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A aliança secreta que quase tira dos Marinhos a Rede Globo

Do Bastidores do Poder

Roberto Marinho criou uma marca gigante, que esteve a ponto de desabar nos primeiros anos (Foto: UOL/Acervo)
Roberto Marinho criou uma marca gigante, que esteve a ponto de desabar nos primeiros anos (Foto: UOL/Acervo)

Antes de se tornar a força onipresente que moldaria a cultura e a política brasileira por meio século, a Rede Globo viveu um episódio de extrema fragilidade. Um “se” histórico que quase abortou o império antes do nascimento. Nos primeiros anos da década de 1960, enquanto o país experimentava o otimismo desenvolvimentista de Juscelino e o caos institucional que o sucedeu, Roberto Marinho, então dono do Jornal O Globo, sonhava em transformar uma concessão de TV ainda incipiente no coração de um império de comunicação.

O problema era o mesmo que assolava boa parte das ambições brasileiras da época, faltava dinheiro e know-how. O Canal 4 do Rio de Janeiro, embrião da futura Rede Globo, precisava de equipamentos, estúdios, técnicos e de uma estrutura de produção que o país simplesmente não tinha. A televisão nacional ainda engatinhava e os custos para alcançar o padrão americano eram impeditivos. Foi nesse cenário que o empresário enxergou na associação com um gigante estrangeiro a tábua de salvação e, sem saber, assinou o que a história lembraria como o pecado original da emissora.

A parceira escolhida foi o grupo Time-Life, conglomerado que controlava as revistas Time e Life e expandia o império para o audiovisual. O acordo selado em 1962 prometia mais do que os cerca de US$ 6 milhões, uma fortuna para o período, mas também a importação do modelo de gestão e das técnicas de produção americanas. No papel, parecia a solução perfeita. Na prática, seria o início de uma das maiores crises políticas da história da televisão brasileira.

Quando os primeiros dólares atravessaram o Atlântico, vieram juntos os primeiros fantasmas. O Brasil tinha leis claras: a Constituição de 1946, no Artigo 160, proibia a participação estrangeira em empresas de radiodifusão e jornalismo. O Código Brasileiro de Telecomunicações (1962) reforçava o veto. A Globo havia encontrado o capital que faltava, mas à custa de violar o texto constitucional.

O sonho e a realidade do capital

O acordo firmado em 1962 previa financiamento e assistência técnica da Time-Life. Inicialmente, os americanos tinham direito a 30% dos lucros, com relatos de ampliação para 45% em 1965. Além do dinheiro, a parceria trouxe quadros experientes, como Joseph Wallach, e práticas administrativas importadas que, segundo a literatura, influenciaram a gestão e até a programação da jovem emissora. Oficialmente, o contrato era apenas de assistência técnica e financeira, uma versão sustentada até hoje pela Globo.

Para os críticos, tratava-se de uma sociedade disfarçada, com ingerência indevida de estrangeiros sobre uma concessão pública.

A engenharia jurídica para manter o acordo de pé era digna de um truque de ilusionismo corporativo. O dinheiro entrava como financiamento, mas as cláusulas davam à Time-Life poder de veto e influência operacional. Era o suficiente para que os adversários vissem ali uma violação aberta à soberania nacional e um prato cheio para a disputa política que fervia entre civis e militares nos bastidores de Brasília.

CPI da Globo foi instigada por Carlos Lacerda em 1966 (Reprodução do Bastidores do Poder)
CPI da Globo foi instigada por Carlos Lacerda em 1966 (Reprodução do Bastidores do Poder)

A CPI e o risco da implosão

Em 1966, sob pressão crescente de concorrentes e de setores nacionalistas, foi instaurada a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Globo. A ofensiva foi impulsionada por Carlos Lacerda, então governador da Guanabara e velho desafeto dos Marinho, e politicamente articulada pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT), presidida por João Calmon, na Câmara dos Deputados. O objetivo era apurar se a TV Globo estava sob controle de capital estrangeiro e, em caso afirmativo, aplicar a punição prevista em lei, que acarretaria no rompimento da concessão.

