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Lula, das forças caudinas a uma damnatio memoriae?

Por João Bosco Souto Araújo

A prisão do ex-presidente desvelou em muitos brasileiros um sentimento que uma palavra alemã define muito bem: “Schadenfreude (pronuncia-se chadenfroid) é aquela sensação de prazer que a desgraça alheia nos provoca.” (veja AQUI). É aquela sensação de prazer inefável que acometeu os que queriam Lula fora das eleições e preso.

“Passar sob as forças caudinas* significa submeter-se à grande humilhação. A expressão é uma alusão à derrota dos soldados romanos, no ano de 321 a.C., nos desfiladeiros de Caudio, onde os vencedores samnitas obrigavam os vencidos a passar sob um jugo formado por três lanças amarradas.” (Domingo Paschoal Cegala, Dicionário de dificuldades da língua portuguesa, p. 179. 3ª edição.)

Parece ser esse o desejo dos adversários/desafetos/inimigos do ex-presidente depois da confirmação da prisão em segunda instância, Lula terá como ergástulo (prisão de escravos na Roma antiga) uma sala – segundo Moro, pela dignidade do cargo que ocupou – na Superintendência da Policia Federal em Curitiba.

Por não possuir diploma de graduação, desafetos – por desinformação ou ódio – desejam que o ex-presidente seja trancafiado em qualquer geena – lugar de sofrimento, dor, tortura – do sistema carcerário brasileiro, que já foi definido por um ex-ministro da Justiça nestes termos.

“Ministro diz que prefere morrer a passar anos em cadeias brasileiras. Para José Eduardo Cardozo, condições dos presídios do país são ‘medievais’” (O Globo, 13/11/2012). Sob este ponto de vista estamos cada dia mais distante de o Brasil ser considerado uma nação civilizada. A propósito:

“A moderação e o estado de espírito do povo quanto ao tratamento dado ao crime e aos criminosos são umas das provas mais irrefutáveis da civilidade de uma nação.” (Winston Churchill, em 1910. Citado por LEITÃO, Leslie. Chegou a conta da barbárie. Revista Veja, São Paulo, 2512, ano 50/nº 2, p. 48-49, jan. 2017. p. 48)

Os adversários do Lulismo constroem uma narrativa para restringir o papel de Lula à controversa condenação por corrupção passiva e lavagem de dinheiro – caso do tripléx do Guarujá – pelo juíz Sérgio Moro e confirmado em segunda instância pela 8ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4).

O sonho do antilulismo é obliterar o legado de conquistas econômicas/sociais – aumento real do salário mínimo, ampliação das Escolas Técnicas Federais, expansão das Universidades Federais, ProUni, Pronaf – promovidas pelo ex-presidente.

Mas o ápice onírico do antilulismo é submeter o nome petista a algo semelhante a uma Damnatio memoriae: frase em latim que quer dizer “Condenação da Memória”, no sentido de remover a lembrança de algo ou alguém. Na Roma Antiga, era uma forma de desonra que podia ser passada pelo Senado a traidores ou outros que trouxessem vergonha ao Estado romano.

O significado da expressão Damnatio memoriae e da sanção era cancelar todos os vestígios dessa pessoa da vida de Roma, como se nunca tivesse existido, para preservar a honra da cidade. Numa cidade que dava grande importância à aparência social, respeito e ao orgulho de ser um verdadeiro Romano como requerimentos fundamentais do cidadão, era talvez o castigo mais severo.

Conseguirão?!

João Bosco Souto Araújo é representante comercial, graduado em História e discente de Administração