O RN perdeu mais um médico para a Covid-19. Dessa feita, na manhã de hoje (quarta-feira, 12), o cirurgião-plástico George Gonzaga Bezerra, 55. Ele foi o 15º médico alcançado de forma fatal por essa doença em poucos meses.
Estava internado no Hospital Rio Grande desde o dia 27 de junho último. Chegou a receber alta da UTI e havia uma alegria incontida de amigos e familiares com sua recuperação. Mas acabou retornando, foi intubado outra vez e não resistiu.
O professor, escritor e médico Francisco Edilson Leite Pinto Júnior escreveu crônica sobre esse triste acontecimento. Leia abaixo:
George: outra perda muito sentida (Foto: cedida)
Desde o início da pandemia, falava com George diariamente. Compartilhávamos nossas dúvidas, angústias, medos e esperanças.
Até que veio o fatídico sábado, dia 27/06/2020, e aquela chamada de vídeo foi nosso último contato: “Estou muito cansado, amigo. Vou para UTI agora”. Bem… George lutou como um guerreiro, mas o destino estabeleceu, mais uma vez, sua terrível sentença e ele partiu hoje.
Estou muito triste. O mundo está menor agora.
George com seu coração e fala mansa era um verdadeiro sal da terra. “Bem aventurados os puros de coração, porque eles verão Deus”.
Quanto a mim, resta-me o conforto de saber que “ninguém morre no país das saudades. Como nos sonhos”, como alertou Eduardo Lourenço.
Vá em paz, amigo!
“Não sabeis o quanto eles significam para mim, meus amigos / E como é raro, estranho e raro, encontrar/Um amigo que tais qualidades possui e oferece / Tais qualidades sobre as quais arde a amizade” (T. S. Eliot)
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“O professor que sabe expor suas ideias com vida, com amor, com alegria, é insubstituível”.
(Gabriel Perissé)
Recentemente, na aula inaugural de oncologia da UFRN, a aluna Cinthia me perguntou: “Professor, por que o senhor resolveu fazer medicina?”. Parei alguns minutos para refletir. Em questão de segundos, veio o poema de T.S. Eliot em minha mente:
“O tempo presente e o tempo passado. Talvez estejam ambos presentes no tempo futuro, E o tempo futuro no tempo passado”.
Pois bem, essa resposta que eu teria de dar no segundo próximo, para a aluna, sua explicação estava no passado.
“Perdi meu pai quando tinha três meses de idade. Aí resolvi fazer medicina para combater a morte. Para lutar contra ela, dia após dia. Para que ela nunca mais seja capaz de tirar o pai de alguém tão cedo…”, foi assim que eu respondi para a minha curiosa aluna. Tentei continuar dando a aula, mas, a cada segundo, surgia em minha mente fatos do passado, influenciando o futuro da minha exposição (o passado presente no futuro, como lembrou T. S. Eliot).
E como foi difícil falar do paciente oncológico, lembrando-me dos terríveis dias dos pais que passei na minha infância sem tê-lo ao meu lado. Lembrei-me de que certa vez, indagado por um colega de classe sobre o que eu daria de presente no dia dos pais, a minha resposta foi: “uma passagem de volta!”. Ele não entendeu nada e nem muito menos eu entendia porque o destino tinha selado a sua sentença e contra ela não haveria recurso nenhum a ser impetrado…
Pois bem! Vinte anos buscando lutar contra a morte. Mais precisamente, no dia 03 de março de 1986, às 13:30h, já cursando medicina, eis que me entra um coração enorme, vestido de branco, com uns óculos fundo de garrafa, abre um sorriso cativante e diz: “Boa tarde! Sejam bem vindos à Disciplina de Técnica Operatória e Cirurgia Experimental da UFRN. Meu nome é Ernani Rosado”.
Depois de apresentar cada um dos outros professores da disciplina, iniciou a sua aula sobre história da cirurgia. Logo me apaixonei por aquela disciplina. Logo me apaixonei por aquele professor. Nas entrelinhas dos seus ensinamentos, o amor estava presente em tudo.
Ali, a carne se fazia verbo e o verbo era sempre o mesmo: amar! Amar o paciente sobre todas as coisas. Amar a missão. E nunca, jamais vender a sua alma ao diab o se alinhando com interesses escusos para ganhar benesses de laboratórios e indústrias farmacêuticas.
