Arquivo da tag: Wilson Gomes

A polarização tem cura?

Por Wilson Gomes (Do Canal Meio para o BCS)

Arte ilustrativa
Arte ilustrativa

A política é atividade competitiva por excelência, pois o seu ponto de partida é a divergência e o conflito de interesses, vontades e valores. E não há nada de errado nisso; ao contrário, trata-se de forma mais civilizada de mediação dos inevitáveis conflitos que resultam da liberdade e da singularidade humanas.

Já a polarização é um problema porque produz uma série de efeitos corrosivos sobre a política democrática. Em primeiro lugar, ela intensifica a hostilidade entre cidadãos e grupos, frequentemente associando a identidade política a sentimentos de aversão, medo e desconfiança. Essa animosidade não permanece no plano simbólico, pois pode se traduzir em violência, intimidação e outras formas de agressão dirigidas a indivíduos em razão de sua filiação política. Em segundo lugar, a polarização fragiliza a coesão social, uma vez que transforma adversários em inimigos morais e favorece processos de desumanização recíproca que tornam mais difícil o reconhecimento mútuo necessário à convivência democrática.

Além disso, a polarização alimenta percepções distorcidas sobre o grupo rival, reforça estereótipos negativos e sustenta a crença de que o outro representa uma ameaça existencial à ordem política. Esse clima de antagonismo favorece a radicalização, na medida em que indivíduos passam a considerar aceitável o uso de meios ilegais ou antidemocráticos para impedir a vitória do adversário, que já não é visto como um concorrente legítimo, mas como um perigo a ser neutralizado. Por fim, ao generalizar emoções negativas e legitimar atitudes extremas, a polarização contribui para um ambiente político instável e destrutivo, enfraquecendo a confiança nas instituições e tornando as democracias mais vulneráveis à ruptura e à erosão interna.

É verdade que vem se tornando frequente no Brasil, principalmente na esquerda, o negacionismo da polarização. Ainda esta semana, Reinaldo Azevedo gravou um vídeo para supostamente desmascarar a má-fé de quem fala de polarização no país. A razão é simples: não existe aqui um radicalismo proporcional de esquerda e de direita. A direita radical, de fato, tem número suficiente para vencer eleições, conquistar governos e produzir leis, mas não existe uma extrema-esquerda no país que represente uma ameaça semelhante.

A direita é que se radicalizou, enquanto a esquerda continua no ponto onde sempre esteve. A suposição desse argumento é que, para haver polarização, seria necessário haver dois polos políticos radicais com igual apelo ou filiação. Além disso, sustenta-se que, ao dizer que existe polarização, se está atribuindo à esquerda uma imputação moral por uma situação negativa que não seria responsabilidade dela.

Ora, a premissa implícita nesse raciocínio é falsa, porque polarização não exige simetria entre os polos, seja em grau de radicalização, em tamanho ou em poder político. A polarização pode, inclusive, ser assimétrica. Não se trata de um conceito que descreve posições no espectro ideológico, mas sim da estrutura da relação entre grupos políticos.

Há polarização quando grupos passam a se perceber como moralmente incompatíveis, seja entre si, seja em relação ao restante da sociedade. Isso também ocorre quando a identificação política se transforma na identidade social central, como no caso de quem afirma “eu não voto em Bolsonaro, eu sou Bolsonaro”. Da mesma forma, há polarização quando o adversário deixa de ser visto como concorrente legítimo e passa a ser percebido como uma ameaça que não deve, em hipótese alguma, ser “normalizada”. O fenômeno também se manifesta quando a distância entre posições se torna tão grande que impede soluções de compromisso ou quando o centro e a moderação passam a ser abandonados e desqualificados pela maioria. Se tais características podem ser encontradas em grande volume em nossa sociedade, então, meus amigos, a polarização está entre nós.

A divergência deixou de ser vista como parte normal da vida democrática e passou a ser interpretada como sinal de ameaça

O fato é que a polarização política se tornou um dos traços mais visíveis das democracias contemporâneas. Ela aparece nas análises acadêmicas, nas colunas de jornal e na experiência cotidiana de cidadãos que passaram a perceber o adversário não apenas como alguém com posições diferentes, mas como representante de uma visão de mundo considerada moralmente ilegítima. A divergência deixou de ser vista como parte normal da vida democrática e passou a ser interpretada como sinal de ameaça.

Nesse contexto, surge uma pergunta inevitável. A polarização, que tem se intensificado em toda parte nos últimos anos, é uma condição irreversível das democracias contemporâneas ou um fenômeno que pode ser reduzido?

