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A eternidade em um segundo

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

“O professor que sabe expor suas ideias com vida, com amor, com alegria, é insubstituível”.

(Gabriel Perissé)

Recentemente, na aula inaugural de oncologia da UFRN, a aluna Cinthia me perguntou: “Professor, por que o senhor resolveu fazer medicina?”. Parei alguns minutos para refletir. Em questão de segundos, veio o poema de T.S. Eliot em minha mente:

O tempo presente e o tempo passado. Talvez estejam ambos presentes no tempo futuro, E o tempo futuro no tempo passado”.

Pois bem, essa resposta que eu teria de dar no segundo próximo, para a aluna, sua explicação estava no passado.

“Perdi meu pai quando tinha três meses de idade. Aí resolvi fazer medicina para combater a morte. Para lutar contra ela, dia após dia. Para que ela nunca mais seja capaz de tirar o pai de alguém tão cedo…”, foi assim que eu respondi para a minha curiosa aluna. Tentei continuar dando a aula, mas, a cada segundo, surgia em minha mente fatos do passado, influenciando o futuro da minha exposição (o passado presente no futuro, como lembrou T. S. Eliot).

E como foi difícil falar do paciente oncológico, lembrando-me dos terríveis dias dos pais que passei na minha infância sem tê-lo ao meu lado. Lembrei-me de que certa vez, indagado por um colega de classe sobre o que eu daria de presente no dia dos pais, a minha resposta foi: “uma passagem de volta!”. Ele não entendeu nada e nem muito menos eu entendia porque o destino tinha selado a sua sentença e contra ela não haveria recurso nenhum a ser impetrado…

Pois bem! Vinte anos buscando lutar contra a morte. Mais precisamente, no dia 03 de março de 1986, às 13:30h, já cursando medicina, eis que me entra um coração enorme, vestido de branco, com uns óculos fundo de garrafa, abre um sorriso cativante e diz: “Boa tarde! Sejam bem vindos à Disciplina de Técnica Operatória e Cirurgia Experimental da UFRN. Meu nome é Ernani Rosado”.

Depois de apresentar cada um dos outros professores da disciplina, iniciou a sua aula sobre história da cirurgia. Logo me apaixonei por aquela disciplina. Logo me apaixonei por aquele professor. Nas entrelinhas dos seus ensinamentos, o amor estava presente em tudo.

Ali, a carne se fazia verbo e o verbo era sempre o mesmo: amar! Amar o paciente sobre todas as coisas. Amar a missão. E nunca, jamais vender a sua alma ao diab o se alinhando com interesses escusos para ganhar benesses de laboratórios e indústrias farmacêuticas.

Saí daquela aula radiante. E com um desejo enorme no meu coração: como eu queria que aquele homem fosse meu pai, afinal, poderíamos lutar juntos contra a morte… Rainer Maria Rilke, na sua “Carta a um jovem poeta”, nos alertou: “Há de se reconhecer, aos poucos, que aquilo a que chamamos destino sai de dentro dos homens em vez de entrar nele. Muitas pessoas não percebem o que dela saiu, porque não absorveram o seu destino enquanto o viviam, nem transformaram em si mesma”…

Logo, de forma impetuosa – atitude incomum para quem tinha a timidez como algo a vencer tanto quanto a morte-, passei a frequentar a enfermaria da 1aDCC. E de tanto insistir, eis que um dia, o professor Ernani perguntou o meu nome, e ao respondê-lo, vi o seu olhar assustado: “Você é de Mossoró? Filho de Edilson Pinto?!”. No dia seguinte, às 07:00h, entendi o motivo daquele espanto. O professor Ernani entrava na enfermaria, carregando debaixo do braço um livro gasto pelo tempo. Era o diário de sua mãe, onde estava escrito: “Ernani ontem, brincou com fulano, beltrano e com Edilson Pinto”.

– Pois é, meu caro, seu pai foi um grande amigo meu de infância. E eu lamentei muito a sua morte.

