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“Jesuíno Brilhante” – o primeiro dos grandes cangaceiros

Novo livro (Foto: BCS)

O escritor Honório de Medeiros oferta-nos um novo trabalho que mexe com as entranhas do sertão, poder, cangaço e coronelismo.

Dessa feita, a sua viagem mergulha no século XIX, para investigar a vida de Jesuíno Brilhante, personagem controvertido da caatinga paraibano-potiguar.

Sem rodeios, escapando de estereótipos e duelando contra o lugar-comum da deificação do personagem-título, Honório de Medeiros nos leva a conhecê-lo, seu tempo e lugar: nosso sertão.

É minha leitura especial da semana.

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Honório de Medeiros anuncia 3º livro da trilogia do cangaço

Durante o Carlos Santos – AOS VIVOS! dessa segunda-feira (22), às 21h, em nosso endereço na plataforma do Instagram – //www.instagram.com/blogcarlossantos -, o escritor Honório de Medeiros anunciou seu terceiro livro com a temática do cangaço.

Em breve estará à venda.

Focalizará Jesuíno Brilhante (Jesuíno Alves de Melo Calado, Patu-RN, 1844; Belém do Brejo do Cruz-PB, 1879), cangaceiro romantizado, mas que ele promete revelar por inteiro, em todas as facetas.

“Massilon – Nas veredas do cangaço e outros temas afins” e “Histórias de cangaceiros e coronéis” foram os outros títulos anteriormente publicados.

Acompanhe a integra do nosso bate-papo no vídeo dessa postagem, em que ele também fala sobre família, política, gestão pública, experiência na docência, adolescência, filosofia, sonhos, direito e jornalismo.

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Os estreitos laços entre o cangaço e o coronelismo

Um dos articulistas perpétuos do Blog Carlos Santos, o professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN Honório de Medeiros prestou significativo depoimento ao pesquisador do fenômeno do cangaço, como ele, Aderbal Simões Nogueira.

O vídeo constante dessa postagem, na íntegra, é o resultado dessa entrevista concedida por Honório a Aderbal, que trabalha como documentarista, tendo o cangaço como conteúdo predominante.

Conexões entre política, coronéis e cangaceiros, personagens que estão interligados no ataque do bando de Lampião a Mossoró, a produção literária sobre o tema, o aprofundamento científico à temática, memórias do grande estudioso (in memoriam) Paulo Gastão, a Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC), novo livro que desnudará o cangaceiro Jesuíno Brilhante e outros aspectos subjacentes estão no depoimento.

Não teria havido a invasão de Mossoró se não fosse Massilon (cangaceiro) – dispara.

Honório de Medeiros chegou a escrever um livro tendo esse personagem como foco principal. Porém seu trabalho vai além da historicidade de um bandido, pois avança em outras direções que se interligam.

Formam um quebra-cabeça complexo sobre o poder no sertão nordestino na primeira metade do século passado, bem como os laços entre coronéis e bandos de facínoras.

Aproveite essa ótima entrevista.

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“Jesuíno Brilhante” – O primeiro dos grandes cangaceiros

Honório: cangaço (Foto: arquivo)

Prepare-se.

Em abril próximo, com data, local e horário a serem definidos, receberemos novo livro produzido pelo escritor Honório de Medeiros.

Ele promete desnudar um personagem intrigante e romantizado desde o século XIX: o cangaceiro Jesuíno Brilhante.

A publicação “Jesuíno Brilhante – O primeiro dos grandes cangaceiros” está quase pronta.

Jesuíno Alves de Melo Calado (Patu-RN, 1844; Belém do Brejo do Cruz-PB, 1879) é visto como um dos precursores do cangaço – fenômeno do banditismo no Nordeste do Brasil.

Honório de Medeiros já lançou dois livros anteriormente, com foco na mesma temática, que mistura coronéis e cangaceiros: “Massilon – Nas veredas do cangaço e outros temas afins” e “Histórias de cangaceiros e coronéis”.

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Cangaço e coronelismo no Rio Grande do Norte

Por Honório de Medeiros

O coronelismo e o cangaço, tão característicos de certo período histórico do Sertão nordestino brasileiro, mais precisamente de meados do século XIX a meados do século XX, são manifestações do Poder, de como ele é obtido, mantido e até mesmo combatido, em intrincada trama, ao longo do processo histórico.

A forma como o Poder é instaurado diz respeito a fatores circunstanciais, tais quais o avanço tecnológico ou cataclismos ambientais, mas a essência, qual seja a presença da imposição da vontade de alguns sobre outros, permanece a mesma desde que o Homem surgiu na face da terra.As narrativas acerca do coronelismo e cangaço devem ser analisadas levando-se em consideração o fator de “ocultamento” próprio da atuação dos que detêm o Poder. Nesse sentido, escrever, dizer, omitir, acrescer, manipular, enfim, tudo isso e mais, cumprem o papel de narrar como os fatos ocorreram a partir da perspectiva de quem pode impor sua percepção das coisas e dos fenômenos, em detrimento da verdade.

Sempre tratamos o coronelismo e o cangaço pelo “como” os fatos aconteceram, até mesmo de forma folclórica, no sentido negativo do termo, mas precisamos nos indagar acerca de suas causas e intenções e suas relações com o Poder. Quem critica o estudo do Cangaço, mesmo de forma oblíqua, tratando-o como algo menor dentre os epifenômenos da cultura sertaneja, hostiliza a História e não entende o que é o Poder.

Não houve manifestações violentas do Coronelismo no Sertão nordestino sem um entrelaçamento com o banditismo rural; não houve Cangaço sem Coronelismo. Acrescentemos a esses ingredientes o fanatismo messiânico e teremos um ponto-de-partida concreto e verossímil para a real história da época dos coronéis e cangaceiros.

O ponto-de-partida é o cangaceiro, começando com Jesuíno Brilhante, o primeiro dos grandes, a história dos coronéis do Cariri cearense, e a vida do mítico Padre Cícero do Juazeiro.

No Rio Grande do Norte é difusa, porém persistente, a concepção de que seus coronéis eram homens afastados da violência, bem como é persistente a concepção de que o cangaço, excetuando a invasão de Apodi, por Massilon, e Mossoró por Lampião, tratados como “pontos fora da curva”, pouca relevância teve em nosso Estado.

São “esquecidas” as relações dos coronéis com José Brilhante, o Cabé; a do Coronel João Dantas com Jesuíno Brilhante; a invasão de Martins; a invasão de Apodi e sua relação com coronéis apodienses; a invasão de Mossoró e sua relação com coronéis paraibanos e cearenses; a morte de Chico Pereira e sua relação com o coronelismo paraibano e potiguar.