Um estudo recente oferece uma resposta que merece atenção. O artigo foi publicado na revista Political Psychology e assinado por Steffen Moritz, professor do Departamento de Psiquiatria e Psicoterapia do Universitätsklinikum Hamburg-Eppendorf, em colaboração com pesquisadores da Universität Augsburg e do mesmo centro clínico em Hamburgo. O grupo investiga há décadas os mecanismos cognitivos que sustentam convicções rígidas e resistentes à correção, inicialmente no contexto clínico de pacientes que sustentam ideias falsas com certeza absoluta e, mais recentemente, no campo da psicologia política.

Os pesquisadores queriam testar se a hostilidade política entre grupos rivais poderia ser reduzida por meio de uma intervenção metacognitiva extremamente simples. Essa intervenção consistia em expor as pessoas a seus próprios erros em julgamentos factuais sobre o “outro lado”, especialmente quando esses julgamentos eram sustentados com alto grau de convicção. O termo “metacognitiva” indica que o objetivo não era persuadir os participantes a mudar suas convicções políticas, mas levá-los a refletir sobre a confiabilidade de seus próprios julgamentos. Isso ocorria sobretudo quando descobriam que certezas que sustentavam com segurança sobre o grupo adversário não correspondiam à realidade.

O experimento concentrou-se em eleitores de dois partidos que representam polos opostos da política alemã contemporânea: o Alternative für Deutschland (AfD), frequentemente associado à direita radical populista, e o Bündnis 90/Die Grünen, o Partido Verde, identificado com a esquerda progressista. Esses dois grupos não foram escolhidos ao acaso. Ambos simbolizam, no contexto alemão, a distância ideológica que caracteriza a polarização contemporânea e têm sido alvos frequentes de hostilidade política recíproca.

A ideia por trás do estudo era que a hostilidade política depende de três elementos centrais: estereótipos rígidos sobre o outro lado, percepções equivocadas sobre o que o outro pensa e excesso de confiança nas próprias convicções. Esse excesso de confiança produz rigidez cognitiva, que, por sua vez, favorece a desumanização e intensifica a hostilidade contra o “outro lado”, podendo inclusive levar à legitimação da violência. A implicação mais forte é clara: a intolerância política não depende apenas de ideologia, mas também de um estado cognitivo específico, que consiste na incapacidade de reconhecer a falibilidade da própria perspectiva. A intervenção, como veremos, atua precisamente nesse terceiro ponto, criando o que os autores chamam de “sementes de dúvida”, isto é, dúvidas de natureza metacognitiva.

Para isso, os pesquisadores aplicaram um procedimento conhecido como treinamento metacognitivo (Metacognitive Training, MCT), um método originalmente desenvolvido para tratar pacientes que sustentam convicções falsas com elevado grau de certeza. O método foi originalmente desenvolvido para o tratamento de pacientes com esquizofrenia que apresentam delírios persistentes. Seu alvo não é o conteúdo das convicções, mas o excesso de confiança com que são sustentadas. Os pesquisadores aplicaram esse mesmo princípio ao estudo da polarização política, partindo da hipótese de que a hostilidade entre grupos rivais é alimentada por um mecanismo cognitivo semelhante: a tendência de tratar como absolutamente certas interpretações que podem estar equivocadas.

O experimento foi conduzido com pouco mais de mil participantes recrutados na Alemanha, todos identificados como eleitores de um dos dois partidos analisados. Os participantes responderam a uma série de perguntas factuais sobre o grupo político rival e também tiveram de indicar o grau de confiança em suas respostas.

Esse detalhe é decisivo. Após responderem, receberam imediatamente o feedback correto, acompanhado da indicação de que haviam respondido incorretamente em questões nas quais haviam declarado alta convicção. Esse confronto entre certeza subjetiva e erro constitui o processo de semeadura de dúvidas, pois produz a experiência direta de que uma convicção sustentada com segurança pode estar errada. O objetivo, naturalmente, era enfraquecer a convicção implícita de que percepções sustentadas com absoluta certeza sobre o adversário seriam necessariamente corretas. Tratava-se, portanto, de alterar a relação das pessoas com a própria certeza.

Imagine ser indagado se a maioria dos eleitores do partido adversário apoia determinada posição política e responder com segurança que sim. Em seguida, você descobre que os dados mostram o contrário e que sua resposta estava errada. O experimento consistiu precisamente em produzir esse tipo de experiência.