Após dito isso, colocou o diário debaixo do braço direito e o meu ombro debaixo do seu braço esquerdo, e nunca mais me deixou longe dele. Estava concretizada a adoção feita no mais importante de todos os tribunais, o do coração… Realmente, não foi à toa que Lucas, no seu Evangelho (11: 10-11), diz: “Por que qualquer um que pede, recebe; e quem busca, acha… E qual é o Pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra?”.

Tem razão Vinícius de Morais, quando diz que a vida é a arte do encontro. Encontrei e ganhei ali um pai, um professor, um mestre, um amigo, um parceiro de futebol (Flamengo e ABC). Eram tantas as coisas em comuns, que ficava nítida a interferência divina. Resolvi fazer cirurgia e segui a docência. Eu precisava do meu pai adotivo para lutar contra a morte. E foi assim, durante trinta anos.

Inúmeras foram às vezes que operávamos juntos. Algumas me marcaram, como no dia que estávamos operando um caso extremamente difícil e chegou uma hora em que nem eu e nem ele sabíamos o que fazer, diante de tanto envolvimento e por estarmos tão perto da solução, na qual não conseguíamos enxergar… Aí uma voz, de fora do campo cirúrgico de um aluno do quinto período de medicina, disse: “Professores, que tal irem por aqui? Acho que vai facilitar a retirada desse tumor”.

Dr. Ernani, ao invés de mandar o aluno se calar – atitude bastante comum nesse mundo cirúrgico de tanta empáfia e soberba – olhou para mim e rindo disse: “Boa, garoto! Vamos por aqui mesmo, Dr. Edilson! Como é o seu nome? Flaubert Sena, você será um grande cirurgião”. O professor Ernani também era um grande profeta, viu naquele aluno, o que o futuro nos confirmou (o tempo presente no futuro, como lembrou T. S. Eliot).

Ele nunca perdia a capacidade de ensinar. Quando escrevi o meu primeiro artigo “Medicina no fundo do posso: o preço da desunião”, logo cedo recebi o seu telefonema: “Grande artigo, Dr. Edilson! Só um adendo: eu não teria colocado aquela parte”.

Ele se referia a uma crítica que eu tinha feito a uma determinada pessoa. Eu o indaguei: “Mas professor, não é verdade o que eu escrevi?!”. Aí veio a sua lição: “É, Edilson, é verdade. Mas existem verdades que a gente não deve dizer nem para nós mesmos!”. Ali estava outra qualidade do professor Ernani: lealdade aos amigos. Defendê-los sempre.

Outro momento mágico que vivi com o professor Ernani foi na aula da saudade da turma de medicina da UnP, no dia 14/07/2014. Fui escolhido orador daquela solenidade e resolvi fazer o discurso esclarecendo o porquê de ter escolhido a docência como missão de vida. Falei que, na infância, eu achava que minha mãe tinha enlouquecido por sair de casa tão cedo para trabalhar como professora em três turnos e era feliz mesmo ganhando pouco.

Depois, disse que passei a entender que essa “loucura” era contagiante, pois tinha visto esses mesmos sinais e sintomas em outros professores meus, como: Coquinho (história), Fernando Suassuna (biologia), Luiz Alberto (infectologia) Marcos Leão (hematologia), Aldo Medeiros (cirurgia), Celso Matias (clínica Médica), Francisco de Lima (clínica Médica)… Até chegar ao mais “louco” de todos: o professor Ernani Rosado, já que o melhor dos vinhos deve ser servido no final…

Quando escrevi o discurso, nunca imaginei que o professor Ernani Rosado estivesse na plateia. Não havia, a meu ver, motivos para ele estar ali. Mas ele estava. Ele e a sua inseparável companheira, D. Madalena – o ser humano mais simpático e educado que eu já conheci.

