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Gaudêncio Torquato é eleito à Academia Norte-rio-grandense de Letras

Gaudêncio e o editor dessa página em evento político em 2018 (Foto: arquivo)
Gaudêncio e o editor dessa página em evento político em 2018 (Foto: arquivo)

Gaudêncio Torquato é o mais novo integrante da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

Sua eleição aconteceu nessa sexta-feira (16). Ele vai ocupar a cadeira que teve como último acadêmico o escritor Nelson Patriota (veja AQUI).

Professor da Universidade de São Paulo (USP), consultor político e de marketing, jornalista e escritor, Gaudêncio nasceu em 8 de abril de 1945 (76 anos), em Luís Gomes – Alto Oeste do RN.

Há décadas está radicado em São Paulo-SP, com intensa atividade intelectual.

– Acabo de ser comunicado pela secretária da Academia Norte-Rio-grandense de Letras, acadêmica Leide Câmara, que passo a integrar a renomada instituição criada em 1936 por um grupo de intelectuais, à frente um dos mais notáveis nomes da cultura brasileira, o mestre Câmara Cascudo, e hoje comandada pelo poeta, professor, advogado e escritor Diógenes da Cunha Lima – manifestou-se.

Nota do Blog – Aplausos, meu caro Gaudêncio.

Parabéns por mais esse êxito.

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Nelson Patriota, presente!

Por Tácito Costa

“Nelson, sempre tão generoso fará muita falta…” escreveu-me hoje (quinta-feira, 7) cedo a amiga comum, poeta Marize Castro, em troca de mensagens por WhatsApp, lembrando o papel importante que ele teve em nossas vidas.

Somos da mesma turma do curso de Jornalismo da UFRN. Estávamos sempre juntos pelos corredores. A paixão pela literatura gerou uma identificação imediata e laços que perduraram pelos anos afora.

O autor e Nelson Patriota, amizade construída da faculdade à literatura (Foto: redes sociais)
O autor e Nelson Patriota, amizade construída da faculdade à literatura (Foto: redes sociais)

Nossas vidas voltariam a se cruzarem anos depois, tendo como fios, novamente, a literatura e o jornalismo. Marize foi a primeira editora do jornal O Galo, da Fundação José Augusto. Nelson foi o segundo e eu fui o primeiro editor da revista Preá, que substituiu o jornal. Nos períodos em que ele e Marize editaram O Galo eu estava na Assessoria de Imprensa da Fundação. A cumplicidade iniciada no curso de jornalismo prosseguiu durante essas épocas de trabalho na FJA.

Desembarquei no curso de jornalismo no início da década de 1980 com uma carência enorme de boa literatura. Minhas leituras iam de mal a pior. E foi Nelson quem me guiou, apresentando-me aos clássicos e lançamentos literários mais importantes. Considero-o a pessoa mais importante da minha formação cultural, e não apenas literária porque nossos papos incluíam filmes, música, artes plásticas, teatro, história, política.

Quando ele chegou ao curso de jornalismo, em 1980, já era graduado em Sociologia e editor do caderno cultural do jornal A República. Tinha uma bagagem considerável e eu estava começando minha trajetória acadêmica, a profissional ainda demoraria quatro anos para deslanchar, o que só ocorreu quando acabei o curso. Tive-o como mentor e exemplo. Tentei segui-lo, mas não cheguei nem perto. Além dos nossos temperamentos diferentes, a formação cultural dele era inalcançável para mim.

Foi o intelectual mais completo com quem convivi. Jornalista, sociólogo, crítico literário, tradutor, escritor que desconhecia fronteiras, escreveu biografias, crônicas, contos, romances e poesia, revisor, organizador de coletâneas de poesia, violonista, enxadrista, editou os cadernos culturais dos jornais A República, Diário de Natal, Tribuna do Norte e da revista RN Econômico (destes, só a TN continua aberta). Ocupava a cadeira nº 8 da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

Como editor, jamais se negou a noticiar um lançamento, escrever uma crítica a pedido do autor ou fazer uma orelha ou prefácio para quem quer que fosse. Era cultíssimo, mas acessível e humilde. De uma integridade e honorabilidade reconhecida tanto no meio jornalístico quando literário, o que vamos e convenhamos não é fácil de se obter porque são meios onde grassam inveja e vaidade.