Esse método faz parte de um conjunto mais amplo de intervenções experimentais destinadas a reduzir a polarização. Entre elas estão o chamado pensamento paradoxal, que expõe versões exacerbadas das próprias convicções para que o indivíduo se dê conta dos exageros implícitos em suas crenças, e a exposição a contraestereótipos, que apresenta exemplos capazes de contradizer caricaturas comuns sobre o grupo adversário. Essas abordagens têm em comum o objetivo de enfraquecer a rigidez cognitiva que sustenta a hostilidade política, restaurando a capacidade de reconhecer a complexidade do mundo social. O treinamento metacognitivo, no entanto, atua em um nível ainda mais profundo, pois não confronta diretamente o conteúdo das convicções, mas a certeza com que são sustentadas.

Os resultados do estudo foram claros. Após uma única intervenção breve, os participantes passaram a expressar níveis significativamente menores de hostilidade em relação ao grupo político rival. Eles não abandonaram suas convicções políticas nem passaram a concordar com o adversário. O que mudou foi a forma como percebiam o outro lado. O adversário deixou de ser visto como uma ameaça absoluta e passou a ser percebido como um grupo legítimo, ainda que equivocado em suas posições.

Quanto maior a certeza com que sustenta uma convicção falsa, maior a mudança após a confrontação com a realidade

O aspecto mais revelador do estudo, no entanto, não foi simplesmente a redução da hostilidade, mas o fator que a tornou possível. A variável decisiva não foi o nível de informação política dos participantes, nem sua escolaridade, nem sua posição ideológica. O fator determinante foi o número de vezes em que descobriram que estavam errados em julgamentos que haviam sustentado com elevada confiança. Quanto maior a certeza com que sustentavam uma convicção falsa, maior foi a mudança após a confrontação com a realidade .

Esse resultado revela algo fundamental sobre a natureza da polarização contemporânea. O que transforma divergência em polarização destrutiva não é a distância entre as posições, mas a convicção de que a própria posição é infalível e de que a posição adversária só pode ser fruto de ignorância ou má-fé. O problema não é que discordamos demais, mas que temos confiança excessiva em nossas próprias convicções.

Essa certeza manifesta-se de formas facilmente reconhecíveis. Ela aparece quando alguém conclui que qualquer pessoa que vota no partido adversário só pode ser ignorante ou manipulada. Aparece quando a divergência deixa de ser interpretada como diferença de julgamento e passa a ser vista como evidência de falha moral. Aparece também quando deixamos de perguntar por que o outro pensa de forma diferente e passamos a supor que sua posição é simplesmente ilegítima.

O estudo conduzido por Moritz e seus colegas sugere que a polarização é sustentada por um mecanismo cognitivo específico, que consiste no excesso de confiança nas próprias convicções. Esse excesso de certeza produz uma forma de rigidez mental que impede o reconhecimento da própria falibilidade. Quando essa rigidez é enfraquecida, ainda que momentaneamente, a hostilidade diminui. Isso não ocorre porque as pessoas abandonem suas posições, mas porque deixam de ver o adversário como uma ameaça existencial.

Esses resultados permitem responder à pergunta inicial com maior precisão. A polarização não é uma condição irreversível nem uma consequência inevitável da diversidade social. Ela é sustentada por mecanismos cognitivos que podem ser modificados. O conflito político não desaparecerá, nem deveria desaparecer. O que pode mudar é a forma como os indivíduos se relacionam com suas próprias convicções e com aqueles que sustentam posições diferentes.

A democracia não depende da ausência de divergências. Ela depende, isto sim, da capacidade de conviver com divergências. Essa capacidade não exige que abandonemos nossas convicções, mas que reconheçamos sua natureza falível. A polarização não nasce da divergência, mas da certeza absoluta. E é precisamente por isso que ela pode ser reduzida.

Wilson Gomes é doutor em filosofia, professor titular da Universidade Federal da Bahia e autor de “Crônica de uma Tragédia Anunciada”

Minorias que berram e maiorias silenciosas

Por Wilson Gomes, do Canal Meio

Arte ilustrativa do Canal Meio
Arte ilustrativa do Canal Meio

A direita brasileira é bem maior do que o bolsonarismo, mas o bolsonarismo continua se comportando como se fosse a única e verdadeira direita — e, acima de tudo, como se fosse a voz autêntica do nosso povo. De fato, uma pesquisa recente do Instituto Ideia, feita a pedido do Meio, ajuda a distinguir com precisão as coisas quando se trata do perfil da direita no país: apenas 12% dos brasileiros são efetivamente de direita e bolsonaristas, enquanto 26% se encaixam na direita, mas não são bolsonaristas — uma proporção de um terço para dois terços.