Quando entrei no auditório da UnP e vi Dr. Ernani sentado lá, o coração beta-bloqueado disparou… Mais uma vez Deus tinha aprontado das suas… Pois bem! Eis o trecho do discurso que li, naquele dia, chorando, como é comum quando o coração fica pequeno demais para aguentar tanta emoção:

“Meus queridos e eternos alunos,

Permitam-me falar daquele que mais me influenciou com a sua ‘loucura’, com a sua paixão: Prof. Ernani Rosado. O mestre de todos os mestres desse Estado. Com ele, aprendi filosofia, futebol, artes, cirurgia, enfim, muita coisa mesmo. Mas a maior lição aprendida foi a humildade.

Numa manhã de janeiro de 2010, recebo o convite para auxiliá-lo em uma cirurgia de hérnia inguinal. Tudo ocorreu sem problemas. E na sala de estar médico, após prescrever o paciente, ele olhou para mim e disse: ‘missão cumprida, Dr. Edilson! Esta foi a minha última cirurgia. Vamos para casa. E muito obrigado pela sua ajuda’. Terminava ali, uma das maiores carreiras cirúrgicas do nosso Estado e por que não dizer do nosso país. E de forma simples e humilde. Sem alardes, sem pompas. Apenas com a sensação de dever cumprido! Nunca esquecerei esse momento…

O professor Ernani tinha a maior característica dos grandes homens: a humildade.

No dia em que soube da sua cirurgia de urgência e da gravidade do seu caso, fiquei desnorteado. Vi que, mais uma vez, perderia meu pai… Corri para a UTI, onde ele estava internado. Ainda não tinham proibido visitas. Mesmo assim, falei com o médico de plantão, um ex-aluno meu, que disse: “Professor, na UTI em que eu estiver dando plantão, as portas estarão sempre abertas para o senhor”.

Agradeci. Fiquei parado, sem coragem de me aproximar. Meu ex-aluno, percebendo a minha insegurança – afinal, não queria me despedir dele assim, com a frieza das máquinas- disse: “Vá lá, professor. A sedação está bem superficial e se o senhor falar, ele vai ouvir”.

Tremendo, me dirigi ao leito e disse: “Prof. Ernani, eis um flamenguista que veio visitá-lo!”. Ele abriu os olhos, mesmo com um tubo na garganta, deu um sorriso. O sorriso de sempre. O sorriso alegre e tranquilo. O sorriso de um guerreiro que não estava perdendo a batalha para a sua doença, mas sim, que tinha vencido a guerra contra a insensibilidade, contra a desumanidade e a falta de carinho tão comum hoje em dia na profissão médica.

Ontem, meu mestre/pai descansou. Depois de lutar o bom combate. Semeando o sonho de lutar desesperadamente para mudar o caráter de um menino, através da educação, para mudar, assim, o seu destino e, consequentemente, o destino do mundo…

Quanto a mim, resta a tristeza da sua partida e também a alegria de ter convivido com alguém tão grande, que viveu muito à frente do seu tempo… E por falar em tempo, recorro-me agora a Wiliam Blake que, certa vez, escreveu: “Ver o mundo em um grão de areia/ E um paraíso numa flor selvagem. Segure o infinito na palma da sua mão/ E a eternidade em uma hora”.

Aquele último sorriso, de alguns segundos que ganhei naquela UTI, estará eternizado para sempre dentro do meu coração, pois “o que a memória ama, fica eterno!”.

Vá em paz, querido professor e pai, Ernani Rosado!

Francisco Edilson Leite Pinto Junior – Aluno do segundo período do curso de Direito da UnP, professor, médico e escritor. E agora, definitivamente, órfão de pai.

