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Cronofobia social – a discriminação que se sente

Por Marcos Araújo

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Vivemos tempos em que os rótulos ainda precedem os talentos. Um deles é o da idade. Há uma “doença” silenciosa na psiquê social quanto à idade, um idadismo ou ageísmo; uma discriminação com base na idade.

A capacidade não está nos fios brancos, nem na juventude do rosto. Ela reside na visão, no senso de justiça, na paixão pelo bem comum e na coragem de agir quando muitos preferem se calar.

Como disse Victor Hugo, “os quarenta anos são a velhice da juventude; os cinquenta, a juventude da velhice.” O que realmente conta é a disposição interior de fazer a diferença. “A juventude não é um tempo da vida; é um estado da alma”, dizia Samuel Ullman.

Por pura ignorância, a sabedoria é, com frequência, confundida com a passagem do tempo, e a inexperiência, equivocadamente, atribuída à juventude. Quem assim fala desconhece que a História está repleta de provas de que a idade, por si só, nunca foi determinante para o exercício da liderança, da coragem e da capacidade de transformar realidades.

Jovens já fizeram história no mundo, a exemplo: Abraham Lincoln foi eleito deputado (membro da Câmara dos Representantes dos EUA) pela primeira vez em 1847, aos 38 anos de idade; Winston Churchill foi eleito pela primeira vez para o Parlamento britânico em 1900, aos 25 anos de idade.

E idosos, ao mesmo tempo, cometeram muitos erros, não se podendo tê-los como “experientes”. Richard Nixon, George Bush e Donald Trump são considerados exemplos de gestões desastrosas. Apesar de separados por décadas e por estilos muito distintos de governo, os três presidentes cometeram erros que têm traços estruturais em comum. Nenhum deles errou apenas por convicção ideológica ou por acaso.

No campo das ciências, podemos citar vários idosos que continuam influenciando e mudando o mundo com suas pesquisas: Noam Chomsky, com mais de 90 anos; James Watson, codescobridor da estrutura do DNA, com 97 anos, continua pesquisando; Jane Goodall,  etóloga e conservacionista, com mais de 90 anos, continua sua saga da preservação ambiental e bem-estar animal; Roger Penrose, ganhador do Nobel de Física em 2020 (aos 89 anos), ainda dá aulas…

A juventude, por sua vez, tem impulsionado descobertas científicas surpreendentes nas últimas décadas. Destaques globais por pesquisas inovadoras, prêmios ou startups científicas transformadoras podem ser citados: Jack Andraka (nascido em 1997 – EUA), descobriu, aos 15 anos, um teste barato e rápido para diagnóstico de câncer de pâncreas; Gitanjali Rao (nascida em 2005 – EUA), inventora com apenas 18 anos, desenvolveu ferramentas para detectar chumbo na água; Sarah Al-Amiri (nascida em 1987 – Emirados Árabes), líder científica da primeira missão interplanetária árabe, a sonda Hope para Marte, sendo a Ministra de Ciência e Tecnologia dos Emirados com menos de 35 anos; Nina Tandon (nascida em 1980 – EUA), fundadora da Epibone, empresa que cria ossos humanos a partir de células-tronco; Boyan Slat (nascido em 1994 – Holanda), criador da The Ocean Cleanup, que utiliza engenharia e ciência para remover plástico dos oceanos…

No campo político, há também quem, por preconceito ou hábito, julgue que a juventude carece de maturidade para liderar, como se a força das ideias e o brilho do ideal dependessem do número de aniversários. Outros, de igual modo injusto, desconsideram a experiência dos mais velhos, como se o tempo vivido fosse sinônimo de obsolescência.

Tal visão, quanto aos jovens, alimenta uma cultura que exclui talentos em ascensão, impede a renovação de ideias e perpetua velhas práticas. Igualmente é preconceituoso julgar que os mais velhos já não têm mais a contribuir. A verdadeira justiça está em avaliar pessoas por suas ideias, valores, integridade e compromisso com a coletividade — não pela idade contida no RG.

A reflexão sobre A IDADE quando se fala na ocupação dos espaços públicos deve ultrapassar as ideologias políticas, as bandeiras partidárias e os rótulos apressados.  “O poder revela o homem.” Essa frase de Maquiavel continua atual.

