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Blink: a decisão num piscar de olhos

Por Francisco Edilson Leite Pinto Junior

“Um morto despertou os vivos”

(Carlos Lacerda)

Blink! E num piscar de olhos, vi na minha frente: Guimarães Rosa, Lulu Santos e o filósofo grego Heráclito. O primeiro, no seu Grande Sertão: Veredas, que disse: “A vida não é entendível; viver é negocio muito perigoso”; o segundo canta até hoje, em verso e prosa, que “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia: tudo passa; tudo sempre passará”; e o terceiro que filosofava na Grécia antiga ensinando:

“É impossível banhar-se duas vezes no mesmo rio”…

Pois é caro leitor, é inútil querer entender esse mundo e os seus habitantes.

Mas, mesmo assim, sem entender o mundo, temos que admitir que o ser humano é realmente fantástico, e é inegável que Deus estava muito inspirado, quando pegou um monte de barro e fez dele a sua maior obra, com um cérebro e essa coisa chamada de inconsciente adaptável, que foi muito bem descrita, no livro BLINK, do autor Malcolm Gladwell:

“A única maneira pela qual os seres humanos poderiam ter sobrevivido como espécie por tanto tempo é que eles desenvolveram um tipo de dispositivo para tomada de decisões, capaz de fazer julgamentos muito rápidos com base em muito poucas informações… O inconsciente adaptável faz um excelente trabalho de avaliar o mundo, alertar a pessoa em caso de perigo, definir metas e iniciar a ação de maneira sofisticada e eficiente”.

Getúlio caricaturado por chargista Nássara

Pois bem! Entre uma piscadela e outra dos meus olhos, foi inevitável, diante dos últimos acontecimentos não pegar o livro “Depoimentos” de Carlos Lacerda, e abrir no capítulo XII:

Na noite de 23 para 24 de agosto, estávamos em casa de Joaquim Nabuco… abriram champanha, começamos a comemorar. Soubemos que Getúlio já tinha renunciado àquela altura. Até que, já de manhã, não me lembro bem a hora, alguém telefonou anunciando o suicídio. É evidente que houve aquele momento assim, de não sei bem como definir o sentimento, em todo caso, não era de alegria; era um sentimento de pena do homem, da tragédia humana, da tragédia pessoal do homem, de imaginar a agonia em que um homem deve estar para chegar a dar um tiro no coração… para quem tivesse um mínimo de sensibilidade, via que o que tinha acontecido no Brasil era o que aconteceu no drama de Shakespeare – Júlio César. A mesma multidão que aclamava Brutus e os assassinos de César, quando Marco Antônio fez seu discurso com o cadáver nos braços, começou a pedir a morte dos que tinham matado César. Foi assim que passei de vítima a assassino de Vargas”…

Tudo isso aconteceu há sessenta anos, em 1954. E não se espante, caro leitor, que estejamos vivenciando tudo novamente. Nietzsche e o seu cérebro privilegiado, de inigualáveis aforismos, já tinha nos alertado:

Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequencia e ordem – e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente”.

E de repente, a perene ampulheta do existir virou mesmo. Dor, prazer, suspiro, pensamentos e acordamos com a notícia; “O avião caiu. Eduardo Campos morreu!”. Tudo como se fosse orquestrado pelo maestro chamado destino. Maktub! No mesmo dia da morte do seu avô Miguel Arraes; morre o neto, candidato do PSB a presidência da república. E é sempre no mesmo mês de agosto. Desgosto, tristeza, comoção, perplexidade e uma enorme de uma certa incerteza: “O mistério está em toda parte”. E quem se atreverá a desvendar o futuro a partir de agora?! Quem?!

