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Mais um impresso que muda de corpo e sai da matéria

Jornal-do-ComercioO Jornal do Commercio de Recife concluiu seu ciclo de vida como impresso essa semana (31), a dias de fazer 101 anos de existência, o que ocorreria ontem (sexta-feira, 3).

Mais um que muda de corpo, sai da matéria, para viver apenas no mundo on-line, onde já está desde 2011.

Recentemente, o tradicional Diário do Nordeste, de Fortaleza, também deixou de circular de forma impressa. Sua última edição foi dia 28 de fevereiro. Mantém-se na plataforma virtual.

Segundo informações oficiais do Instituto de Verificador de Comunicação (IVC), três gigantes de repercussão nacional estão arquejando: O Estado de São Paulo, 80 mil exemplares/dia; O Globo, 78 mil; Folha de São Paulo, 65 mil.

Os dados são de dezembro de 2020.

Impresso é escola-mater do jornalismo e tem duelado com o encantamento e facilidades do admirável mundo novo da Internet.

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Carlos André – A espera que vendeu um milhão de discos

Por Fabiana Moraes (Jornal do Commercio-PE)

Quando Carlos André resolveu gravar Se meu amor não chegar, teve gente que o alertou: “ssa música é popular demais para o senhor.” Colocaram a canção lá no lado B de um compacto duplo. Em poucos dias, tornou-se sucesso que fez o disco sumir das prateleiras. O hino do homem que sofre à mesa de um bar é até hoje uma das âncoras que mantém o cantor no mercado: além dos shows, de frequência semanal, ele também media apresentações de colegas como Roberto Müller e José Ribeiro. “Se eu gravasse ‘o quebra mesa’ hoje, ficava rico”

"Oseás Lopes" saúda o sucesso de Carlos André na mesa de um bar

“O Rei dos Motoristas de Táxi”. Carlos André estava chegando a Manaus para mais um show quando viu o cartaz que anunciava a sua apresentação naquela noite. Era ali apresentado a mais um título que indicava tanto o seu lugar quanto o de seus fãs na pirâmide sociocultural do País.

Conhecia outros: era “artista de cabaré”, “cantor de brega”, fazia “música de empregada” (e de caminhoneiros, pedreiros, manicures, serventes, estivadores, putas). Carlos e os outros cantores do romântico popular eram os tenores de uma enorme parcela de trabalhadores que prestavam serviços pouco prestigiados para a classe média criada com banquinho e violão.

Serviam – antes mais, hoje menos – como contraponto daquilo que era “de bom gosto” ou, no máximo, cabiam na esfera do folclórico e do risível. Nesse sentido, era quase um impropério, entre intelectuais e demais esclarecidos do Brasil de 1975, ouvir e cantar versos como “Não posso mais, eu confesso/ Confesso que vou chorar/ Eu hoje quebro essa mesa/ Se meu amor não chegar”.

Escondida na última faixa do lado B do compacto duplo O apaixonado, a música Se meu amor não chegar (Lindolfo Barbosa e Wilson Nascimento) provocou um sismo nas rádios do País quando foi lançada. Foi em grande parte por causa dela que o artista nascido em Mossoró, no Rio Grande do Norte, foi parar em Manaus: virou astro nas regiões Norte e Nordeste do País, aquelas que melhor acolhiam tais artistas e, por isso mesmo, terminavam fazendo parte do cimento do preconceito em relação a tal produção.

Esse olhar negativo era duplo: enquanto direitistas julgavam as músicas como cafonas, esquerdistas viam ali o subjugo do intelecto a favor da alienação. “A esquerda era muito elitizada”, conta Carlos André, cujo escritório é decorado com várias capas de discos, inclusive aquele que traz o “Quebra-mesa”, como seu maior sucesso ficou conhecido.

