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O freio de arrumação que falhou – a barbárie do pós-pandemia

Por Marcello Benevolo

Arte ilustrativa com recursos da Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recursos da Inteligência Artificial para o BCS

Durante a pandemia, confinados pelo medo e cercados pelo luto, nutrimos uma esperança coletiva: a de que a crise sanitária mundial serviria como um “freio de arrumação” para a humanidade.

Acreditávamos que a dor em escala global nos obrigaria a parar, repensar nossas ações e mudar nossa relação com o próximo e com o meio ambiente. A promessa repetida à exaustão era a de que sairíamos pessoas melhores.

A realidade, no entanto, atropelou a teoria. Não saímos melhores; saímos profundamente danificados. O que se vê hoje é uma sociedade adoecida, imersa em uma epidemia silenciosa de depressão, ansiedade e suicídios. O tecido social parece ter perdido sua elasticidade. Tornamo-nos uma coletividade intolerante e agressiva, onde qualquer faísca gera uma explosão. Uma simples discussão no trânsito ou um desentendimento entre vizinhos, que antes terminaria em palavras ríspidas, hoje vira crime de homicídio.

A capacidade de dialogar desapareceu. Nas redes sociais, o debate de ideias foi substituído pela beligerância pura e simples. Pensar diferente tornou-se uma ofensa intolerável. Pessoas atacam umas às outras gratuitamente, transformando qualquer postagem ou comentário em um tribunal implacável onde o outro é sempre o inimigo a ser abatido.

É nesse cenário de adoecimento crônico que a barbárie ganha contornos trágicos no mundo real. A imprensa noticia atônita o caso de um pai que, diante da suspeita de uma traição conjugal, decide assassinar os dois filhos menores e cometer suicídio em seguida. É o ápice do desespero humano, a aniquilação total de uma família motivada pela incapacidade absoluta de lidar com a dor e a frustração.

Como se não bastasse a tragédia adulta, vemos o espelho dessa agressividade refletido na juventude, no recente e revoltante caso do cão comunitário Orelha. Espancado de forma letal supostamente por um grupo de adolescentes, o animal indefeso tornou-se vítima da crueldade banalizada. Quando nossos jovens, que deveriam representar o futuro, agem como algozes por puro sadismo, é sinal de que falhamos miseravelmente na transmissão de valores cristãos básicos de empatia e respeito à vida.

Em que sociedade estamos vivendo? Se a maior tragédia do século não foi suficiente para nos fazer repensar nossos atos, que outro alerta precisaremos receber? Precisamos urgentemente resgatar a nossa humanidade, reaprender a debater e a tolerar. Caso contrário, o freio de arrumação nunca virá, e continuaremos acelerando rumo à nossa própria destruição.

Marcello Benevolo é advogado e jornalista

Este é Pedrinho – Memórias de uma cobertura jornalística

Por Marcello Benevolo

Capa do Correio Braziliense (Reprodução do BCS)
Capa do Correio Braziliense (Reprodução do BCS)

Todo fim de ano eu entro em modo reflexivo. Revisito o passado, olho para o presente e arrisco alguns pensamentos sobre o futuro.

Nessa última viagem pela minha memória, parei no ano de 2002.

Naquele ano, eu estava mergulhado na cobertura jornalística do “caso Pedrinho” – o bebê roubado de uma maternidade de Brasília 16 anos antes e que teria inspirado a novela global “Senhora do Destino”, estrelada por Renata Sorrah.

Uma grande equipe do Correio Braziliense, onde trabalhava à época, seguiu para Goiás. Parte dos repórteres ficou em Goiânia. Eu, ao lado do genial fotógrafo Carlos Moura (in memorian), peguei a estrada rumo a Itaguari, uma pacata cidade de aproximadamente 5 mil habitantes, a cerca de duas horas da capital. Era ali que o adolescente costumava passar as férias escolares na casa do “avô” paterno.

Com o “vô Tonho”, fomos reconstruindo a infância desconhecida do então Osvaldo Martins Júnior, nome de batismo dado por Wilma, a sequestradora. Os amigos de infância ainda estavam atônitos com a revelação da história. A reportagem exclusiva do colega Renato Alves, publicada dias antes no Correio, tinha transformado o caso no principal assunto da pequena cidade.

Foi em Itaguari que, por meio de uma paquera de Pedrinho, conseguimos a primeira – e exclusiva – imagem do garoto. A essa altura, ele estava escondido em Goiânia pela mãe adotiva e sequestradora, fugindo da imprensa depois da descoberta do caso e da enorme repercussão nacional da história. Nem para a escola estava indo naqueles dias.

Vale lembrar: não existia iPhone naquela época. E em Itaguari não havia sequer uma lan house. Moura então fez a foto da foto (mas já se usava câmera digital!) e nós voltamos literalmente voando para um hotel em Goiânia, de onde transmitimos a imagem para a redação do jornal, em Brasília.

A foto finalmente impressa foi levada para os pais biológicos de Pedrinho, Jayro e Lia, na casa onde moravam no Lago Norte. Eles não tiveram dúvidas de que aquele adolescente de 16 anos era o filho roubado da maternidade do Hospital Regional da Asa Sul, em 1986. “Até a orelha tem os traços do pai”, teria dito um deles.

No domingo, 10/11/2002, a imagem exclusiva do menino estampou a capa do Correio Braziliense com a manchete: “Este é Pedrinho”, encerrando 16 anos de suspense. O resto virou história: dias, semanas, meses de intensa cobertura jornalística. Tempos depois, Wilma acabou presa e Pedrinho foi morar em Brasília com os pais biológicos.

Minha editora, a habilidosa Ana Dubeux, sempre dizia que um dia ainda “encontraria” Pedrinho. Seria a história da vida dela! E encontrou! Fica aqui o registro: parabéns pela cobertura épica do Correio Braziliense – e obrigado por ter me incluído nela.

Hoje, Pedrinho é advogado, casado, pai de dois filhos. Mora em Brasília com a família e recentemente voltou ao noticiário ao integrar a equipe de defesa do jogador Robinho.

A história completa está contada no livro do jornalista mineiro de Sete Lagoas, com quem tive o privilégio de trabalhar, Renato Alves, sob o título “O Caso Pedrinho” (Editora Geração), disponível em livrarias e marketplaces.

Marcello Benevolo é jornalista e advogado