No detalhamento, a diferença é marcada: o núcleo bolsonarista é mais rico, mais escolarizado e mais radicalizado; a outra direita é mais pobre, mais preocupada com segurança pública e custo de vida, menos interessada em guerra cultural. O bolsonarismo, como era de se esperar, é vinculado pessoal e organicamente ao seu líder e coloca a sobrevivência dele acima de outros valores; a direita não bolsonarista tem outras prioridades. São dois mundos com alguma interseção no que diz respeito à autocompreensão ideológica, mas que se afastam em tudo o mais.

A direita bolsonarista é pequena, barulhenta e convicta de que fala pela maioria. A direita não bolsonarista é numericamente maior, mas hesitante, dispersa e, sobretudo, menos visível. A primeira ocupa as redes, pauta o noticiário e define o clima político; a segunda assiste a tudo com muito menor ímpeto missionário e fervor crédulo no seu papel de “salvar o país”. Acontece que, em política, como em muitos domínios da vida pública, a visibilidade costuma valer mais do que a quantidade: quem fala mais alto convence-se (e convence os outros) de ser mais numeroso; quem fala sozinho tem certeza de que todos concordam.

Um levantamento ainda mais recente, produzido pelo think tank More in Common, em parceria com a Quaest, mostra com números e nomes que o Brasil não é simplesmente uma arena dividida entre duas metades que se odeiam. A pesquisa, que entrevistou 10 mil pessoas em todas as regiões, identificou seis grupos politicamente coerentes:

  1. Progressistas Militantes: 5%
  2. Esquerda Tradicional: 14%
  3. Desengajados: 27%
  4. Cautelosos: 27%
  5. Conservadores Tradicionais: 21%
  6. Patriotas Indignados: 6%

Desses seis conjuntos, apenas dois, situados sintomaticamente nos polos — os Progressistas Militantes e os Patriotas Indignados — formam os extremos vocais da polarização política. Juntos, contudo, somam meros 11% da população. Os Desengajados e Cautelosos, que respondem por 54%, constituem o grosso da “maioria silenciosa”: gente que quer tranquilidade, talvez até ver os problemas sociais resolvidos pela política, mas não por cruzadas morais.
No debate público, o que se ouve são os 11%.

Pablo Ortellado, diretor da More in Common no Brasil, explicou que entre os conservadores a diferença entre “tradicionais” e “patriotas” é de intensidade: ambos pensam parecido, mas os patriotas vivem a política como identidade e se reconhecem como bolsonaristas. Já entre os progressistas, a diferença é de pauta: os militantes concentram-se em temas de opressão de gênero e raça, enquanto a esquerda tradicional ainda organiza sua visão de mundo em torno da desigualdade social.

As vanguardas políticas — isto é, as pessoas mais ativas, vocais e envolvidas — não se definem por ideologia, mas por uma atitude principal: a convicção de que representam não apenas o círculo restrito que veem ao seu redor, mas uma massa que não quer ou não pode falar, embora pense e sinta exatamente como elas. O que define um militante — alguém que não apenas se interessa por política, mas já tem um lado escolhido e está convencido de que tem uma missão na mudança do mundo — não é o conteúdo do que ele pensa, e sim a certeza de que pensa pelo país.

Ao acreditar que ‘todo mundo pensa assim’, o indivíduo protege a autoestima e reduz a ansiedade que sente quando se percebe socialmente isolado

Essa certeza é um fenômeno estudado há décadas pela psicologia social e tem nome: viés de falso consenso. Trata-se da tendência que muitos de nós temos de superestimar o grau de concordância dos outros com nossas próprias opiniões. Em bom português: o sujeito toma sua maneira de ver o mundo como padrão supostamente adotado por “todo mundo”. É um atalho cognitivo, mas também um mecanismo de conforto emocional e moral. Ao acreditar que “todo mundo pensa assim”, o indivíduo protege a autoestima e reduz a ansiedade que sente quando se percebe socialmente isolado.

Ocorre que essa ilusão de maioria se transforma, com frequência, em combustível político.

Quanto mais moralizada é a disputa, mais forte o viés. Grupos ideológicos intensos — sejam progressistas, conservadores, religiosos ou identitários — tendem a viver dentro de círculos de semelhança, as tais “bolhas”, o que reforça a impressão de unanimidade. Redes de afinidades, como as redes sociais digitais, somadas à segmentação algorítmica, completam o serviço: como as pessoas acabam sendo expostas quase exclusivamente a quem pensa de forma semelhante, encontram nos outros principalmente versões de si mesmas. O resultado é uma percepção distorcida da sociedade, em que cada facção acredita representar integralmente o verdadeiro povo brasileiro.