O enorme interesse pela música agradou imensamente à gravadora Beverly: um milhão de cópias foram vendidas, instigando a empresa a realizar mais cinco discos com o mesmo título O apaixonado (que distinguiam-se pelo número do volume: 2, 3, 4, 5, 6).

Trio Mossoró

Foi o momento máximo de um artista que havia iniciado a carreira no fim da adolescência, quando fez parte do Trio Mossoró (ao lado dos irmãos Hermelinda e João, ele usava o nome de batismo, Oséas Lopes). O trio, formado nos anos 50, fez sucesso em um Sudeste que consumia com certo apetite o forró e o baião, sendo Luiz Gonzaga o mais cortejado nome.

Quando o interesse por tais ritmos começou a arrefecer, foi a vez de a música romântica trazer seus ídolos – e foi aí que Carlos André deixou Oséas para trás, gravou suas dores – e estourou. Queria ser artista desde criança: usava folha de carnaúba como se fosse sanfona, gostava de chamar atenção de quem estava ao seu redor.

“Na vesperal de domingo, o programa era ir ao cinema ou ver Oséas Lopes pular da ponte.”

Prestou serviços pouco comuns, como pintar carroceria de caminhão e entregar bilhetes para o delegado soltar este ou aquele preso. Nessa época, usava uma bicicleta que tinha um motorzinho. Mas gostava mesmo era de cantar, aprendeu ouvindo a própria mãe, que cozinhava e arrumava a casa soltando a voz.

Esse gosto foi observado por Canindé Alves, locutor da Rádio Tapuyo, que chamou o rapaz lá no estúdio. Ele cantou uma música para Nossa Senhora Aparecida e fez sucesso. “Eu era o cara mais famoso da cidade.” Só que a cidade era pequena demais para o nível de aparecimento que Oséas queria: decidiu ir para Fortaleza.

Também achou pequena.

Veio para Recife e se apresentou no programa de Fernando Castelão (o popularíssimo Você faz o show, apresentado aos domingos na TV Jornal). Trabalhou também com Orlando Silva, criador de novelas para a mesma emissora. Mas não era exatamente o que queria: voltou para Mossoró e para o antigo emprego, no qual ganhava bem.

Mas queria mesmo o Rio de Janeiro.

Em 1959, arrumou as malas e pegou um navio. Foram sete dias e sete noites navegando até chegar ao porto da cidade. Instalou-se em um dos galpões localizados no bairro de São Cristóvão. Lotado de nordestinos que também buscavam algo dourado na cidade, o local quase não conseguia abrigar mais uma rede.

“Era um depósito de sal. Não tinha lugar pra mim. Aí um vigia, Calazans, que também era de Mossoró, encontrou um canto pra minha rede. Mas era bem no local onde passava o trem. Eu tinha que acordar todo dia às 5h30, pois o trem passava às seis. Calazans me acordava gritando ‘Olha o trem!’ Eu pagava a ele comprando uma abacatada e um pastel, toda manhã.”

Apesar de contar com o apoio financeiro do pai, cuja renda permitia uma confortável vida familiar, Carlos André começou a fazer bicos – e foi mais ou menos por causa de um deles que mais tarde obteve a incrível soma de um milhão de discos vendidos.

Trio Irakitan

Estava entregando uma carta no edifício da Rádio Nacional quando encontrou o prestigioso Trio Irakitan, contratado da casa. Também vindos do Rio Grande do Norte, Edinho, Paulo e Joãozinho ficaram sabendo que o conterrâneo estava há quase um mês no Rio experimentando um pouco confortável anonimato após sair de Mossoró, onde era celebridade.

Oséas também aproveitou o laço geográfico que os unia: o trio possuía um programa na rádio, o que o ajudou a chegar a nomes como Rildo Hora (caruaruense exímio na harmônica) e Paulo Gracindo, apresentadores do programa Gaita Hering. Conseguiu ser contratado e logo saiu do galpão de sal.

