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Tibau, retrato de uma pandemia

Por Carlos Brilhante

No desenrolar do tradicional veraneio de janeiro, Tibau figura como uma natural rota de fuga de grande parte da população mossoroense e oestana, dada às suas belezas naturais e acolhimento típico dos moradores.

Em virtude da pandemia que assola a totalidade do globo terrestre, da crise humanitária que leva a óbito milhares de manauaras e das mais de 200 mil famílias enlutadas em solo brasileiro, até hesitei por um lapso de tempo em pensar que haveria mais comedimento no espírito do veranista que inunda tais plagas. Se constata entretanto, que vivemos além de uma crise sanitária, uma crise de valores de empatia mínima, de respeito ao próximo, de solidariedade natural.empatia

Há uma ruptura do processo civilizatório agravado com esta doença que potencializa o lado obscuro de uma parcela social.

Em Tibau, cidade que já vive às voltas com altos índices de transmissibilidade e infecções pelo COVID-19, vemos o cristalino espírito que parece contagiar a alma do brasileiro: o da negação de toda realidade dos fatos. Parece que nada está acontecendo lá fora, ou que o veranista das terras das areias coloridas está imune ao vírus ou que já possui a disputada vacina.

Nas praias, não se vê a mínima alma usando máscara. Sim, a mínima coisa que um ser humano pode empreender em prol de sua salubridade, é negligenciada como se fosse um encargo hercúleo. Um trabalho homérico, algo impossível de ser concretizado.

Esse descuido é estendido aos estabelecimentos comerciais, que a despeito dos cuidados de alguns comerciantes da localidade, são infestados por uma turba (de jovens, principalmente) alheia a qualquer cuidado básico.

Nas casas rodeadas de alpendres vemos pequenas festas privadas, até então adstritas ao vínculo familiar (o que quero crer) ou nitidamente não. Festas com grande aglomeração de pessoas, com músicas ao vivo, algumas com bandas contratadas, sem respeito ou critério mínimo algum.

Monte de adolescentes e jovens ao redor de um frenético paredão de som, se esgrimam em suas coreografias, numa comemoração frenética da vida. Vida esta tão disputada por pessoas a espera de um leito, de um cilindro de oxigênio, de um respirador, de uma vacina, de um tratamento digno.

Tibau, se tornou neste veraneio um grande caldeirão de pessoas em suas diversas idades e cidades tendo contato diário  umas com as outras, pessoas estas que retornarão aos seus lares, as suas localidades, ao abraço descuidado no ente que ficou, no amigo que não veio, na pessoa que inocentemente contrairá a doença e não resistirá. Falo de uma realidade local, por mim conhecida, mas e em Areia Branca? E em Pipa? Nas cidades litorâneas da Paraíba? No badalado litoral baiano? No Rio? No país?

Deus nos livre do que nos espera em fevereiro no carnaval, e seus resultados em meses subsequentes. Acabamos de abrir a fresta da porta de 2021, ano esse que poderá nos levar à uma luz no fim do túnel ou a um abismo sem perspectivas. Pela atitude do brasileiro médio não vejo prognósticos de esperança, no mais, vou fazendo a minha parte nos cuidados básicos e me alienando dessa realidade distópica.

Carlos Brilhante é advogado