domingo - 05/12/2021 - 10:50h

Santa Luzia Chora

mulher-chorandoPor Inácio Augusto de Almeida 

Por incontáveis vezes o Papa Francisco disse, e vai continuar dizendo, que chora ao ver tanta desigualdade, injustiça, miséria e fome.

Sabe o Papa Francisco que a corrupção é a causadora de toda a desgraça.

Como forma de combater a corrupção o Papa não perde uma chance de clamar que a corrupção fede.

O Papa fala com lágrimas rolando na face.

Se o Papa chora, fico a pensar quantas lágrimas Santa Luzia já derramou e derrama ouvindo os gritos de fome dos pedintes nas ruas de Mossoró.

Difícil imaginar o quanto sofre a Padroeira de Mossoró ao ver os olhinhos de crianças famintas, crianças que sequer têm forças para chorar. E ao ouvir o choro abafado das mães famintas, mães sem leite no peito para amamentarem os filhinhos que de fome morrem em seus braços, Santa Luzia se ajoelha e reza pedindo a Deus que não permita a continuação deste flagelo que atinge os indefesos, os que Jesus Cristo mais amava, os com mais pureza no coração.

Santa Luzia chora ao ver um pai desempregado pedindo esmolas. Chora por saber, a nossa amada padroeira, ter sido a maldita corrupção a causadora da desgraça. Chora Santa Luzia por ver tanta impunidade estimulando a prática da corrupção que faz crescer mais e mais a miséria.

Santa Luzia reza pedindo ao Pai o despertar da sua igreja para a luta no combate à corrupção.

Corrupção causadora de toda a desgraça que se abate sobre seus filhos queridos.

E a nós, seus amados filhos, ela nos pede a construção da igreja dos pobres. Nos pede dizendo que a igreja dos ricos já está construída.

Deseja a nossa muito amada padroeira, não pompa nos festejos, porém solidariedade e mais amor ao próximo.

Quer Santa Luzia uma festa cheia de fraternidade, onde o brilhantismo se fará gigante pelas mãos que todos os seus filhos estenderão uns aos outros, sem distinção alguma.

Como Santa Luzia ficará feliz e trocará as lágrimas de dor por um lindo sorriso de felicidade vendo isto acontecer.

Não podemos perder a oportunidade de realizar a mais bela festa de toda a história religiosa de Mossoró.

Inácio Augusto de Almeida é Jornalista e escritor

Categoria(s): Crônica
domingo - 05/12/2021 - 09:40h

Literatos no direito

Por Marcelo Alves

Há muito que se fala – com certa razão – do grande número de bacharéis em direito na Academia Norte-rio-grandense de Letras(ANRL). Se prestarmos atenção, dentre os membros da ANRL, temos muitos juristas e, em quantidade aproximada, jornalistas. Escritores em tempo integral, embora nossa aldeia os tenha em diminuta quantidade – afinal, é quase impossível viver apenas de literatura por aqui –, disso reclamam. Já me reclamaram. Eu dei atenção e, repito, certa razão.

Todavia, há de se contrapor um fato a essa reclamação: ao contrário de outras profissões, como a medicina ou a engenharia, o direito e o jornalismo trabalham essencialmente com a linguagem. As letras são o nosso material de cada dia – e aqui já me reconheço como envolvido nessas coisas de leis e jornais. Escrevemos bastante. E todos nós somos ou já fomos professores. Talvez isso explique, quiçá justifique, nossa presença nas academias de letras.livro, literatura, escritor, direito, cultura

De toda sorte, essa mistura de profissionais do direito com a literatura sempre me interessou. É abundante o número de renomados escritores que tiveram formação jurídica ou foram, na vida, profissionais da área. Outro dia, a partir da leitura de um dos Cadernos da Revista EntreLivros, “4 – Panorama da Literatura Francesa”, quedei-me ainda mais certo disso.

Aqui falo de grandes pensadores como Montaigne (1553-1592), Montesquieu (1689-1755) e Rousseau (1712-1778), todos eles literatos, mas também profissionais ou estudiosos do direito. De grandes escritores que se meteram, de forma penosa, em processos judiciais ruidosos, como é o caso de Flaubert (1821-1880) e Zola (1840-1902). De escritores cujas vidas foram quase vividas no inferno da criminalidade, a exemplo de Jean Genet (1910-1986), sendo isso transposto para as suas obras. Mas também de ficcionistas que, formados ou experimentados no direito, tais como Gaston Leroux (1868-1927) e Georges Simenon (1903-1989), escreveram o que posso denominar de “romances jurídicos”, no sentido lato ou mesmo estrito dessa expressão.

Por exemplo, Leroux, o autor de “Le Fantôme de l’Opéra” (1910) e “Le Mystère de la chambre jaune” (1908), escreveu um conjunto de “romances jurídicos”, a série “Chéri-bibi”, iniciada em 1913, que tem como pano de fundo um erro judiciário, e peças jusfilosóficas, como “La Maison des juges” (1907), em que ele milita contra a pena de morte. Não coincidentemente, Leroux foi advogado (frustrado, dizem) e repórter judiciário.

Já Simenon, o criador do Comissário Maigret, trabalhou na juventude como repórter forense. E esteve ele mesmo metido com processos, sendo até acusado de simpatizar com o nazismo. Maigret foi um detetive com um senso de justiça peculiar, já que Simenon conhecia bem tanto o submundo como o Judiciário de Paris. Aliás, no Palais de Justices da cidade, no Quai des Orfèvres, está o quartel-general da Polícia Judiciária parisiense, a real e a de Maigret, com a arte homenageando a vida e vice-versa.

No mais, se formos para a literatura em língua inglesa, com a qual acredito estar até mais familiarizado, poderíamos falar de vultos como Charles Dickens (1812-1870), que, para o nosso deleite, tinha boa formação jurídica, como assistente na advocacia, escrivão e repórter judiciário.

Contudo, há algo ainda mais interessante na literatura em língua inglesa. Calejados profissionais do direito, com experiência nas histórias do foro, estão migrando para as estórias da literatura (e, daqui, vão bater no cinema). Os casos mais badalados são os de Scott Turow (1949-) e John Grisham (1955-).

A formação jurídica e as experiências como advogados e homens públicos são usadas – e bem – para a construção do que chamamos de “ficção jurídica”. De ótima qualidade, friso. Sem falar que essa íntima relação direito/literatura/cinema tem feito deles campeões de venda. Eles faturam horrores.

Bom, eu até tenho vontade de jogar meus códigos para o ar e me dedicar somente a inventar estórias. Mas talvez eu não tenha o talento necessário. E, certamente, não tenho a coragem – ou a loucura – para tanto.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

Categoria(s): Crônica
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domingo - 05/12/2021 - 06:42h

Deus está vendo

Por Marcos Ferreira

Talvez eu não passe do primeiro parágrafo, não estou em condições muito favoráveis, no entanto retorno a este computador para escrever alguma coisa. Qualquer coisa. Foram vinte dias sem produzir uma linha e ainda me encontro sem bússola e sem ânimo. Nesse espaço de tempo, entre ajustes nos meus psicotrópicos e efeitos colaterais, senti que esta cidade está cada vez mais desumana, insensível. Reparem nesse monte de gente desvalida que hoje mendiga em toda parte.

Olho à minha volta e reflito sobre minha condição. Esta é uma casa velha, cheia de buracos e cupins, certamente a mais modesta e feia desta Euclides Deocleciano, entretanto aqui estou guardado, protegido, com alguns pequenos luxos como uma geladeira, um ventilador e uma cafeteira. Tenho sempre algo para comer e vou conseguindo pagar ao menos as minhas contas de água e luz.

Grande parte do meu auxílio-doença, mediante laudo do meu psiquiatra Dirceu Lopes, é empregada na aquisição de medicamentos. Porém, ao andar pelas ruas de Mossoró, eu me sinto um privilegiado, afortunado. Penso que poderia ser eu (sob este nosso sol implacável) a exibir cartazes nos semáforos, pedidos de socorro. Sim, as pessoas estão pedindo socorro. Suplicam por qualquer alimento ou moedinha. Vez por outra, medindo minhas possibilidades, tento ajudá-las.

