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O desprazer da conquista

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

“E eu estava tão feliz que me encolhi no canto do táxi de medo porque a felicidade dói”. (Clarice Lispector – Água viva)

Felicidade dói? O que Lispector queria dizer com isso. Confesso que, a primeira vista, não entendi. Mas, isso não me perturbava, afinal “não se dispõe de modelos para ler, nem para entender Clarice Lispector”. Suas narrativas destacam-se por deslocar-se constantemente entre as “aleluias e a agonia do ser”. E não existe nada mais angustiante do que a procura da felicidade pelo homem.

“Todos os homens procuram ser felizes”, dizia o filósofo Pascal, “isso não há exceção”. Até mesmos os suicidas, quando tentam se matar, fazem-no para escapar da infelicidade, ou seja, pelo menos para se aproximarem, tanto quanto possível, de uma certa felicidade.

A felicidade ensinava Aristóteles: “é o desejável absoluto”.

Então, por que algo tão procurado e tão desejado causa tanta dor? Recorremos a Platão: “O desejo é falta”. Só desejamos o que não temos; porém, “assim que um desejo é satisfeito, já não há falta, logo já não há desejo”. Logo já não há mais felicidade a procurar.

Vejam a história dos apaixonados: “Paixão é fome”. Paixão é falta. Porém, quando conseguimos o nosso objeto de desejo, a nossa paixão que, ás vezes, passamos a vida toda, procurando desesperadamente conquistá-la, – vivendo na esperança de que um dia a possuirmos – quando, realmente, conquistamos esse objeto tão desejado, ele se desfaz; aí viveremos a “tristeza do objeto perdido”.

Já não há mais esperança. Essa é a loucura da conquista da paixão e da loucura pela procura, desesperada, da felicidade.

Foi com Rubem Alves que aprendi o terrível verso de T. S. Eliot: “Deus, livra-me da dor da paixão não satisfeita, e da dor muito maior da paixão satisfeita”.

A paixão não satisfeita é falta, é frustração; a paixão satisfeita é tédio. Agora entendo Lispector. Agora entendo, o que a célebre frase de Schopenhauer anunciava: “A vida oscila, pois, como um pêndulo, da direita para esquerda, do sofrimento ao tédio”. Agora entendo a história do PT: “O desprazer da conquista”.

NENHUM partido no Brasil quis tanto conquistar o poder como o partido dos trabalhadores – felicidade, desesperadamente. Lembro-me de que o ano era 1989. Eu, juntamente com Alexandre Mota, Íon de Andrade e tantos outros fazíamos parte daqueles estudantes de medicina que não víamos motivos para ter medo de ser feliz. Como éramos inocentes – a busca da felicidade causa medo sim, pois causa dor.

Tentávamos a todo custo, sempre através do convencimento e do debate, aumentar as nossas fileiras de combate para persuadir a classe médica a votar naquele operário, carrancudo, que tinha dificuldade de rir, que se vestia ainda com macacão, com a barba e cabelos mal cortados, que viajava em “pau de arara”, expandindo esperanças pelo país.

Felizmente – é triste reconhecer hoje – venceu o caçador de marajá. Será que estou ficando louco? Deveria ter dito: infelizmente? Acredito que não, pois foi essa derrota, juntamente com as outras duas seguintes para FHC, que nos manteve – embora com a dor da conquista não conseguida – acesa a chama da esperança de que um dia os trabalhadores iriam governar esse país.

O ano agora é 2003. Lula após ganhar a presidência mudou: vive rindo, vestindo ternos “Giorgio Armani”, bebendo champanhe francês, adora um avião e adora o poder. Não sei pra que? Será que ele não tinha mudado antes da eleição? A paixão é cega!

A presidência – a grande paixão, desesperadamente, procurada pelo PT, uma vez conquistada, transformou a nossa esperança. Já não há mais falta. Todavia, há muita frustração: dos aposentados, dos funcionários públicos, dos desempregados, dos que um dia sonharam que esse país teria dias mais brilhantes, pois uma estrela brilharia lá no céu.

Treze anos se passaram. Já não existe mais paixão. Já não existe mais desejo. Entretanto, mais ainda do que frustração: há o tédio! Tédio de ver que a presidência não mudou de rumo, nem de rota.

Não vou cometer a insanidade, bárbara e absurda, de pedir a volta de FHC. Embora, hoje, acho que ele era menos tedioso do que Lula. Nunca pensei que um dia votaria no PSDB contra o PT. A presidente Dilma conseguiu essa façanha…

Tinha razão Lispector: “A felicidade dói!”.  A decepção também dói mais ainda…

Francisco Edilson Leite Pinto Junior é professor, médico e escritor.

* Texto republicado 11 anos depois com correção dos dois últimos parágrafos.