O mesmo ocorre quanto a “hecatombe de 1918” em Pau dos Ferros, verdadeira briga entre coronéis potiguares, semelhante àquelas travadas entre seus congêneres do Cariri cearense.

As invasões de Apodi e Mossoró são indissociáveis, e se constituem em epicentro de um processo político que durou aproximadamente dez anos, terminando tragicamente na famosa eleição de 1934-1935, na qual houve o assassinato do Coronel Chico Pinto e o de Otávio Lamartine, filho do ex-governador Juvenal Lamartine, e dizem respeito a disputas políticas entre famílias senhoriais do Sertão paraibano e potiguar.

Todas essas atividades violentas protagonizadas por cangaceiros estão conectadas com o coronelismo. Todas elas são faces da disputa pelo Poder Político.

O cangaço, por si somente, é a história do último suspiro dos desbravadores do Sertão nordestino, nossos ancestrais, aqueles mesmos que disputaram a terra contra índios ferozes, palmo a palmo, sangue a sangue, a ferro e fogo, numa guerra longa, cruel e esquecida por todos. A guerra dos bárbaros.

O cangaço é a história de homens que resolveram se vingar de uma injustiça; de homens que não aceitaram ser escravos e optaram por fazer das armas meio-de-vida; de homens que optaram por sobreviver SEM LEI E SEM REI, em uma liberdade absoluta, uma liberdade de fera, aquela liberdade anterior ao surgimento do Estado, da qual nos falou Hobbes em O Leviatã.

O cangaço é a história de rebeldes, certos ou errados. Podemos subjugar rebeldes. Podemos condenar rebeldes. Podemos matar rebeldes. Mas não podemos impedir que a memória de suas existências nos provoque. Podemos não aceitar os rebeldes, mas podemos tentar compreendê-los, tenham sido cangaceiros, coronéis, ou fanáticos, e em os compreendendo, aprendermos as lições da história.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

Cangaço e coronelismo no Rio Grande do Norte

Por Honório de Medeiros

Quem critica o Cangaço hostiliza a História e não entende o que é o Poder. O Cangaço lança luz sobre a História e o Poder, em intrincada trama com o Coronelismo e o Fanatismo (Misticismo).

São os seguintes os principais cangaceiros que escreveram parte de sua história no Estado do Rio Grande do Norte: José Brilhante de Alencar Souza (o “Cabé”), nascido em Pombal, na Paraíba, em 1824, e morto em Pão de Açúcar, Alagoas, em 1873; Jesuíno Alves de Mello Calado (o “Jesuíno Brilhante”), nascido em Martins, RN, em 1844, e morto em Belém de Brejo do Cruz, novembro/dezembro de 1879; Macilon Leite de Oliveira (o “Massilon”), nascido em Timbaúba dos Mocós, 1897, e morto em Caxias, Maranhão, em 1928; e Virgolino Ferreira da Silva (o “Lampião”), nascido em 4 de junho de 1898, em Serra Talhada, Pernambuco, e morto em 28 de julho de 1938, em Poço Redondo, Sergipe.

O único norte-rio-grandense era Jesuíno Brilhante, o primeiro dos cinco grandes da história do cangaço: Jesuíno, Antônio Silvino, Sinhô Pereira, Lampião e Corisco, eis a ordem cronológica.

José Augusto: liderança (Foto: arquivo)

Existe a suspeita de que Virgínio Fortunato da Silva (o “Moderno”), viúvo de uma irmã de Lampião, Angélica Ferreira da Silva, era dos Fortunado de Alexandria, no Rio Grande do Norte, mas isso nunca foi comprovado.

E são os seguintes os fatos na História do Rio Grande do Norte nos quais Coronelismo e Cangaço estão fortemente entrelaçados: a invasão de Martins por Jesuíno em 1876; a invasão de Apodi por Massilon em 1927; a invasão de Mossoró por Lampião e Massilon em 1927.

Todos essas atividades cangaceiras estão conectadas com o coronelismo.

Não houve Coronelismo no Sertão nordestino sem entrelaçamento com o Cangaço; não houve Cangaço sem Coronelismo.

Acrescente-se a esses ingredientes o Fanatismo (Messianismo) e teremos um ponto-de-partida para a real história da época dos coronéis e cangaceiros. Sempre tratamos esses fatos pelo como aconteceu, de forma folclórica, no sentido negativo do termo, mas precisamos nos indagar o porquê factual que os originou.

Tanto o coronelismo quanto o cangaço são expressões particulares do momento histórico específico que caracteriza o fim da República Velha no Sertão nordestino, muito embora seu padrão, enquanto disputa pelo Poder, seja recorrente na história das civilizações, sob outras formas, haja vista, por exemplo, o feudalismo europeu e japonês, e sua semelhança com esse objeto de estudo.

As invasões de Apodi e Mossoró são indissociáveis, e se constituem em epicentro de um processo político que durou aproximadamente dez anos e dizem respeito a disputas políticas entre famílias senhoriais do Sertão paraibano e potiguar, tendo como fio-condutor, protagonista, o cangaceiro Massilon.

Em 1924 José Augusto Bezerra de Medeiros, legítimo representante da fina flor da aristocracia rural algodoeira do Rio Grande do Norte, chegou ao poder. Seu intento, segundo cronistas da época, era construir uma oligarquia semelhante a dos Maranhão.

Em 1927 o Rio Grande do Norte, cujas principais regiões eram Natal, o Oeste e o Seridó, pareciam sob seu controle político, excetuando-se o crescimento político e econômico dos Fernandes cujas raízes estavam fincadas na Região que começava em Mossoró, passava por Pau dos Ferros, e terminava em Luis Gomes, fronteira com a Paraíba.

Rafael: eleição (Foto: arquivo)

Em 1928 Zé Augusto elegeu seu sucessor, o sobrinho-afim Juvenal Lamartine. Mas em 1930 veio a Revolução que culminou com o golpe político que elevou Getúlio Vargas ao Poder. E Getúlio entregou o poder, após uma série de interventores, a Mário Câmara, aliado de Café Filho e dos adversários de Zé Augusto no Estado.

Zé Augusto reagiu. Driblou as pendengas com os Fernandes, afinal faziam parte da mesma base econômico-política, a aristocracia rural algodoeira que dominava o Seridó e o Oeste, e juntos criaram o Partido Popular para lutar contra a candidatura de Mário Câmara em 1934.

E assim, na mais cruenta eleição que jamais houve no Rio Grande do Norte, o Partido Popular saiu vitorioso, e Rafael Fernandes, o líder da família Fernandes, foi eleito Governador do Estado. Zé Augusto elegeu-se Deputado Federal.

