Por Bruno Ernesto
Seria difícil imaginar alguém deixar Nelson Rodrigues encabulado. Logo ele, cuja mão firme, pensamento aguçado, imaginação singular e língua afiada, tanto marcou uma geração.
Aliás, só encabulou quem a carapuça lhe serviu; que se diga.
Dias atrás, num vaivém, acabei por esquecer de fotografar a fachada do teatro homônimo do anjo pornográfico, localizado – estratégica e ironicamente – bem ao lado da Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro. Acredito que fizeram de propósito.
Ainda mais irônico, é o fato do teatro estar localizado na Avenida República do Paraguai, cujo país no meu tempo era sinônimo de mercadoria falsificada e que toda feira da sulanca que se valorizasse, a vendia com exclusividade.
Embora Nelson Rodrigues se considerasse um conservador, no que sabia fazer de melhor, era um transgressor dos costumes; um indisciplinado. Um reacionário.
Por sinal, registre-se que a naturalidade da hipocrisia – infelizmente – vem se deteriorando nos últimos tempos. Dificilmente você encontra um hipócrita convicto, embora o comportamento se mantenha inalterado como outrora.
Não por onde, aquele pensamento indizível, que outrora era incorruptível, e somente revelado num descuido, agora se confunde com o a própria naturalidade da pessoa, e já não se mantém aquele segredo imaculado de outrora.
A surpresa do mau-caratismo até perdeu a graça, diria ele.
Talvez tenha sido essa a razão dele ter dito que não há admiração mais deliciosa do que a do inimigo. Ou, talvez, que o dinheiro compra tudo. Até amor verdadeiro.
Acredito que até quando dizia que não se deve apressar em perdoar, pois a misericórdia também corrompe, queria novamente dizer que, além de todos os defeitos do adulto, o jovem tem mais um, que é a imaturidade.
Se naquele tempo escarnecia com propriedade o que de pior existia no comportamento humano – o pensamento indizível e a hipocrisia -, talvez hoje, nem Nelson Rodrigues saberia descrever o que seria o pior.
De todas as suas – digamos – observações, ainda fico com a que melhor retrata o há de pior na natureza humana, pois ainda pode-se dizer que atrás de todo paladino da moral, vive um canalha.
Bruno Ernesto é advogado, professor, escritor e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM
























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