Self-made man é uma expressão de origem norte-americana. Assim são tratados os grandes empreendedores, que conseguem subir na vida pelo próprio esforço, saindo praticamente do nada.
Em suma: é aquela pessoa que “se fez sozinha” sem herdar nada, sem pegar nada pronto ou tomar atalhos com influência de pais ou padrinhos generosos. É o perfil que se encaixa perfeitamente em Tião Couto (PSDB), candidato a prefeito de Mossoró pela primeira, após construir uma carreira de sucesso saindo dos arrabaldes do rio Mossoró, periferia, como filho de uma dona-de-casa e de um agricultor.

Ele chega à reta final de campanha de forma competitiva contra uma candidata de família oligárquica e com longo currículo vitorioso na política, a ex-prefeita (três vezes), ex-senadora (uma vez) e ex-governadora (uma vez) Rosalba Ciarlini (PP). Um feito para quem até pouco mais de 30 anos vivia em atividade braçal.
Chegou a trabalhar em campos de petróleo no Oriente Médio (com temperaturas acima de 50 graus) e se transformou num empresário de sucesso em múltiplos negócios, a partir da indústria do petróleo.
Competitivo
Tião, na “Coligação Unidos Por Uma Mossoró Melhor”, também impressiona em sua imberbe caminhada política, com performance que muita gente via como impossível e até o desdenhava. Tornou-se competitivo e capaz de chegar à Prefeitura, sem o amparo de qualquer grupo tradicional.
Um feito já foi obtido, que é o desenho de uma força política alternativa num momento em que o clã Rosado está extremamente fragilizado e precisa desesperadamente retomar a Prefeitura, seu habitat regular – com escassos intervalos – desde as eleições de 1948.
Com o também empresário Jorge do Rosário (PR), filho de um mestre-de-obras e dona-de-casa, Tião só surpreende a quem não o conhece e não conseguiu fazer leitura antecipada dos acontecimentos e da conjuntura nacional e local. O protagonismo de Rosalba Ciarlini e seu favoritismo não seriam e não são surpresa. Tião, também não.
Sua candidatura nasceu a partir reuniões despretensiosas com o próprio Rosário, ano passado. As conversas sobre a necessidade de se oferecer uma alternativa política e de gestão pública baseada na meritocracia, acabou ganhando força e transformou-se no movimento “Mossoró Melhor”. Daí até a oficialização da chapa foram mais alguns meses.
Em face do desgaste superlativo do prefeito Francisco José Júnior (PSD), que se virou simplesmente “Francisco” na campanha municipal deste ano, era previsível que Tião e Jorge crescessem nesse vácuo, como opção. O que o próprio rosalbismo calculava, era que tudo não passasse de uma “marolinha”. Fazia cálculos de vitória sempre acima de 40 ou 50 mil votos de maioria.
Capilaridade na massa
Nas últimas semanas essas estimativas são refeitas e refeitas para baixo. O vencedor estará longe de impor essa vantagem sobre o adversário.
O prefeito desistiu de sua candidatura no último dia 19 e a oficializou no dia passado, provocando uma debandada de seus candidatos a vereador, militância e partidos, principalmente na direção de Tião e Jorge. Isso contribuiu para dar novo fôlego à chapa, que já vinha em crescimento vertiginoso.
A questão mais crucial da campanha dos dois empresários não é a disputa pelo voto em si, que tem erros crassos como qualquer outra, do ponto de vista do marketing. O pecado não mora ao lado. Ficou para trás, incidindo sobre o próprio período curto de apenas 45 dias de disputa oficial, a chamada pré-campanha.
Tião e Jorge pecaram na pré-campanha por não criarem maior capilaridade na massa, deixando vácuo enorme entre os primeiros passos no final de 2015 e este segundo semestre de 2016. Até formalizarem alianças, definirem chapas proporcional e majoritária, permitiram até que o próprio Francisco se iludisse com a hipótese de ser viável e capaz de vencer Rosalba. Nem uma coisa nem outra.
O tempo recente mostrou isso a Francisco e a poucos dos seus seguidores que se iludiam com tamanho disparate.
“Canteiro da Rosa”
Esse hiato entre o preâmbulo da pré-campanha e a campanha, em si, comprometeu a disseminação do empreendedor principalmente nos rincões. É uma área geopolítica que fica na periferia, com públicos mais pobres, conhecida como o “Canteiro da Rosa”.
Em face dessa falha, Tião é obrigado a ter um crescimento aloprado, correndo contra o tempo – principal aliado de Rosalba. Se a “onda azul” será capaz de encobri-la a tempo, as urnas dirão.
E não adianta se imaginar outro cenário, com o raciocínio de que mais dias lhe dariam vitória certa. O tempo posto é esse. Para vencer ou vencer. É possível, mas não é fácil.
Tião já é vencedor numa prova que não dá medalha de prata ou bronze para quem não vence, mas que certamente o projetará como uma nova liderança que os Rosado sempre temeram: audaz, independente e catalizador de gente. Um self-made man.
Nada será como antes.
* Essa é a última matéria especial sobre os candidatos a prefeito de Mossoró da série que iniciamos há poucos dias. Abaixo, veja as quatro anteriores, traçando perfil de cada postulação na corrida pelo voto:
– Rosalba tem o tempo a seu favor para confirmar favoritismo (AQUI);
– Gutemberg tenta marcar posição num cenário vantajoso (AQUI);
– Francisco e o estigma do político gelatinoso e sem credibilidade (AQUI);
– Nova tentativa a prefeito leva Josué a dificuldades maiores (AQUI).
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