Generosamente, o que era uma das suas marcas (para mim, a maior de todas dele), como bem lembrou Marize, em 2009 me convidou para fazer a orelha do seu livro de contos “Colóquio com um leitor kafkiano”. Tenho seus livros aqui na estante, todos autografados com enormes consideração e carinho.

Quando em 2008 fundei o site Substantivo Plural, para dar credibilidade e peso ao empreendimento, convoquei-o para assinar uma coluna. Ele e mais dois amigos escritores e muito queridos, Carlão de Souza (que falta faz!) e Carmen Vasconcelos. Todos toparam na hora. Tenho essa dívida de gratidão com os três.

Desconfio que as novas gerações de escritores e jornalistas não fazem ideia da importância de Nelson para o jornalismo e a literatura do estado. Não foi um editor de caderno de cultura qualquer. Usou os espaços dos jornais onde trabalhou para fomentar, divulgar e criticar a produção literária potiguar, trabalhos fundamentais para se ter uma literatura vigorosa e reconhecida.

O jornalismo cultural do Rio Grande do Norte dos últimos 50 anos passa, obrigatoriamente, por ele. Para mim, foi o maior nome do jornalismo cultural nessas cinco décadas a que me referi acima e um dos mais brilhantes da história do jornalismo do Rio Grande do Norte. Com sua partida, abre-se uma lacuna gigante no meu coração e na vida cultural do estado.

No livro “impressões Digitais”, volume I, editado pelo escritor Thiago Gonzaga, com entrevistas de autores potiguares, ele pergunta no final da entrevista com Nelson: “Quem é o escritor Nelson Patriota”? “Sou um leitor que me dei conta de que precisava complementar essa condição com a de escritor. Estou seguro que o hábito da leitura finda por despertar algum tipo de escritor dentro da gente. Estou assim descobrindo o tipo de escritor em que me tornei antes que eu me desse conta desse fenômeno. Precisava me tornar aquilo que eu era, em suma. Tenho a esse respeito uma utopia: um dia todos nós leitores nos tornaremos também escritores”.

Há cerca de dois meses, antes do seu estado de saúde se agravar, com ajuda do seu filho Rainer Patriota, falei com ele por telefone. Tentei animá-lo, mas sabia que se tratava de uma luta desigual. Foi a nossa despedida.

Até mais, grande Nelson! Gratidão por tudo, amigo. Descanse em paz.

Tácito Costa é jornalista e escritor

Clauder Arcanjo fala sobre “Separação” em novo livro

Capa de "Separação"

“Separação”. Esse o título do mais novo livro do escritor Clauder Arcanjo, cearense adotado pelo Rio Grande do Norte e que fez morada em Mossoró.

Será lançado oficialmente no próximo dia 14 de setembro.

A noite de autógrafos está definida para as 18 horas, na sede da Academia Norte-rio-grandense de Letras (ANL), em Natal-RN.

O livro traz um texto nas orelhas do acadêmico Nelson Patriota. O prefácio é do professor, crítico literário e membro da Academia Paraibana de Letras (APL), Hildeberto Barbosa Filho.

Na contracapa, uma saudação do escritor Don Fructuoso Mangas, de Salamanca (Espanha).

O projeto gráfico é de Augusto Paiva, com desenhos e pinturas de João Helder e Careca.

A publicação é outro trabalho da Editora Sarau das Letras.

O autor desfia uma série de contos que justificam “Separação”. Segundo Nelson Patriota, Arcanjo “nos oferece seu rico repertório de causos relativos aos desacertos do amor”.

