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O que é um “college”?

Por Marcelo Alves

King's College London
King’s College London

A partir da leitura dos meus textos das semanas retrasada e passada – sobre Oxford (veja AQUI) e Cambridge (veja AQUI) e suas respectivas universidades –, uma amiga amante das coisas da Inglaterra me perguntou: “o que significa esse termo ‘college’? Já vi sendo utilizado em vários contextos e nomeando tipos diversos de instituições. Estou confusa”.

Tem a minha amiga motivo para estar confusa. De fato, na Ilha Britânica, usa-se a palavra “college” para designar instituições realmente bem diversas. Ademais, quem não está confuso por estes dias?

The Oxford Companion to Law” (Oxford University Press, 1980), de David Maxwell Walker, dicionário “das antigas” que eu adoro, assim define o tal “college”: “uma companhia, sociedade ou grupo de pessoas incorporada, com certos privilégios, a uma outra instituição especialmente direcionada à busca do aprendizado. O aprendizado pode ser ‘puro’, como nos casos dos colleges de Oxford e Cambridge, ou ter um aspecto vocacional específico, como nos casos dos Royal Colleges of Physicians and of Surgeons. (…). Em Oxford e Cambridge um college é uma sociedade dentro da universidade, e alguém se torna membro da universidade tornando-se membro de um college”.

É por aí mesmo nos casos das universidades de Oxford e Cambridge, em virtude da forma como elas se estruturam. De fato, além da governança central (liderada, formalmente, por um “Chancellor” e, na prática, pelo respectivo vice), constituída dos departamentos, das faculdades, das “schools” e dos grandes museus, laboratórios e bibliotecas, as Universidades de Oxford e Cambridge, em um modelo dual, que tende a se sobrepor, se organizam também em torno de um sistema de instituições independentes e autogovernadas (lideradas geralmente por um “Master”, “Principal”, “President” ou algo que o valha), denominadas “colleges”. Isso tem sua explicação no fato de essas universidades terem sido historicamente criadas a partir da aglomeração de instituições de ensino independentes, fundadas nas respectivas cidades. Aos colleges, necessariamente, estão vinculados todos os docentes (normalmente chamados de “fellows”) e os estudantes.

Os colleges de Oxford e Cambridge, particularmente, são um misto de residência (com prédios próprios para tanto) e centro de estudos, com as chamadas “supervisões”, que complementam as aulas dadas pelos departamentos. Pelo que sei, a Universidade de Oxford possui hoje 38 colleges (além de sete “private halls”); Cambridge, 31. Alguns colleges – como o King’s, o Trinity e o St. Jonh’s em Cambridge e, em Oxford, o All Souls, o Christ Church, o St. Jonh’s e o Corpus Christi (onde tive a honra de estudar), apenas para dar alguns exemplos – são especialmente prestigiados. Alguns poucos colleges admitem apenas mulheres ou pós-graduandos. A grande maioria, entretanto, não faz qualquer distinção.

O problema é que tanto na Inglaterra como nos Estados Unidos o termo “college” é também comumente aplicado a diversas instituições de ensino superior aptas a independentemente conferir os graus acadêmicos de estilo como verdadeiras universidades. Por exemplo, é muito importante não confundir os colleges de “Oxbridge” com outros colleges, como o King’s College London – KCL, onde fiz meu PhD, que é uma verdadeira universidade, com sua organização toda própria.

Todavia, é importante também frisar que o King’s College London faz parte da chamada “University of London”, que, na verdade, é uma federação de quase duas dezenas de universidades, incluindo também, por exemplo, os renomadíssimos University College London – UCL, Imperial College London (que está de saída da federação) e London School of Economics – LSE, todas estas verdadeiras universidades per si. Coisa complicada de se entender, eu devo reconhecer.

De toda sorte, caro leitor, se você for indagado sobre o que é um “college”, mas ainda estiver confuso, apenas diga que college lembra a nossa palavra “colégio” e essas coisas de ensino, aprendizado e aulas. Afinal, quem não está confuso por estes dias?

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

Samba do Arnesto

Por Paulo Linhares

“O Arnesto nos convidô prum samba, ele mora no Brás/ Nóis fumo e não encontremos ninguém/ Nóis vortemo cuma baita duma reiva/ Da outra veiz nóis num vai mais/ Nóis não semos tatu!” Estes versos de Adoniran Barbosa, remetem a uma reflexão sobre os fatores que fizeram Ernesto Fonseca de Araújo, um maluco nada beleza, assumir o comando do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, no governo Bolsonaro.