Mossoroense por ascendência, por nascimento e por vocação

Por Cid Augusto (O Mossoroense)

Ernani: entrevista para O Mossoroense mostra um pouco de sua vida (Foto: Web)

“Eu sou mossoroense por ascendência, por nascimento e por vocação”. Assim se define o médico Carlos Ernani Rosado Soares, 70, que no dia 1º de dezembro tomará posse na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, passando a ocupar a cadeira nº 2 daquela instituição, cujo patrono é a escritora Nísia Floresta Brasileira Augusta e pela qual passaram Henrique Castriciano, Hélio Galvão e Grácio Barbalho. O futuro imortal é médico pela antiga Faculdade de Medicina do Recife e licenciado em Língua e Literatura Inglesas pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). A sua obra é vasta e inclui desde escritos memorialistas a artigos publicados em revistas científicas do Brasil e do exterior. Ele foi professor de todos os médicos graduados na UFRN, até 1995, e ajudou a implantar a Faculdade de Ciência da Saúde da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), a qual lhe concedeu o título de Doutor Honoris Causa. Nesta entrevista, Ernani, um conformado sofredor do Flamengo, narra também como se tornou locutor esportivo da Rádio Iracema, de Fortal eza-CE, e da campanha de Dix-sept  Rosado para o governo do Estado,  em 1950.

* Entrevista originalmente feita pelo jornalista Cid Augusto, para o jornal O Mossoroense, veiculada na edição do periódico no dia 30 de novembro de 2004. É uma homenagem do Blog ao professor-médico-escritor Ernani Rosado, falecido (veja AQUI) ontem.

O Mossoroense – Até que ano você morou em Mossoró?

Ernani – Até 1938 ou 1939. Meu pai era comerciante, teve dificuldades no comércio, procurou um emprego e conseguiu. Foi nomeado para a primeira Previdência, que se chamava Caixa de Aposentadoria e Pensões dos Operários da Estiva (Capoe). Ele começou a carreira previdenciária em Areia Branca, na Rua da Frente. Essa permanência em Areia Branca, da qual tenho boas recordações, marcou uma coisa: o agente morava no Instituto. A sede ficava na frente e o agente morava nos fundos. Foi assim em Areia Branca, em Cabedelo, em São Luís e em Manaus.

O Mossoroense – Como foi participar do esforço pela implantação da Faculdade de Medicina da Uern?

Ernani – Muito gratificante, porque tudo o que diz respeito a Mossoró me toca profundamente. Eu sou mossoroense por ascendência, por nascimento e por vocação. Foi batalha por Mossoró, eu já estou na linha de frente.

O Mossoroense – Antes desse trabalho, você já era Doutor Honoris Causa da Uern…

Ernani – Já, porque na realidade, sem falsa modéstia, eu dei algumas contribuições à Uern. E ela, generosamente, reconheceu essas contribuições. Eu trabalhei em favor da Escola de Serviço Social. Eu e doutor Hélio Santiago. Posteriormente, contribuí com a implantação da Escola de Enfermagem, que deu um trabalho muito grande e hoje é uma das mais florescentes da Universidade.

O Mossoroense – Você se tornou médico por decisão pessoal ou encaminhamento familiar?

Ernani –  Opção pessoal. Não houve influência de ninguém lá de casa para coisa nenhuma. Houve até uma fase que eu pensei em ser engenheiro, porque sempre fui bom aluno de matemática.

O Mossoroense – Há muitos médicos na família e…

Ernani – Talvez tenha sido isso. Eu não sei exatamente, lá se vão mais de 50 anos, qual foi o fator preponderante dessa escolha.

O Mossoroense – E a formatura em Letras?

Ernani – Formei-me depois, em 1965. Eu me formei em medicina em 57, aí eu tinha o diploma de proficiência em inglês da Universidade de Michigan. Toda vida estudei inglês, sabia falar bem inglês, e havia uma lei que nos facultava a matrícula na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, fazendo apenas o último ano, que era a parte de didática. E eu fiz, me licenciei em Língua e Literatura Inglesas. Eu, Dalton Melo, dona Marieta Guerra, Patriota, Zé Melquíades.

O Mossoroense – É verdade que, até há poucos anos, você foi professor de todos os médicos formados pela UFRN?

