Agronegócio, saúde e corrupção estão na pauta da Operação Carne Fraca. Algumas vozes já emplacam ponderação de que tudo deveria ser tratado de outra forma, para “não prejudicar as exportações” do país.
A linha de raciocínio é praticamente igual quando da eclosão e avanço da Operação Lava Jato.
Muitos advogavam que os procuradores federais, Polícia Federal e o juiz Sérgio Moro precisavam levar em conta a importância da indústria da construção civil e o papel das gigantes do setor à economia, emprego e renda.
Os dois casos me remetem a uma proposta que circulou na Câmara Municipal de Mossoró há alguns anos, quando se tornou frequente o assalto na cidade, com bandidos encobertos por capacetes, em motos. Um vereador propôs que fosse proibido o uso desse equipamento de segurança, que servia de “máscara” aos assaltantes.

O problema do Agronegócio, da Construção Civil e dos assaltos é de polícia e justiça, sim. Mas não sob a ótica distorcida que abordo no preâmbulo desta postagem.
Tentar desqualificar a investigação, sob esse ângulo, é mais uma forma de revelar como somos permissivos com o crime, medindo-o ou o endossando, conforme jogo de interesses.
As gigantes envolvidas nesse escândalo, como é comum, estão mergulhadas também no financiamento de campanhas políticas. Sempre foram grandes financiadoras de partidos e seus candidatos, à direita e à esquerda.
Aplausos pelo crescimento e expansão desse negócio que se espalha por mais de 150 países, revelando a competência da indústria nacional. Mesmo assim, ninguém lhes disse que estavam acima da lei, inclusive comprometendo a saúde de milhões de pessoas.
É inadmissível que sejamos condescendentes com eventuais distorções de superlativas corporações empresariais, ao mesmo tempo que revelamos nossa crueldade crítica e fiscalizadora em relação ao açougueiro do Mercado Central, o bodegueiro do Santa Delmira e o supermercadista do bairro Santo Antônio.
Particularmente, não creio que estejamos exportando carne podre para tantos recantos do mundo, muitos dos quais com eficiente fiscalização. Mas não duvido que o rebotalho da qualidade em boa parte esteja chegando às nossas mesas.
Pelo sim, pelo não, apoiemos a fiscalização e punamos eventuais excessos.
Numa economia de mercado, o capital muitas vezes não tem limite em sua voracidade. Precisa ser contido.
O monopólio e o oligopólio costumam fazer muito mal à maioria, por isso que precisamos de redes limitadoras, para que a competição não ocorra sobre regras criminosas, favorecendo os mais expertos e inescrupulosos.
As gigantes brasileiras que se apresentam entre as maiores empresas de proteína do planeta e, empreiteiras, limitam o fortalecimento de novas marcas e concorrentes, impondo a elas uma espécie de nanismo empresarial. Se adotarem boas práticas com consumidores, a lei e o Estado, não têm o que temer. Continuarão gigantes e com nosso aval de consumidores.
Esse país não pode temer cortar a própria “carne”.
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