Subestimar o jovem é tolher o futuro. Descartar o velho é renegar as raízes. Como afirmou Victor Hugo: “Não há nada mais poderoso do que uma ideia cujo tempo chegou.” E essa ideia pode brotar tanto da mente inquieta de um jovem, quanto da sabedoria tranquila de um ancião.

Se jovens, ou idosos, o cargo não vai tornar ninguém sábio. O tempo não garante ética. A experiência, sozinha, não gera consciência. O que define a boa liderança é a humildade em ouvir, a coragem em decidir com justiça e a ética inegociável na hora de agir.

A capacidade e a sabedoria nascem do caráter, do preparo, da visão e da coragem. A juventude pode ser ousada e transformadora. A maturidade pode ser prudente e inspiradora. O que importa não é quando se chega, mas como se chega, e com que propósito se caminha.

Marcos Araújo é advogado, escritor e professor da Uern

“Sem esperança, tudo está perdido”

Por Zildenice Guedes

Divulgação da editora Sextante
Divulgação da editora Sextante

O ano de 2023 está se despedindo, e acredito que para muitos, é um misto de sentimentos. Afinal, as sensações são muitas, encerrar ciclos, iniciar outros, refazer planos, rever metas e objetivos que foram ou não alcançados, dentre tantas outras questões que essa época do ano nos provoca.

Acredito que há um sentimento que de diferentes formas, alcança muitos de nós seres humanos, a necessidade de renovar a Esperança. E embora, reconheço, pareça que essa possibilidade ou sentimento esteja tão distante em decorrência de tantos fatos e circunstâncias (as guerras que estão acontecendo nesse momento em diversos lugares do mundo; a falta de compromisso ético e político com a vida humana e de outras espécies; a desigualdade social, dentre tantas outras), reconheço também, que esse sentimento nos persegue ao longo da nossa história humana na terra. E ele se cruza também com as experiências vivenciadas pelas outras espécies. E na verdade, trata-se do nosso instinto de sobrevivência que sempre tenta agarrar-se a alguma coisa, ou a algo que está além do nosso entendimento.

Pois bem, gostaria de convidá-los a conhecer a obra de Jane Goodall “O livro da Esperança”. Confesso que adquiri o livro influenciada pela minha formação em Ciências Ambientais, afinal, conhecer a biografia de uma mulher que há mais de meio século trabalha pela preservação e conservação da natureza, pelo respeito e defesa das outras espécies, já eram motivos suficientes que me fizeram adquirir a obra.

ACONTECE, que “O livro da Esperança” está para além, muito além do que eu mesma poderia imaginar. Trata-se de uma mulher brilhante como cientista, ativista ambiental referência para as atuais e futuras gerações, e inspiradora de uma forma muito singular, para que possamos entender que cada um de nós temos um propósito para estar aqui, nesse lugar em que estamos, fazendo a diferença e nos agarrando ao sentimento de que a vida vale a pena quando a dedicamos a uma causa em que acreditamos e isso tem um poder transformador.

O livro foi escrito a partir do diálogo entre Jane e Douglas Abrams. Eles o iniciaram antes da pandemia, e alguns eventos inesperados marcaram esses encontros, alguns presenciais, outros remotos, e que envolveram perda de pessoas queridas para ambos.

Então, o livro é um passeio pela trajetória de Jane, sua vida familiar, seu início como pesquisadora na África para observar os primeiros chimpanzés, o apoio da sua mãe e do seu primeiro orientador (ambos foram os primeiros a acreditar no sonho de Jane e a apoiarem incondicionalmente), as perdas dolorosas que ela sofreu e o quanto todas as suas experiências com os humanos e as outras espécies, a tornaram mais humana, mais convicta de que há um propósito maior para estarmos no planeta, e sermos parte dele.

Atualmente, Jane tem 89 anos e anda pelo mundo contando sua história, influenciando jovens e outras gerações ao redor do mundo para que acreditem que o planeta Terra é a nossa casa. O ser humano é capaz de grandes feitos transformadores, e por isso a regeneração do planeta conta com o compromisso e senso de responsabilidade de cada um.

Então, se está procurando um livro para lhe inspirar, para provocar em você os melhores sentimentos, para emocionar, para pensar em não desistir do que você acredita, leia e conheça a grandiosa Jane Goodall.  Essa mulher é uma lenda que está viva e jamais será apagada.

Zildenice Guedes é professora-doutora em Ciências Sociais e pós doutoranda em Ciências Ambientais