A polarização, nesse sentido, decorre menos de um confronto entre ideias e mais de uma competição de maiorias imaginárias.

O falso consenso pode ter efeitos políticos profundos. Ele legitima a intolerância, porque transforma discordância em desvio moral. Se “a maioria pensa como eu”, quem discorda não está apenas errado: está fora da comunidade moral. Daí para a prontidão de calar o outro, punir, excluir ou ridicularizar é um passo curto. O mesmo mecanismo que sustenta o populismo — “eu sou o povo” — alimenta também a arrogância moral de vanguardas políticas, de qualquer polo do espectro ideológico, que se julgam porta-vozes da civilização. Em ambos os casos, o resultado é o mesmo: desaparece o espaço do dissenso legítimo.

A política brasileira recente fornece exemplos de sobra. Patriotas indignados veem em Lula a usurpação de um poder que, por direito, pertenceria à “maioria conservadora”. Setores progressistas radicais, por sua vez, tratam opiniões divergentes sobre costumes ou segurança como se fossem agressões intoleráveis a direitos humanos. Ambos acreditam estar do lado certo — e, mais grave, do lado da maioria. Por isso estão mais dispostos a soltar a voz em público, a transformar seus sentimentos de ultraje moral em performances de punição ou reivindicação, a realizar manifestações e protestos.

Por outro lado, a psicologia tem mostrado que, quanto maior a intensidade da certeza, maior a ilusão de consenso. Ou seja: quanto mais certo se está do que se pensa, do valor da própria causa e do papel que se exerce na transformação do mundo, menos se percebe o mundo real à volta.

As pesquisas citadas revelam um país muito mais fragmentado do que frequentemente supomos. Há múltiplas minorias políticas disputando atenção, recursos e legitimidade. Nenhum grupo chega perto de representar sozinho um terço do eleitorado. Mesmo assim, as minorias mais engajadas dominam a esfera pública porque falam alto, alimentam conflitos e sabem usar os algoritmos da visibilidade. São pequenas em número, mas enormes em ruído.
E o ruído, em tempos digitais, é a nova métrica da força.

Esse descompasso entre barulho e tamanho tem efeitos corrosivos. Ao obter visibilidade desproporcional, minorias militantes criam a ilusão de que o país está rachado em duas metades equivalentes. O cidadão comum, cercado por gritos de um lado e do outro, sente-se compelido a escolher um campo — ou a calar-se. É assim que a “maioria silenciosa” se torna, de fato, quieta e aparentemente aquiescente: não por falta de opinião, mas porque sua voz não se faz ouvir na algazarra política geral.

Mas há algo de mais profundo. O falso consenso não é apenas um engano perceptivo; é também uma autorização moral. Quem acredita falar em nome da maioria sente-se no direito de agir em seu nome. É daí que brota o populismo autoritário — a ideia de que há um “povo verdadeiro”, homogêneo e virtuoso, traído por elites ou minorias espúrias. Essa convicção não é exclusiva da extrema direita. Há versões ilustradas e progressistas do mesmo mito: a crença de que a sociedade decente coincide com “o campo democrático”, e que os demais são bárbaros a serem educados ou cancelados.

Ambos os lados, ironicamente, se sentem nos braços da maioria silenciosa.

O resultado é o que se vê: uma democracia cansada, em que o diálogo cede lugar à catequese

O autoengano tem custo alto. Ele dispensa o trabalho de ouvir, de argumentar, de negociar. Se a maioria já está comigo, por que conversar? A política vira palco de performances morais, não de persuasão racional. Em vez de disputar ideias, disputam-se virtudes. O adversário não é alguém a convencer, mas um inimigo a derrotar. O resultado é o que se vê: uma democracia cansada, em que o diálogo cede lugar à catequese.

Há quem veja nisso um traço inevitável das redes. Mas as redes apenas potencializam uma distorção antiga. Desde os anos 1970, estudos sobre o viés de falso consenso mostram que o ser humano tem dificuldade estrutural de imaginar que os outros pensam diferente. O digital apenas transformou esse traço cognitivo em epidemia política. O que era tendência virou arquitetura: algoritmos alimentam certezas, certezas alimentam engajamento, engajamento alimenta lucro.

E assim se constrói a ilusão reconfortante de que “a maioria está comigo”.

O problema é que não está. O Brasil das pesquisas mostra um país múltiplo, hesitante e menos extremado do que seus intérpretes. Há conservadores pobres que votam à direita sem idolatrar Bolsonaro; há progressistas tradicionais que não se reconhecem na pauta identitária; há milhões de cidadãos que rejeitam tanto a demagogia quanto o moralismo.