Enquanto isso, dentro dos seus carrões refrigerados, a maioria dos motoristas não baixa o vidro, sequer olha de lado. Tal súplica se arrasta desde o começo do dia e segue noite adentro. Indivíduos de todas as idades, homens, mulheres e crianças tentam vender coisas ao público motorizado, especialmente garrafinhas de água mineral, dindins, picolés, bombons e até desinfetante caseiro.

Essas pessoas, nesta Mossoró desarborizada, ficam expostas a sol e chuva. Mas chuva é algo raro por aqui. Sobre seus produtos, quando conseguem vender, têm lucro de centavos. Como se consegue subsistir numa carestia como esta em que se acha este país ganhando centavos? Aos demais, os que não têm nada para tentar vender, só resta a mendicância. A esta hora, meio-dia e quinze, enquanto escrevo esta página, eles estão nos semáforos, sob o sol, ignorados e famintos.

Onde estão os vereadores, o ilustre senhor prefeito, a Igreja Católica, as igrejas evangélicas, os donos de redes de supermercados e vários outros empresários e poderosos que não se mobilizam em favor dos pobres? Ou só vão doar alguma comida quando chegar o Natal? Acham que os miseráveis não têm fome nos outros dias? Não vejo distribuição de cestas básicas em parte alguma.

Cadê os poetas de Mossoró, escritores, jornalistas, intelectuais? É preciso união da classe pensante, a fim de se pressionar o poder público e a sociedade como um todo. A prefeitura queima muita grana com fogos de artifício, enfeites natalinos e diversos adornos, enquanto os pedintes definham de estômagos vazios. Por sua vez, a Câmara Municipal aprova verba para todo tipo de coisa. Inclusive, fato notório, aumentaram os já polpudos salários dos próprios parlamentares.

O que os caros (e dispendiosos) vereadores pretendem fazer pelos desvalidos? Algum desses legisladores ou legisladoras, por gentileza, poderia me responder? Não foram todos eleitos, principalmente, com a promessa de assistir o povo carente da terra de Santa Luzia? Tomara. Estamos esperando. Ainda há tempo. Façam valer os votos que receberam. Mostrem serviço, caríssimos!fome_pobreza_ss_1

Os mandachuvas do Executivo e do Legislativo precisam deixar as suas confortáveis poltronas e os seus gabinetes geladinhos e olhar de perto, fora dos seus carros de luxo, a fome estampada nos rostos de quem esmola nos semáforos, praças e canteiros. Há mulheres com crianças pequeninas, sofridas, desnutridas, implorando a caridade dos que podem ajudar e não ajudam. Porque muitos dos potentados desta província, infelizmente, viram o rosto diante dos infelizes.

“Ah, senhor cronista, essa fome toda não é só neste município”, dirá alguém no espaço reservado à opinião do leitor. Eu sei disso. Todos nós sabemos, embora certas pessoas prefiram fingir que não estão vendo nada. O Brasil das camadas inferiores vem padecendo em demasia nestes últimos anos. São quase vinte milhões de brasileiros passando fome e quinze milhões de desempregados.

Mesmo nesta residência estragada do subúrbio, com todos os indícios de um morador sem recursos ou haveres, aqui e acolá um cristão aproxima a cara dos combogós do muro, bate palmas e grita: “Ô de casa!” Vou atender, sem abrir o portão, e deparo com alguém pedindo qualquer tipo de auxílio. Às vezes é uma idosa, um idoso, ou mãe com um ou mais filhos pequenos em sua companhia. Isso me dói no coração e na alma. Abro o armário, a geladeira, e lhes ofereço algo.

— Que Deus lhe abençoe — agradecem.

Aqui, portanto, entre estas paredes velhas, torno a refletir: sou um privilegiado, um homem de sorte, apesar de certas privações e da minha gangorra psicológica. Disponho de um velho computador, que vem caducando há vários anos, uma TV, telefone, internet, um fogão que quase não uso, uma motocicleta e os meus poucos e empoeirados livros numa estante. São o meu futuro espólio.

E aquelas pessoas desassistidas, possivelmente sem um teto, o dia todo à mercê da benevolência de terceiros, expostas a um sol forte, sem um banheiro que porventura precisem utilizar? Uma tarde, ao parar no semáforo defronte ao cemitério São Sebastião, eu vi quando um homem desses que exibem cartazes apanhou do chão o que me pareceu ser uma manga apodrecida, tirou a terra com as mãos e começou a comê-la. Outros mais reviram lixeiras de supermercados e restaurantes.

Não há boa vontade dos que efetivamente poderiam agir. A Petrobras, que tem um papel social no seu quadro de ações, não se mexe, não põe a cara fora. Temos duas grandes indústrias de cimento aqui bem próximo, além de ricos proprietários de postos de combustíveis, segmentos estes que faturam alto em nosso município, contudo se preocupam apenas em se tornarem ainda mais ricos.

Deus, aparentemente, também não tem feito nada em favor dos que estão aí pelas ruas em busca de uns centavos, sobretudo de alimento. Mas Deus não falha e está vendo, não se enganem, a sovinice, avareza e falta de compaixão dos ricaços, dos potentados, abastados e políticos desta cidade. Sei que no Brasil inteiro a situação não é diferente, repito, porém me atenho ao torrão onde nasci há meio século. É necessário, e com urgência, que outros escribas e vozes se levantem.

Como sermos felizes, estarmos com as nossas consciências leves, quando vemos tantas pessoas suplicando por uma refeição? Não podemos simplesmente dizer para nós mesmos que não temos nada a ver com isso, lavar as mãos, virar o rosto, ignorar. Então, senhoras e senhores, que o espírito natalino toque os nossos corações e nós possamos abrir a carteira e estender a mão aos necessitados.

Mas não só porque Deus está vendo tudo.

Marcos Ferreira é escritor

Categoria(s): Crônica
domingo - 05/12/2021 - 04:10h

Até um dia, meu filho Ney Jr.!

Por Ney Lopes

Não se pode descrever a dor de um pai e uma mãe despedindo-se do filho para sempre.

Ainda na mente, a notícia dada pelos netos, na noite do último dia 30, de que havia falecido Ney Lopes de Souza Júnior (veja AQUI), o nosso único filho, presente, amigo e solidário em todos os momentos da vida.

O desalento que assaltou a mim e Abigail foi aquele do rei Davi, diante do corpo do filho Absalão, ao exclamar:

Ó meu filho Absalão! Eu preferiria ter morrido no seu lugar”.

Ney Lopes, dona Abigail e Ney Lopes Júnior Foto de família)

Ney Lopes, dona Abigail e Ney Lopes Júnior (Foto: de família)

O sofrimento dilacerante sobreveio, quando tocamos o seu corpo frio, inerte, aparência tranquila como ele era.

Olhamos sua face, contando os segundos que corriam para o fechamento do ataúde e a cremação, por ele desejada.

Acariciamos o seu rosto, deitamos a cabeça sobre o seu corpo, apertamos as mãos geladas com um terço entrelaçado, num gesto de comiseração e piedade.

O nosso filho querido estava morto.

Recordei aquele 25 de março de 1974, quando com Abigail na Maternidade Januário Cicco, em Natal, aguardávamos o tão esperado único “filho homem”.

A expectativa era dar as boas-vindas ao recém-nascido, o que afinal aconteceu.

Passaram-se os anos.

Tenho presente a sua extrema dedicação à minha vida política.

Criança, ele fazia questão de me acompanhar e falar nos comícios.

Junto com amigos dedicados, que lhe homenagearam pós morte, participou da organização da ala jovem do PFL, em Natal e depois em Brasília, onde chegou a presidir nacionalmente o movimento.

Na última sexta, visitando Natal, o ministro João Roma, da Cidadania, que foi um dos jovens que com Ney Jr desejaram contribuir com a política brasileira, recordou momentos de idealismos e sonhos.