Futuro que já é presente, ou melhor, já virou passado. E tudo corre e chega tão rápido, que pisco os meus olhos novamente e vejo os números 13 e 12. Não sou muito bom em matemática. Mas, graças a Deus, que esses cálculos são possíveis de serem feitos por qualquer pessoa: 13 do PT; 13 é o dia da morte de Eduardo Campos. 12 anos de governo do PT (oito de Lula e quatro de Dilma); 12 é o capítulo do livro de Lacerda que está sendo reescrito agora…

Longe, muito longe, de querer comparar Marina da Silva com um Marco Antônio, mas a morte de César – assim como a de Getúlio Vargas e agora a de Eduardo Campos-, é capaz de promover mudanças inesperadas e inimagináveis nas nossas vidas. E tudo que se ver não é igual ao que a gente viu há um segundo…

Em 12 dias, Marina da Silva saiu de 21% para 34%. Subiu 13 pontos e iguala aos índices da presidente Dilma. E no segundo turno, o estrago é ainda maior: “O país já não está diante de uma ‘onda Marina’ – afirma o jornalista Josias de Souza, no seu blog-, Mas assiste ao surgimento de um Tsunami eleitoral”.

Blink! Pisco os olhos mais uma vez. E escuto Carl Orff e o seu “Carmina Burana”:

“Oh, Fortuna/ És como a lua/ estado variável/ Sempre crescendo ou decrescendo”… e tudo muda mesmo o tempo todo no mundo… mais uma piscadela, e vejo a mensagem no WhatsApp, do meu colega de turma Fábio Marcelo:

“Pinto! O homem faz planos, mas tudo está no controle de Deus. Se tiver de ser, ninguém vai impedir”…

Blink, blink, blink. Pisco os olhos e corro em direção a minha biblioteca.

Abro a página 39, do Grande Sertão: Veredas e vejo a profética mensagem do amigo Guimarães Rosa:

“Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro – dá gosto! A força dele, quando quer – moço!- me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém vê. Ele faz é na lei do mansinho – assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo… Viver é negocio muito perigoso!”…

Francisco Edilson Leite Pinto Junior

Os 20 anos das mil e uma noites…

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

Sempre que posso, leio “As mil e uma noites”. Acho incrivelmente fantástica a artimanha de Xerazade, que para se livrar da ira do sultão (traído pela primeira esposa, resolve casar, a cada noite, com uma mulher diferente, para matá-la a cada amanhecer), começa a contar histórias “agradáveis e belas”, cujo desfecho, permanece sempre em aberto:

“Isso não é nada comparado ao que irei contar-lhe na próxima noite, se eu viver e for preservada”…

Jorge Luis Borges, no ensaio sobre este livro, faz questão de destacar a beleza do título: “É um dos mais belos do mundo… pois está no fato de que para nós a palavra ‘mil’ é quase sinônima de infinito. Dizer mil noites é dizer infinitas noites, as muitas noites, as inúmeras noites. Dizer ‘mil e uma noites’ é acrescentar uma ao infinito…”.

Nietzsche dizia que a arte existe, para que a verdade não nos destrua. E a verdade é que todos nós, um dia, morreremos. Esta é a mais certa de todas as verdades! A não ser que consigamos fazer como Xerazade, que contando histórias, consegue vencer Tânatos, consegue viver eternamente… A não ser que consigamos fazer como Beethoven, que através da sua Nona sinfonia, mesmo surdo – consegue enganar a morte – e continua vivo até hoje; a não ser que consigamos fazer como Cristo, que veio ao mundo apenas para amar e dizer a mais bela e simples frase, que resume toda a nossa existência:

“Amai o próximo como a ti mesmo!”.

Portanto, caro leitor, todas essas pessoas – que conseguiram driblar a morte e enganá-la-, tinham em comum a mesma coisa: amavam o que faziam… Veja a mensagem que Drummond, no inicio do seu belo poema “A quadrilha”, quis passar: “João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.”.

Enquanto havia amor entre os personagens, não havia necessidade de vírgulas ou pontos, pois não havia pausa e nem fim: a vida era eterna! Mas aí, Lili resolveu não amar ninguém e o Poeta de Itabira teve que colocar um ponto final. A corrente se desfez, e o fim chegou.

Ensinar é um ato de amor. “Não é possível ser professor”, alertava Paulo Freire, “sem amar os alunos e sem gostar do que se faz!”. Por isso, acredito que Amor e Fé, talvez sejam as únicas coisas que, verdadeiramente, valem a pena passar para os nossos alunos.