Mas esse centro difuso não tem narrativa nem heróis — e, portanto, quase não existe na política.

Reconhecer a ilusão de consenso é um passo essencial para reconstruir o espaço comum. Enquanto cada tribo se imaginar a voz do povo, o país continuará refém de minorias ruidosas. A democracia precisa de maiorias reais, feitas de discordâncias administráveis, não de unanimidades imaginárias.

Wilson Gomes é doutor em filosofia, professor titular da Universidade Federal da Bahia e autor de “Crônica de uma Tragédia Anunciada”

O autoritarismo que vive na democracia

Por Wilson Gomes

Arte ilustrativa do Canal Meia
Arte ilustrativa do Canal Meia

Há 75 anos, em 1950, saía a público um livro de fôlego incomum, resultado de mais de uma década de pesquisa coletiva em psicologia social, sociologia e teoria crítica: The Authoritarian Personality (A personalidade autoritária), de Theodor W. Adorno, Else Frenkel-Brunswik, Daniel J. Levinson e Nevitt Sanford. O projeto nasceu sob o patrocínio do famoso Instituto de Pesquisa Social — “transplantado” de Frankfurt para os Estados Unidos — dirigido por Max Horkheimer, em colaboração com a Universidade da Califórnia em Berkeley.

A pergunta que guiava a empreitada era simples e perturbadora: como explicar que tantos cidadãos comuns, em sociedades modernas e supostamente democráticas, pudessem se tornar terreno fértil para o antissemitismo, o etnocentrismo, o preconceito e a intolerância — em uma fórmula sintética, para o fascismo?

Creio que a grande inovação da abordagem de Adorno e colegas consistiu em uma espécie de virada copernicana na forma de representar o fascismo. No centro do sistema, em vez das ideologias, partidos e instituições, de um lado, e das circunstâncias históricas, de outro, como se costuma fazer, é posto o indivíduo e suas atitudes.

O livro nos convida a buscar a fonte da adesão massiva a movimentos antidemocráticos não simplesmente em discursos políticos ou conjunturas históricas, mas nos padrões subjetivos (e intersubjetivos) que levavam certas pessoas a buscar ordem em líderes fortes, a reagir com hostil intolerância diante da diferença e a aceitar certas explicações, em vez de outras, para problemas complexos.

No centro está a “personalidade”, definida como uma estrutura relativamente estável de atitudes, predisposições e modos de interpretar o mundo que orienta a experiência política e social. A pesquisa assumiu como pressuposto que, sob determinadas condições históricas e discursivas, disposições autoritárias — que moldam as nossas personalidades e estão latentes e prontas para serem ativadas — podem ser despertadas e trazidas à tona, abrindo espaço para formas patentes de autoritarismo, até o limite da eclosão do fascismo.

Aceito esse pressuposto, o fascismo e outras formas de movimentos sociais e políticos intolerantes, autoritários e violentos contra a alteridade perdem grande parte do seu excepcionalismo. Há sempre, em qualquer sociedade, um estoque considerável de disposição autoritária, mesmo em democracias estáveis. E ele pode se manifestar em muitos tipos de pessoas, inclusive naquelas que pouco se ocupam de ou se interessam por política.

Essa é a premissa mais perturbadora do livro: o fascismo e toda forma de intolerância política não são excepcionais, não desaparecem de fato e não são extintos.

Permanecem em estado latente nas pessoas, até serem despertados por apelos autoritários que conseguem vencer os freios sociais que os recalcam.

Essa inovação dá a medida do significado do livro. Ao combinar teoria crítica — herdeira da tradição frankfurtiana de crítica marxista e freudiana à razão instrumental e às ideologias reificadas — com os instrumentos empíricos da psicologia social americana, A Personalidade Autoritária inaugurou uma agenda de pesquisa que atravessou 75 anos de debates sobre intolerância política e as bases psicológicas do autoritarismo.

O livro marcou época não apenas por suas teses, mas pelo conjunto de inovações teóricas e metodológicas que trouxe. Pela primeira vez, aplicou-se em larga escala uma pesquisa que unia psicanálise, psicologia, sociologia e estatística em um único programa coerente.

Entre as inovações mais notáveis estão as escalas padronizadas de opinião — entre elas a célebre Escala F (de fascismo) —, as entrevistas clínicas em profundidade e os testes projetivos. O projeto não se limitava a medir preconceito; pretendia oferecer uma “biografia metodológica” das escalas criadas, registrando seus limites, vieses e o aprendizado obtido em cada tentativa. Tudo documentado em uma obra monumental de mais de mil páginas.

