qual era impossível escapar. “Rodeada por três rios, forma uma espécie de península.

Em sua fuga, os líderes nazistas dinamitaram as três pontes existentes. De forma que, quando os soviéticos chegaram, não podiam continuar avançando. Os soldados do Exército Vermelho chegaram em 30 de abril, com vontade de abandonar logo Demmin para comemorar a festa de 1º de maio”, afirma.

JUSTAMENTE no mesmo dia em que Hitler se matou com um tiro dentro de seu bunker em Berlim, os soldados vermelhos queimavam Demmin e difundiam o pânico. Os anos de guerra, a sede de revanche e a bebida que correu pela noite fomentavam a violência dos soviéticos.

O resultado desse coquetel foi assombroso. Huber afirma que os rios se tornaram cemitérios durante semanas; e que os trabalhos para retirar os corpos da água se estenderem entre maio e julho daquele ano. “As testemunhas se lembram de pessoas penduradas em árvores por toda parte”, acrescenta.

O sofrimento dos civis alemães durante a guerra –sejam os abusos de mulheres ou os bombardeios de cidades como Potsdam, que nesta semana completou 70 anos— é um tema complexo. Não há dúvidas de que muitos inocentes sofreram as consequências, mas esse sofrimento também serve de desculpa para os neonazistas, que continuam confundindo e igualando a dor do povo agressor com a dos agredidos.

Registro de mortos em Demmin, no Museu Regional

O mesmo ocorre ainda hoje em Demmin. Há uma década, em todo 8 de maio, dia da rendição, um pequeno grupo de manifestantes ligados ao partido de extrema direita NPD relembram as vítimas alemães.

Tabu

“Durante os anos do comunismo, esse tema era um tabu. Ninguém quer lembrar as violações ou crimes cometidos pelos soldados que nos libertaram do fascismo. E agora os neonazistas também utilizam a dor do passado para os seus fins”, afirma Petra Clemens, a diretora do museu, rodeada por vestígios da história da região.

Nessa castigada cidade do leste alemão, o desemprego atinge 17% da população (um percentual altíssimo para um país no qual a média está em 6,9%) e o alcoolismo tem seu preço.

Demmin foi talvez o caso mais extremo da loucura coletiva que invadiu o país nos primeiros meses de 1945, mas não o único. Em Berlim foram registrados naquele ano 7.000 suicídios, dos quais quase 4.000 aconteceram no mês de abril. Em seu livro, Huber reúne depoimentos de pessoas que associaram o fim de suas próprias vidas ao fim do nacional-socialismo.

Como o professor Johannes Theinert e sua mulher, Hildegard, que começaram a escrever um diário em 1937, um ano após se casarem. O último registro foi datado em 9 de maio de 1945. “Acaba a crise. As armas calam”, anota Hildegard.

Naquele mesmo dia, Johannes atirou na mulher e depois em si mesmo. A última entrada do diário encontrado por alguém após sua morte dizia: “Quem se lembrará de nós, quem saberá como acabamos? Essas linhas têm algum sentido?”.

Veja AQUI a matéria original na página de El País.

Homicídios no Brasil superam os da Guerra do Vietnã

Do jornal El País (Espanha)

Oscar Vilhena, diretor da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas (FGV), qualifica constantemente de “preocupantes” os dados divulgados no Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Os números de mortes violentas no Brasil são comparáveis aos dados de países em guerra, lamenta o professor de Direito Constitucional.

Vilhena: políticos não tratam caso com seriedade (Foto: El País)

Vilhena defende uma reestruturação e a integração das polícias para melhorar os indicadores de violência e coloca o desafio nas mãos do Congresso Nacional, embora advirta que os parlamentares não têm levado a questão a sério:

“Há um lobby muito forte das próprias polícias, que defendem seus interesses corporativos, que, ao meu ver, não atendem à população” – afirma.

O Brasil tem seis assassinatos por hora, a maioria envolvendo homens negros e pardos.

Cerca de 11.000 pessoas que foram mortas em confrontos com a polícia, é um número muito superior ao de outras democracias. Como também é alto o número de policiais mortos.

Apenas 33% dos brasileiros confiam na polícia e só 32% confiam no Poder Judiciário.

Pergunta. Qual é o dado que mais lhe preocupa entre os apresentados no Anuário Brasileiro de Segurança Pública?