Durante a campanha foram assassinados o Coronel Chico Pinto, em Apodi, e Otávio Lamartine, filho de Juvenal Lamartine. Espancamentos, ameaças, humilhações, depredações, foram incontáveis. O Coronel Chico Pinto era ligado aos Fernandes; Otávio Lamartine a Zé Augusto.

À sombra de ambos, tramando contra, outros coronéis; à sombra desses coronéis, os cangaceiros…

Honório de Medeiros é escritor professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

Cangaço, coronelismo e fanatismo são manifestações do poder

Por Honório de Medeiros

O coronelismo e o cangaço, assim como o fanatismo (misticismo) tão característicos de certo período histórico do Sertão nordestino brasileiro, são manifestações do fenômeno do Poder, de como ele é obtido, se instaura  e é mantido em qualquer circunstância.

A forma como o Poder se instaura diz respeito a fatores circunstanciais, mas o conteúdo permanece o mesmo desde que o Homem surgiu na face da terra.

Exemplos que comprovam essa afirmação são quaisquer processos políticos que aconteceram ao longo da história, tais quais os descritos em farta literatura acerca de Atenas, Roma, a Inglaterra vitoriana, ou qualquer outro que seja. A forma se modifica ao longo do tempo em decorrência do avanço tecnológico, por exemplo.

Se antes o Homem combatia com arcos e flechas, hoje usa mísseis teleguiados.

Assim, o coronelismo, o cangaço e o fanatismo são “cases” do fenômeno do Poder próprios de uma determinada circunstância histórica. São semelhantes, em sua estrutura, ao feudalismo europeu e japonês.

As narrativas acerca do coronelismo, cangaço, e fanatismo devem ser estudadas levando-se em consideração o fator de “ocultamento” que é próprio da lógica de atuação dos que detêm o Poder. Nesse sentido, escrever, omitir, manipular, direcionar os textos, tudo isso e mais, cumprem o papel de impor a lógica dos que podem impor sua percepção das coisas e dos fenômenos.

No Rio Grande do Norte, por exemplo, é difusa, porém persistente, a concepção de que os coronéis da política eram homens afastados da lide com o cangaço, bem como é persistente a concepção de que o cangaço, excetuando a invasão de Mossoró por Lampião, pouca relevância teve no Rio Grande do Norte.

São “esquecidos” José Brilhante, o Cabé; Jesuíno Brilhante; a invasão de Apodi por Massilon; a invasão de Mossoró por Lampião e Massilon; e a morte de Chico Pereira.

Não se estuda, como deveria ser estudado, a invasão de Apodi por Massilon e sua relação com a invasão de Mossoró por Lampião pouco mais de um mês depois. Bem como não se estuda a participação do coronelato da Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte no evento.

E perdemos todos pois, na verdade, em essência, o que se deve estudar quando analisamos fatos históricos como esses, é o fenômeno do Poder, tão onipresente quanto a existência do Homem na face da terra.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

Livro percorre caminho familiar de “Jesuíno Brilhante”

Novo livro de Misherlany Gouthier: genealogia e história (Foto: reprodução)

Estudando há mais de 20 anos as primitivas famílias da região da zona Oeste do estado, em que produziu alguns trabalhos sobre genealogia – “Os Vitorinos da Caieira”, “Lunário Perpétuo – um veio dos Nunes Reis”, “Delmiro Rocha – história, origem e descendência” -, o escritor e pesquisador Misherlany Gouthier lançará outro trabalho nesse mesma linha. Agora, ele apresentará o livro “Os Alves de Melo e a Lenda do Carvoeiro”.

A apresentação do livro será dentro da Semana da Cultura em Almino Afonso, promovido pela municipalidade. Ocorrerá em meio à 115ª Festa do Sagrado Coração de Jesus, padroeiro dos católicos locais, sábado (16), às 19h40, na Praça Aurino Carlos (Centro).

Jesuíno Brilhante

Gouthier, que é de Almino Afonso, percorre nessa publicação o intrincado caminho da árvore genealógica da família Daniel, de Almino Afonso, com ramificações em Patu e em algumas cidades da Paraíba.

Remonta o novel título à origem do famoso bandoleiro Jesuíno Alves de Melo, “Jesuíno Brilhante”. Içado ao patamar de “fora da lei”, deixou seu nome registrado nos anais da história do cangaço, num enredo que mistura banditismo, política e relações sociais delicadas no final do século XIX no sertão potiguar e paraibano.

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O julgamento de Jararaca

Por Adriana Negreiros (Revista Piauí)

De todas as crueldades atribuídas ao cangaceiro José Leite de Santana, vulgo Jararaca, a mais famosa consistia em arremessar crianças para o alto e apará-las com a ponta do punhal. Trespassados pela lâmina, garotinhos leves o bastante para serem lançados na direção do sol morriam lenta e dolorosamente, em meio aos gritos dos pais – e às gargalhadas do cangaceiro.

Além de assassino sádico e cruel, Jararaca – “Forte, resistente, ágil, moreno-escuro, atirador exímio, grande lutador de facas”, na descrição do historiador Luís da Câmara Cascudo – também carrega fama de pecador santificado pelo martírio. O túmulo onde jaz, no Cemitério São Sebastião, na cidade de Mossoró, recebe constantemente a visita de fiéis em busca de milagres.

Nas celebrações de Finados, em 2 de novembro, é a sepultura mais visitada daquele município do oeste do Rio Grande do Norte, a 280 quilômetros de Natal. Diante da lápide, os devotos depositam cestos de flores, laços de fita e velas acesas. Não raro também se encontram, entre as oferendas, preservativos usados – uma das crenças locais é a de que Jararaca intervém em casos de fraqueza sexual aos que se entregam ao amor por sobre seus restos mortais.

Grupo de resistência ao ataque de Lampião no distante ano de 1927 em Mossoró (Foto: reprodução da época)

Na manhã do último dia 9 de junho, uma sexta-feira, a nata da intelectualidade mossoroense reuniu-se no salão do tribunal do júri, no Fórum Desembargador Silveira Martins, para tentar chegar a um veredicto sobre a figura algo dúbia de Jararaca. Três advogados, uma professora, um padre, um jornalista e um médico formavam o conselho de sentença do tribunal simulado que decidiria, noventa anos depois de sua morte, se o cangaceiro deveria entrar para a história como bandido sanguinário ou vítima da opressão do Estado.

Nascido em 5 de maio de 1901 na cidade de Buíque, no agreste pernambucano, Santana é um dos personagens centrais do episódio mais glorioso da história de Mossoró: a vitória da resistência local ante a tentativa de invasão da cidade pelo bando de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, o Rei do Cangaço.