Como?! Vou explicar, caro leitor! Vou explicar… Era domingo à noite. Estava de plantão no Hospital Luiz Antônio, toca o telefone: “Dr. Edilson, tem um médico do interior querendo falar com o senhor!/ Alô?!/ Pois não!/ Eu gostaria de falar com o medico de plantão…/ Pode falar, é Edilson Pinto!/ Professor!!!/ Quem falar?!/ É João Carlos!/ Oi, meu caro, a que devo a honra?!/ Sabe o que é professor: estou aqui no interior, com o paciente da LIGA, portador de neoplasia de próstata, com diabetes descompensada e já fiz tais e tais condutas, mas ele precisa de internamento, como devo proceder?!/ Olha, pode encaminhar que eu vou reservar um leito, para interná-lo./ Muito obrigado, professor!/ Até a próxima, João!”.

Até aí não há nada demais nessa história, não é caro leitor? Mas, duas horas depois, chega o paciente, ao CSO da LIGA.

E antes mesmo de começar a anamnese e exame físico, os familiares se dirigiram a mim, dizendo: “Doutor, o médico lá do interior diz que conhece o senhor, é verdade? Olha, vou falar… até hoje não vi médico mais atencioso… espero que o senhor seja parecido com ele”. Após, ter prometido aos familiares que iria me esforçar para não decepcioná-los, ri e chorei de alegria, afinal, estava também compondo o meu poema: “ERNANI Rosado ALDO Medeiros FRANCISCO de Lima CELSO Matias CARLOS Formiga FERNANDO Suassuna LUIZ Alberto IAPERÍ Araújo CARLOS Dutra STÊNIO Silveira e Francisco Carlos LA GAMBA que amavam Edilson Pinto que amava João Carlos que amava seu José”…

Pensas que o poema parou aí, caro leitor?! Não! Quarta-feira, da mesma semana, toca o celular e aparece, no WhatsApp, uma foto com a seguinte mensagem:

“Professor! Veja o que sua aluna Karol foi capaz de fazer… É a sua aula de ontem, sendo colocada em prática. Abraços, Rafael Rosas (Professor da UnP)”.

E assim, o poema continuou, não é caro leitor: “SÍLVIA Fonseca BERNADETE Cordeiro FÁTIMA Azevedo ANA Maria DALVA Araujo MARIA do Carmo MARIA Willions YVELISE Castro e IARA Marques que amavam Edilson Pinto que amava Rafael Rosas que amava Karolynne que amava seu João”…

Pensas que o poema parou aí, caro leitor?! Não! No dia seguinte, na quinta feira, recebo o email, do meu fiel e bom companheiro, Bruno Pessoa: “Caro professor, segue o texto inaugural do nosso novo blog: Veredas Médicas. Espero que aprecie a empreitada:(//veredasmedicas.blogspot.com.br/2013/03/boi-com-sede-bebe-lama.html)”;  e assim, o poema continuou: “COQUINHO (História) HELDER e AUGUSTO (Matemática) JOCA (Biologia) PONTES (Física) Reinaldo RONDINELLI (INCA) Francisco REZENDE (INCA) e Alfredo GUARISCHI (INCA) que amavam Edilson Pinto que amava Bruno Pessoa que amava o seu pequenino paciente”…

Caro leitor, eu poderia passar toda a eternidade contando essas histórias de ex-professores e ex-alunos meus… E o mais interessante é que eu nunca poderia imaginar que, no dia 25 de março de 1993, há exatos 20 anos, ao assinar o meu contrato de Professor auxiliar I na UFRN, estava conseguindo driblar a morte, pois estava colocando mais um dia, nas minhas “mil noites”; colocando mais um dia ao infinito…

P.S. Dedico esse artigo a todos os meus mestres do Colégio Salesiano, da Faculdade de Medicina da UFRN, das residências médicas dos hospitais de Bonsucesso/Instituto Nacional de Câncer e, principalmente, aos meus mais de 2000 mil alunos, que tive o privilégio e o prazer de ensiná-los, nestes 20 anos de magistério…

Francisco Edilson Leite Pinto Junior – Professor (que enganou a morte), médico e escritor.