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Crime e expiação em Areia Branca

Por Nelson Patriota

Num famoso conto de Borges, Caim e Abel se encontram na outra vida e se olham, interrogativos, até que um deles pergunta: “Fui eu quem o matei ou tu que me mataste?”. E conclui Borges, um crime só prescreve com o esquecimento. Na vida, porém, são raros os que esquecem os crimes que cometeram ou as injustiças que sofreram; é comum, mesmo, que tal mácula persiga os humanos ao longe de toda uma vida.  O professor João Faustino Ferreira Neto, vítima de um acúmulo de injustiças que não conseguia esquecer, escreveu, na idade madura, um livro em que exorcizou seus algozes, intitulando-o de “Eu Perdoo”.

Autor de um crime involuntário e inteiramente improvável na quadra da sua juventude, o escritor areia-branquense Francisco Rodrigues da Costa precisou atingir a maturidade dos setentanos para pedir, de forma conclusiva, perdão e misericórdia pelo seu erro. O relato dessa história, seus antecedentes e suas decorrências estão contidos no relato autobiográfico “Perdão” (Sarau das Letras, 2014).

Mas ao contrário do que se poderia supor, “Perdão” não é um livro triste, isto é, marcado por ideias pessimistas ou niilistas. Seu viés se volta mais para a descrição do trabalho de reparação de um erro de juventude e de retomada da vida. Dada, porém, a dimensão da falta, só na idade madura, com a distância que uma longa idade oferece, pôde o autor encontrar as palavras, o tom e o roteiro de sua expiação.

Em seu minucioso e indispensável prefácio, intitulado “Uma vida que dá romance”, o escritor Aécio Cândido observa que Francisco Rodrigues começou a escrever seu livro depois dos 70 anos. “Hoje, com 81 anos, já publicou quatro livros, sendo este o quinto”, assinala e, sem conter seu espanto ante a fecundidade literária desse escritor tardio e fecundo, conclui: “Um desempenho invejável para qualquer um”.

A leitura de “Perdão” ajuda a entender por que Francisco Rodrigues estava fadado à escrita literária. Basta observar como ele manipula a arte do diálogo, de um lado e, do outro, se prende a minúcias na descrição de pessoas e situações, o que garante colorido e vivacidade ao que escreve. Os episódios em torno do soldado Catota ou do delegado Revoredo, personalidades opostas ligadas ao período prisional do autor, são uma boa mostra de suas habilidades de narrador. Tipos interessantes, curiosos e intrigantes desse mesmo jaez despontam a cada momento nas páginas do livro.

Um terceiro exemplo: a descrição do “affaire” que o então prisioneiro Francisco Rodrigues tem com a prostituta Margarida, cujos desenvolvimentos surpreendem pelas revelações que faz desse envolvimento singular, porque baseado na troca de favores sexuais, onde não faltam requintes e minudências eróticas, mas onde também avultam qualidades humanas improváveis em relações dessa natureza.

Sendo relato biográfico (ou semibiográfico, como quer Aécio Cândido), “Perdão” é, por força, um rico documento sociológico que faz revelações interessantes sobre as relações de trabalho na indústria salineira e pesqueira do município de Areia Branca e circunvizinhanças, sem descuidar dos jogos de poder, contraparte incontornável da vida provinciana, e do lazer e entretenimento que a animam.

O livro se encerra com uma revisita ao ano de 1954, ano fatídico na vida do autor, cujo agosto cumpriu com sobras os prognósticos populares que o reservam como celeiro de desgostos. Foi assim na vida de Francisco Rodrigues que teve, em João Faustino, um apoio fiel ao seu projeto de autoexposição. Quanto tempo um homem precisa para promover o perdão ou, expiando a culpa, ser perdoado?

As experiências vividas por João Faustino e Francisco Rodrigues indicam que um e outro desiderato exigem um esforço que, em verdade, se amolda ao sincero desejo de cada protagonista e só dele parece depender.