Em 1927, quando decidiu conquistar Mossoró, Lampião já era o grande terror dos sertões, o bandido mais temido de toda a história do Nordeste. Superara, em fama e prestígio, os ilustres cangaceiros que o antecederam, como o pernambucano José Gomes, o Cabeleira (celebrizado no romance de mesmo nome, de Franklin Távora); o baiano Lucas Evangelista, o Lucas da Feira; e o potiguar Jesuíno Brilhante.

Rodolfo: líder da resistência

Terror

Lampião e seus asseclas espalhavam violência por onde passavam, praticavam saques, incêndios e assaltos.

Com um punhal de 80 centímetros, Virgulino furava os inimigos – rendidos e ajoelhados – próximo ao osso situado logo abaixo do pescoço, a chamada saboneteira, descendo pelo corpo em linha diagonal e fazendo sangrar os grandes órgãos. O procedimento impunha à vítima uma morte vagarosa, ao gosto dos cangaceiros.

Pela habilidade de escapar à perseguição das forças policiais, Lampião já havia, àquela altura, sido elevado à categoria de lenda. Nas décadas de 20 e 30, era uma figura onipresente nos jornais, revistas e até na cena cultural do país. Em 1926, um ano antes do ataque a Mossoró, a peça Manda Chuva de Lampião garantira uma rentável bilheteria ao Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro. O Rei do Cangaço gostava de atribuir a boa sorte de não ser capturado à proteção de padre Cícero, de quem era devoto, e ao fato de ter o “corpo fechado”.

Na verdade, o fator decisivo para o sucesso das fugas do bandido era, além de seu sofisticado senso estratégico, o apoio de muitos líderes políticos e coronéis da região, a quem seu bando servia como uma espécie de milícia. Embora muitos estudiosos tenham tentado compreender Virgulino Ferreira da Silva a partir do viés marxista da luta de classes – o que lhe conferiria certo caráter de Robin Hood sertanejo –, o fato é que ele atendia sobretudo aos interesses da elite agrária.

Mossoró em 1927 e o temível Lampião

A notícia de que Lampião avançava na direção de Mossoró chegou aos ouvidos dos moradores em abril de 1927. À época, a Capital do Oeste Potiguar, como seus habitantes ainda gostam de intitulá-la, já era um dos municípios mais importantes do interior nordestino. Com 20 mil habitantes, localizada no meio do caminho entre duas capitais – Natal e Fortaleza –, em nada se assemelhava às pequenas cidades onde Lampião e seu bando saqueavam o comércio, invadiam salas de cinema e interrompiam festas de casamento, muitas vezes mandando os convidados tirarem a roupa e dançarem nus.

Mossoró sediava, àquela altura, um dos maiores parques salineiros do país e três firmas de descaroçamento e prensa de algodão, o chamado “ouro branco”. Também tinha uma agência do Banco do Brasil e três jornais – um deles, O Mossoroense, circulava desde 1872. As filhas e mulheres dos barões do sal e do algodão mandavam confeccionar seus vestidos com tafetás e sedas que chegavam da França e da Inglaterra pelo porto de Areia Branca, município litorâneo vizinho.

O presidente da Intendência Municipal de Mossoró era, ele próprio, um vistoso representante da elite salineira. Aos 55 anos, magro, bigode pincel e porte elegante – mesmo no excruciante calor mossoroense, não dispensava o terno e a gravata-borboleta –, Rodolfo Fernandes possuía, como Lampião, aguçado senso estrategista. Ao ser informado de que o cangaceiro-mor já se encontrava em território norte-rio-grandense, acionou o alerta vermelho.

Seus conselheiros mais próximos, entretanto, achavam aquela preocupação um exagero. Virgulino podia ser ousado, mas não era maluco a ponto de tentar a sorte em uma potência como Mossoró, diziam seus interlocutores. Ademais, a Catedral de Santa Luzia tinha duas torres. E, como se sabia, Virgulino costumava dizer que “cidade com mais de uma torre de igreja não é lugar para cangaceiro”. Não se tratava de superstição, mas de raciocínio lógico – municípios com tal característica eram maiores e, portanto, mais difíceis de dominar.

Durante alguns dias, Fernandes dedicou-se a elaborar um plano de resistência. Deixou os homens da cidade de sobreaviso para que, ao primeiro sinal, despachassem mulheres, idosos e crianças para as cidades vizinhas e engrossassem as trincheiras oficiais. Recorreu aos industriais e comerciantes da cidade e apurou 23 contos de réis para a aquisição de cinquenta rifles e fuzis, além de 9 mil cartuchos.

Massilon abre caminho

O intendente já tinha informações de que, em Apodi, distante apenas 80 quilômetros dali, sob o comando do cabra Massilon – que, por ser da região, liderava a incursão pelo estado –, o bando invadira a cadeia e roubara os revólveres dos praças. Não que armas fossem artigo em falta entre eles.

Massilon conhecia bem a cidade; Lampião liderava bando a distância e Sabino foi ao combate (Foto: reprodução)

No ano anterior, 1926, Lampião e seus asseclas haviam sido convocados para formar os batalhões patrióticos e combater a Coluna Prestes no sertão nordestino, tarefa conduzida pelo deputado federal Floro Bartolomeu, com a anuência de padre Cícero. Os bandoleiros nunca chegaram, de fato, a correr atrás da Coluna – mas garantiram, além de uma falsa patente de capitão para Virgulino, novíssimos fuzis de uso exclusivo do Exército para o bando.

O coronel Antônio Gurgel, um dos barões da região, acompanhava, angustiado, a evolução do grupo. Sua esposa passava uns dias em uma fazenda próxima dali, e as notícias de invasões a propriedades privadas, com alardeados estupros, espancamentos e incêndios, eram frequentes. Na tarde de 12 de junho, um domingo, Gurgel juntou em uma bolsa uma pistola, cinquenta balas e 1 conto de réis.

Tinha decidido ir ao encontro da mulher. Ainda na estrada, contudo, foi rendido pelo cangaceiro Coqueiro, que tomou sua bolsa e o levou a Lampião. A partir daquele instante, o coronel se tornou mais um refém do Rei do Cangaço – outros já haviam sido feitos na jornada dos cabras pelo Rio Grande do Norte.

Naquele mesmo domingo em que Gurgel foi capturado, os mossoroenses vestiram-se de azul e branco, de um lado, e alvinegro, de outro, para assistir a uma partida do clássico entre Humaitá e Ipiranga, os dois gigantes do futebol local. Depois do jogo, os atletas do vitorioso Humaitá saíram em passeata pela cidade. Um petit comité formado por jogadores e torcedores reuniu-se para um sarau dançante em um dos casarões de estilo colonial do Centro de Mossoró.