Destacou o desprendimento de Ney Jr, sempre buscando a conciliação e até renunciando posições em favor de amigos, como fez em relação a ele próprio

A visita que recebemos de João Roma nos gratificou pelas recordações e, sobretudo, pelo merecido êxito dele como auxiliar prestigiado do presidente Bolsonaro.

Outros jovens daquela época, companheiros de Ney Jr, estão hoje na política nacional: ACM Netto, Eduardo Paes, Efraim Morais Filho.

O deputado Felipe Maia, também participante do movimento, disse-me no velório, que a história desses jovens idealistas ainda precisa ser contada.

Ney Jr foi um lutador e venceu o bom combate.

Semeou o bem, por onde passou, comprovado pela unanimidade de mensagens carinhosas, calorosas e verdadeiras, que temos recebido, lido e ouvido, de tantos que tiveram a felicidade de com ele conviver.

Embora bem assistido por médicos, Ney Jr sofreu muito nos últimos anos.

Em plena campanha passada, internou-se em UTI com pneumonia (teve três em períodos diversos), duas vezes Covid-19 e processos depressivos.

Essas foram as causas do seu insucesso eleitoral em 2020, impossibilitado de fazer a campanha.

Quando se imaginava curado, veio o laudo médico do óbito, acusando como “causa mortis” edema e congestão pulmonar, enfarte agudo do miocárdio; cardiopatia isquêmica e doença arterial coronariana.

Há quem admita tenham sido fatais efeitos colaterais do terrível coronavírus.

Com apenas 47 anos de idade foi-se para a Eternidade.

Deixou legado de um ser humano, de profunda sensibilidade social.

Demonstrou isso ao concluir em Washington DC um mestrado em direito econômico e ser convidado para trabalhar no BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento).

Optou por ingressar na política em Natal e ajudar os desprotegidos.

Aprovou como vereador 52 projetos de lei na Câmara Municipal de Natal, todos eles voltados para os mais necessitados.

Propôs, em convenio da Câmara Municipal com o Tribunal de Justiça, a implantação da mediação comunitária em Natal, como forma de solução rápida dos conflitos judiciais de pessoas carentes.

A propósito, o arcebispo Dom Jaime, ao dar uma benção no corpo, fez o registro da sua vocação de servir, depois ratificado pelo amigo padre Charles, que oficiou a missa de corpo presente e acompanhou a cremação.

Guerreiro, não desistiu nem por um só segundo, mesmo quando lhe pesava nos ombros a dor física, psicológica e o sentimento avassalador das intempéries sofridas, que por vezes não podiam ser expressas, nem tampouco remediadas.

Para atingir os seus objetivos precisou muitas vezes rumar mar adentro, mesmo sob o risco de naufragar, mas sempre com o maior objetivo de persistir na luta pelos que acreditava.

Como dizia São Tomás de Aquino: “Se a meta principal de um capitão fosse preservar seu barco, ele o conservaria no porto para sempre. …”!

E você, sempre o manteve em “alto mar”, remando, muitas vezes, contra a maré, sob maus tempos e ventanias, desbravando caminhos, por causas pelas quais se comprometera publicamente.

Ney Jr a todos tratava com educação e urbanidade.

Por isso, as correntes políticas locais manifestaram pesar, sem exceções.

Exerceu os cargos de Prefeito de Natal e Presidente da Câmara Municipal, em caráter transitório.

Na condição de prefeito constatou o clamor dos servidores com atraso de vencimentos, em período natalino.

Conseguiu levantar no TRT um depósito da PMN e pagou aqueles de menor salário.

Em 48 hs autorizou um “mutirão” de limpeza pública em Natal.

Quando deu posse a Carlos Eduardo saiu do prédio da Prefeitura sob aplausos.

No seu sepultamento no Morada da Paz em Natal foram 79 coroas em homenagem póstuma.

Não teve mais pelo estoque de flores ter acabado no cemitério.

Eu, Abigail e familiares lutaremos para conseguir suportar a ausência do filho e amigo querido.

Não vai ser fácil.

Mas, descanse em paz, Ney Jr.

Você ainda poderia nos dar muitas alegrias, mas escolheu ser “saudade”. Por força da saudade, ainda convive entre nós.

Como escreveu a sua irmã Ana Lilian, no livro da missa de sétimo dia, temos a certeza que cumpriu o seu ciclo na vida da melhor forma, até o fim… nunca desistindo de lutar!

Hoje, rogamos a Deus que tenha alcançado a paz tão merecida, e descanse, enfim, nos braços do Pai!

Te amaremos para sempre, e para sempre, não tem fim!

Sabemos que está apenas no outro lado do caminho e que Santo Agostinho tem razão ao dizer, que “a angústia de ter perdido, não supera alegria de ter um dia possuído”.

O vazio da sua ausência de Ney Jr será preenchido em nosso reencontro da Eternidade.

Até um dia, meu filho Ney Jr, até um dia!

  1. Nesta segunda, 6, às 18h30 missa de sétimo dia de Ney Lopes Jr, na Igreja de Santa Terezinha (@igrejasantateresinha, em Natal.

Ney Lopes é jornalista, advogado e ex-deputado federal

Categoria(s): Crônica
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domingo - 28/11/2021 - 11:22h

Confesso que chorei

Por Inácio Augusto de Almeida 

Acordei um pouco mais tarde do que de costume.  E senti falta de alguma coisa.

A palha do coqueiro já descorada pelo tempo balançava mais que de costume, como se quisesse me dizer algo.

Foi só então que me dei conta de não estar ouvindo o canto do canário que todas as manhãs me acordava. canario-da-terra-1-1024x576Levantei-me e vi amarelinho caído. Com os olhos cheios de lágrimas peguei carinhosamente o meu amigo de todas as manhãs. Com o coração sangrando cavei um buraco e, ao pé do coqueiro, fiz o enterro do amarelinho.

Desconsolado ligo o rádio e ouço que, por dia, inclusive, sábados, domingos e feriados; morrem no Brasil mais de 10 crianças vítimas   da fome.

Amarelinho não morreu de fome nem de sede. Cumpriu o ciclo vital sempre tendo água e alimentação.

Eu limpo as lágrimas dos olhos, mas não consigo conter as lágrimas que rolam dentro do meu coração pela morte de brasileirinhos vitimados pela fome.

Amarelinho se foi deixando saudades.

Os brasileirinhos estão indo me deixando cheio de vergonha por nada ter feito para evitar, pelo menos, a morte de um deles.

Ao longe ouço o gargalhar de algum corrupto com a boca cheia de mel de abelha.

Lembro-me de Madre Teresa de Calcutá perguntando por que Deus permite tanta injustiça e tento imaginar até quando aguentaremos continuar fingindo que de nada sabemos.

E assim seguimos nos preocupando apenas com nossos filhos e netos.

Para nos mostrarmos sensíveis choramos a morte de amarelinho. E mais que de repente nos esquecemos de que amanhã mais 10 brasileirinhos morrerão de fome.

Como é estranha a nossa sensibilidade…

Inácio Augusto de Almeida é Jornalista e escritor

P.S – PASSA DA HORA DO ROTARY, LIONS, MAÇONARIA, IGREJAS CATÓLICAS E EVANGÉLICAS ORGANIZAREM UM GRANDE MOVIMENTO DE COMBATE À FOME EM MOSSORÓ.

Categoria(s): Crônica
domingo - 28/11/2021 - 10:26h

Entre mais cafés e livros

Por Marcelo Alves

No que toca à quantidade de “cafés literários”, nenhuma cidade bate Paris. Se Viena nos deu o modelo das cafeterias europeias, foi Paris que emprestou o glamour e a fama mundial. São muitíssimos os estabelecimentos. De ontem, já idos, e de hoje, ainda fervilhando.