Resposta. Inúmeras coisas são preocupantes, mas o que deveria nos mobilizar imediatamente é a questão dos homicídios. O Brasil tem mantido um padrão profundamente preocupante para uma democracia. Especialmente para uma democracia que vem enfrentando outros problemas, como a pobreza, a desigualdade, a educação e, no entanto, na área de segurança, não consegue fazer progressos consistentes.

E continua: “Em alguns Estados, como é o caso de São Paulo, Minas Gerais ou Pernambuco, tem havido uma redução muito substantiva dos homicídios. São Paulo, nos anos 2000, reduz quase 70% dos homicídios, mas isso significa que em outras regiões do Brasil houve um aumento. Esse é um ponto essencial e que tem consequências do ponto de vista de vidas humanas perdidas, que somam mais de um milhão de vítimas nos últimos 20 anos, com consequências econômicas graves. As pessoas estão deixando de investir, seja o grande investidor como o pequeno, porque sabem que há riscos de ser vítima de violência no país.”

Pergunta. E dos Governos estaduais?

Resposta. No caso dos Governos dos Estados, não precisam ficar esperando que venha a reforma. Os exemplos que nós temos de Pernambuco, em alguma medida de São Paulo, e de Minas Gerais, é que você consegue avançar em uma integração operacional entre as polícias com resultados positivos. Não devemos negligenciar que São Paulo tem um índice de homicídios de menos da metade do índice brasileiro, e essa curva declinante é fruto de um conjunto de esforços: controle de armas, policiamento comunitário, integração das polícias, qualificação do departamento de homicídios… Isso é o que precisa ser feito: gestão.

Veja entrevista completa AQUI.

“As coligações são um jogo de trocas complexo”

Do portal no Brasil do jornal espanhol “El País”

Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o cientista político Paulo Sérgio Peres crê que as alianças eleitorais são um jogo estratégico de trocas complexo. Analisando o cenário político atual no país, ele acredita que o PMDB não terá problemas em continuar no governo, seja ele qual for. Já o PSB deverá ter mais problemas do que previa com a chapa Eduardo Campos – Marina Silva.

Na sua avaliação, por qual razão os partidos não repetem nos Estados as alianças que são firmadas nacionalmente?

Paulo Sérgio Peres – O Brasil é um país muito grande e diverso em vários aspectos, inclusive dos interesses políticos. Os chamados interesses nacionais não necessariamente são os mesmos do ponto de vista regional, estadual e municipal. Nesse contexto, a única eleição realmente nacional é para a Presidência da República.

O cientista político Paulo Sérgio Peres vê coerência nas alianças (Foto: Antônio Paz, Jornal do Comércio)

A tensão entre lógicas e interesses diferentes faz com que a coordenação de coligações eleitorais seja algo bastante complexo, colaborando para discrepâncias entre as alianças nacionais e estaduais.É um jogo estratégico de trocas bastante complexo. Essa troca de apoios envolve os cargos de governador e senador, ou seja, cargos de disputa majoritária. Ao contrário do que se pensa, as alianças tem uma lógica bastante clara. Os críticos acreditam que não há qualquer lógica nesses acordos porque não encontram neles nenhuma base ideológica mais precisa.

Eles têm razão, nem sempre é possível encontrar alguma base ideológica nas alianças; porém, a ideologia não é o único fator de motivação para as alianças. Isso não quer dizer que não há lógica nelas, mas que a lógica não é diretamente relacionada com a ideologia. Inclusive, se as alianças fossem sempre ideológicas, seriam inócuas. Como [o ex-presidente] Lula já disse há algum tempo atrás, alianças se fazem com diferentes; entre iguais nem podem ser alianças políticas. Se são tão iguais, deveriam estar no mesmo partido.

De que maneira essa falta de verticalização influencia no eleitorado?

PSP – Do ponto de vista objetivo, parece que não há qualquer influência relevante. Desde a abertura democrática, os eleitores continuam comparecendo às eleições em proporções constantes, assim como não têm oscilado os votos nulos e em branco. O eleitor parece que tem sido capaz de identificar de modo relativamente claro quais os candidatos à presidência e às governadorias de estado representam mais proximamente seus interesses e suas visões de mundo. Eleição para deputados e senadores não costumam empolgar tanto os eleitores, mas isso não parece ser efeito do perfil das coligações eleitorais.