Quando o convescote estava no auge da animação, por volta das nove da noite, um mensageiro chegou com a má notícia: Lampião já estava em São Sebastião, povoado vizinho, em posição de ataque. Houve quem questionasse se aquilo não seria um boato plantado pela torcida do Ipiranga para interromper a comemoração do time adversário. Pelo sim, pelo não, deliberou-se pelo fim da festa.

Batendo em retirada

Foi melhor assim. Às onze, os sinos das torres da Catedral de Santa Luzia começaram a badalar. Na sequência, tocou também o sino da Igreja de São Vicente e, depois, da Igreja do Coração de Jesus. A música produzida pelos quatro sinos ecoou por toda a cidade, avisando aos moradores que era chegada a hora da batalha.

No meio da noite, levas de comboios com mulheres, velhos, crianças e, dizem as más-línguas, os covardes, deixaram Mossoró – a maioria carregava os pertences mais valiosos em pequenas trouxas feitas às pressas. O município de Areia Branca triplicou a população em questão de horas. Houve até quem pegasse barcos e navegasse rumo ao alto-mar, com temor de ser capturado por Lampião em terra firme.

Durante a madrugada, barricadas de fardos de algodão foram montadas para proteger os lugares onde os soldados se abrigariam para o combate. A casa de Rodolfo Fernandes era uma das mais seguras, com uma barreira em forma de U protegendo a frente e as laterais da residência.

A operação foi comandada pelo tenente Laurentino de Morais, enviado de Natal pelo governo do estado. Boa parte dos 150 homens armados postou-se no alto da Igreja de São Vicente. Havia combatentes também nos telhados de casas e de prédios da região. Quando o dia amanheceu, Fernandes recebeu uma carta do coronel Antônio Gurgel enviada por um portador de Lampião.

“Meu caro Rodolfo Fernandes. Desde ontem estou aprisionado do grupo de Lampião, o qual está aquartelado aqui bem perto da cidade. Manda, porém, um acordo para não atacar mediante a soma de 400 contos de réis. Posso adiantar sem receio que o grupo é numeroso, cerca de 150 homens bem equipados e municiados à farta.”

Mais à frente, implorava em nome da própria neta, Yolanda, de 2 anos, para que arrumassem a quantia e salvassem sua vida. Fernandes, sem perder tempo, enviou a resposta: “Antônio Gurgel. Não é possível satisfazer-lhe a remessa de 400 contos, pois não tenho, e mesmo no comércio é impossível encontrar tal quantia. Ignora-se onde está refugiado o gerente do Banco do Brasil, sr. Jaime Guedes. Estamos dispostos a recebê-los na altura em que eles desejarem.”

Rodolfo Fernandes x Lampião

Ao receber a correspondência, Lampião resolveu tratar o assunto de chefe para chefe. Como a ocasião exigia formalidade, escolheu um papel timbrado. No alto, lia-se a inscrição “Capitão Virgulino Ferreira (Lampião)”.

De próprio punho, garatujou as seguintes ponderações: “Coronel Rodolfo. Estando eu até aqui pretendo dinheiro. Já foi um aviso aí para os senhores. Se por acaso resolver me mandar, será a importância que aqui nos pede, eu evito a entrada aí. Porém, não vindo essa importância, eu entrarei até aí, pensa que a Deus querer eu entro e vai haver muito estrago por isto, se vir o doutor. Eu não entro aí, mas me resposte logo. Capitão Lampião.” O intendente, atendendo ao pedido do cangaceiro, foi ligeiro na resposta. Mas inflexível: “Estamos dispostos a acarretar com tudo o que o senhor queira fazer contra nós. A cidade acha-se firmemente inabalável na sua defesa.”

Como a negociação não prosperou, Lampião reuniu seu estado-maior, formado pelos cangaceiros Moderno, Ezequiel e Luís Pedro, e anunciou o início da marcha sobre Mossoró. Montados a cavalo, seguiram até a localidade de Saco, distante 2 quilômetros do Centro, onde seis reféns – entre eles, o coronel Gurgel –, permaneceram sob a vigilância de um bandido.

Os demais bandoleiros foram divididos em dois grupos, liderados respectivamente por Sabino e Massilon. Jararaca, que bebera mais cachaça do que o recomendado a um guerreiro prestes a entrar em combate, fora destituído do seu tradicional posto de líder e passara a integrar o time de Massilon. Lampião e seus tenentes seguiram para o cemitério. O combinado era que, após o assalto vitorioso, o bando voltasse a se encontrar.

Com os fuzis apoiados sobre os ombros e cantando Mulher Rendeira, o grito de guerra das invasões (Olê, mulher rendeira/olê, mulher rendá/me ensina a fazer renda/que eu te ensino a guerrear), os cangaceiros entraram na região central de Mossoró. Os ocupantes das trincheiras no alto da Igreja de São Vicente e da casa do intendente tinham visão privilegiada do avanço das tropas.

Tão logo o grupo surgiu no horizonte, iniciaram-se os disparos. Os cangaceiros, acostumados a desfilar nos povoados sem serem incomodados, foram surpreendidos. O cabra Colchete, do grupo de Massilon, tentou avançar sobre uma barricada de algodão e foi morto por um tiro certeiro na cabeça. Jararaca, ao ver a cena, correu na direção do companheiro e foi atingido por um tiro no peito. Mesmo machucado e ainda embriagado, conseguiu levantar-se e correr, ocasião em que levou outro balaço, dessa vez na coxa, perto da bunda.

Derrotados, Sabino, Massilon e os demais correram em direção ao cemitério e transmitiram as más notícias para o estado-maior cangaceiro. De lá, o grupo seguiu até o Saco, pegou os reféns e os cavalos e fugiu em disparada. Aquele episódio acabaria por se constituir na maior humilhação imposta ao Imperador dos Sertões, o Governador da Caatinga, o todo-poderoso Rei do Cangaço. Também serviria para despertar o espírito cívico dos mossoroenses.

Orgulho mossoroense

Desde então, seus moradores passaram a se referir ao município, hoje com 290 mil habitantes, como “País de Mossoró”.

“Todo mossoroense cresce ouvindo, com orgulho, os relatos da vitória contra o bando de Lampião”, disse-me a atual prefeita do País de Mossoró, Rosalba Ciarlini, uma sorridente médica de 64 anos cujo penteado e jeito de se vestir lembram o da ex-presidente Dilma Rousseff.