Os meses seguintes foram um teste de sobrevivência. Deputados convocaram executivos, examinaram contratos e ouviram testemunhos. O relatório final, assinado pelo deputado Djalma Marinho, foi taxativo ao reconhecer que o acordo feria a Constituição de 1946 e recomendava ao Executivo aplicar as sanções legais, com o rompimento do vínculo com a Time-Life. O império que ainda mal se erguera parecia prestes a ruir.

A salvação pela política

O destino da Globo, no entanto, não seria decidido no plenário, mas sim nos corredores do poder. Em março de 1967, o governo de marechal Castello Branco concluiu oficialmente que as acusações eram “infundadas” e arquivou o caso. A decisão soou como um perdão velado.

Para o regime militar, recém-instalado e em busca de meios eficientes de comunicação com a população, era estratégico preservar uma emissora em ascensão, moderna e tecnicamente superior às concorrentes.

Dois anos depois, em 1969, a Time-Life deixou o negócio e Roberto Marinho comprou novamente a participação americana com financiamento do Banco do Estado da Guanabara. A crise estava contida e o episódio se converteu em uma lição. No Brasil, um império de mídia se constrói com audiência e faturamento, mas ainda mais com a habilidade de navegar a favor do vento político.

O próprio jornal do grupo noticia o 'fim' das relações com grupo estrangeiro (Reprodução do Bastidores do Poder)
O próprio jornal do grupo noticia o ‘fim’ das relações com grupo estrangeiro (Reprodução do Bastidores do Poder)

A herança do pecado

O caso Globo e Time-Life encerrou-se nos papéis, mas nunca de fato desapareceu da biografia da emissora. O episódio ensinou a Roberto Marinho que, no Brasil, a legalidade é apenas uma das dimensões do poder e, talvez, não a mais determinante.

A Globo sobreviveu porque compreendeu o jogo. Para existir, era preciso estar dentro do sistema e não contra ele. A lição foi assimilada com precisão cirúrgica. Daquele momento em diante, a emissora passou a cultivar uma relação com o Estado que oscilava entre o pragmatismo e o vínculo. O “pecado original” foi o batismo de uma lógica de sobrevivência que atravessaria governos, crises e redemocratizações.

Com o tempo, o escândalo virou rodapé de livro didático e a Globo, purificada pela própria história que ajudou a narrar, transformou-se em voz dominante da nação. Sua influência política e cultural cresceu a ponto de se confundir com o próprio país que a quase devorou no berço.

O acordo com a Time-Life foi enterrado, mas o DNA permaneceu, com a crença de que nenhuma lei é intransponível quando se tem poder de audiência e de que, no Brasil, o perdão oficial costuma ser apenas uma questão de timing.

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Uns e outros

Por Paulo Linhares

A Rede Globo de Televisão, uma das mais poderosas networks do planeta e que tem influenciado decisivamente os rumos políticos do Brasil nestas últimas quatro décadas, finalmente reconhece que uma parcela dos seus 100 milhões de telespectadores brasileiros  – que denominam apenas como “uns” – dela não gostam.

Sem dúvida, um marketing agressivo e revelador de que algo vai mal no império dos Marinho. Depois de se tornar o veículo de comunicação mais importante da história do Brasil, com crescimento incomensurável à sombra do Estado, inclusive a partir do acesso a generosos financiamentos do BNDES e de outras instituições financiadoras oficiais, a Globo, como é mais conhecida, tornou-se tipicamente uma “fazedora de reis”, com tudo de malsão que isso representa numa sociedade que se pretende republicana e democrática.

Curioso é que a consolidação da Globo como maior veículo de comunicação brasileiro se deu na Ditadura Militar (1964-1985), embora tenha mantido um forte ritmo de crescimento nas décadas seguintes, inclusive, nos quatorze anos de governos petistas. Claro, nesse meio tempo de governos pós-ditadura, as Organizações Globo, que inclui, também, veículos da imprensa escrita, como jornais e uma presença multifacetada na Internet, além das tevês aberta e fechadas, lançou mão de formas bem mais sofisticadas de influenciação política que aquelas utilizadas no passado por figuras emblemáticas do porte de Assis Chateaubriand, cujos métodos de pura chantagem e intimidação se tornaram célebres.