Ernani – É verdade. Eu vim para cá em 1958 e a Faculdade de Medicina tinha começado em 1956. O cirurgião com quem eu trabalhava, doutor Travassos Sarinho, era professor da cadeira de Técnica Operatória, que começava no quarto ano, como começou em 1959. Então, eu peguei desde a primeira turma até 1995, quando me aposentei forçado pelas circunstâncias, porque sempre ameaçaram e continuam ameaçando o funcionalismo público, o professorado, e eu não podia correr certos riscos. Mas confesso que me aposentei constrangido.

O Mossoroense –  Dizem que a sua memória é prodigiosa. Então, vamos ao teste: qual o filme exibido na inauguração do Cine Pax?

Ernani – “Formosa Bandida”. Nós morávamos em Manaus e chegou a notícia de que havia sido inaugurado outro cinema em Mossoró, que ainda era do tempo do Cine Almeida Castro.

O Mossoroense – Como as notícias de Mossoró chegavam a Manaus naquela época?

Ernani – Longas cartas que demoravam muito tempo para chegar e telegramas inseguros, quando era o caso, porque naquela época, 42, 43, 44, morar em Manaus era morar no fim do mundo, era uma aventura cívica. Não havia praticamente comunicação. Telefone nem pensar. Navios lentos, que seguiam pelo rio Amazonas, aviação incipiente.

O Mossoroense – Como foi participar, na condição de locutor, da campanha de Dix-sept Rosado?

Ernani – Essa é uma página que relembro com extrema saudade, porque rádio é uma coisa que injeta, fica no sangue, nunca sai. Tenho muita saudade do meu tempo de rádio e, inclusive, um dia desses pensei em ir ao campo de futebol. Transmitir, eu acho que não saberia mais não, mas fazer o comentário do jogo, lá no campo, para reviver aqueles tempos, eu tenho vontade.

O Mossoroense – Você chegou a ser locutor profissional de rádio?

Ernani – Muito tempo. E bom!

O Mossoroense – Qual emissora?

Ernani – Rádio Iracema, de Fortaleza. Essa história é engraçada. Durante muito tempo eu fui filho único e possuía uma coleção de botões, mas não tinha com quem jogar, aí eu botava os dois times para jogar e jogava só. E como toda vida gostei de ouvir futebol, acompanhei meu pai com o Flamengo dele, de 1943. Eu transmitia os jogos de futebol de botão. Era aquela gritaria em casa. Aí o meu padrinho sugeriu: “Messias, cuidado, se não Ernani vai acabar ficando doido”…

O Mossoroense – Quer dizer que você é da “terceira” divisão?

Ernani – Não! Não! Eu ainda não entreguei os pontos… Pois bem, papai tinha um amigo na rádio, o nome dele era Peixoto de Alencar. Papai contando essa história para ele, Peixoto disse “Mande ele falar comigo lá na rádio, pode ser que ele tenha jeito”. E eu fui, e teve jeito. Comecei a trabalhar na Rádio Iracema, dando as notícias do Sul do País. Depois me mandaram fazer uns escritos, eu fiz. Depois comecei a me insinuar e, um dia, deixaram eu transmitir um pedaço de jogo. Eu me tornei um bom locutor. Eu era renomado no Ceará.

O Mossoroense – E onde entra a campanha de Dix-sept?

Ernani – Muito fácil. Na campanha de Dix-sept houve um mutirão da família Rosado para ajudar. Naquele tempo, não havia tanta facilidade quanto há hoje. Eu vou lhe dar alguns exemplos que marcaram a época de Dix-sept. Seguramente foi a primeira campanha com músicas de campanha, que tio Duó (Duodécimo Rosado) conseguia no Rio de Janeiro, através de amigos.

O Mossoroense – Quem eram esses amigos?

