Irmã Aparecida nasceu Letícia Rodrigues Duarte e logo foi adotada pelo casal Francisco Ferreira Duarte e Francisca Rodrigues Duarte.
Em verdade, Letícia era filha de um irmão de Chico Duarte, ou Chico Lequeter, comerciante de secos e molhados na rua da Frente, viúvo e com muitos filhos que, em 1920, casou-se, em segundas núpcias, com Chiquinha Duarte.
"Madrinha Chiquinha", como era tratada por todos nós, cearense do Ererê, mas recém-chegada do Rio de Janeiro, além de outros predicados, aprendeu, nesse período que viveu na Cidade Maravilhosa, a guiar carros. Arrimado nisso, o velho comprou um “Ford de Bigode”.
Portanto, a primeira mulher a dirigir automóveis em Mossoró foi a mãe de Irmã Aparecida. Inclusive, a própria Irmã Aparecida contou-me que, certa vez – a família já morando na fazenda Barrinha dos Duarte –, estavam a caminho de Mossoró, quando o carro apresentou um problema: pneu furado.
Madrinha Chiquinha foi quem tomou as providências para a mudança do pneu, enquanto ela e seu pai, que já apresentava idade avançada, assistiam às providências sob uma árvore frondosa.
Madrinha Chiquinha executava o serviço reclamando que o carro estava ficando velho, quando ouviu do velho Chico que, logo, logo, compraria um carro novo e tudo estaria resolvido. Madrinha Chiquinha aproveita o diálogo e adverte: “Mas, no carro novo, não vamos carregar couros fedorentos, não é mesmo?”
Fazia referência ao cacoete do velho em transportar produtos de seu curtume no carro de passeio. Ele não se altera e devolve com mestria: “Nem galinhas!”; pois Chico Lequeter guardava na “manga” o trunfo do fato de Madrinha Chiquinha sempre levar uma galinha de presente para alguém em Mossoró.
Riram juntos, recordou Irmã Aparecida.
Além da alegre e saudável infância na Barrinha, lembro de Irmã Aparecida comentando sua juventude no Colégio das Freiras e dando especial ênfase ao momento decisivo de sua opção pela vida religiosa. Filha única, teve o apoio incondicional dos pais, porém, seguido de incontrolável e saudoso pranto que a fez temer pela saúde deles, principalmente do pai que, à época, já era um senhor na faixa de setenta anos.
Sempre ressalvava a participação e apoio decisivos do irmão e médico, Duarte Filho – depois, senador da República -, para que sua ida ao convento fosse a menos traumática possível aos pais.
Após longo período de formação em Salvador, aconteceu seu retorno para Mossoró. E, na terra de Santa Luzia, fincou bandeira e fez história, resultado de anos e mais anos na labuta diária do Colégio.
Nas últimas seis décadas, na comunidade mossoroense, não se pode falar no binômio religião-educação sem que o nome de Irmã Aparecida venha à baila. E a citação normalmente se faz em relação à sua postura austera, até mesmo inflexível ao bom comportamento e às boas práticas escolares.
Foi assim desde que abraçou a vida religiosa e educacional e, de forma retilínea, trilhou o seu caminho.
No recém-lançado livro "Massilon – Nas veredas do cangaço e outros temas afins "(Sarau das Letras, 2010), Honório de Medeiros, a certa altura, retrata uma visita que fez a Irmã Aparecida:
“É dezembro de 2006. Irmã Aparecida nos recebe, a mim e a Carlos Duarte, em seu gabinete no Colégio Sagrado Coração de Maria – o Colégio das Freiras, onde estudavam as filhas das elites de Mossoró, geração após geração. Tem o mesmo tipo físico de Dona Bernadete e Dona Iracema. Nela, entretanto, o hábito de comandar deixa-se perceber através das frases pontuadas de forma mais incisiva, como a evitar contestações. Irmã Aparecida, apesar da idade, ainda comanda o Colégio. Nada leva a crer, observando-se sua agilidade física e mental, que a aposentadoria esteja próxima.”
Não faz muito tempo e Irmã Aparecida apresentava agilidade e disposição que, pela idade, espantava. No entanto, nos últimos meses, seu frágil corpo não resistiu à doença.
Partiu deixando um legado de retidão de caráter inquestionável.
No chamado mundo moderno, onde se tocam fanfarras por coisas tão fúteis, a herança imaterial de Irmã Aparecida merece destaque; afinal de contas é plausível que o exemplo pessoal, na vida religiosa e na alçada educacional, ensina mais que elaborados discursos.
Assim viveu Irmã Aparecida: “Guardou a fé e combateu o bom combate”.
David de Medeiros Leite é professor da Uern, advogado e escritor