Interessantemente, como observa Antonio Bonet Correa em “Los cafés históricos” (Ediciones Cátedra, 2014), “a geografia histórica dos cafés parisienses tem uma estreita relação com o desenvolvimento urbano da capital francesa. Primeiro, no século XVIII, os cafés mais concorridos se encontravam no Bairro Latino, circa da Sorbonne, entre o Odéon e a Praça de Saint-Germain-des-Prés. Depois, antes da Revolução Francesa e durante o Romantismo, o ponto de gravidade dos cafés se mudou para o Palais-Royal, na margem direita do Sena”.cafe_paris_by_rikitza-d4bpqbj

Já com Napoleão III e a reestruturação urbana do Barão Haussmann, “foram os grandes bulevares que contaram com os cafés mais frequentados por um público desejoso de desfrutar os benefícios da prosperidade econômica”. E, depois, já para o fim de século XIX, vem a época da livre e boêmia Montmartre, para além da Praça Pigalle, em cabarets e cafés, abaixo e acima do famoso monte.

Embora às vezes deseje voltar no tempo, à Paris dos anos 1920 ou da Belle Époque, vivo a minha era. É dela, dos cafés de hoje, que falarei. E, para nos poupar tempo, faço uso da lista de cafés elaborada por Noël Riley Fitch em “The Grand Literary Cafés of Europe” (New Holland Publishers, 2007): Café de la Paix, Le Fouquet’s, La Closerie de Lilas, Café du Dôme, La Coupole, Le Sélect, Le Procope, Les Deux-Magots, Café de Flore e Brasserie Lipp.

Das casas relacionadas apenas o Café de la Paix e Le Fouquet’s ficam na Rive Droit (metade norte de Paris). Le Fouquet’s fica na Avenue des Champs-Elysées. Mais badalado impossível. Quem já turistou por lá, se não o conheceu por dentro, pelo menos passou na porta. Já o Café de la Paix fica nas orelhas da Opéra Garnier. É um sobrevivente naquele que foi o coração da “cultura dos cafés” parisienses no século XIX.

Por uma época, ali estiveram, todos juntos e misturados, o Café de Paris, o Tortoni’s, a Maison Dorée, o Café Riche e o Café Anglais, estabelecimentos retratados na ficção dos seus habitués Balzac, Flaubert, Maupassant e Henry James. A lista de clientes célebres é infinita. Fui ao Café de la Paix umas poucas vezes. Quem vai à Opéra deve tomar um trago por lá. Pena que é caro.

Já na Rive Gauche (margem esquerda), temos dois núcleos muito definidos de “cafés literários”. O do Boulevard Montparnasse, onde estão, disputando espaço e clientes, La Closerie de Lilas, Café du Dôme, La Coupole e Le Sélect. São vistosos. Conhecidíssimos. Pontos de referência da cidade. Mas Scott Fitzgerald e Hemingway se perderam por lá. As personagens deste também. Eu mais encontrei do que me perdi, se é que me faço entender.

Contudo, em Paris, a minha “praia” é Saint-Germain-des-Prés, onde fica o segundo point das cafeterias da Rive Gauche. Morei no Bairro e hospedo-me lá se posso. Amalgamado ao Quartier Latin, bairro da Sorbonne e de mil livrarias, é onde amo flanar. Em Saint-Germain está “Le Procope”, dito o primeiro café-glacier de Paris, que, pela vizinhança com a Comédie-Française, ganhou fama na sociedade e intelectualidade locais. Virou moda entre ocupados e desocupados (dá para imaginar a quantidade de “artistas” por lá). Mas é no Boulevard Saint-Germain que ficam talvez os mais famosos cafés parisienses: Café de Flore e Les Deux Magots, colados, com a Brasserie Lipp em frente. Era casa de surrealistas e existencialistas, dentre estes Sartre e Simone de Beauvoir os mais badalados. Eu morava pertinho, na Rue Madame. Baixei muito lá, pagando de intelectual e boêmio. Não sou de ferro.

Eu tenho os cafés parisienses como uma das principais atrações da Cidade Luz. Posso até dizer, correndo o risco de parecer hedonista, que eles, para mim, andam de par com as livrarias em termos de prazer sensual. Aqui estou com Balzac, que, no seu “Traité des excitants modernes”, via na cafeína, tomada em abundância quando ele escrevia, um poder “eletrificante”. Imaginem, então, essa danada sorvida em meio a livros e damas parisienses.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

Categoria(s): Crônica
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domingo - 28/11/2021 - 09:16h

O sonho do carro zero

Por Marcos Ferreira

Naquela manhã, ao deixar o marido e a esposa grávida à porta da maternidade, o senhor Domingos estacionou o velho Fiat Uno e atravessou a rua para servir-se de um café e fumar um cigarro no quiosque da praça.

Era por volta das sete e meia. Três sujeitos estavam por ali conferindo na tevê do quiosque a partida entre a seleção masculina de futebol do Brasil e o time do Egito, que disputavam uma vaga na semifinal nas Olimpíadas de Tóquio. Durante aqueles minutos, cigarro no bico, o senhor Domingos assistiu à partida. Reclamou da ausência de alguns jogadores e retorquiu a convocação de outros.marcos-ferreira-julho - Papangu na Rede - O sonho do carro zero

— Eles tinham que ter liberado o Pedro.

Um tipo baixote e vermelho alfinetou:

— O senhor só pode ser flamenguista.

— E daí?! — reagiu tragando o cigarro.

— Se pudessem, vocês empurravam o Flamengo inteiro com o uniforme da Seleção — disse outro vestindo camisa do Vasco.

— É muito melhor do que esse seu time de segunda divisão — devolveu o taxista de imediato, com um sorrisinho tripudiante.

Um rapaz cheio de tatuagens interveio:

— Hoje o Palmeiras é muito mais time.

O senhor Domingos ia se emaranhando naquela picuinha futebolística, quando súbito o telefone tocou no bolso da sua camisa. Consertou os óculos no alto do nariz e identificou a chamada. Um vizinho e cliente, com quem ele se acertara na noite passada, o aguardava para uma corrida até a rodoviária.

Sessenta anos de idade, há vinte e cinco na profissão de taxista, o senhor Domingos adquirira a confiança de muitos, notadamente pelo seu perfil simpático e educado, respeitoso, sobretudo, com suas passageiras.

A razoável clientela chegava para acudir o orçamento da casa, obrigações com esposa e filhos recém-chegados à maioridade, e conseguia reservar uma grana para cobrir a parcela do consórcio do sonhado carro zero.

— Quanto foi meu cafezinho? — perguntou.

— Um real — respondeu o dono do quiosque.

Com apenas duas portas, adquirido com alta quilometragem e sem alguns luxos como direção hidráulica, vidros elétricos nem ar-condicionado, o táxi do senhor Domingos, ano 1985, dava sinais de extenuação.

Não raro encostava numa oficina mecânica. Isto apesar de todo o zelo e carinho do proprietário, que cuidava tão bem da sua ferramenta de trabalho quanto da família. Algumas vezes, em tom espirituoso, a senhora Berenice, a esposa, dizia que o marido gostava mais do carro do que propriamente dela.

Quando alguém da família ou um amigo mais íntimo, também em tom espirituoso, fazia um comentário desabonador sobre as condições do padecido Fiat Uno, Domingos não se abalava e respondia bem-humorado:

— Ora essa! Meu carro não é velho, não. Trata-se de um automóvel ainda jovem, com apenas trinta e seis aninhos de idade.

Naquela manhã de julho, enquanto se encaminhava à residência do cliente que tencionava levar à rodoviária, o senhor Domingos topou com uma forte e repentina chuva, fato este que o obrigou a fechar as janelas.

Logo o vidro começou a embaçar e ele dirigia acenando uma flanela contra o vidro, posto que o limpador de para-brisa estava sem funcionar. Diante da pressa e da visão embaçada, ele calculou mal a proximidade de um caminhão ao cruzar a BR-304. A Moça da Foice pegara carona no velho Fiat.

Ao ser retirado das ferragens, o telefone voltou a tocar sobre o peito do senhor Domingos, agora mudo. Um policial do Corpo de Bombeiros ouviu a chamada e achou por bem atender. Podia ser alguém da família:

— Alô — disse o militar num tom grave.

