Ninguém perguntou, mas hoje quero contar a história de um rapaz ordinário. Aqui ordinário vai no sentido de comum, antes que se pense outra coisa acerca dessa palavra consagrada com sentido pejorativo. Naquela idade (vinte e quatro anos) esse moço ainda vivia sem eira nem beira. Falto de grana para quase tudo, virando-se apenas com biscates.
Só que o rapazinho, desde os breves tempos de escola, adquirira o hábito de escrever versos e, enquanto leitor, possuía uma estrada considerável. Na verdade, o hábito da leitura veio antes dos poemas revestidos com açúcar.
Até que um dia (sempre há um dia!) um renomado advogado e poeta destas penhas tomou conhecimento de que ali próximo à casa de sua nora havia um moço que compunha versos e tinha dois cadernos cheios dessas coisas que agora se escreve primeiramente em celulares e computadores e, logo depois, vão parar nos sites e nos blogues.
O nome do eminente advogado e literato era Apolônio Cardoso, autor de um texto musicado não sei por quem, tendo obtido bastante sucesso à época.
O título da então música de Apolônio Cardoso era (ainda é) “Flor do mocambo”, cujos versos admito não recordar. Então, com olhos indulgentes, esse consagrado homem de letras folheou e examinou uns dez poemas de minha autoria, em especial sonetos, e me pediu, pousando a mão no meu ombro, que eu o procurasse em seu escritório advocatício no dia seguinte, num prédio de primeiro andar nas imediações da Praça Vigário Antônio Joaquim.
Fui ao encontro de Apolônio no dia combinado, e ele repetiu elogios que me havia dito na véspera. Deu-me um papelzinho, um bilhete para que eu fosse ao Jornal O Mossoroense e lá procurasse o também poeta Cid Augusto. O tal bilhete abonava a minha participação no centenário como colaborador.
Cid Augusto de pronto botou os olhos naqueles sonetos carregados de influências clássicas, prenhes do estilo passadista de uma centena de autores, aprumou os óculos e balançou a cabeça afirmativamente: “Muito bem, senhor Ferreira, você fará parte da nossa equipe de colaboradores dominicais. Venha cá, eu quero lhe apresentar ao rapsodo Caio César Muniz”, disse o inveterado e jovem boêmio com quem (mesmo sem ser boêmio) mantenho uma consistente amizade até os dias de hoje.
Graças a Apolônio, portanto, eis que ingressei na imprensa desta província, muito embora continuasse na pindaíba, sem um tostão furado. Uma tarde, infelizmente, tomei conhecimento da morte do autor de “Flor do mocambo” e de outras composições de expressividade em nossa literatura e além fronteiras potiguares. Súbito, então, me senti como que órfão, desapadrinhado no contexto literário.
Em uma outra tarde, quando cheguei à redação de O Mossoroense para entregar minha colaboração para o caderno do domingo, fui chamado pelo diretor financeiro e este me comunicou que havia uma vaga para revisor de textos e que Cid Augusto me indicara.
Fiz um teste gramatical à época, já que existiam outras pessoas interessadas no cargo, e obtive a maior nota, embora minha situação escolar não fosse além da sétima série ginasial. É isto, sou um autodidata por convicção.
Decorrido cerca de um ano e meio, também por indicação de Cid Augusto, ascendi ao cargo de editor de cultura, conciliando com a tarefa de revisor. O emprego no jornal, se eu não disse ainda, foi o primeiro trabalho onde me senti de fato visto como alguém com outro potencial que subempregos anteriores não me proporcionaram. Isto sem sugerir aqui que esse ou aquele emprego não seja digno.
De minha parte, todavia, me encontrava num lugar com o qual me identificava, fazendo o que sabia e gostava. É verdade, contudo, que a função de repórter cultural era algo que não me agradava tanto quanto as demais atividades correlatas: revisor de textos e copidesque.
Um dia, como tudo se finda, minha ligação com O Mossoroense ruiu (não sou um elemento fácil de ser domesticado) e fui respeitosamente convidado a sair. Aqui e acolá, então, me bate uma sincera saudade daqueles bons tempos. Em especial do bardo Apolônio Cardoso. Fiquei no ora-veja.
Por outro lado, segundo Ernest Hemingway: “Todo bom escritor tem que passar por uma redação de jornal. Mas, para ser bom mesmo, ele tem que sair dela”. Não sei se me tornei bom, no entanto saí.
Marcos Ferreira é escritor