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Drogas, mitos e ciência na era dos absurdos

Por Roncalli Guimarães

Proponho-me a prestar alguns esclarecimentos à população em geral sobre a dependência química, assunto esse muito propagado nos últimos dias em nossa cidade pela mídia e redes sociais, de forma distorcida. Infelizmente, essa polêmica acabou sendo produzida por um colega psiquiatra.

Antes de tudo há uma diferença entre usuário de droga e dependente químico. Droga não é prática ou problema da sociedade atual. Praticamente todas as civilizações tiveram uso de alguma droga, seja ópio ou maconha – desde a antiguidade.

No início, o uso de drogas tinha um motivo místico, religioso e servia inclusive como um dos motivos de organização social. As pessoas acreditam que a alteração da consciência era um presente dos deuses.Com o final da Idade Média e o início da Idade Moderna, as sociedades foram se organizando e começaram a migrar do campo à formação de cidades; surgiram as grandes navegações e com ela a destilação de álcool em alta escala. Ou alguém poderia imaginar que aventureiros desbravassem os oceanos, enfrentando medos e tempestades de cara limpa?

Com a Revolução Industrial, a divisão de classes ficou mais nítida, com os trabalhadores imprensados em guetos sub-humanos. Daí, passaram a enfrentar esse enorme nível de estresse e sofrimento com o uso de drogas de forma recreativa e também pelos motivos sociais e psicológicos.

Evoluindo mais adiante veio a contracultura na década de 60 e com ela a explosão do uso de drogas em todas as camadas sociais, sem citar os períodos de guerra, como a do Vietnã, onde houve uma disseminação do uso de heroína.

Relatei esses fatos para neutralizar a hipocrisia quando se fala de drogas.

Cientificamente o uso, abuso e males provocados por substância foram investigados e hoje à luz dos conhecimentos atuais foram descobertos fatores genéticos e psicossociais. No caso da diferença química, critérios clínicos bem fundamentados definem a doença que acomete um percentual  dos usuários das mais diversas substâncias. Portanto há uma tendência atual de descriminalização, de políticas de redução de danos e prevenção do uso em algumas populações como adolescentes portadores de deficiência mental e grávidas.

Quero enfatizar com isso a minha preocupação com possível retrocesso quanto a políticas sobre drogas, já que um médico psiquiatra e presidente de partido divulga informações delicadas, culpando drogas como pano de fundo para a desestruturação do ensino público, que para mim caminha paralelamente com a absurda tentativa desde governo de acabar o ensino de filosofia e sociologia.

Não podemos formar advogados, juristas, sem que eles saibam filosofia clássica. Não podemos formar engenheiros sem que conheçam a geometria analítica descoberta por René Descartes, que era um filósofo. Não podemos formar psiquiatras que desconheçam as ciências sociais ou os conceitos filosóficos de fenomenologia que até hoje pautam os critérios diagnósticos de psiquiatria.

Se a forma de pensar dos representantes desse governo continuar com esse posicionamento, iremos regredir. Excluir a ciência é voltarmos a acreditar nos mitos, se é que me entendem.

Roncalli Guimarães é médico Psiquiatra do Centro de Atenção Psicossocial em Álcool e Drogas CAPS AD II – Mossoró