Na outra ponta da linha uma voz feminina:

— Senhor Francisco Domingos, bom dia! Olha, estou ligando para lhe informar que o senhor foi sorteado em nosso consórcio. É isso mesmo. O senhor acaba de ganhar o seu tão esperado carro zero. Parabéns!

— O senhor Domingos não pode atender.

— Preciso dar essa notícia. Ele ficará feliz.

— Não… O senhor Domingos morreu.

Na tarde seguinte, cercado por muitos familiares e amigos, o senhor Domingos foi sepultado junto com o sonho do carro zero.

Marcos Ferreira é escritor

  • Texto originalmente publicado na revista Papangu na Rede.
Categoria(s): Crônica
domingo - 21/11/2021 - 12:44h

O que nos reserva cada caminho que não percorremos?

caminhos, dúvidas, veredas, encruzilhada, opções, dúvidasPor Honório de Medeiros

Cada um de nós, no presente, é refém das escolhas que fez no passado.

Bifurcações, encruzilhadas, caminhos com possibilidade única de retornar ou seguir em frente, veredas, qualquer opção tomada nos encaminhou a um futuro escolhido e desfez, naquele preciso instante, para sempre, a possibilidade de vivermos o que foi abandonado.

Muito embora às vezes pudéssemos ter uma pálida ideia do que viria quando a opção foi feita, são tantos os desdobramentos seguintes que qualquer certeza logo se desfaz, tal sua evanescência.

Angustia-nos saber que a opção foi um ponto-sem-volta, que nunca saberemos, concretamente, o que aconteceria se, no passado, tivéssemos seguido de forma diferente.

Aquela rua que não foi transposta, a esquina que não foi dobrada, o adeus que foi ou não dado, o não ou o sim que dissemos, há tanto tempo, o que nos reservava cada caminho que não percorremos?

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

Categoria(s): Crônica
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domingo - 21/11/2021 - 11:40h

Ninguém chorou por ti

Por Inácio Augusto de Almeida 

Faz tanto tempo. Eu não era nem nascido. Crupe é o nome da doença que te levou. Hoje, uma coisa boba. Mas naqueles dias antibióticos era difícil. Difícil e caro, principalmente para nosso pai que trabalhava numa mina de carvão no interior de Santa Catarina. Vê, Geraldo, nem mesmo o nome da cidade eu me lembro mais.

Para ti, irmão, faltou um comprimido de penicilina e o homem da mercearia, que sempre te via brincando nos fins de tarde, só soube da tua morte dias depois do teu enterro.  sofrimento, reflexão, solidão, depressão, isolamento, banco de praça,

A preta velha que te rezou, fez de coração, mas, coitada, rezava sozinha, sem nenhuma corrente formada para ajudá-la.

Eu, apesar de não te ter conhecido, sempre me lembro de ti. Papai sempre me falava de teus cabelos pretos, encaracolados, teus olhos castanhos, vivos, de uma vivacidade que denotava uma inteligência muito acima do normal; dizia que tu te foste porque Deus quis.

Sei não, irmãozinho. Sei não.

Ou será que se tu tivesses naquela noite uma equipe médica à tua cabeceira, com todos os medicamentos possíveis e imagináveis; e muitas, muitas pessoas a pedir por ti, será que o Criador não teria um pouco mais de paciência e deixaria para te levar só muitos anos depois?

Tu foste um nordestino que morreu como morrem milhões e milhões de irmãos nossos. Sem um comprimido sequer. E o que é pior irmãozinho, sem que ninguém derramasse uma lágrima sequer. Porque sobre ti e sobre os teus coleguinhas de desgraça não se criou nenhum clima emocional. Não se dramatiza sobre os Zés da vida. E são tantos, Geraldo.

Tantos, tantos que me causa espanto, quando vejo gente tão insensível, à fome e à miséria destes pequeninos, chorando nas ruas por um doente qualquer. E era dos pequeninos que o Senhor mais gostava ou não foi ele que disse: “ai de quem tocar em um dos meus pequeninos…”

Sabe, Geraldo, ainda hoje morrem pequeninos de Crupe. Não, irmãozinho, não. Existem antibióticos, sim. Bastam alguns comprimidos e pronto.

A doença que te matou é hoje fácil de curar. Tão fácil como uma simples gripe. Mas os garotinhos do Nordeste continuam morrendo de crupe. Por quê?

Ora, nenhum destes que choram e oram por um doente que nunca viram, é capaz de mandar para um pequenino uma pílula.

E elas custam tão pouco! Menos do que o preço de uma cerveja.

Não consigo entender a sensibilidade desta gente que chora a morte de um animal de estimação ou de algum famoso a quem nunca viram. Se alguém consegue entender, não sei.

Não, não me pergunte, irmãozinho, eu realmente não entendo esta sensibilidade.

Sinto vontade de rir. De rir e de chorar.

Tu te foste, irmão querido. Não tinhas sequer cinco aninhos. Eu não te vi, mas em mim ficaram as imagens de ti através do meu pai, que como nordestino que era, não podia chorar por ti.

Nem ele nem ninguém chorou por ti. E hoje, ninguém chora, reza ou faz promessas pelas crianças que, como tu, morreram e morrem sem a menor assistência.

Ninguém chora por elas, ninguém, como ninguém chorou por ti.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

P.S. – Quatro mil crianças morreram de subnutrição em 2020 e ninguém chora por elas. (Fonte: Data SUS- Ministério da Saúde).

Categoria(s): Crônica
domingo - 21/11/2021 - 10:48h

Garimpeiros da fome

Por Marcos Ferreira

São nove e quinze. Agorinha caiu uma garoa. O tempo segue nebuloso. Deve chover novamente. Estou aqui fora do supermercado, à espreita de um cliente que me queira dar umas moedas pela limpeza do para-brisa, pois me vejo sem emprego há quase dois anos. Daqui observo quatro seres desprotegidos.

Imagino que a esta hora da noite, se tivessem o que comer, estariam em casa, talvez assistindo a uma telenovela ou vendo a partida do Flamengo contra o Grêmio. Isso mesmo. Hoje tem jogo do Brasileirão, transmitido pela TV aberta. Falo dessa maneira, claro, supondo que aqueles indivíduos possuam um lar e até um modesto televisor.marcos-miseria2-758x498

Ciranda de mosquitos, ratos ocasionais, baratas em polvorosa com suas asas envernizadas. Detalhes! O homem ignora tudo, prende a respiração devido ao odor das embalagens de carne apodrecidas. Tem estômago forte e olhos aguçados de garimpeiro urbano, bateador de refugos. Sempre é possível encontrar algo aproveitável nessas lixeiras de supermercados. Quiçá um pacote de biscoitos avariado, uma fruta machucada, um saco de pães com um tiquinho apenas de mofo.

Estimo que seja uma família: ele, a esposa e duas crianças na faixa dos seis e oito anos, um menino e uma menina. Rostos com máscaras de pano, os quatro reviram as lixeiras desse supermercado onde ora me encontro também na expectativa de conseguir algum para os meus. Pois é, tenho um menino de dez anos e uma mocinha de treze. Desde que os jornais impressos faliram, aniquilados pelo advento da Internet, com seus blogues e portais eletrônicos, enfrento perrengues. Não mais consegui me manter como revisora de textos, eis a minha antiga ocupação.

Perdoem se acaso acham que falo demais de mim e não das pessoas que revolvem as lixeiras. É que me encontro num nível não muito acima deles. Logo, por tabela, sou partícipe desse flagelo social. Tenho intimidade com os percalços por que passam esses brasileiros repelidos e marginalizados pelo sistema econômico desta “pátria amada”. É o que estou dizendo. Enquanto mãe solteira, sou protagonista dessa intolerável e vergonhosa história de exclusão e desigualdade.

