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Dr. Edênio, um coração gigante cuidando de muitos corações

Por Marcos Araújo

Hoje, 12 de abril, dia dedicado pela igreja católica a São José Moscati, faleceu o médico Edênio Rêgo. Algumas coincidências associam o Santo Moscati a Dr. Edênio:  ambos eram médicos de reputação indiscutível, cuidavam de causas incuráveis, eram os dois de alta estatura, e, excepcionalmente, muito dedicados aos seus pacientes.

O cardiologista Francisco Edênio Rêgo Costa tinha 53 anos (Foto: redes sociais)
O cardiologista Francisco Edênio Rêgo Costa tinha 53 anos (Foto: redes sociais)

No remoto ano de 2001, numa das minhas viagens à Natal, no percurso, minha mãe sofreu um princípio de infarto. Levada ao Hospital, ali foi atendida por um médico risonho, um sujeito grandão, com voz tonitroante, que conquistou a paciente e os acompanhantes. Iniciava naquele momento uma relação de amizade que perpassava mais de duas décadas. Por esse tempo, ele consultou e tratou todos os cardiopatas de nossa família.

Fernando Pessoa, em uma de suas poesias, ensinou que se a pessoa quiser ser grande, seja inteiro. E pedia que cada um se coloque plenamente no mínimo que for fazer. Pela sabedoria da recomendação, vale a pena relembrar o texto: “Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive.”

Como bom Pessoense, Dr. Edênio era inteiro em tudo que fazia. Em cada atividade, deixava suas especiais características: na Polícia Militar, foi médico com brio e zelo pela corporação; firmou-se e manteve-se cooperado da Unimed (numa época de desfiliação de muitos profissionais renomados), apenas pela satisfação de continuar atendendo a muitos dos seus pacientes de menor poder aquisitivo; gentilmente atendia a telefonemas e respondia a mensagens de WhatsApp com a mesma presteza como se estivesse em seu consultório; brigava com os pacientes cobrando qualidade de vida e menos trabalho, ainda que ele próprio tivesse uma vida profissional muito atarefada…

Parecia ter uma “ectopia cordis”, aquela cardiopatia congênita em que o coração anomalamente fica fora da cavidade torácica. O coração do “Gigante gentil”, de tão grande, era fora do corpo.  Demonstrava compaixão pessoal pelos pacientes, procurando saber o que fazia, o que comia, como trabalhava, fazendo uma anamnese psicossocial e alimentar incomum aos médicos do nosso tempo, para somente depois de uma longa conversa, indicar dietas e mudanças comportamentais.

Queria entender os vícios do corpo e da alma. Se o corpo é a extensão da alma, como sustenta Michel Foucault, Doutor Edênio, com generosidade e paciência, tolerava os vícios dos seus pacientes. Aos bebedores, a tolerância de uma taça de vinho; aos “cafeinados“ como eu, permitia um cappuccino quando tivesse estressado.

Minha irmã Odinha, interlocutora da família em todas as doenças, fazia dele um oráculo constante de Asclépio, o Deus da Cura e da Medicina.  Os carões que ela me dá, sempre traz um preâmbulo: “como Doutor Edênio lhe disse…”

Avisado por Dr. Inavan de sua partida, e depois reportado do mesmo fato pelo seu primo-irmão Paulo Gameleira, faço silêncio na minh´alma.  Resguardo o meu coração pela gratidão dos seus cuidados.

Nesta brevidade do tempo atual, em que os bons vão cedo, lembro da nossa última consulta e do seu sorriso de última hora, com o pensamento de Wiliam Blake: “Ver o mundo em um grão de areia/ E um paraíso numa flor selvagem. Segure o infinito na palma da sua mão/ E a eternidade em uma hora”. Sei que São José Moscati o esperou na porta do céu. E Nossa Senhora dos Impossíveis, a forma esperançosa de Nossa Senhora, o acolheu em seu seio sagrado.

À sua esposa e filha, diante de perda tão grande, um belo conforto pode ser encontrado nas palavras – parafraseadas – de Salomão, no Capitulo 3,1-9, do Livro da Sabedoria: “Aos olhos dos insensatos, parece ter morrido; ele, porém, está em paz”.

Está em paz e viverá na memória de todos os seus amigos e pacientes que, a exemplo de mim, tiveram o privilégio de conhecê-lo de perto. Ave, amigo e médico, Dr. Edênio! Requiescat in pace!

Marcos Araújo é advogado e professor da Uern

*O cardiologista Francisco Edênio Rêgo Costa, 53 anos, sofreu um acidente doméstico à noite passada, ao cair de uma escada. Teve traumatismo craniano e por volta de 3h da madrugada desta quarta-feira (12) veio a óbito. Seu velório acontecerá a partir de 16h, com missa de corpo presente às 17h e sepultamento às 18h, tudo no Morada da Paz, em Emaús (Parnamirim).

Graduado pela Universidade Federal do RN (UFRN) em 1992, ele era diretor e corregedor no Conselho Regional de Medicina (CREMERN), capitão da Polícia Militar do RN e cooperado da Unimed.

Teve infância no entorno da Capela de São Vicente, Centro de Mossoró, colecionando amizades.

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