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Abel Braga, a vacina que o Brasil precisa urgentemente?

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

Era final da noite, do dia 20/01/2021, dia de São Sebastião – o santo católico escolhido para ser o protetor das vítimas da fome, da guerra e das pestes. O árbitro Marcelo de Lima Henrique aponta para o centro do gramado, dando fim a massacrante derrota do time tricolor paulista.

Assistindo atônito a tudo isso, fui logo alertado: “Pai, olha lá!”. O sempre iluminado Lucas estava me mostrando uma das mais belas cenas que já vi em um campo de futebol.

Abel Braga, o "Abelão", gesto nobre na atenção aos vencidos; exemplo que faz bem e o bem (Foto: UOL)
Abel Braga, o “Abelão”, gesto nobre na atenção aos vencidos; exemplo que faz bem e o bem (Foto: UOL)

O tão criticado, “ultrapassado e obsoleto” técnico Abel Braga comemorava abraçado com todo o time do Internacional, quando, de repente, vê o time de jovens atletas do São Paulo saindo, destruídos e humilhados. Ele olha para aqueles garotos, põe a palma da sua mão no queixo e faz o gesto de “levantem a cabeça”!

Não satisfeito, desvencilha-se do seu grupo e vai falar com um dos derrotados até a entrada do túnel. Para Abel, mais importante do que a sua vitória pessoal era restaurar o brilho no olhar daqueles jovens cujo destino foi impiedoso por colocá-los para serem treinados por alguém (Fernando Diniz) que prefere a humilhação (seu mascaradinho de …! Seu ingrato de …! Seu perninha!) à compaixão.

De imediato, lembrei-me do filme Tróia e outra cena inesquecível. O rei Príamo entra na cabana e beija as mãos do maior guerreiro de todos os tempos, e diz: “acabei de fazer o que nenhum homem desse mundo fez. Beijei as mãos do homem que matou o meu filho… Eu lhe imploro, Aquiles, devolva o corpo do meu filho Heitor. Ele merece a honra de um funeral apropriado, dei-me essa misericórdia. Ainda sou seu inimigo hoje, mas até os inimigos podem se respeitar”…

Respeito, compaixão, humanidade, empatia, amor… Todos os componentes da IFA (Ingrediente Farmacêutico Ativo) necessários para produzirem a mais potente vacina contra essa pandemia que nos assusta desde 26/02/2020, no nosso país, foram vistas em um piscar de olhos naquele gesto de Abelão.

Mas não! A professora COVID-19 “falhou” redondamente no mundo e, principalmente, no nosso país. Mais de 215.000 mortes até agora e o que presenciamos diuturnamente são atitudes assustadoras.

É um verdadeiro circo do horror, onde a desumanidade, o desleixo com a vida humana, o descaso com a dor do outro, o escárnio pela morte de um voluntário de uma pesquisa vacina, a apologia à xenofobia, o incentivo ao divisionismo, são servidos no Coliseu digital moderno a uma plateia cujo hálito da morte não para de pedir: “Mais sangue, mais sangue! Fechem o STF! Fechem o Congresso Nacional!”.

Juro que, nos meus mais altos devaneios literários, jamais imaginei que um dia fosse presenciar todo esse espetáculo dantesco. Pessoas morrendo e outras se aglomerando em festas, indiferentes, como se nada estivesse acontecendo.

Vejo pessoas da área da saúde incentivando o não uso da máscara e que essa “gripezinha” não passa do invencionismo de uma mídia sestra cujo destino deveria ser o mesmo dos livros queimados por Hitler… Vejo pessoas fazendo apologia a santos e no canto direito da boca escorrer o fel e o ódio, com tamanha hipocrisia que não conseguem nem saber: “Onde está a mentira?!!”…

“Sem falar da dor mais revoltante promovida pelo silêncio dos covardes. Aqueles que foram escolhidos para defenderem a sociedade, ficam calados, e, quando falam, sussurram disfarçadamente com uma contração no lábio direito, comum a quem ri, dando a mais clara manifestação de apoio a tudo isso…”

Nietzsche dizia: “É preciso o caos dentro de si para dar luz a uma estrela cintilante”. E se podemos tirar algum proveito desse quadro, é saber que agora as entranhas de cada um de nós estão expostas, como as vísceras de um Prometeu acorrentado, e que em alguns são tão pútridas, que desencorajam até as águias de chegarem perto, não só pelo seu odor, mas também por receio de serem devoradas pelo monstro do pântano, o monstro da Lagoa…

Mas nem tudo está perdido. Dia 21/01/2021, recebo pelo WhastApp, a mensagem do meu ex-aluno e fiel amigo Jailson Martins Vale, médico do Samu Natal/RN:

“Ontem fiquei 01:15h na fila da vacinação – sim, sou jacaré5Gchipado chinês! – E durante a espera em que via a luz no final do túnel, um mundo de pensamentos e emoções vividos nos últimos 10 meses tomou conta de mim. Quanto sofrimento, de tantos e em tão pouco tempo! E nem de longe tenho propriedade para tal afirmação. A aproximação do posto de vacinação se assemelhava ao ponto mínimo de luz do outro lado do túnel que cresce à medida da aproximação e logo invade todo o ambiente ao fim da travessia (era a agulha que injetava o tão precioso líquido e que logo estaria nos braços do povo brasileiro). A esperança se renovara. O bem sempre vence o mal! Chegando em casa, meu delírio foi sanado pela realidade brasileira de uma enxurrada de denúncias nas redes sociais de fura-fila na vacinação e atos “equivocados” em Natal e Brasil afora. Um misto de vergonha e revolta tomou conta de mim. Ao ver este vídeo no início da noite, a boca secou, a desesperança me invadiu, os pensamentos se confundiram. Como um retirante faminto dos anos 80, fui dormir para esquecer a fome. Derrotado, perdi o sono. Hoje, com um rosário numa mão e o título de eleitor na outra, rogarei pela redenção deste país e pelos homens de boa vontade. Afinal, a fé move montanhas (e governos) e o bem sempre vence o mal!  Bom dia!”.

Bom dia! Sim, ainda há uma esperança nesse país. E ela está dentro de cada brasileiro que se identifica com essa mensagem do meu amigo Jailson.

Cada brasileiro que toma sua dose diária da vacina Abelão – que mesmo diante de todo seu sofrimento, enfrentando a maior tragédia de vida (perdeu um filho adulto há poucos anos), à semelhança de Príamo – ainda consegue ter anticorpos para difundir a compaixão, a empatia, o respeito ao próximo e principalmente, o AMOR.

Foi lindo, Abel!

Tim, tim!!!

Francisco Edilson Leite Pinto Júnior é professor da UFRN, médico, escritor, pai de Lucas e marido de Viviane.