Sou autodidata. Um dia aprendi a ler e nunca mais parei. Não possuo curso algum de nível superior. O mais alto que cheguei foi na conclusão do ensino médio, via provões supletivos, quando eu estava prestes a completar quarenta anos de idade. Atualmente estou com quarenta e sete, embora pareça ter bem mais. Sou a primogênita de uma prole de onze filhos de pai e mãe analfabetos. No meu tempo, com tantas bocas para alimentar, meus pais viam nossa educação escolar como uma espécie de luxo, algo não essencial ou prioritário. Não àquela época.

Opa! O garotinho encontrou alguma coisa. Parece uma barra de chocolate estragada. Meu Deus! Ele começou a comer. Agora a irmãzinha se aproxima, e o menino divide o achado com ela. Não há como não me lembrar daquele poema do Manuel Bandeira. Atualíssimo, infelizmente. O pai e a mãe estão debruçados sobre outras lixeiras próximas, compenetrados, e nem se dão conta de que os pequenos comem essa droga de chocolate, que decerto lhes fará algum mal.

Família negra, subnutrida, possivelmente sem nível algum de escolaridade. Os quatro vestem andrajos e parecem sem banho não sei há quanto tempo. Agora creio que sejam sem-teto. Gente assim não tem lugar nem dia certo para tomar um banho. Quantas outras privações não têm passado? A essa hora revirando lixeiras. Que lástima, meu Deus!

Ah, Brasil injusto, desigual! São quinze milhões de desempregados e quase vinte milhões de brasileiros curtindo fome nos quatro cantos do País. Por que, Senhor, tão poucos com tanto e tantos com tão pouco?!

Essa pandemia medonha amplificou o drama da fome, não resta dúvida, gerou desemprego em toda parte, colocou a todos nós de joelhos, contudo é o descalabro desse governo que ora nos desgoverna que vem dando o golpe de misericórdia. Caminhamos a passos largos para ultrapassar a triste marca dos seiscentos mil mortos pela Covid-19, enquanto o Nosferatu da Casa de Vidro faz pouco-caso da crise sanitária e zomba das famílias enlutadas olímpica e impunemente.

Ignorar ou omitir a criminosa contribuição que esse governo oferece para agravar a fome no Brasil, em parceria com o vírus e o desemprego, seria uma postura não menos criminosa. Não posso fazer de conta que não estou compreendendo o que se passa nem usar de eufemismos como “insegurança alimentar” ou “famílias vulneráveis”. Não, senhoras e senhores, o que mais agride o povo carente deste país é, sem uso de metáforas, fome! Muita fome! Uma fome nua e crua como essa que hoje à noite revira lixeiras de supermercado à procura de comida.

Fome dói, senhoras e senhores. Não afirmo isso por osmose ou dedução, mas por conhecimento de causa. Sei bem o que é passar necessidades, amanhecer o dia sem ter o que comer. E, ao contrário da famosa Amélia, com todo o respeito aos mestres Mário Lago e Ataulfo Alves, eu não achava isso nem um pouco bonito, por mais poético que essa tragédia possa parecer na letra e melodia de uma bela canção. A fome é uma coisa triste e feia; arrasa as pessoas, sepulta sonhos.

A mulher também encontrou alguma coisa entre os mosquitos e as baratas vermelhas. Parece que se trata de uma bandeja de iogurte. Está pingando. Ela mostra a mercadoria ao marido com um sorriso vitorioso. A menina e o menino se aproximam da mãe, na expectativa de que a genitora lhes ofereça um pouco.

Quem sabe os produtos estejam em condições razoáveis, com o revestimento de um ou outro potinho furado. Às vezes alguns clientes mal-educados violam esses laticínios nas seções refrigeradas e aí o supermercado descarta o produto sumariamente.

Como era de se esperar, a mulher divide os potinhos com as crianças. Ela própria experimenta um. Que perigo, meu Deus: ambos usam o dedo indicador como colher. A jovem senhora oferece um potinho ao marido, porém este meneia a cabeça com uma negativa, e continua a garimpagem famélica. Ainda não encontrou nada, mas é provável que também ache alguma joia dessas, a exemplo da bandejinha de iogurte e da barra de chocolate descobertas por sua família.

Um funcionário do supermercado se aproxima com um carrinho cheio de coisas para jogar nas lixeiras. O garimpeiro sorri confiante.

Marcos Ferreira é escritor

*Texto originalmente publicado na revista Papangu na Rede (Setembro de 2021)

Categoria(s): Crônica
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domingo - 21/11/2021 - 06:26h

Ah, aqueles momentos em família!

Por Odemirton Filho 

Sentados à mesa, eu, meus pais e minhas irmãs. Cada um com seus gostos, aperreando a nossa querida Socorro pela refeição. Socorro era o nosso porto seguro, uma alma boa. Tinha uma santa paciência para aguentar os nossos “lunduns”.

Papai chegava em casa com os problemas de todo pai de família. Ele costumava fazer o sinal da cruz após as refeições, como forma de agradecimento pelo pão de cada dia. Mamãe era professora, talvez estivesse pensando em preparar a aula do dia seguinte ou corrigir provas.  familia

Eu dava um trabalho danado pra comer. Algumas vezes, bebia um copo com leite Alimba, acompanhado com pão e ovo. Minha irmã mais velha gostava de carne de sol com arroz de leite. Meu pai, de picadinho de carne. Minha irmã mais nova fica enchendo o nosso saco.

Falávamos sobre o nosso dia. Era comum levar uns “batidos” por alguma traquinagem. Não podia faltar, é claro, a recomendação para ver o boletim com as notas azuis. Na maioria das vezes, o meu era pintado com a cor vermelha.

Ainda crianças, ficávamos doidos para terminar o jantar, pois não entendíamos como era sagrado aquele momento. Eu comia apressado para ir brincar com os meninos da rua. Minhas irmãs se trancavam no quarto para brincar com as bonecas “fofoletes”. Meus pais iam assistir ao Jornal Nacional e as novelas. O sinal da TV vinha do canal Verdes Mares, do Ceará.

Não havia aparelho celular, muito menos internet. O nosso mundo era real; a rua, o colégio, os amigos de carne e osso. Quando o telefone fixo tocava, eu saía numa carreira desembestada para atender.

Sim, era apenas uma refeição, como em qualquer família. Mas era tão bom. A vida, como é natural, levou cada um para um lado. Meus pais estão jantando sozinhos. A casa da rua Tiradentes não existe mais do jeito que era. Eu sinto falta de Socorro e da sua comida. Dum pedaço do seu bolo de leite. Sinto falta de estar sob a sombra do pé de seriguela, conversando besteira com minhas irmãs.

Vez ou outra, pego-me lembrando daqueles momentos em família. Somente hoje eu dou o valor que mereciam. Permitam-me parafrasear um velho cronista: “A casa, reformaram, mas o menino ainda existe. Na lembrança ficou o quintal daquele tempo”.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

Categoria(s): Crônica
domingo - 14/11/2021 - 14:24h

Cada homem hoje é uma ilha

egoísmoPor Honório de Medeiros

O mundo está se fragmentando.

Cada homem, hoje, é uma ilha.

Uma ilha em permanente guerra contra as outras.

Tudo quanto formava a unidade entre as pessoas, como a crença em Deus, a fé na Razão, a vida comunitária, se desfaz lentamente.

Não nos damos mais as mãos, exceto quanto temos algum interesse a alcançar.

O altruísmo morre lentamente, prevalece o egoísmo.

Todos são, individualmente, desde algum tempo, donos de uma verdade única, e agem como se quem não concordasse consigo fosse um inimigo a ser destruído.

Breve esse individualismo exacerbado, que se firma nos nossos defeitos, e não no que nos engrandece, há de nos conduzir para uma realidade na qual cada um será por si, e ninguém por todos.

Então, será o fim.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

Categoria(s): Crônica
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domingo - 14/11/2021 - 11:30h

Palhaço

palhaçoPor Inácio Augusto de Almeida 

E rio!

De mim mesmo

Rio.

     II

Um riso triste

Mas um riso.

     III

Se mereço aplausos?

Sei lá…

     IV

Talvez sim…

Talvez por fazer você rir de mim.