Saí daquela aula radiante. E com um desejo enorme no meu coração: como eu queria que aquele homem fosse meu pai, afinal, poderíamos lutar juntos contra a morte… Rainer Maria Rilke, na sua “Carta a um jovem poeta”, nos alertou: “Há de se reconhecer, aos poucos, que aquilo a que chamamos destino sai de dentro dos homens em vez de entrar nele. Muitas pessoas não percebem o que dela saiu, porque não absorveram o seu destino enquanto o viviam, nem transformaram em si mesma”…
Logo, de forma impetuosa – atitude incomum para quem tinha a timidez como algo a vencer tanto quanto a morte-, passei a frequentar a enfermaria da 1aDCC. E de tanto insistir, eis que um dia, o professor Ernani perguntou o meu nome, e ao respondê-lo, vi o seu olhar assustado: “Você é de Mossoró? Filho de Edilson Pinto?!”. No dia seguinte, às 07:00h, entendi o motivo daquele espanto. O professor Ernani entrava na enfermaria, carregando debaixo do braço um livro gasto pelo tempo. Era o diário de sua mãe, onde estava escrito: “Ernani ontem, brincou com fulano, beltrano e com Edilson Pinto”.
– Pois é, meu caro, seu pai foi um grande amigo meu de infância. E eu lamentei muito a sua morte.
Após dito isso, colocou o diário debaixo do braço direito e o meu ombro debaixo do seu braço esquerdo, e nunca mais me deixou longe dele. Estava concretizada a adoção feita no mais importante de todos os tribunais, o do coração… Realmente, não foi à toa que Lucas, no seu Evangelho (11: 10-11), diz: “Por que qualquer um que pede, recebe; e quem busca, acha… E qual é o Pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra?”.
Tem razão Vinícius de Morais, quando diz que a vida é a arte do encontro. Encontrei e ganhei ali um pai, um professor, um mestre, um amigo, um parceiro de futebol (Flamengo e ABC). Eram tantas as coisas em comuns, que ficava nítida a interferência divina. Resolvi fazer cirurgia e segui a docência. Eu precisava do meu pai adotivo para lutar contra a morte. E foi assim, durante trinta anos.
Inúmeras foram às vezes que operávamos juntos. Algumas me marcaram, como no dia que estávamos operando um caso extremamente difícil e chegou uma hora em que nem eu e nem ele sabíamos o que fazer, diante de tanto envolvimento e por estarmos tão perto da solução, na qual não conseguíamos enxergar… Aí uma voz, de fora do campo cirúrgico de um aluno do quinto período de medicina, disse: “Professores, que tal irem por aqui? Acho que vai facilitar a retirada desse tumor”.
Dr. Ernani, ao invés de mandar o aluno se calar – atitude bastante comum nesse mundo cirúrgico de tanta empáfia e soberba – olhou para mim e rindo disse: “Boa, garoto! Vamos por aqui mesmo, Dr. Edilson! Como é o seu nome? Flaubert Sena, você será um grande cirurgião”. O professor Ernani também era um grande profeta, viu naquele aluno, o que o futuro nos confirmou (o tempo presente no futuro, como lembrou T. S. Eliot).
Ele nunca perdia a capacidade de ensinar. Quando escrevi o meu primeiro artigo “Medicina no fundo do posso: o preço da desunião”, logo cedo recebi o seu telefonema: “Grande artigo, Dr. Edilson! Só um adendo: eu não teria colocado aquela parte”.
Ele se referia a uma crítica que eu tinha feito a uma determinada pessoa. Eu o indaguei: “Mas professor, não é verdade o que eu escrevi?!”. Aí veio a sua lição: “É, Edilson, é verdade. Mas existem verdades que a gente não deve dizer nem para nós mesmos!”. Ali estava outra qualidade do professor Ernani: lealdade aos amigos. Defendê-los sempre.
Outro momento mágico que vivi com o professor Ernani foi na aula da saudade da turma de medicina da UnP, no dia 14/07/2014. Fui escolhido orador daquela solenidade e resolvi fazer o discurso esclarecendo o porquê de ter escolhido a docência como missão de vida. Falei que, na infância, eu achava que minha mãe tinha enlouquecido por sair de casa tão cedo para trabalhar como professora em três turnos e era feliz mesmo ganhando pouco.
