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Do Estatuto da Ribeira às Histórias de Trancoso

Por Marcos Pinto

Fotografia ilustrativa de Paulo Romão
Fotografia ilustrativa de Paulo Romão

Os antigos alpendres sertanejos são envolventes repositórios de lendas, superstições, costumes e ditados forjados e disseminados à farta pelos ermos rincões nordestinos. A contação de histórias e estórias ocorria geralmente ao redor de uma ruma de vagens de feijão seco, espalhadas sobre “tangas” de antigas redes de dormir.

Os participantes da “debulha” postavam-se ao redor do amontoado iluminado por fumegante lamparina sertaneja conhecida popularmente como “piraca”, que tinha um anteparo de vento a proteger o fumacento pavio, abastecido por querosene. Neste ajuntamento para debulha do feijão e, também do milho seco, servia-se saborosas batatas-doces e macaxeira cozida, saboreadas com café sertanejo, feito de grãos devidamente torrados em fogões à lenha e pilados até ficarem reduzidos ao pó.

Foi neste cenário simples e humilde que surgiu o famoso “Estatuto da Ribeira”, vinculado à “indústria do criatório” nos sertões do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Bahia. Este fantástico Estatuto da Ribeira busca salientar lógicas vernáculas intrínsecas e relacionadas aos ditames da honra e do costume sertanejo. É comum ouvir-se do sertanejo a afirmativa que resume o senso de Justiça impregnado: “Aqui nesse sertão justiça só mesmo no cano da espingarda ou na ponta da lambedeira. A gente não pode ‘confiá’ em ninguém a não ‘sê’ na gente mesmo.”

O Estatuto da Ribeira, a contação das Histórias de Trancoso e, também de Camões (diz-se “Camonge” na corruptela sertaneja), estão literalmente atreladas à zona destinada ao criatório de gado no nordeste. Foi dividido por Capistrano de Abreu (1907/1954) em dois sertões: o “De dentro” e o “De fora”.

Se a Bahia ocupava os “Sertões de Dentro”, escoavam-se para Pernambuco os “Sertões de Fora”, começando na Borborema e alcançando o Ceará, onde confluíram a corrente baiana e pernambucana. Ao cunhar a expressão “civilização do couro,” Capistrano de Abreu eternizou o cotidiano dos “sertões de dentro” e “de fora” da Serra da Borborema, dando pistas fundamentais para compreendermos esse cenário e costumes.

Aqui em nosso sertão Oeste do potiguar temos dois emblemáticos e exponenciais referenciais toponímicos conhecidos como “Sertões do Patu de fora” e “Sertões do Patu de Dentro.” Neles destacaram-se dois grandes patriarcas: o velho “Lino da Mapironga”, homem virtuoso e de humildes posses, e o irascível, temido e respeitável “Lino da Gameleira” cujo nome civil (se não me falha a memória) é Lino José Felipe.

Dentro dessas almas rudes, a grandiosidade da honra sobrepujava tudo. Aceitavam a inexorável morte com uma alma puramente sertaneja. Talvez vivessem intensa contenda íntima diante alguns desafios de sangue e de honra.

As histórias de Trancoso

O termo “Trancoso” surgiu no séc XVI com o português Gonçalo Fernandes Trancoso (1520-1585) escritor que provavelmente viveu em Lisboa, e escreveu sua obra “Contos e Histórias de proveito e exemplos.” Teve sua primeira edição em 1575, com dois capítulos, só se encontrando completa com três capítulos em sua edição de 1595.

Os contos narrados dentro da tradição envolvem a abstração, fantasia e subjetividade. É do ser humano esse caráter imaginativo, criador de realidades, com intenções fantasiosas ou não.

Inté.

Marcos Pinto é advogado e escritor