    V

Existe palhaço mais engraçado do que eu?

    VI

Que rio e faço você rir

Sem nem mesmo contar piadas

Sem nem mesmo calçar o sapato grande

Ou colocar nariz postiço fazendo da vida um grande picadeiro.

    VII

Até quando continuarei neste grande circo?

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

Categoria(s): Poesia
domingo - 14/11/2021 - 10:50h

Entre goles e livros

Por Marcelo Alves

Tenho falado muito de livros, é verdade. Até já confessei a vontade de literalmente dormir entre eles. Mas não se enganem: os livros não são o único prazer da minha vida. Gosto também de viajar. E gosto de uísque, o cachorro engarrafado, e seus assemelhados. Se com a pandemia ando meio “aposentado”, já fui bom nisso. Falo tanto de viagens como de uísque. Fiquem certos.uísque na mesa, whisky, bebida alcoólica,Em assim sendo, vou misturar esses prazeres todos. Tratemos dos pubs de Londres, em especial dos apelidados “pubs literários”, que conheci/frequentei quando por lá morei. Eu posso dizer que os pubs literários estão para Londres – embora sem o mesmo glamour, reconheço – como os cafés literários estão para Viena ou, mais badaladamente, para Paris.

No que toca aos pubs, Londres não chega a ser uma Dublin. “Na Irlanda”, disse o Doutor Johnson, “ninguém vai aonde não se pode beber”. Dublin, menor do que Londres, deve ter hoje quase mil dessas “public houses”. É ao derredor delas que a vida gira: negócios e política, esporte e religião, o “meu” direito e a “nossa” literatura. E os pubs são testemunhas ou mesmo cenários da arte de gente como James Joyce, Sean O’Casey, Flann O’Brien, Brendan Behan, Patrick Kavanagh e Seamus Heaney, entre outros menos votados. Ou menos beberrões.

Mas Londres, até pelo igualmente chuvoso clima, tem a mesma preferência etílica. Quase todos os dias, fim de expediente, coisa de 17 horas, bebe-se alguma ou muita coisa. O pub é local de muita discussão sobre futebol. Mas a literatura tem também o seu espaço. E, com a ajuda do “Novel Destinations: Literary Landmarks from Jane Austen’s Bath to Ernest Hemingway’s Key West” (National Geographic Society, 2009), de Shannon McKenna Schmidt e Joni Rendon, vou citar três dessas casas, ditos “pubs literários”, que frequentei. Quanto a eles, tal como o velho guerreiro Timbira do “I-Juca-Pirama”, do nosso Gonçalves Dias, eu posso dizer, embora não com a mesma dramaticidade, “Meninos, eu vi”.

Começo por The Spaniards Inn, no pitoresco subúrbio de Hampstead. Dizem que Jonh Keats morava ali perto e era um habitué da casa. O pub é citado no “Dracula”, de Bram Stoker. E o Spaniards foi também cenário em “The Pickwick Papers”, de Charles Dickens. Isso já basta para garantir sua fama.

Bairro fora do centro, eu ia a Hampstead vez ou outra, quando estava “cansado” de Londres. Embora isso me preocupasse deveras, já que, segundo o Doutor citado acima, “quem está cansado de Londres, está cansado da vida”.

Outro recomendadíssimo é The Anchor. Na beira do Tâmisa. Margem sul. Vista maravilhosa. Do rio e de boa parte de Londres (sua margem norte, mais rica e famosa), incluindo o domo da St Paul’s Cathedral. A redondeza é show. A Tate Modern, o museu de arte moderna do Reino Unido. E o Globe Theatre, a nova casa de Shakespeare, e isso já diz tudo. Contam que Samuel Pepys refugiou-se no The Anchor “enquanto assistia à destruição de Londres no Grande Incêndio de 1666”. Tem doido e memorialista para tudo. Já eu levei muitos amigos brasileiros lá. Caminhava por ali todos os finais de semana. Considero a caminhada pela margem sul do Tâmisa a melhor de Londres. E tomava umas pints, claro.

Por derradeiro, cito o antiquíssimo Ye Olde Cheshire Cheese, sito na Fleet Street, antiga rua dos jornais londrinos. Bem pertinho da biblioteca do King’s College London – KCL, onde estudava quase diariamente, eu baixava por lá com frequência. Os citados Doutor Johnson (que morava pertinho), Pepys (o do incêndio) e Dickens (que alude ao pub em “A Tale of Two Cities”) foram regulars de lá. Assim como Conan Doyle, G.K. Chesterton, P.G. Wodehouse, Thomas Carlyle, E. M. Foster, Joseph Conrad, Sinclair Lewis, W. B. Yests e outros membros do Rhymers’ Club.

Eu mesmo nunca escrevi nada por lá. Mas levei uma queda na escada sem deixar cair a cerveja. O que já é alguma coisa.

Bom, as opções de pubs em Londres são muitíssimas. Há até passeios/caminhadas guiadas explorando isso. Quando inspiradas pela literatura, elas são apelidadas de “Literary London Pub Walks”. Estando lá, podem me chamar para tanto. Eu vou. Só não sei como volto.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

Categoria(s): Crônica
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domingo - 14/11/2021 - 07:34h

Triste fim de Gudãozinho

adesivo-de-parede-pata-de-cachorro-gato-com-coracao-2-carinhoPor Marcos Ferreira

Hoje escrevo sob forte emoção. Minhas mãos tremem mais do que costumam tremer. Meu coração está partido, lacerado. Impossível deter as lágrimas que minam dos meus olhos. Na manhã de ontem, após encontrá-la morta, enterrei Gudãozinho, minha gatinha querida e única companhia nesta casa agora ensombrecida.

Está sepultada no meu quintal. Neste momento, portanto, não tenho amenidades para contar. Estou de luto. A noite vai caindo angustiosa e tristonha.

Anteontem ela saiu para dar o seu habitual passeio noturno e não retornou. Já tarde, antes de ir dormir, chamei por ela várias vezes. Nada de ela aparecer. Costumava atender a esses meus chamamentos, pois sempre dormia dentro de casa. Não dormi direito. Na madrugada, nas vezes que levantei para ir ao banheiro, fui ao quintal e tornei a chamar por Gudãozinho. Inútil. Não apareceu.

Pela manhã, ao me ouvir chamando por Gudãozinho, a dona da casa aos fundos da minha me deu a triste notícia: Gudãozinho e mais dois gatos da rua de trás tinham amanhecido mortos por envenenamento nos quintais próximos. Fui à rua de trás pegar minha gata.

Uma mulher, tutora de um dos gatos mortos, veio falar comigo, os olhos inchados de tanto chorar. Disse-me que achava que o envenenamento foi proposital. De minha parte, ainda atônito, nem sei o que pensar.

O que sei é que minha Gudãozinho se foi com cerca de nove meses de idade. Tinha tanta vida pela frente! Recentemente fora submetida à cirurgia de castração e estava totalmente recuperada, esbanjava saúde e beleza. Quando não se entregava às suas sonecas do meio-dia, passava boa parte do tempo brincando, correndo aqui dentro e pelo quintal, puxando conversa comigo, ronronando.

Essa inesperada e saudável convivência durou seis meses. Resgatei-a da rua, como já falei noutro momento, faminta e com severa desnutrição, com idade aproximada entre dois e três meses. Após algumas idas ao veterinário, medicamentos, cuidados e carinhos, ela não demorou a se fortalecer. Agora tudo isso acabou. Restaram só as lembranças, as coisinhas dela dispostas em seus lugares, como as vasilhas com a água e a ração que ainda não tive coragem de recolher.

Todo dia pela manhã, bem cedinho, pulava para dentro da minha rede a fim de que eu lhe abrisse a porta da cozinha. No móvel empoeirado da televisão vejo que deixou gravadas as suas pegadas. As caixas com que ela gostava de brincar, a caminha e a caixa com areia continuam no primeiro quarto. Não toquei em nada. Parece-me (ao menos tenho a impressão) de que ela não morreu.