Sem dúvida, o estilo implantado por Roberto Marinho, o “dr. Roberto” para íntimos e lacaios, baseado na discrição e o padrão jornalístico de acendrado profissionalismo muito assemelhado  com os métodos dos barões da imprensa norte-americana, deu uma dimensão de modernidade às relações com o grande público, com o mercado publicitário e, sobretudo, com o mundo da política, embora neste último caso não tenha desprezado os volumosos favores oficiais, prática promíscua que marca igualmente a trajetória do empresariado brasileiro em geral, no rumo da ideia de privatizar lucros e socializar prejuízos.

Aliás, nestes tempos  de ações judicial-policiais contra a corrupção, o látego da Globo tem batido forte no lombo de alguns reputados corruptos, de modo seletivo e pontual, para atingir apenas aqueles que ela convencionou ter como inimigos, como é o caso da cúpula petista. Por razões pouco claras, tem batido com força, também, em Michel Temer e no grupo que o rodeia, certamente, ainda pela aliança que ele mantivera com o PT até a segunda eleição de Dilma Rousseff.

Interessante notar que uma das regras de ouro da Vênus Platinada é a tendência  de adular incondicionalmente os inquilinos do Palácio do Planalto, sobretudo, para manter-se como principal destinatária das vultosas verbas publicitárias federais. Aliás, sob os governos petistas a Globo ‘comeu’ alto com as publicidades do Banco do Brasil (com os caríssimos patrocínios dos noticiosos Bom Dia Brasil e Jornal Nacional), embora tenha mantido uma linha de duríssimo ataque a esses governos.

Nestes tempos de operações Zelotes e Lava Jato, uma indagação constante é por que até agora pouquíssimas alusões têm sido feitas sobre as tenebrosas transações ocorridas no BNDES, cujas liberações de generosos financiamentos a juros subsidiados – bem abaixo daqueles praticados no mercado brasileiro – foram vetores de “gordíssimas propinas?”

Certo é que os recursos que poderiam financiar alguns setores vitais da economia, na agricultura familiar, construção civil, transportes e indústrias manufatureiras em geral, o que incrementaria políticas de redução do desemprego, foram abocanhados por reduzido número de poderosos e privilegiados grupos econômicos, entre os quais o da Globo.

Informações que tem chegado à imprensa dão conta de que  toda a modernização dos equipamentos da Rede Globo de Televisão, quando passou para a matriz digital, foi financiada pelo BNDES, além do socorro desse banco oficial à empresa Globocabo que, em 2002,  estava em estado pré-falimentar, a amargar um passivo de R$ 1,6 bilhões.

Quanto a Globo deve ao BNDES? Difícil saber, mas, seria um rombo mensurável na escala das centenas de milhões de reais. Sem conseguir um acordo com a Globo, dizem que Temer quer cobrar essa conta, embora a Banco do Brasil, a Caixa e os Correios, entre outros, continuem a irrigar a bilionária conta de publicidade da Globo.

Em suma, pode até ser que “uns” não gostem da Globo, como esta admite na sua autopropaganda institucional, mas, junto com os “outros” que formam a população brasileira de 207,7 milhões de habitantes (IBGE, 2016), seguramente têm pago a salgada conta dos mandos e desmandos do BNDES, inclusive, a dinheirama que irriga o caixa da Globo, essa que pode ser a bomba-mãe de todos os escândalos até agora não detonada.

E a Globo não fala sobre isso, a despeito de desejar ser a voz iradacunda dessa legião de anjos vingadores do Ministério Público e do Poder Judiciário, investidos como os novos ‘salvadores da Pátria’ e guardiões da moralidade pública. Como diria o grande Ariano, filósofo das caatingas, “nesse angu tem caroço”. Plim, plim.

Paulo Linhares é professor e advogado