Ernani – Outro dia conversando com uma pessoa, ela me disse que aquelas letras eram de Elano de Paula, irmão de Chico Anísio. Os discos de acetato eram rodados na campanha, na amplificadora e nos jeeps volantes. Em Natal, o grande locutor da campanha foi o jornalista Marcelo Fernandes. Por todo Estado, nós tínhamos Zé Leite de Aragão Mendes, Edmilson Andrade e Jin Borralho Boa Vista. Eu fiquei em Mossoró, na amplificadora, que era ali, perto da Câmara Municipal. O estúdio era lá e as bocas de som ficavam na Rua do Comércio, na Praça do Pax e em outros pontos estratégicos. Hélio Santiago redigia os textos. Eventualmente eu fazia campanha nos bairros.

O Mossoroense – Então, você foi um dos pioneiros na locução de campanhas políticas.

Ernani – Nessa parte de locução política, acredito que sim.

O Mossoroense – Voltando à Faculdade de Medicina, por que você foi contra a realização do vestibular este ano?

Ernani – Eu tinha receio de que acontecesse o que aconteceu. O serviço público tem uma série de obstáculos, uma liberação de verba aqui, uma firma que não entrega acolá, uma licitação que não se completou, essas coisas. O reitor José Walter achou que devia fazer – ele realmente é muito obstinado – e fez o vestibular. Como os equipamentos ainda estavam para chegar, não havia como se ministrar as aulas práticas do primeiro período. Aí a gente teve de adotar uma solução para contornar o problema. Qual foi essa solução? Foram colocadas para o primeiro período disciplinas que não exigem laboratório. O importante é que não haverá prejuízo.

O Mossoroense – Qual a expectativa para a posse na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras?

Ernani – Essa Academia de Letras… Eu sou um homem amante das letras, eu não sou um literato. Os meus escritos são escritos esparsos. São instantes de vida, são recordações. A minha vertente de escrita é uma vertente essencialmente memorialista. As honrarias que recebi de meus alunos na Faculdade de Medicina, em ser paraninfo e dar aulas da saudade. Eu tenho uma coleção grande disso. Na realidade, elas devidamente enfeixadas dão uma panorâmica na vida médica do Estado e do País. Eu também escrevi a respeito de vários vultos da medicina potiguar que já nos deixaram do doutor Sarinho, do doutor Silvino Lamartine, do primeiro Raul Fernandes da medicina potiguar – houve três -, Varela Santiago, Sérgio Guedes. A memória de vários médicos ilustres foi resgatada por mim.

O Mossoroense – Mas a sua produção acadêmica também é vasta.

Ernani – Eu tenho mais de 40 trabalhos publicados no Brasil e no estrangeiro. E tenho também uma coisa que me agrada muito, porque é um exercício muito interessante: eu fui honrado através do tempo em fazer sucessivas apresentações de livros.

O Mossoroense – O elogio ao patrono e ao seu antecessor já está pronto?

Ernani – O elogio ao patrono e aos antecessores, que são três. Sabe quem é o meu patrono? Nísia Floresta Brasileira Augusta. E sabe quem foi o primeiro ocupante da cadeira? Henrique Castriciano, primeiro presidente da Academia, seguido por Hélio Galvão, outra grande figura, e por Grácio Barbalho, a quem eu estou substituindo. O meu grande problema é enxugar o discurso. O negócio é comprido.

O Mossoroense – A Academia tem alguma finalidade prática?

Ernani – Poderia ter mais. A reunião dos acadêmicos com maior regularidade ensejaria a realização de uma série de movimentos culturais. São cabeças muito boas que estão ali reunidas. A academia é um corte transversal da intelectualidade, então, quando ela aceita e pode receber as mais variadas tendências intelectuais, pode atuar em qualquer campo. Talvez esteja faltando um diálogo maior entre a academia e a sociedade.

O Mossoroense – Quem lançou a sua candidatura foi Vingt-un…

Ernani – Ave Maria! Foi quem inventou essa candidatura. E teimar com doutor Vingt-un dá um trabalho danado.

O Mossoroense – Você foi eleito por unanimidade, logo após uma crise entre os grupos de Vingt-un e de Diógenes da Cunha Lima, num episódio que culminou com a vitória de Elder Heronildes. O seu nome pacificou a Academia?