Os irmãos de Oséas vieram do RN e continuaram a parceria iniciada no Nordeste. Em 1962, lançaram Rua do namoro, em 1965, Quem foi o vaqueiro. Ganharam o troféu Elterpe (o maior da música popular nacional nos anos 60) com a música Carcará, aquela que dois anos depois transformaria uma jovem Maria Bethânia, cantando no Teatro Oficina, em mito.

Foram mais dez discos até que, em 1972, Oséas Lopes decidiu ser Carlos André e o trio chegou ao fim. O apaixonado veio em 1974 e logo todos cantavam as dores do homem que se perguntava “Pra que dois copos na mesa/ e uma cadeira vazia?”

Ironicamente, a canção que tornaria Carlos André nacionalmente famoso quase não era gravada – foi considerada por alguns como “popular demais” para ser interpretada pelo cantor. Seu conteúdo atormentado, pouco contido, dramático, soava meio… brega. “Diziam: ‘Essa música é muito sem-vergonha para o senhor cantar’. Mas se ser brega é agradar o povão, então eu sou.”

Lançou mais 32 discos, boa parte deles gravados enquanto Carlos também trabalhava como diretor artístico da Copacabana, que o contratou em 1979.

Produziu trabalhos de artistas como Luiz Gonzaga (“Ele ajudava todo mundo”).

Com dinheiro no bolso e fama, Carlos André não entrou na rotina padronizada dos artistas populares que o cercavam, preferindo não envolver-se em farras intermináveis, onde a soma bebida e mulheres era regra. “Eu era muito família, saía do show e ia direto pro hotel.”

Nos anos 80, lançou seis discos e mais uma coletânea, trabalhos que foi realizando até sair da Copacabana, no fim da década. A década de 90 vaticinou o fim de uma época, e foi justamente nela que Carlos André iniciou um quase caminho de volta: foi morar em Fortaleza, cidade que sempre cortejou os cantores populares – e onde vários deles, a exemplo de Genival Santos, presente nesta série, vivem.

Bartô Galeno

Foi o momento no qual regravou um sucesso popular, Siboney (Ernesto Lecuona e Dolly Morse), que se tornou famoso nas rádios nordestinas.

Recife, no entanto, continuava a ser o polo regional de música, o que logo atraiu o artista: em 1996, veio para a capital a convite de João Florentino, dono da Polydisc, produzir a famosa série 20 Super Sucessos (na qual os hits de cantores como Roberto Muller, José Ribeiro, Adelino Nascimento, Waleska, Fernando Mendes e Leonardo foram compilados). Trabalhou durante anos na empresa até ser desligado.

O mercado já sentia os efeitos da gravação caseira de discos. “A pirataria acabou com a produção”, diz Carlos André, que, naquele momento, voltara a também ser Oséas Lopes, o homem à frente do escritório local da Sociedade Brasileira de Administração e Proteção dos Direitos Intelectuais (Socinpro).

Foto de reportagem especial do Jornal do Commercio de Recife

É desse trabalho, além dos shows que faz e ainda produz, que vive hoje.

“Se o ‘Quebra-mesa’ fosse sucesso hoje, eu estaria rico”, comenta ele, que, religiosamente, durante seus shows, desce até a plateia para cantar seu maior hit ao lado dos fãs.

“Não acho cansativo, acho gratificante. Quando a música se imortaliza, não se acaba mais. Estamos fazendo shows com sucessos de ontem”, comenta, referindo-se a colegas como Müller e Bartô Galeno (seu maior parceiro nas mais de cem composições que escreveu, músicas como Toma juízo mulher, Vou devolver a cama, Vou dormir no chão).

No escritório da Socinpro, ele vai recebendo interessados em contratar seu show ou de outros cantores – é difícil manter sua atenção contínua na entrevista enquanto ele tenta marcar datas e estabelecer preços.