Depois, disse que passei a entender que essa “loucura” era contagiante, pois tinha visto esses mesmos sinais e sintomas em outros professores meus, como: Coquinho (história), Fernando Suassuna (biologia), Luiz Alberto (infectologia) Marcos Leão (hematologia), Aldo Medeiros (cirurgia), Celso Matias (clínica Médica), Francisco de Lima (clínica Médica)… Até chegar ao mais “louco” de todos: o professor Ernani Rosado, já que o melhor dos vinhos deve ser servido no final…
Quando escrevi o discurso, nunca imaginei que o professor Ernani Rosado estivesse na plateia. Não havia, a meu ver, motivos para ele estar ali. Mas ele estava. Ele e a sua inseparável companheira, D. Madalena – o ser humano mais simpático e educado que eu já conheci.
Quando entrei no auditório da UnP e vi Dr. Ernani sentado lá, o coração beta-bloqueado disparou… Mais uma vez Deus tinha aprontado das suas… Pois bem! Eis o trecho do discurso que li, naquele dia, chorando, como é comum quando o coração fica pequeno demais para aguentar tanta emoção:
“Meus queridos e eternos alunos,
Permitam-me falar daquele que mais me influenciou com a sua ‘loucura’, com a sua paixão: Prof. Ernani Rosado. O mestre de todos os mestres desse Estado. Com ele, aprendi filosofia, futebol, artes, cirurgia, enfim, muita coisa mesmo. Mas a maior lição aprendida foi a humildade.
Numa manhã de janeiro de 2010, recebo o convite para auxiliá-lo em uma cirurgia de hérnia inguinal. Tudo ocorreu sem problemas. E na sala de estar médico, após prescrever o paciente, ele olhou para mim e disse: ‘missão cumprida, Dr. Edilson! Esta foi a minha última cirurgia. Vamos para casa. E muito obrigado pela sua ajuda’. Terminava ali, uma das maiores carreiras cirúrgicas do nosso Estado e por que não dizer do nosso país. E de forma simples e humilde. Sem alardes, sem pompas. Apenas com a sensação de dever cumprido! Nunca esquecerei esse momento…
O professor Ernani tinha a maior característica dos grandes homens: a humildade.
No dia em que soube da sua cirurgia de urgência e da gravidade do seu caso, fiquei desnorteado. Vi que, mais uma vez, perderia meu pai… Corri para a UTI, onde ele estava internado. Ainda não tinham proibido visitas. Mesmo assim, falei com o médico de plantão, um ex-aluno meu, que disse: “Professor, na UTI em que eu estiver dando plantão, as portas estarão sempre abertas para o senhor”.
Agradeci. Fiquei parado, sem coragem de me aproximar. Meu ex-aluno, percebendo a minha insegurança – afinal, não queria me despedir dele assim, com a frieza das máquinas- disse: “Vá lá, professor. A sedação está bem superficial e se o senhor falar, ele vai ouvir”.
Tremendo, me dirigi ao leito e disse: “Prof. Ernani, eis um flamenguista que veio visitá-lo!”. Ele abriu os olhos, mesmo com um tubo na garganta, deu um sorriso. O sorriso de sempre. O sorriso alegre e tranquilo. O sorriso de um guerreiro que não estava perdendo a batalha para a sua doença, mas sim, que tinha vencido a guerra contra a insensibilidade, contra a desumanidade e a falta de carinho tão comum hoje em dia na profissão médica.
Ontem, meu mestre/pai descansou. Depois de lutar o bom combate. Semeando o sonho de lutar desesperadamente para mudar o caráter de um menino, através da educação, para mudar, assim, o seu destino e, consequentemente, o destino do mundo…
Quanto a mim, resta a tristeza da sua partida e também a alegria de ter convivido com alguém tão grande, que viveu muito à frente do seu tempo… E por falar em tempo, recorro-me agora a Wiliam Blake que, certa vez, escreveu: “Ver o mundo em um grão de areia/ E um paraíso numa flor selvagem. Segure o infinito na palma da sua mão/ E a eternidade em uma hora”.
Aquele último sorriso, de alguns segundos que ganhei naquela UTI, estará eternizado para sempre dentro do meu coração, pois “o que a memória ama, fica eterno!”.
Vá em paz, querido professor e pai, Ernani Rosado!
Francisco Edilson Leite Pinto Junior – Aluno do segundo período do curso de Direito da UnP, professor, médico e escritor. E agora, definitivamente, órfão de pai.