“PENSO QUE CAMPOS FOI MUITO AFOITO AO FAZER UM CAVALO DE BATALHA SEU DESEJO DE CONCORRER À PRESIDÊNCIA AGORA”

Do ponto de vista subjetivo, a influência desse perfil tão variado de alianças ou coligações sobre a percepção dos eleitores em relação ao sistema político pode ser prejudicial. Ao não encontrar a lógica que procura nas alianças, que é a ideológica, os eleitores reforçam uma visão já arraigada de que os partidos são todos iguais e que buscam apenas o poder político. Em parte isso é verdadeiro, mas é verdadeiro em qualquer lugar do mundo. Em parte isso não é verdadeiro; os partidos, pelo menos os principais, apresentam diferenças importantes.Você acha que a união Eduardo Campos – Marina Silva obterá êxitos, já que eles estão rompidos em vários Estados (por exemplo, SP, RJ e PR)?

PSP – Pessoalmente, desde o início, avaliei como equivocada a acolhida que Campos deu a Marina e seu proto-partido. Também não acho que essa tenha sido uma boa estratégia para Marina. Ela frustrou alguns daqueles que acreditavam que ela realmente representava uma nova política.

O desespero para participar desta eleição, mesmo que dessa forma estranha, em que a Rede se fundiu, de certo modo, ao PSB, pode ter dado a entender para alguns possíveis simpatizantes de Marina que ela agiu como costumam agir os políticos tradicionais. Mas, para Campos foi pior.

Eduardo: afoito

Em primeiro lugar, penso que Campos foi muito afoito ao fazer um cavalo de batalha seu desejo de concorrer à presidência agora. Seu partido, o PSB, foi aliado importante do PT no governo Lula e parte do governo Dilma, e poderia ter continuado na coalizão governista até a eleição presidencial de 2018.

Se Dilma ganhar esta eleição, não poderia se candidatar de novo e o PT está sem opções para sua substituição. Duvido que Lula volte a ser candidato à presidência. Campos poderia esperar a próxima eleição e teria grandes chances de ser bem sucedido. Inclusive, talvez até pudesse se filiar ao PT. Por que não? Ou mesmo como um candidato do PSB apoiado pelo PT. O PT poderia, com isso, sinalizar que não tem a intenção de se perpetuar no poder, que aceita a rotatividade e até a apoia, ao contrário do que ocorre em São Paulo, com o PSDB. Então, acho que esse foi o primeiro erro de Campos.

O segundo foi ter acolhido Marina nas circunstâncias em que isso se deu. Ele está agora na desconfortável situação de ter uma candidata a vice que tem mais apoio eleitoral do que ele. Se ganhar, terá uma vice difícil e que provavelmente atuará como se fosse da oposição. Além disso, Marina e os principais articuladores da Rede são obstáculos à formação de algumas alianças importantes nos Estados.

“GANHE QUEM GANHAR, O PMDB DEVERÁ FAZER PARTE DA COALIZÃO DE GOVERNO”

Como o PMDB vai se comportar nas eleições, levando em conta que nacionalmente apoia Dilma Rousseff e em alguns Estados confronta o PT?

PSP – Isso não é novidade para o PMDB. Desde a redemocratização do país, o partido que se mostrou mais governista é o PMDB. Nem mesmo o PFL/DEM foi tão governista, uma vez que foi relegado à oposição durante o governo nacional do PT. No plano nacional, o PMDB esteve com todos os governos e deve se manter assim. Isso porque, no contexto político brasileiro, para conseguir governabilidade, os presidentes devem formar coalizões majoritárias.

O PMDB tem duas características essenciais para isso, ele tem uma grande bancada e ocupa uma posição intermediária no espectro ideológico. Sendo assim, partidos de centro, direita e esquerda não terão grandes resistências para chamar o PMDB para sua coalizão de governo. Atraindo o PMDB, terão grandes chances de que essa coalizão seja majoritária, inclusive a ponto de aprovar projetos que demandam maiorias qualificadas. O PMDB cobra um preço para isso, exigindo cargos e outros recursos que estão sob a guarda do Poder Executivo. Mas, para continuar exercendo esse poder de influência, o PMDB deve manter uma bancada elevada. Com poucas cadeiras, o partido teria poucos votos e, assim, deixaria de ser um aliado central para as coalizões de governo. Para conquistar um número elevado de cadeiras na Câmara dos Deputados e no Senado, é importante disputar as governadorias dos estados.