Nas cerca de duas horas, no primeiro encontro com Carlos, seu telefone tocou 13 vezes (celular e fixo). No último deles, o artista recebia mais uma proposta de show. “Estou em uma entrevista, mas me ligue depois. Você sabe que quando quiser um brega é aqui. E é de qualidade”.

Contato para Shows – (81)3422-0605 – (81)9121-4485.

Veja AQUI reportagem original.

Bartô Galeno – o ídolo gentil das multidões

Por Fabiana Moraes (Jornal do Commercio-PE)

Unanimidade entre os fãs da música popular romântica, cantor e compositor citado e gravado por diversos cantores presentes nesta série, Bartô Galeno é tratado como rei por onde passa. Humilde, a voz macia e a cabeleira farta, é ainda um dos mais requisitados cantores de seu gênero, com uma agenda que pode chegar a cinco shows semanais. Aqui, acompanhado pela esposa Socorro, ao seu lado desde o início de sua carreira, Bartô fala sobre sucesso, bebida e uma possível – e sempre protelada – aposentadoria.

Sentando no camarim improvisado, Bartô Galeno não acreditava: eram 7h30 da manhã de um domingo e o largo do Arouche, região central de São Paulo, concentrava uma multidão. Essa tinha um caráter universal particular: era formada pelos novinhos, os coroas, os de mãos dadas, os solteiros, os que haviam acabado de chegar, os que, latinha na mão e pouco sóbrios, passaram a noite à procura de algo que não sabiam identificar. Mulheres e homens chamavam por seu nome.

Bartô é destaque em série especial do Jornal do Commercio

Quando ele entrou, os cabelos em dramáticos cachos, veio o barulho: palmas, gritos, fotos, “Bartô!”, “Bartô!”. Era uma recepção e tanto, principalmente para um horário malvado daquele. O cantor, era verdade, estava acostumado a um público efusivo: 30 anos antes daquele 3 de abril de 2009, estava em um camarim improvisado no garimpo de Serra Pelada.

Escutou os novinhos, os coroas, os vários solitários, todos homens e poucos sóbrios, as garrafas de cerveja na mão. Chamavam por seu nome. Palmas, gritos, “Bartô!”, “Bartô!” e tiros. Muitos tiros. Se assustou, a voz tremeu, se acalmou quando explicaram os disparos: “É porque gostam de você”. Era verdade: no fim do show, jogavam pepitas de ouro aos seus pés.

Das apresentações nos garimpos da selva amazonense (“era tanto nordestino ali isolado do resto do mundo”) até o show realizado na Virada Cultural paulistana, Bartô, nascido em 1950, 40 anos de carreira, esteve em frente a milhões de pessoas que o tratam como um rei. Modesto, nunca reclamou para si o título relacionado tanto àquele que é sua grande inspiração (Roberto Carlos) quanto a outro cantor que compartilha de sua seara musical (Reginaldo Rossi).

Mas a coroa, note-se, não é necessária: um exemplo é que o cantor e compositor de Sousa, na Paraíba, foi constantemente citado tanto pelos artistas que aparecem nesta série quanto pelos fãs da música popular romântica do país. Bartô chama atenção por onde passa: foi assim no dia da entrevista para esta reportagem, marcada em um shopping center no bairro do Meireles, em Fortaleza.

No jardim do restaurante, um grupo de garçons reuniu-se para ver o cantor posar para fotos acompanhado por uma fita cassete. Antes, quando se dirigia ao local, um relógio dourado no pulso, o blue jeans à 70, acenou para fãs nos corredores. Fotos e “Bartô! Bartô!”.

Não é fácil precisar a afetividade instantânea que sentimos pelo cantor e compositor a partir de qualquer contato mais aproximado (em um show, em uma simples audição ou em uma entrevista de duas horas). Baixa estatura, magrinho, o cabelo meio RC nos anos “Lady Laura” (1978), a voz amaciada e meio tremida, ele é dono de uma conhecida simplicidade.

