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Lampião, o rifle e o sobrenome que salvou a Vila de Boa Esperança

Por César Amorim

Arte ilustrativa produzida com recursos de Inteligência Artificial
Arte ilustrativa produzida com recursos de Inteligência Artificial

Durante o Cariri Cangaço realizado na cidade de Antônio Martins/RN no último dia 24 de maio, um episódio até então pouco conhecido da história do cangaço veio à tona. Revelou não apenas um artefato raro, mas também os bastidores de um pacto improvável em meio ao terror instaurado pelo bando de Lampião em sua passagem pela Vila de Boa Esperança – hoje cidade de Antônio Martins.

Em apresentação conduzida pelo historiador Luan Alendes, foi exibido ao público um rifle que, segundo documentos e relatos orais compilados em sua pesquisa, que deu origem a um livro, foi entregue pelo próprio Lampião a um casal de moradores da antiga Vila de Boa Esperança. O objeto pertencia à Rosina Novaes e Augusto Nunes de Aquino, protagonistas de um momento singular durante a invasão da vila pelo bando cangaceiro, na tarde de 11 de junho de 1927.

O episódio se desenrolou quando Sabino, um dos homens de confiança de Lampião, liderava o saque à residência do casal. Em meio ao tumulto e à tensão da cena, Rosina foi ameaçada de sequestro. Porém, ao reagir, a mulher revelou sua origem sertaneja: Ela era natural do Pajeú pernambucano e tinha laços de sangue com Emiliano Novaes, de Floresta do Navio, hoje apenas Floresta, em Pernambuco.

A menção ao nome “Novaes” causou imediata comoção no grupo. Sabino recuou e chamou Lampião, que, ao chegar, pediu provas do parentesco, o que de pronto foi apresentado através de correspondências e fotografias dos primos. Assim, Lampião reconheceu em Rosina uma parente de Emiliano Novaes, figura conhecida por ser coiteiro e amigo pessoal do Rei do Cangaço. A identificação alterou radicalmente os rumos da ação: Lampião suspendeu o saque em Boa Esperança e ordenou a retirada de seus homens.

Como gesto simbólico e estratégico, afirmou o que foi feito está feito, mas não se bole mais em nada aqui”. E presenteou o casal com um rifle pessoal, arma que agora ressurge como prova silenciosa de um pacto de respeito entre o bando e a família poupada, que salvou a vila de um banho de sangue.

Boa Esperança foi, até aquele momento, um dos pontos mais duramente atingidos pela ofensiva de Lampião rumo a Mossoró, alvo principal da campanha cangaceira naquele ano. Casas saqueadas, moradores aterrorizados, e um vilarejo à mercê de um exército de sertanejos armados, até que a memória familiar e os vínculos invisíveis do sertão mudaram tudo.

O rifle, até então mantido em sigilo por um colecionador, é agora apresentado como símbolo de um Brasil profundo, onde honra e sangue se entrelaçam em narrativas que resistem ao tempo.

Uma história que ultrapassa o folclore, eleva o patamar de Antônio Martins sobre o tema, para nos lembrar que, mesmo em meio à brutalidade do Cangaço, havia espaço para pactos de honra e respeito.

Vila de Boa Esperança, um ambiente que foi poupado de banho de sangue (Reprodução)
Vila de Boa Esperança, um ambiente que foi poupado de banho de sangue (Reprodução)

Boa Esperança foi duramente atacada, mas escapou de um destino ainda pior por conta de um sobrenome. A história, agora resgatada, está registrada no livro “Lampião em Boa Esperança”, de autoria de Luan Alendes.

O episódio do rifle de Lampião é apenas um entre tantos frutos colhidos graças ao esforço coletivo de valorização da nossa memória nordestina. O Cariri Cangaço, mais do que um evento de pesquisa histórica, tem se afirmado como espaço vivo de identidade e pertencimento. Sua passagem por Antônio Martins, Martins, Patu e Lucrécia plantou sementes duradouras no solo cultural do oeste potiguar, reacendendo vozes, resgatando personagens e revelando narrativas que, por décadas, dormiram nos silêncios do sertão.

É preciso reconhecer: iniciativas como essa não apenas preservam o passado, mas dignificam o presente e iluminam o futuro de nossa cultura. Aplausos!

César Amorim é advogado

Livro tem novos fatos que enriquecem invasão de Lampião e seu bando

Alendes aprofunda pesquisa com base científica, como fontes primárias à sua obra (Foto: divulgação)
Alendes aprofunda pesquisa com base científica, como fontes primárias à sua obra (Foto: divulgação)

Após o sucesso de vendas da primeira edição, lançada em 2021, o historiador, professor e servidor público estadual, Luan Alendes Ferreira Batista, acrescentou novas informações e lançou a 2ª Edição do livro “Lampião em Boa Esperança.” O topônimo é o atual município de Antônio Martins, no Oeste do RN.

O livro é um trabalho de pesquisa historiográfica que traz à tona mais uma vez os acontecimentos da ocupação de Boa Esperança por Lampião e seu bando sanguinário.

“Na marcha de Lampião para chegar em Mossoró (alvo principal), nenhum lugarejo sofreu mais do que Boa Esperança, literalmente saqueado, com cangaceiros se apossando de tudo e de todos, fatos que essa obra imortaliza em letras garrafais e transmite agora de geração para geração”, destaca o advogado César Carlos de Amorim, que escreveu apresentação na contracapa da 2ª edição da obra.

Lampião em Boa Esperança trata-se de pesquisa séria, que vem contribuir significativamente com a história local e regional, trazendo novas e ricas informações. Detalha a sequência dos fatos ocorridos em 11 de junho de 1927, dois dias antes dos cangaceiros invadirem Mossoró.

A obra desnuda fatos extremamente interessantes de personagens de Boa Esperança no trato com os bandidos, dentre eles, a coragem da Dona Rosina Novaes, que em determinado momento fez parar o ataque à vila; a astúcia de seu esposo, Augusto Nunes, a capacidade de diálogo de Justino Ferreira e a facada de Jararaca em pessoa por nome de Vicente Lira, personagens reais que sentiram na pele o terrível ataque do bando.

Reservas da obra podem ser feitas pelo telefone / WhatsApp (84) 99942-7195

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