Para aumentar a competitividade de seus candidatos ao Senado, o PMDB procura forçar seus aliados a não lançarem candidatos para esse cargo. O PMDB pode apoiar o candidato a governador de um partido, desde que este partido apoie seu candidato ao Senado. O mesmo pode ocorrer no plano nacional, uma vez que o PMDB há muito tempo não lança candidato próprio à presidência. Assim, o apoio a Dilma significará que o PMDB tenderá a forçar uma distribuição que lhe seja mais favorável de cargos e recursos, um maior apoio do PT nas disputas estaduais, para governador e senador.

O PMDB é multifacetado e isso também ajuda o partido a sempre ser governo. Mas, comportando-se como aliado ou não nas eleições, uma coisa é certa. Ganhe quem ganhar, o PMDB deverá fazer parte da coalizão de governo.

Justiça pune morador de rua, preto, por fazer protesto

Do El Pais (Brasil)

Um negro, jovem, morador de rua e catador de materiais recicláveis. Esse é o perfil da primeira e única pessoa condenada até agora por atos cometidos durante a onda de protestos que tomou o Brasil no mês de junho deste ano.

Rafael Braga Vieira tem 25 anos. Foi detido em 20 de junho no Rio de Janeiro durante um ato que reuniu cerca de 300.000 pessoas. Foi condenado na última segunda-feira, dia 2 de dezembro, a cinco anos de prisão pelo crime de porte ilegal de artefato incendiário.

Na ocasião de sua detenção, Vieira estava com duas embalagens de plástico, uma era de desinfetante da marca Pinho Sol e a outra de água sanitária. A acusação diz que ambas seriam usadas como coquetel molotov. Já a defesa, alegou que as provas foram modificadas e, ainda assim, não seria possível que os as embalagens fossem usadas como armas, porque as garrafas de plástico não explodiriam em contato com superfícies rígidas. Sem a explosão, a arma perderia sua função.

Fogo

Um laudo elaborado por peritos da polícia concluiu que em uma das garrafas não havia material inflamável. Na outra, havia 400 mililitros, com o mínimo poder de combustão.

Em seu depoimento, Vieira alegou que estava apenas com produtos de limpeza que teria pegado de uma loja invadida na qual ele costumava dormir. Negou que tivesse a intenção de atacar algo ou alguém com esses produtos.

Em sua decisão, o juiz Guilherme Schilling Pollo Duarte diferenciou maus e bons manifestantes e afirmou que a justificativa do acusado era pueril e inverossímil. Ele se baseou no depoimento de um policial que afirmava que Vieira estava com dois artefatos semelhantes a coquetéis molotov.

Como Vieira já tinha sido condenado em outras duas ocasiões, em 2006 e 2008, pelo crime de roubo, o magistrado Duarte decidiu que sua pena deveria se aproximar do tempo máximo de punição para quem comete crimes como esses, que é de seis anos.

Veja matéria completa AQUI.

 

“Jornalismo segue sendo necessário”, diz diretor do El País

Por Natália Carvalho (Comunique-se)

Era maio de 1976 quando a primeira edição do El País foi às bancas. Trinta e sete anos depois, o jornal acumula 15 milhões de usuários únicos por mês, investiu em digital e, atualmente, pelo menos 40% do número total de acesso online vêm de leitores de fora da Espanha.

Prados: na hora que muitos demitem, jornal investe

Com sede em Madri, e pensando em ser global, a empresa fez acordo de distribuição com diversos países, estruturou redações em Barcelona, Sevilha, Valencia, além de escritórios em Washington, Bruxelas e México. Neste fim de novembro, foi a vez do Brasil, que acaba de receber a versão em português do site.

Há quem diga que o jornalismo passa por crise. El País acredita que os meios de comunicação tradicionais passam por mudanças, mas não há problemas com a publicidade no continente. Diretor de redação do veículo no Brasil, Luis Prados conversou com o Comunique-se na terça-feira, 26, sobre modelo, apostas e contou como escolheu os 11 jornalistas que compõem a equipe.

Confira, abaixo, a íntegra do bate-papo:

Em que momento vocês decidiram vir para o Brasil?

Luís Prados – O Brasil era como uma assinatura pendente para nós. Desde o começo do jornal, tínhamos o objetivo de ser voltado para o internacional. Quando não existia internet, essa seção estava sempre na página 2, 3 ou 4. El País sempre tratou do assunto no início, sempre foi o nosso ponto forte. Graças às novas tecnologias, conseguimos atingir várias pessoas pela internet. Durante os protestos, por exemplo, o número de leitores brasileiros aumentou e foi uma surpresa boa. Então, pensamos junto com os executivos o porquê não investíamos no país. Estamos falando de 200 milhões de leitores que falam português e que nós não cobríamos. Não estávamos suficientemente globais.