Personifica o cara boa-praça que assume o tom conciliatório quando os egos ficam mais alterados, o moço simpático que não precisa sorrir mais alto, nem falar por último, nem mostrar que é o mais sagaz do grupo.

Simplificando: Bartô é gente boa. Um exemplo foi a postura do cantor durante esta conversa: várias de suas respostas foram interceptadas pela esposa, Socorro, com quem está casado desde 1975. Perguntou-se quando ele deixou a Paraíba para morar no Rio. “Ah, foi em 1969, no dia 2 de julho de 1969, eu…” “Ah, foi no dia em que a Apollo chegou à Lua… Ele sempre conta essa história.” O cantor sorri, toma outro gole de água e só responde: “É, foi, foi”. (A expressão em repeteco seria usada várias outras vezes, nos momentos em que Socorro tomou a fala para si.)

Mas antes de o homem chegar à Lua e Bartô ao Rio, há, é claro, a gênese do mito: o filho de João de Deus e Carlota foi pequeno, 10 anos, morar em Mossoró, Rio Grande do Norte (terra fértil dos cantores da música popular romântica, como atesta esta própria série). A família, que passava por dificuldades financeiras, logo montou um tabuleiro de frutas em uma pequena feira local.

Bastinho Silva, o futuro Galeno, ajudava a vender os produtos enquanto começava a tocar violão e a cantar. A voz agradava e chegou aos ouvidos de um locutor da rádio Rural, Manuel, dono de um programa de auditório. Bastinho terminou lá no palco, aplaudido (começava ali sua relação de amor com o público).

Aí veio 1969: enquanto a ditadura militar provocava dor e assombro para alguns e felicidade e segurança para outros, o rapaz vencia o concurso “A Mais Bela Voz”. O título foi a mola que o impulsionou para o Recife. “Fiquei por lá somente duas semanas.” Trabalhou em um restaurante, arrumou as malas, foi para São Paulo, se aquietou no Rio.

De Bartolomeu para Bartô

Não foi uma chegada solitária, é verdade: quem estava por lá era Oséas Lopes, o futuro Carlos André (presente nesta série), que mais tarde viraria estrela com ”Se Meu Amor Não Chegar” (1974). Era, no entanto, já prestigiado por conta do Trio Mossoró – o grupo já havia encontrado o menino de Sousa em São Paulo, e foi lá que Bastinho morreu para dar vez a Bartô.

“Isso não é nome de artista”, disseram. Na operação do rebatizado, o Bartolomeu tomou o rumo natural do Bartô, mas o sobrenome era um problema. Pensaram até em manter o Silva, mas era simplicidade demais para concorrer com os adrianis e sorianos do momento. Aí surgiu o Galeno, bom reforço para o desenvolvimento da gênese do mito.

No Rio, Bartô escreveu canções para nomes como Odair José e Genival Santos (o homem do “Eu Lhe Peguei no Flagra“, presente nesta série), também para Carlos André e Fernando Mendes. Seu parceiro mais comum era Antônio Pires (irmão do cantor Roberto Müller, outro dos sete cantores de coração partido trazidos neste especial). Havia uma espécie de fraternidade entre os diversos cantores nordestinos que tentavam ocupar um espaço legítimo em meio a imensa produção fonográfica carioca. “Era tudo muito difícil, mas nós nos ajudávamos. Escrevíamos à mesa, saíamos para beber e compor”, lembra.

Começou a ganhar dinheiro com a composição, mas não havia esquecido do título de Mais Bela Voz. Queria cantar. Como era comum na época, passou pelos programas de auditório, entre eles, é claro, o de Chacrinha. Bartô lembra-se bem da longa fila para o teste, no qual a triagem era baseada em um enorme pragmatismo: “Esse canta, esse não canta, esse só tem boniteza, bota ele pra cá”.