Diplomata de carreira, Araújo foi sempre tido por seus pares como uma figura exótica, sobretudo, por suas atitudes contraditórias que vão da aceitação de desmedida de posturas ultra direitistas à defesa de Dilma Rousseff, não na condição de presidente da República, mas, na sua atuação de combatente contra a ditadura militar de 1964. E neste caso, para manter uma sinecura na embaixada brasileira em Washington.Mesmo alçado ao posto máximo da carreira diplomática – o de embaixador – Araújo jamais comandou os interesses do Brasil no exterior, sobretudo, as legações situadas em países mais importantes: o famoso “circuito Elisabeth Arden” (Washington-Londres-Paris-Roma). Nem pensar: seria complicadíssimo que Ernesto viesse representar o Brasil, na condição de embaixador, até de  postos diplomáticos brasileiras menos glamourosos mantidos noutros países.

Eleito presidente, Bolsonaro quis mimar o círculo mais empedernidamente crescente do seu ideário direitista no governo, sob os auspícios da “nova política”. Para tanto, escolheu dois dos discípulos do malcriado astrólogo Olavo de Carvalho como ministros de pastas importantes: Ernesto Araújo, para as Relações Exteriores, e o colombiano Ricardo Vélez, para o Ministério da Educação. Essas escolhas causaram não apenas enorme espanto, mas, se transformaram  em fontes de  graves e intermináveis crises políticas.

Aliás, isto sem falar que o cenário da política brasileira se tornou mais carregado com a desnecessária desavença aberta pelo próprio Bolsonaro contra o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, onde tem rolado um forte estresse, com farpas duríssimas de lado a lado. Um verdadeiro ninho de canção, onde ninguém se entende.

No plano externo, passado o triste episódio do beija-mão que Bolsonaro fez com Donald Trump, o próximo destino do presidente brasileiro será Israel. É previsível um rosário de gafes e, sobretudo, o recrudescimento de uma séria crise diplomática com os países de Liga Árabe que poderá trazer prejuízos econômicos imponderáveis para o agronegócio do Brasil. O presidente e seu ministro das relações exteriores resolveram literalmente “cutucar o cão com vara curta”.

Primeiro, quando dão à política exterior brasileira um forte marcador ideológico, na medida em que são nossos parceiros preferenciais aqueles países que, atualmente, têm governo de direita ou de extrema direita. Errado os interesses comerciais e de cooperação em diversos domínios devem balizar as relações internacionais. Segundo, por desprezar parceiros comerciais importantíssimos como os endinheirados países árabes e a grande potência econômica mundial que é a China. No atual momento difícil por que passa a economia brasileira, essa postura pode ser tida, no mínimo, irresponsável, equivocada e contrária aos interesses nacionais. Imitar Trump na condução da política externa brasileira é uma estupidez sem tamanho.

O ministro Ernesto Araújo, superou todas as expectativas ao afirmar, recentemente, que em 31 de março de 1964 não houve um golpe militar, que não considera que tenha havido um “golpe” no país em 1964. Segundo ele, o que houve na ocasião foi um “movimento necessário” para que o país não se tornasse uma “ditadura”, declaração de Araújo que foi dada em audiência na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados: “Vossa Excelência me perguntava se eu considero 1964 um golpe. Eu não considero um golpe. Considero que foi um movimento necessário para que o Brasil não se tornasse uma ditadura. Não tenho a menor dúvida disso. Essa é minha leitura da história”. Coisa de doido, isto sim, essa interpretação.

Certamente, o conjunto dos diplomatas brasileiros, que não é composto de petistas ou assemelhados, convive mal com o atual chanceler brasileiro e suas imponderáveis invectivas. Ora, um dos grandes legados da diplomacia brasileira, sob inspiração do Barão do Rio Branco, tem sido a eficiência e a discrição, para quem “um diplomata não serve a um regime e sim ao seu país”. Lição esta não assimilada o chanceler ‘Arnesto’.

Assim, Ernesto Araújo, à frente do Ministério  das Relações Exteriores, tem feito tudo para desprezar essa boa herança de Rio Branco e a tradição de eficiência da diplomacia brasileira ao promover, à sombra do belíssimo Palácio do Itamaraty, um autêntico “samba de criolo doido”,    aumentando mais ainda as dificuldades que enfrenta o não menos confuso e autoconflituoso governo Bolsonaro.

Pior do que a negação do golpe de 1964,  só a afirmativa que fez publicamente em que disse  serem o nazismo e o fascismo resultados de “fenômenos de esquerda”. Enérgumeno até não mais poder, o chanceler de lata – versão empobrecida do “Chanceler de Ferro”, como ficou conhecido o Marechal Otto von Bismarck – talvez tenha antecipado, com esse raciocínio, a chave para interpretação dos historiadores do futuro sobre a presidência de Bolsonaro: se Hitler e Mussolini eram de esquerda, só falta culpar o PT pelo desastre em que poderá transformar-se o atual governo do capitão e seus miquinhos amestrados.

Prefiro as lições  de historiadores do porte de Richard J. Evans,  na sua obra  “A chegada do terceiro reich”, que mostra o perfil ideológico  de Hittler nas profundas de extrema-direita. E Evans não é  petista, mas, festejado professor da University of Cambridge, Inglaterra. Mesmo porque,  “Nóis não semos tatu!”

Paulo Linhares é professor e advogado