“E eu estava tão feliz que me encolhi no canto do táxi de medo porque a felicidade dói”. (Clarice Lispector – Água viva)
Felicidade dói? O que Lispector queria dizer com isso. Confesso que, a primeira vista, não entendi. Mas, isso não me perturbava, afinal “não se dispõe de modelos para ler, nem para entender Clarice Lispector”. Suas narrativas destacam-se por deslocar-se constantemente entre as “aleluias e a agonia do ser”. E não existe nada mais angustiante do que a procura da felicidade pelo homem.
“Todos os homens procuram ser felizes”, dizia o filósofo Pascal, “isso não há exceção”. Até mesmos os suicidas, quando tentam se matar, fazem-no para escapar da infelicidade, ou seja, pelo menos para se aproximarem, tanto quanto possível, de uma certa felicidade.
A felicidade ensinava Aristóteles: “é o desejável absoluto”.
Então, por que algo tão procurado e tão desejado causa tanta dor? Recorremos a Platão: “O desejo é falta”. Só desejamos o que não temos; porém, “assim que um desejo é satisfeito, já não há falta, logo já não há desejo”. Logo já não há mais felicidade a procurar.
Vejam a história dos apaixonados: “Paixão é fome”. Paixão é falta. Porém, quando conseguimos o nosso objeto de desejo, a nossa paixão que, ás vezes, passamos a vida toda, procurando desesperadamente conquistá-la, – vivendo na esperança de que um dia a possuirmos – quando, realmente, conquistamos esse objeto tão desejado, ele se desfaz; aí viveremos a “tristeza do objeto perdido”.
Já não há mais esperança. Essa é a loucura da conquista da paixão e da loucura pela procura, desesperada, da felicidade.
Foi com Rubem Alves que aprendi o terrível verso de T. S. Eliot: “Deus, livra-me da dor da paixão não satisfeita, e da dor muito maior da paixão satisfeita”.
A paixão não satisfeita é falta, é frustração; a paixão satisfeita é tédio. Agora entendo Lispector. Agora entendo, o que a célebre frase de Schopenhauer anunciava: “A vida oscila, pois, como um pêndulo, da direita para esquerda, do sofrimento ao tédio”. Agora entendo a história do PT: “O desprazer da conquista”.
NENHUM partido no Brasil quis tanto conquistar o poder como o partido dos trabalhadores – felicidade, desesperadamente. Lembro-me de que o ano era 1989. Eu, juntamente com Alexandre Mota, Íon de Andrade e tantos outros fazíamos parte daqueles estudantes de medicina que não víamos motivos para ter medo de ser feliz. Como éramos inocentes – a busca da felicidade causa medo sim, pois causa dor.
Tentávamos a todo custo, sempre através do convencimento e do debate, aumentar as nossas fileiras de combate para persuadir a classe médica a votar naquele operário, carrancudo, que tinha dificuldade de rir, que se vestia ainda com macacão, com a barba e cabelos mal cortados, que viajava em “pau de arara”, expandindo esperanças pelo país.
Felizmente – é triste reconhecer hoje – venceu o caçador de marajá. Será que estou ficando louco? Deveria ter dito: infelizmente? Acredito que não, pois foi essa derrota, juntamente com as outras duas seguintes para FHC, que nos manteve – embora com a dor da conquista não conseguida – acesa a chama da esperança de que um dia os trabalhadores iriam governar esse país.
O ano agora é 2003. Lula após ganhar a presidência mudou: vive rindo, vestindo ternos “Giorgio Armani”, bebendo champanhe francês, adora um avião e adora o poder. Não sei pra que? Será que ele não tinha mudado antes da eleição? A paixão é cega!
A presidência – a grande paixão, desesperadamente, procurada pelo PT, uma vez conquistada, transformou a nossa esperança. Já não há mais falta. Todavia, há muita frustração: dos aposentados, dos funcionários públicos, dos desempregados, dos que um dia sonharam que esse país teria dias mais brilhantes, pois uma estrela brilharia lá no céu.
Treze anos se passaram. Já não existe mais paixão. Já não existe mais desejo. Entretanto, mais ainda do que frustração: há o tédio! Tédio de ver que a presidência não mudou de rumo, nem de rota.
Não vou cometer a insanidade, bárbara e absurda, de pedir a volta de FHC. Embora, hoje, acho que ele era menos tedioso do que Lula. Nunca pensei que um dia votaria no PSDB contra o PT. A presidente Dilma conseguiu essa façanha…
Tinha razão Lispector: “A felicidade dói!”. A decepção também dói mais ainda…
Francisco Edilson Leite Pinto Junior é professor, médico e escritor.
* Texto republicado 11 anos depois com correção dos dois últimos parágrafos.