Com a ajuda de Carlos André, que estava trabalhando na Copacabana, conseguiu ser apresentado aos produtores da gravadora Tapecar. Em 1975, gravou o LP Só lembranças, lançado no ano seguinte. O álbum, relançado em 1978, fez sucesso: “Cadeira Vazia” e “Amor Vagabundo” tornaram-se hits.

Em 1977, veio Pelo menos uma palavra, que antecedeu aquele que seria o Sgt. Pepper’s, o Dark Side of the Moon de Bartô: o LP No Toca-Fitas do Meu Carro, cuja faixa-título o elevou para o panteão da música popular romântica nacional. A música, autobiográfica, foi inspirada nos momentos de solidão que o cantor passou enquanto dirigia seu Chevette, o primeiro carro que comprou na vida.

Sucesso

Bartô diz que praticamente sustentava toda a Tapecar com a venda dos seus discos – o sucesso fez com que o cantor passasse por gravadoras maiores, como a WEA, a Continental, a RGE (nos anos 90, ele também foi lançado pela recifense Polydisc).

Disco dos anos 70: grande sucesso

Vendas e cabeleiras fartas, ele manteve a mão no freio e não deixou o sucesso provocar abalroamentos: continuou a prezar pela própria humildade. Mantinha, também, o hábito de beber com os colegas cantores e compositores. Socorro, que compartilha a entrevista e uma água mineral com o marido, conta que era uma época difícil. “Ele saía e não voltava, passava dias fora de casa.” Enfrentava, não em um Chevette, mas em casa, a solidão quando o marido saía em turnê. “Eu chorava, me sentia só.” Bartô, lembrando-se das farras e dos shows com os amigos, pensa alto o que talvez não devesse ser verbalizado: “Era tão bom…”.

Hoje, com a saúde mais frágil, ele jura ter deixado a bebida para trás. Precisa de fato cuidar de si para dar conta da agenda apertada: há noites em que faz três shows. “Eu penso em parar, mas, quando acaba um mês, já tem outro todo lotado.” Geralmente, vende as apresentações em uma espécie de “pacote”: três shows comprados por determinado cliente saem por R$ 15 mil. Se for um show único, o preço é elevado. Apresenta-se bastante no Sudeste, onde vive (Rio de Janeiro).

Os shows são concorridos e é comum, segundo ele, encontrar jovens que estão o descobrindo agora. Os depoimentos dos novos fãs por vezes provocam o riso do cantor. “Eles dizem ‘meu pai, quando era vivo, gostava de você’, ou então ‘ele não bebe mais, mas quando bebia, curtia muito seus discos’”, conta. Outra gafe comum – e que Bartô adora falar – é confundirem músicas populares de outros cantores como sendo dele. “Bartô, canta ‘Fuscão Preto’”, “Bartô, canta ’no hospital, na sala de cirurgia’.” Ri de novo.

Pouco depois, quando lhe pedem para se enrolar na fita cassete que remete ao seu maior sucesso, ele se anima. Apesar de meio abatido (Bartô estava doente no dia da entrevista), apesar de estar a poucas horas de realizar mais um shows, ele passa quase uma hora posando para fotos. No final, enrola toda a fita magnética. “Vão precisar dela? Quero pra mim.” Levou a fita como uma espécie de suvenir de mais um dia de trabalho. Como se a celebridade, quem devesse ser cortejado e lembrado, não fosse ele.

Fabiana Moraes é jornalista e socióloga, repórter especial do Jornal do Commercio (Recife), autora de reportagens especiais como “Ave Maria“, “A Vida é Nelson“, “O nascimento de Joicy” (Prêmio Esso de reportagem em 2011) e “Os sertões” (Esso de Jornalismo em 2009). Publicou, no formato livro-reportagem, Os Sertões (2011) e Nabuco em Pretos e Brancos (2012). A série “O clube dos corações partidos” foi publicada originalmente no Jornal do Commercio.

Contatos para shows: (21)8668-0623 – (21)2558-5191 – (91)8170-4640 (falar com Naldo Kleber)