Essa disposição de articular teoria social, psicologia individual e técnicas estatísticas em uma só empreitada científica conferiu à obra um caráter pioneiro. Décadas antes de a psicometria se consolidar, A Personalidade Autoritária já oferecia instrumentos sofisticados para medir tendências antidemocráticas e, mais importante, para conectar essas medidas ao diagnóstico social.

Uma das contribuições mais originais do livro é a formulação de um padrão de personalidade autoritária como uma constelação de disposições interligadas — que chamo de “poliedro de nove faces”. Em vez de reduzir o autoritarismo a um único traço, Adorno e colegas o descreveram como a combinação recorrente de diferentes dimensões.

Entre elas, o convencionalismo (adesão rígida a valores e convenções), a submissão à autoridade percebida como legítima pelo grupo de pertencimento, a agressividade autoritária dirigida contra grupos externos, a superstição e a estereotipia como modos simplistas de interpretar o mundo, a valorização da força em detrimento da compaixão, uma visão cínica e fatalista da vida social, a projeção de impulsos reprimidos sobre inimigos externos e a preocupação exagerada com questões sexuais (a repulsa ao sexo).

O instrumento metodológico que formularam servia basicamente para mostrar que essas facetas da personalidade não são independentes, mas se reforçam mutuamente. Quem pontua alto em convencionalismo tende a repetir o mesmo em agressividade contra grupos externos e submissão à autoridade, por exemplo.

É por isso que os autores preferiram falar em “constelação autoritária”: um arranjo de tendências que, tomadas em conjunto, revelam um padrão reconhecível de intolerância e predisposição antidemocrática.

Esse poliedro foi operacionalizado por meio da Escala F, mas também por inventários de valores, questionários de opinião e técnicas qualitativas. O resultado era mais do que um índice de preconceito: era um mapa de como diferentes disposições se articulam para produzir uma atitude política intolerante ao pluralismo, agressiva com o diferente e decididamente autoritária.
Um dos aspectos mais inovadores da Escala F foi justamente sua tentativa de captar predisposições autoritárias de modo indireto, sem despertar as defesas conscientes dos entrevistados. As escalas anteriores — como a A-S (Anti-Semitism Scale), voltada a medir atitudes antissemitas, e a E (Ethnocentrism Scale), focada na hostilidade contra grupos minoritários em geral — lidavam de forma muito explícita com preconceito, mas esse caráter direto induzia respostas socialmente desejáveis: muitos preferiam se apresentar como democráticos e igualitários.

A tentativa intermediária, a PEC (Politico-Economic Conservatism Scale), buscou contornar o problema evitando referências étnicas ou raciais, mas acabou excessivamente ideológica e transparente, o que a tornava fácil de “decifrar” pelos participantes. A Escala F nasce dessa lacuna: formular itens que, sem mencionar minorias nem recorrer a enunciados políticos óbvios, pudessem revelar tendências de fundo da personalidade — padrões de autoridade, convencionalismo, estereotipia, rigidez moral — que se manifestariam tanto em opiniões ideológicas quanto em temas aparentemente neutros da vida cotidiana. Com isso, pretendia-se medir não apenas crenças superficiais, mas disposições latentes, muitas vezes inconscientes, que estruturavam a abertura ou o fechamento de cada indivíduo ao pluralismo democrático.

Os efeitos do livro foram imensos. Ele inspirou pesquisas fundamentais sobre intolerância política (como o estudo de Samuel Stouffer em 1955), sobre preconceito e identidade social, sobre as bases cognitivas e motivacionais do autoritarismo, até os debates atuais sobre polarização, populismo e desinformação digital.

Right-Wing Authoritarianism Scale de Bob Altemeyer, nos anos 1980, foi herdeira direta do modelo frankfurtiano-berkeleyano. E mesmo estudos recentes sobre left-wing authoritarianism e intolerância progressista continuam dialogando com o legado de 1950.

A fortuna crítica, contudo, não foi menor. Muitos acusaram o livro de “psicologizar” (antes, psicanalisar) o fascismo, dando peso excessivo à personalidade em detrimento de fatores históricos e estruturais.

Um dos limites mais discutidos de The Authoritarian Personality está na forma como a Escala F foi concebida e operacionalizada. A intenção era medir predisposições latentes ao fascismo como uma síndrome de atitudes e traços de personalidade, mas muitos itens acabaram confundindo posições políticas legítimas com traços psicológicos autoritários.