Enquanto aguardávamos o início do julgamento de Jararaca, a prefeita me ocuparia contando histórias reveladoras do espírito vanguardista e libertário da cidade. Lembrou que em 1927, mesmo ano dos fatos gloriosos, a professora Celina Guimarães Viana tornou-se a primeira eleitora do Brasil. Antes que o voto feminino fosse regulamentado pelo Código Eleitoral de 1932, uma lei potiguar estabeleceu a indistinção de sexo para votar e ser votado. Guimarães, além de entusiasta do ideário do humanismo cívico, também era juíza de futebol.

Cunha Lima e Honório de Medeiros: duelo de alto nível intelectual (Foto: arquivo)

Rosalba Ciarlini recordou ainda que, em 1875, 300 mulheres saíram às ruas de Mossoró para protestar contra o alistamento militar obrigatório. Com pedaços de pau e pedras, renderam um juiz de paz e, na sequência, confiscaram e picaram os documentos relativos à convocação de seus filhos e maridos.

Também rasgaram os editais de alistamento afixados pela cidade e, em uma praça, chegaram a trocar sopapos com os soldados da força pública. O motim, que entraria para a história como a Marcha das Mulheres, seria outra demonstração inequívoca da valentia e bravura dos nascidos no País de Mossoró. “A líder da Marcha, Anna Floriano, é minha tataravó”, disse a prefeita, sem disfarçar o orgulho.

Minha aula de história foi bruscamente interrompida um minuto depois das nove e meia da manhã, quando o juiz Breno Valério Fausto de Medeiros, da 3ª Vara de Família da Comarca da cidade, declarou aberta a sessão do júri. “Este é um julgamento de valor sociológico”, explicou. “A população mossoroense, representada pelos jurados aqui presentes, irá decidir se Jararaca é vítima ou culpado.”

Cerca de oitenta pessoas tinham ido assistir ao debate entre defesa e acusação, a maioria estudantes e professores de direito e história. Vestiam-se com capricho.

Duelistas proeminentes no júri

O ar-condicionado gelava o salão espartano, adornado com um mobiliário funcional em tons de cinza. Os homens podiam trajar seus ternos elegantes, a despeito do calor de 30ºC do lado de fora. Algumas mulheres usavam saltos altos, bem como rímel, delineador e sombra esfumada nas pálpebras.

O julgamento havia sido idealizado e organizado pela Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC) como parte das comemorações pelos 90 anos da Resistência, termo usado pelos mossoroenses para referir-se ao episódio de 1927.

Um desavisado que, por distração, intitule o fato de “invasão” corre o risco de ser submetido a mínimos dez minutos de explanação semiótica sobre o evento, a depender do interlocutor.

À exceção de uma mulher com chapéu de cangaceira na plateia, o evento não tinha nada de folclórico ou caricato.

Acusação e defesa foram assumidas por duas figuras proeminentes na cena jurídica local, ambas vestidas a caráter, com toga: os advogados Diógenes da Cunha Lima, ex-reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e presidente da Academia Norte-rio-grandense de Letras; e Honório de Medeiros, mestre em filosofia do direito e assessor jurídico do governo do estado. Cada um dispôs de sessenta minutos para fazer, respectivamente, a acusação e a defesa do cangaceiro.

“Jararaca não tinha esse nome por ser feio”, discursou Cunha Lima, fazendo suspense sobre o apelido do réu. “Mas pelos atos de animal peçonhento”, concluiu o advogado, um homem magro e bonito que, ao sorrir, parece ter menos do que seus 80 anos. Cunha Lima argumentou que o cangaceiro obedecia a um chefe sanguinário, que frequentemente cortava a língua de seus inimigos.

Num tom grave, recorreu a uma narrativa que adquiriu tons de lenda e é constantemente lembrada, com um ou outro detalhe diferente, pelos que contam as peripécias de Lampião. Conforme a história, certa vez, durante a invasão a uma fazenda, o sicário tentou beijar uma moça à força. Seu noivo, ao presenciar a cena, foi tirar satisfações com o bandido.

Ato contínuo, o pobre homem teve calças e cueca arrancadas e os testículos trancados a chave na gaveta de uma cômoda. Sobre o móvel, Lampião deixou um facão. “Volto em dez minutos”, avisou ao rapaz. “Se você ainda estiver aqui, será morto.” A lenda não conclui se o jovem cortou os testículos para sobreviver ou se foi torturado e aniquilado pelo cangaceiro.

Acusador, Lampião e Shakespeare

“Esse era o tipo de coisa que Lampião e sua gente fazia. Não se pode considerar que um homem como Jararaca não seja culpado”, argumentou Cunha Lima, com os olhos fixos nos sete jurados. Os cangaceiros, ele disse, cometiam atos bárbaros motivados por ganância, pura maldade e desejo de fama. Comparou Lampião ao personagem Macbeth, de Shakespeare. “Um tornou-se rei da Escócia. Outro, do sertão. Ambos usavam ouro sobre a cabeça – um, em forma de coroa; outro, nos enfeites do chapéu. Os dois diziam ter os corpos fechados. Ambos tinham mulheres bandidas – Lady Macbeth e Maria Bonita – e eram sanguinários e destruidores de vidas”, explicou.

“Que ninguém se esqueça dos crimes que os cangaceiros fizeram contra a heroica cidade de Mossoró”, concluiu. E, em tom jocoso, lembrou aos jurados que havia um certo ex-presidente brasileiro que também se considerava uma jararaca.

Enquanto Lampião e seu bando galopavam o mais rapidamente possível para bem longe de Mossoró, Jararaca conseguiu rastejar por entre a multidão – que estava distraída arrastando o corpo do cangaceiro Colchete pela cidade – e alcançar a ponte férrea, na saída para Areia Branca. Dormiu próximo a um arbusto e, ao amanhecer, arrastou-se por mais alguns metros até encontrar um grupo de trabalhadores da estrada de ferro. A um deles, chamado Pedro Tomé, Jararaca entregou uma quantia em dinheiro e pediu que fosse à cidade buscar algodão, gaze e água oxigenada.

Pedro Tomé, um homem caseiro, trabalhador e pouco dado aos fuxicos que corriam pelas praças da cidade, estava por fora dos eventos virtuosos da véspera. Ouvira o barulho dos tiros, ao longe, mas os tomara por fogos de artifício – 13 de junho é o dia em que se acendem enormes fogueiras em homenagem a santo Antônio. Ao chegar à farmácia e contar sobre o homem ferido, foi alertado de que se tratava de um cangaceiro. Apavorado, Tomé voltou para casa protegido por dois policiais. Jararaca recebeu voz de prisão e foi levado para a cadeia pública de Mossoró, no Centro da cidade.