Atualmente, algumas redações brasileiras estão demitindo. O El País está investindo. Por quê?

LP – Existe crise financeira global, que começou em 2008. Em paralelo, temos a crise dos meios de comunicação tradicionais. Mas, neste continente, não vejo crise de publicidade, que é gravíssimo na Europa, por exemplo. Existem mudanças nos modelos de negócios, já que tivemos salto tecnológico grande. É como se tudo conspirasse contra a profissão. A venda de celulares aumenta cada vez mais e as pessoas estão lendo pouco em papel, a publicidade foi desaparecendo nesta mídia e as empresas precisaram cortar gastos demitindo o pessoal. É um desastre para a nossa profissão. A meu ver, o jornalismo segue sendo necessário com o profissional que conhece a área, ideologia, ética da informação e etc. Não acredito em jornalismo cidadão, assim como não acredito em médico cidadão (amador). Cada um tem a sua profissão.

Como vocês enxergam esse investimento?

LP – É a primeira vez que El País tem tanta ousadia. É um idioma diferente, é um país com diversas variedades. É um grande desafio.

Como foi a escolha da equipe?

LP – Eu vim para São Paulo algumas vezes e em junho deixamos público a nossa intenção de montar a redação aqui. Depois disso, vários jornalistas começaram a enviar currículos. Em setembro e outubro, comecei a separar os que me interessavam, fiz entrevistas e percebi as pessoas que poderiam funcionar. Buscava, acima de tudo, jovens. E assim fomos contratando. Tirando uma jornalista brasileira sênior, todos os outros são juniores. São quatro espanhóis, contando comigo, e sete brasileiros.

Quais são as expectativas?

LP – Queremos que o público brasileiro nos veja. Não queremos ser um corpo estranho na sociedade. Vamos ser divertidos, interessantes e contar as coisas por outro ângulo, de maneira que isso sirva de contraste. Acabamos de nascer e vamos começar pela parte de entender esse povo, para que ele nos conheça e nos procure.

O que o leitor pode esperar?

LP – O leitor de El País no Brasil deve ter sensibilidade com informações internacionais. Ele terá proporção de reportagens brasileiras, que vai ser distribuída na Venezuela, na Argentina, nos Estados Unidos e em outros países. Se o leitor só se interessar por política nacional, vai acabar sendo escasso. Os nossos leitores são pessoas que se interessam por ver seus países em contexto global e é isso que vamos oferecer. Temos que levar em conta que não existe fato que acontece num lugar e não afete imediatamente o resto do mundo.

Existe previsão de pageviews?

LP – Não existe. Vamos começar como nos países da América: pouco a pouco. Queremos descobrir o país, transformar a realidade do Brasil desde o nosso ponto de vista até o nosso estilo jornalístico dentro do contexto global. Já temos esse DNA, agora com sensibilidade brasileira.

Vocês pretendem cobrar pelo acesso ao conteúdo?

LP – Em longo prazo, quem sabe. Não existe fórmula mágica. Ninguém sabe qual modelo deve ser trabalhado e o que dá certo. O The New York Times cobra, mas não é por isso que todos devem fazer o mesmo. Acredito que ninguém sabe, ainda, como tornar o online mais rentável.

A porra do Brasil

“Que país é este que junta milhões numa marcha gay, outros milhões numa marcha evangélica, muitas centenas numa marcha a favor da maconha, mas que não se mobiliza contra a corrupção?”

A indagação é de Juan Arias, correspondente de El Pais (Espanha) no Brasil.

Nota do Blog – Sim, que país é este?

Em seus shows pelo Brasil afora, a banda Capital Inicial costuma cantar a música “Que país é este?” da Legião Urbana, letra de Renato Russo.

E a multidão que cantarola a letra, em histeria, grita lá de baixo… “É a porra do Brasil” (…).

Depois, não acontece mais nada. Só alegria.

Somos uma “massa-gente”, como diria o professor Darcy Ribeiro, ou “massa-povo”, nas palavras do também professor Oliveira Vianna, sem discernimento individual ou motivação coletiva para lutar por seus próprios e relevantes interesses.