Assim, religiosidade intensa, apego à tradição, moralidade sexual convencional ou respeito a autoridades foram frequentemente tratados como sinais de fragilidade do ego e predisposição antidemocrática. A operação psicanalítica, ao traduzir essas atitudes em sintomas de repressão, projeção ou rigidez cognitiva, reforçava essa equivalência. O resultado foi uma tendência a patologizar disposições culturais conservadoras, aproximando-as do fascismo, mesmo quando poderiam existir em democracias estáveis sem comprometer sua vitalidade.

Esse viés não decorre de uma formulação explícita de Adorno e seus colegas, mas de decisões teóricas e metodológicas que deixaram em aberto a confusão entre conservadorismo e autoritarismo. Ao não distinguir claramente a deferência racional à autoridade da submissão acrítica, ou a religiosidade tradicional de uma hostilidade ativa ao pluralismo, a escala alimentou uma leitura segundo a qual apenas estilos de vida liberais e progressistas estariam em sintonia com a democracia.

Essa ambiguidade permitiu que, mais tarde, se difundisse no senso comum de esquerda a tendência de classificar posições de direita como “fascistas” ou “patológicas”. A crítica posterior — de Stouffer a Sullivan, de Altemeyer a Marcus — buscou corrigir esse excesso, refinando os instrumentos de medida para separar o apego a normas convencionais das atitudes francamente intolerantes e antidemocráticas.

Do ponto de vista normativo, esse legado é ambíguo. Por um lado, a obra foi pioneira em mostrar que predisposições psicológicas importam na compreensão do autoritarismo; por outro, deixou como herança a suspeita de que o conservadorismo seria intrinsecamente incompatível com a democracia.

A literatura posterior, sobretudo com o conceito de Right-Wing Authoritarianism de Altemeyer, mostrou que o problema não está em valores tradicionais ou em sociedades hierárquicas em si, mas na forma patológica como certos indivíduos transformam a obediência em subserviência, a moralidade em intolerância e a religiosidade em dogmatismo repressivo.

A grande lição, então, é dupla: se a pesquisa de 1950 revelou o perigo real das predisposições autoritárias, também mostrou como as próprias lentes intelectuais podem gerar distorções, confundindo diversidade cultural e ideológica com ameaça à democracia.

Outros questionaram a validade da Escala F e a homogeneidade sociocultural da amostra. Essas críticas são importantes e, em parte, justas. Mas seria injusto ignorar que o livro sempre insistiu na interação entre predisposições individuais e ambiente social: sem crises, ameaças e discursos mobilizadores, os potenciais autoritários permanecem latentes.

Essa noção de autoritarismo como predisposição ativável antecipou, em linguagem própria, o que décadas mais tarde se tornaria central na psicologia política. Hoje sabemos que cidadãos que se autodefinem tranquilamente como democratas convictos podem, sob condições de ameaça real ou imaginada, apoiar medidas intolerantes contra adversários políticos.

A atualidade do livro salta aos olhos. Democracias vivem sob pressão de forças que exploram exatamente esses mecanismos: líderes e movimentos que, ao amplificar medos e fabricar inimigos, despertam tendências latentes à intolerância e ao dogmatismo.

A ascensão da extrema direita digital, que organiza ressentimentos e oferece explicações simplistas para crises econômicas, culturais e identitárias, é prova disso. Mas não apenas ela: também movimentos progressistas identitários, ao reivindicar censura e punição de vozes dissidentes, alimentam novas formas de intolerância política.

A lição dos frankfurtianos e de seus colegas de Berkeley continua válida: sociedades democráticas não podem se dar ao luxo de ignorar as predisposições autoritárias que residem nelas mesmas. Reconhecer sua existência, estudá-las com rigor e criar mecanismos institucionais e culturais para neutralizá-las é parte essencial da defesa da democracia.

Se em 1950 a questão era entender o fascismo europeu, hoje é compreender como a intolerância se reinventa dentro de democracias que ainda se pretendem abertas.

Setenta e cinco anos depois, o diagnóstico permanece perturbador: o autoritarismo não é uma anomalia distante, mas uma sombra que acompanha a democracia, sempre à espera de novas oportunidades históricas para se manifestar.

Em tempo: Não tenho conhecimento de traduções de The Authoritarian Personality em português, mas a editora da Unesp traduziu, em cerca de 600 páginas, vários dos seus capítulos principais, e nomeou o livro Estudos sobre a personalidade autoritária, cuja leitura recomendo.

Wilson Gomes é doutor em filosofia, professor titular da Universidade Federal da Bahia e autor de “Crônica de uma Tragédia Anunciada”