A cela em que Jararaca ficou trancado tinha grades que davam para a rua. Centenas de mossoroenses amontoavam-se em frente ao local para ver um cangaceiro de perto, como um leão feroz preso a uma jaula do zoológico. Enchiam-lhe de perguntas. Queriam saber quantos homens já havia matado. Se amealhara fortuna no cangaço. Quais eram seus arrependimentos. Até hoje, corre a lenda de que, nesse momento, Jararaca teria confessado sentir um único remorso: de aparar crianças com a ponta do punhal.

Jararaca: morte em Mossoró (Foto: reprodução)

Um dos que correu até a cadeia para ver o bandido foi Raul Fernandes, filho do intendente Rodolfo. Tinha então 19 anos. Mais tarde, já médico, escreveria o livro A Marcha de Lampião, no qual descreve Jararaca como um sujeito “mestiço, de estatura média, músculos rijos, compleição robusta, mais forte do que os soldados circundantes”.

O bandido recebeu cuidados médicos na prisão e foi autorizado a permanecer, parte do tempo, em uma sala mais reservada, onde podia se acomodar numa espreguiçadeira de lona. Foi ali, provavelmente, que ele recebeu Lauro da Escóssia, filho do dono do diário O Mossoroense, depois que o jornalista conseguiu autorização da direção da cadeia para realizar a primeira entrevista com Jararaca.

Segundo o relato de Escóssia, seu interlocutor fazia barulho ao respirar, por causa do tiro no pulmão, e tinha olhos opacos. O preso também revelaria detalhes operacionais da tentativa de invasão, como o fato de ter sido Massilon o idealizador do ataque. O concorrente O Correio do Povo também traria uma entrevista bombástica com Jararaca: ao repórter, o bandido citara nomes de políticos e coronéis nordestinos que davam proteção e recebiam dinheiro de cangaceiros.

Na sequência às delações de Jararaca, o tenente Laurentino de Morais, comandante da operação de resistência, foi chamado às pressas a Natal por seus superiores.

Possivelmente na noite de 20 de junho – a data exata ainda é motivo de controvérsias entre pesquisadores –, Jararaca foi acordado por dois policiais, com a justificativa de que seria levado à capital para tratamento médico. Sonolento, o bandido, segundo escreveria Raul Fernandes, teria pedido alguns minutos para recolher os pertences, dentre eles seu velho par de alpercatas. “Deixe-as aí. Em Natal, você será presenteado com sapatos de verniz”, disse, com ironia, um dos policiais.

Do lado de fora da cadeia, uma escolta formada por oficiais – dentre eles, o tenente Laurentino de Morais – aguardava o cangaceiro, logo acomodado no banco de um possante Willys-Knight com capota de lona. Quando o veículo já pegava velocidade, o cangaceiro olhou pela janela e estranhou o caminho que estavam tomando. Em vez da estrada para Natal, iam na direção contrária. Em frente ao Cemitério São Sebastião, o motorista pôs o pé no freio e desligou o motor. Os policiais arrastaram o bandido para fora do carro, adentraram o cemitério e, ao dobrar à esquerda, chegaram a uma cova aberta.

O que se sucedeu foi, durante anos, motivo de controvérsia. O pesquisador Kydelmir Dantas, membro da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço, lembra que, enquanto esteve na ativa, o sargento Pedro Silvio de Morais, um dos comandantes da resistência, sustentou que Jararaca havia sido morto com uma coronhada do fuzil de um policial, “sem que seu corpo sofresse qualquer decepação”. O depoimento de Morais consta do livro Lampião em Mossoró, publicado pelo historiador potiguar Raimundo Nonato em 1955.

Em 1996, já na reserva, o mesmo Morais daria outra versão dos fatos para o historiador Raimundo Soares de Brito, autor de Nas Garras de Lampião: “De todas as ocorrências daquela noite, a que mais me comoveu foi quando os seus coveiros quebraram, com picaretas e coices de armas, as pernas do infeliz bandoleiro, pois a cova que fora cavada antes era muito pequena.”

A defesa com filosofia

O advogado Honório de Medeiros, encarregado de defender Jararaca, recorreu a uma livre interpretação de um dos mestres da filosofia racionalista do século XVII para dar início a sua fala. “Espinoza dizia que quem tudo compreende tudo perdoa”, sentenciou, batendo as pontas dos dedos contra o tablado do púlpito enquanto encarava a plateia com ar solene. Aos 59 anos, cabelos grisalhos e olhos vivos, Medeiros é um homem alto, de corpo forte e presença vigorosa na corte, em contraste com os modos suaves do acusador Diógenes Cunha Lima.

“Jararaca nasceu pobre, preto e bastardo. Jararaca nasceu condenado”, disse, em tom dramático. “Levava uma vida sem esperança, sem médico, sem música, sem alimento, sem nada. Olhava para o futuro e via, entre amanheceres e anoiteceres, longos dias de trabalho praticamente escravo”, argumentou. “Cangaceiros, ao contrário, eram homens embriagados de liberdade, assim como, no oeste americano, foram Billy the Kid e Bonnie & Clyde”, afirmou, em referência ao ladrão que aterrorizou os Estados Unidos no final do século XIX e ao casal fora da lei especializado em assaltar bancos durante a Grande Depressão americana.

O advogado pediu aos jurados e à plateia que evitassem julgar os crimes de Jararaca com os olhos de hoje. Fez uma longa explanação sobre insubmissão e evolução do processo civilizatório. Disse que madre Teresa de Calcutá e o físico Albert Einstein, assim como Jararaca e Massilon (sobre cuja trajetória publicou um livro), também eram rebeldes.

“A insubmissão está consagrada na história e na ciência”, defendeu. “Os insubmissos mudam a ordem das coisas. Com a Lava Jato, o Ministério Público Federal também criou uma ruptura.”

Nos minutos finais da defesa, ao ser alertado por um oficial de Justiça de que o tempo estava prestes a se encerrar, narrou, com fortes tintas, o triste fim de José Leite de Santana. “Os soldados, sob observação de tenentes e sargentos, levam Jararaca até uma cova previamente aberta. Percebem que ele estertora. Não estava morto. Os oficiais recuam e determinam que o ponham dentro da cova. E, estertorando, Jararaca recebe a primeira pazada de areia na cara. É sepultado. Vivo”, contou, levantando a voz ao pronunciar a última palavra.