Ernani – Qualquer candidatura que doutor Vingt-un lance tem um respaldo muito grande. Por outro lado, eu vivo nesta cidade (Natal) há quase cinqüenta anos e tenho muitos amigos dentro da academia, amigos pessoais, e eu fui a cada acadêmico, porque a academia é, acima de tudo, um exercício de humildade e de pertinácia.

O Mossoroense – Você morou em Recife, Manaus, Fortaleza…

Ernani – Falta ainda: Areia Branca, Cabedelo, Natal pela primeira vez, em 1941, São Luís do Maranhão, Manaus, Belém do Pará, Fortaleza, Natal a segunda vez, em 1951, Recife, Maceió e Natal pela última vez, em 1958, de onde não saí mais.

O Mossoroense – Por que Natal?

Ernani – Nós estávamos todos cansados de andar para cima e para baixo. Nessa época, eu já estudando medicina, passava as férias em Natal trabalhando com doutor Sarinho, e doutor Sarinho me convidou para trabalhar com  ele em Natal logo que terminasse o curso. Papai perguntou se eu viria para Natal, eu disse que sim, e ele pediu transferência, terminando aqui o ciclo dele como funcionário da Previdência.

O Mossoroense – Família?

Ernani – Uma beleza. Minha mulher e meus filhos fazem o encanto da minha vida, ao lado do meu irmão, que é o único irmão que eu tenho, Roberto. E dentro de tudo isso, uma saudade enorme de meus pais.

O Mossoroense – Esquecemos alguma coisa?

Ernani – Esquecemos! Você falou mal do meu Flamengo, deu uma insinuação altamente maliciosa e, antes do final, eu quero dizer que times como o Flamengo e o ABC, que também anda ruim das pernas, são velhos guerreiros. E os velhos guerreiros nunca morrem.

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Morre em Natal o médico mossoroense Ernani Rosado

Faleceu hoje em Natal, o médico e professor Ernani Rosado, 82.

Ernani: perda (Foto: Web)

Estava internado há alguns dias na Casa de Saúde São Lucas.

Deixa legado incomensurável e muitos amigos.

Mossoroense, um dos fundadores da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do RN  (UFRN), ele foi professor de todos os médicos graduados na UFRN, até 1995, e ajudou a implantar a Faculdade de Ciência da Saúde da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), a qual lhe concedeu o título de Doutor Honoris Causa.

Militou na radiofonia esportiva, enveredou pela literatura e compôs a Academia Norte-rio-grandense de Letras (ANL).

Foi sepultado no final da tarde de hoje em Natal, no Cemitério de Nova Descoberta.

Que descanse em paz.

O homem e alguns depoimentos

Médico e professor Francisco Edilson Leite Pinto Júnior:

“Perdi meu PAI quando tinha três meses de idade em um acidente de carro. Resolvi adotar outro PAI nos tribunais do coração quando estava fazendo Medicina aos dezenove anos. Hoje, ele resolveu partir novamente. E pela segunda vez estarei enterrando-o  Estou muito triste”

Médico Ion Andrade:

“Uma perda. O professor Ernani tinha uma memória prodigiosa. Uma vez, vejam só, quinze anos depois de formado, ou mais, encontrei com o dr. Ernani. Ele me disse com aquele jeito afável e amigo:

– Ion, o seu nome não está em nenhuma placa.

Perplexo com a capacidade de observação do professor eu disse:

– É verdade professor. Eu fiz um estágio rotativo de pediatria fora, fechei durante o ano em que fui presidente do DVR, as disciplinas da manhã num semestre e as da tarde no outro e, por isso, colei grau em separado.

Então, incrivelmente, naquela altura dos quinze, vinte anos de formado, só duas pessoas sabiam que o meu nome não constava de nenhuma placa, eu e o professor Ernani. Então aquele ser humano notável tinha um zelo por todos os seus alunos. Independentemente do tempo.”

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