Nelson Patriota é escritor

* Texto originalmente publicado no jornal “Tribuna do Norte”

Suma poética de um renascentista apócrifo

Por Nelson Patriota

Mais exigente dos nossos poetas, Paulo de Tarso Correia de Melo é também o mais operoso, na medida em que entende a poesia como uma conquista diária. Lendo-o, entendemos que ninguém é poeta, faz-se poeta através da cota de poesia que conquista para si, cônscio, porém, que essa cota precisa ser renovada. Sempre.

Em seu novo livro, “Misto Códice” (Sarau das Letras/Trilce Ediciones, 2012), esse viés naturalista da poesia de Paulo de Tarso se torna mais evidente pela incorporação de novos temas à já vasta poesia do autor: a ela se somam, agora, a tradição oral dos indígenas brasileiros, mas também elementos das culturas pré-colombianas, como os incas, os astecas e outros e, last, but not least a incerteza sobre a permanência do poema, tema presente no poema “Misto Códice”.

Depurada nesse novo livro, a feitura desses poemas exigiu do autor pesquisas, traduções e adaptações as mais diversas. Mas sua importância já se faz evidente, haja vista que indica uma rota segura para a poesia de nossa época: o poeta precisa se colocar à altura de suas expectativas, encarando como trabalho aquilo que durante muitos séculos foi aceito equivocadamente como fruto do acaso ou da inspiração.

Sob esse aspecto, Paulo de Tarso pode ser mais visto como um “apócrifo renascentista”, como ele próprio se retrata no poema “Chaves”, que abre “Misto Códice”.

Afora todo o aporte de novos e velhos motivos poéticos que anima esse livro, “Misto Códice” sai em edição bilíngue português-espanhol, sendo o professor Alfredo Pérez Alencart o responsável pela versão espanhola, bem como pelo “Prólogo” que precede os poemas.

Outro fator que distingue “Misto Códice” é seu aspecto programático: sua escritura cumpriu um objetivo pré-determinado (embora não extraliterário): integrar o “Encontro de Poetas Ibero-americanos de Salamanca”, evento promovido pela Universidade de Salamanca, que acontecerá nos três e quatro de outubro próximo, e ao qual Paulo de Tarso participará como expositor, quando lançará seu novo livro.

Temas épicos, como o ocaso do imperador asteca Montezuma e do líder indígena peruano Atahualpa, entre outros episódios da conquista das Américas, se disseminam ao longo de poemas que, para serem perfeitamente apreciados, requerem do leitor não só sensibilidade poética, mas também informação histórica.

Há, porém, aqueles poemas que lidam com temas imemoriais quando, no embate com as palavras que já não podem calar, o poeta parece bradar como um profeta em transe: “Aonde iremos / que morte não haja? / Meu coração partirá / como as flores perecem? // Não mais que uma flor / é o homem sobre a terra, / breve instante goza / a primavera” (“Pergunta”).

Mas logo o próprio poeta reassume o comando do diálogo, e pronta vem a resposta: “[…] Viemos somente sonhar. / Viemos somente dormir. Que viemos viver na / terra não é verdade. // Esta terra nos é dada / por empréstimo, amigo. / Nela a nossa passagem / pouco ou nada tem valido. // Abandonar os poemas / e as flores será preciso. / Eu estou cantando ao sol / e estou triste por isso” (“Resposta”).

Algo, porém, se sobrepõe ao niilismo pungente: “Para a casa da aurora / e a casa do azul da tarde […] para a casa aonde se chega / pela trilha do arco-íris, // na beleza eu caminho, / com a beleza adiante / e atrás com a beleza / acima e em torno de mim. / caminho para a beleza / e em beleza termino” (“Canto Noturno”).

Homem renascentista, enfim, esse anacronismo permite a Paulo de Tarso se assenhorear de todo o saber suscetível de ser transmudado, pela alquimia da poesia, na liga fina do poema, agora livre de toda impureza.

Nelson Patriota é escritor e jornalista

* Texto originalmente  publicado no Site/Blog Substantivo Plural