“O Estado prendeu, julgou, condenou e executou Jararaca sem que ele tivesse direito à defesa. Pagou uma pena violenta e tenebrosa. E estamos aqui reunidos para condená-lo de novo?”, indagou, enfaticamente, dirigindo-se aos advogados, ao padre, ao jornalista e ao médico que compunham o conselho de sentença. “O que peço é que compreendamos Jararaca. E, porque o compreendemos, sejamos capazes de perdoá-lo”, concluiu.

A plateia parecia impactada com o discurso de Honório de Medeiros. Os aplausos que ele recebeu (proibidos em um júri convencional, mas liberados naquele julgamento simulado) foram mais intensos do que os dedicados à acusação.

Diógenes da Cunha Lima tinha direito a uma réplica, mas a dispensou. “Ele foi brilhante. Fiquei apaixonado”, confessou o jornalista Raimundo Lopes, presente à audiência.

A sentença

O juiz Breno Fausto de Medeiros determinou que dois oficiais providenciassem a coleta dos votos. Cada um segurava uma urna de tecido vermelho aveludado. Na primeira, os jurados deveriam depositar o voto válido – vítima ou culpado – e, na segunda, o descarte.

Finda a coleta, o juiz recebeu a urna com os votos válidos e passou à leitura das cédulas. “Primeiro voto: culpado”, anunciou, para um auditório em silêncio. “Segundo voto: vítima. Terceiro voto: vítima.” E assim prosseguiu, até o último voto. Por 6 a 1, Jararaca foi absolvido da acusação de inimigo de Mossoró.

Júri simulado ocorreu em Mossoró (Foto: cedida)

O juiz solicitou aos presentes que ficassem de pé para a leitura da sentença. Após um breve resumo do caso, proferiu a conclusão: “O conselho de sentença composto por representantes da sociedade mossoroense, personalidades de reputação ilibada e capacitação inconteste, acolheu, por maioria, a tese da defesa, absolvendo o acusado no seu julgamento histórico e o reconhecendo injustiçado e vítima dos seus algozes.”

Encerrada a audiência, o juiz, alguns jurados, advogados e jornalistas reuniram-se para almoçar num restaurante especializado em costela de javali. “Fiquei surpreso com o resultado”, disse-me o juiz Breno Fausto, enquanto esvaziava uma concha de feijão-verde no prato. “Mossoró é uma cidade peculiar. Ao mesmo tempo em que se orgulha da resistência absolve um cangaceiro”, comentou.

O único voto contra Jararaca tinha partido do médico e advogado Armando Negreiros, cuja revolta contra a sentença adquiria ares dramáticos. “Com esse júri, Mossoró renuncia à resistência e condena a figura de Rodolfo Fernandes”, reclamou, depois de tomar um gole no copo de cerveja. “Jararaca era um delinquente de última categoria, um bandido de alta periculosidade. Como é que um homem desses é vítima de alguma coisa?”

Durante o almoço, Diógenes da Cunha Lima ouviu de mais de um comensal a mesma explicação para o seu infortúnio: tinha perdido a simpatia do corpo de sentença ao citar, indiretamente, a figura do ex-presidente Lula. “Era um júri majoritariamente de esquerda”, ponderou Armando Negreiros. “Não reflete o que a sociedade norte-rio-grandense pensa”, lamentou.

Quis o destino que o júri simulado de Jararaca ocorresse no mesmo dia em que, em Brasília, encerrava-se o julgamento da chapa Dilma-Temer no Tribunal Superior Eleitoral, ocasião em que o voto de minerva do ministro Gilmar Mendes permitiu que o presidente Michel Temer permanecesse no Palácio do Planalto.

No Twitter, observadores da cena potiguar relacionaram os dois casos. “Se até Jararaca foi inocentado em Mossoró, você queria que no TSE fosse diferente?”, indagou @Luzichi. “Jararaca, assaltante de Mossoró, sequestrador, assassino confesso, foi absolvido de quê? Foi o TSE que o liberou?”, escreveu @thadeubrandao.

Mossoró tem, de fato, uma relação dúbia com os cangaceiros. Chuva de Bala no País de Mossoró, espetáculo teatral em que cerca de oitenta atores encenam a expulsão de Lampião, tratando o intendente Rodolfo Fernandes como herói, é um dos pontos altos da programação cultural da cidade, atraindo multidões de espectadores de toda a região.

Já no Memorial da Resistência, espaço construído pela prefeitura, em 2008, para contar os eventos de 1927, há, na entrada, enormes painéis de Lampião e Maria Bonita. Uma escolha que, para muitos, é difícil de entender: se os grandes heróis da Resistência foram os combatentes, por que as fotos destacadas são as dos cangaceiros? “Trata-se de um simbolismo. Os resistentes não venceram qualquer um. Venceram Lampião, o Rei do Cangaço”, teorizou a professora Ludimilla Oliveira, que compôs o júri de Jararaca.

Coincidência ou não, na sessão solene em homenagem ao aniversário de 90 anos da Resistência, na Câmara Municipal, ninguém comentou o mérito da absolvição de Jararaca. “O maior resultado do julgamento é o resgate da história da Resistência, independente da absolvição ou condenação”, esquivou-se a prefeita Rosalba Ciarlini, presente à sessão.

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No discurso mais aplaudido da solenidade, o advogado Francisco Marcos de Araújo, presidente da comissão organizadora das comemorações da Resistência, convocou o espírito guerreiro de seus conterrâneos. “Só podemos, no presente, dizer que somos um povo libertário e valente porque não nos tornamos genuflexos ao jugo vandalista do cangaço”, discursou, quase aos gritos.

Ao fim da cerimônia, todos os participantes – inclusive a prefeita – dançaram miudinho ao som do hino de Mossoró, um xote cuja letra diz: Lembramos hoje teus anos de glória/Ousada foste sempre Mossoró/Por ti começa a senda da vitória/Na luta ao cangaceiro Lampião.

Na manhã de 10 de junho, um dia após a absolvição de Jararaca, duas velas queimavam sobre seu jazigo no Cemitério São Sebastião. Um cesto de vime azul ostentava uma rosa branca, com folhas no caule. Potes de plástico transparentes comportavam flores amarelas. Arranjos de flores artificiais, envolvidas em fitas azuis, caíam por sobre a lápide.

Dali era possível ver, a não mais do que 10 metros de distância, o túmulo do herói da Resistência mossoroense, o intendente Rodolfo Fernandes. A construção, bem mais imponente que a de Jararaca, contém um busto do líder político e é adornada por colunas gregas.

Sobre a lápide de Fernandes jazia uma solitária rosa vermelha, com as pétalas já secas, esturricadas pelo inclemente sol da valente Capital do Oeste Potiguar, o País de Mossoró.

Veja matéria originalmente na página da própria Piauí clicando AQUI.

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