Tento, porém, encarar a realidade, o triste fim de Gudãozinho. Sua imagem está intacta na minha cabeça. Enxergo-a nitidamente: os olhinhos azuis e vívidos, a pelagem felpuda, toda branquinha como o algodão, exceto por alguns tons de cinza nas orelhas, nas extremidades das patas e da farta cauda.

Era muito comunicativa, chamava minha atenção o tempo todo com seu ronronar. Uma hora roçava nos meus tornozelos, daí a pouco disparava, punha-se a brincar, traquinas.

É isto. Não vou me estender. Não reúno condições para continuar escrevendo, embora o meu coração esteja cheio de sentimentos para desabafar. No mais, portanto, me faltam palavras para descrever o quanto estou triste pela morte de Gudãozinho. Que o prezado leitor e a gentil leitora, ao menos hoje, aceitem por crônica esta nota de falecimento. Agora preciso de alguns dias de luto.

Marcos Ferreira é escritor

Categoria(s): Crônica
domingo - 07/11/2021 - 16:42h

Entre livros

Por Marcelo Alves

“Os hotéis literários: viagem ao redor da terra” (“Hôtels littéraires: voyage autour de la terre”), de Nathalie H. de Saint Phalle, é um livro interessantíssimo. Sobretudo para quem é fã de dois prazeres da vida: viagens e livros. Pode ser classificado tanto como um guia de turismo literário ou como literatura de viagem, dois nichos que, antes da pandemia, vinham ganhando mais admiradores. E há uma coisa especial nele: faz dos estabelecimentos que arrola cenário e também personagem de gozos e dramas, fictícios ou reais, de gigantes das letras mundiais.literatura-de-viagem-1280x720

A nota à edição brasileira (Editora Senac, 2012) resume o objetivo da obra: “Este livro não trata apenas de destinos turísticos, mas versa, principalmente, sobre destinos pessoais. Ao inventariar os hotéis, pousadas e outros locais de hospedagem retratados em romances de diversas épocas, Nathalie H. de Saint Phalle recupera o drama de personagens colocadas em situações nas quais suas emoções e seus sentimentos afloram de maneira intensa. Mas, para além delas – e aí reside o especial interesse de Hotéis Literários –, revela as hesitações, buscas e paixões de seus criadores: escritores e artistas que se lançaram, mais do que a experiências de criação, à busca de novas perspectivas de vida”.

Da imensa lista de estabelecimentos de “Os hotéis literários”, destaco dois do meu desejo: o Savoy, em Londres, que fica na Strand, a rua do King’s College London, onde fiz o meu PhD. Assisti ao musical “Legally Blonde” no seu teatro, lembro-me bem. Já tomei chá no seu salão e imaginei-me personagem de Agatha Christie. Mas nunca ali me hospedei. Quem sabe de uma próxima vez na Terra da Rainha?

Já em Paris, o meu querer é o Hotel Lutétia, à esquerda do Sena, margem de minha preferência. Fica no Boulevard Raspail, o mesmo da Alliance Française Paris, que relembro com saudade. O Lutétia recebeu, nas suas camas ou no seu bar, Rilke, Gide, Joyce, Beckett, Heinrich Mann e mais uma multidão de escritores refugiados. Está reformado. Pernoitando, sonharia ajudando a expulsar os malditos nazistas de lá.

Todavia, estes dias, topei com um turismo que considerei até mais sugestivo. Foi através do artigo “Bookish Hotels & BnB’s Around the World For Your Next Getaway” (“Hotéis e pousadas livrescas pelo mundo para a sua próxima escapada”), de Courtney Rodgers, publicado no site Book Riot. Ele sugere: “Passaporte, mala e sobretudo mais livros do que dias em sua viagem? Para onde você está indo nas suas próximas férias ou escapada de fim de semana? Estes hotéis e pousadas têm decoração inspirada em escritores, muitos livros e diversão literária, para você dormir em grande estilo. Arrume suas malas!”.

Eu gostei de um tal Rivertown Inn, em Minnesota, EUA. Uma mansão do século 19, onde cada quarto é dedicado a um escritor diferente. Para Arthur Conan Doyle, temos a suíte da Londres vitoriana; para Agatha Christie, um quarto saído das páginas de “Murder on the Orient Express”. Tem-se Lewis Carrol, Jane Austen, Lord Byron e por aí vai. Já em Tóquio, Japão, gostei do Book and Bed, mistura de livraria e pousada. Quer melhor? Teria ficado lá nas Olimpíadas. Como “levantador de livros”.

Curiosamente, o artigo não fala no hotel “livresco” que afirmo a minha tentação: o Library Hotel, em Nova Iorque. Pelo que consta de “Novel Destinations: Literary Landmarks from Jane Austen’s Bath to Ernest Hemingway’s Key West” (National Geographic Society, 2009), de Shannon McKenna Schmidt e Joni Rendon, vocês podem ter uma ideia do dito cujo: a uma quadra da New York Public Library, este hotel de Manhattan abriga mais de 6 mil volumes.

Além do lobby tomado de livros, do chão ao teto, “cada um dos dez andares de quartos são devotados a diferentes saberes, entre eles história, filosofia e artes”. Os quartos, claro, estão cheios de livros da respectiva temática. Em tudo fantástico!

Na verdade, eu já tive a oportunidade, anos atrás, de quedar-me no “hotel da biblioteca”. Mas estava caro, achei. De toda sorte, acredito que as condições sanitárias e uma promoção me permitirão pernoitar um dia lá. Oxalá logo. Sem drama e muito gozo e leitura incluídas.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

Categoria(s): Crônica
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domingo - 07/11/2021 - 09:28h

Monólogo das mãos

solidariedade, mãos, monólogo das mãos, dedos, braçosPor Giuseppe Ghiaroni

Para que servem as mãos?

As mãos servem para pedir, prometer, chamar, conceder, ameaçar, suplicar, exigir, acariciar, recusar, interrogar, admirar, confessar, calcular, comandar, injuriar, incitar, teimar, encorajar, acusar, condenar, absolver, perdoar, desprezar, desafiar, aplaudir, reger, benzer, humilhar, reconciliar, exaltar, construir, trabalhar, escrever…

As mãos de Maria Antonieta, ao receber o beijo de Mirabeau,
salvou o trono da França e apagou a auréola do famoso revolucionário;

Múcio Cévola queimou a mão que, por engano não matou Porcena;

Foi com as mãos que Jesus amparou Madalena;

Com as mãos David agitou a funda que matou Golias;

As mãos dos Césares romanos decidiam a sorte dos gladiadores vencidos na arena;

Pilatos lavou as mãos para limpar a consciência;

Os antissemitas marcavam a porta dos judeus com as mãos vermelhas como signo de morte!

Foi com as mãos que Judas pos ao pescoço o laço que os outros Judas não encontram.

A mão serve para o herói empunhar a espada e o carrasco, a corda;

O operário construir e o burguês destruir;

O bom amparar e o justo punir;
O amante acariciar e o ladrão roubar;
O honesto trabalhar e o viciado jogar.

Com as mãos atira-se um beijo ou uma pedra, uma flor ou uma granada, uma esmola ou uma bomba!

Com as mãos o agricultor semeia e o anarquista incendeia!

As mãos fazem os salva-vidas e os canhões;

Os remédios e os venenos;
Os bálsamos e os instrumentos de tortura, a arma que fere e o bisturi que salva.

Com as mãos tapamos os olhos para não ver, e com elas protegemos a vista para ver melhor.

Os olhos dos cegos são as mãos. As mãos na agulheta do submarino levam o homem para o fundo como os peixes;

No volante da aeronave atiram-nos para as alturas como os pássaros.

O autor do Homo Rebus lembra que a mão foi o primeiro prato para o alimento e o primeiro copo para a bebida;

A primeira almofada para repousar a cabeça, a primeira arma e a primeira linguagem.

Esfregando dois ramos, conseguiram-se as chamas.

A mão aberta, acariciando, mostra a bondade;

Fechada e levantada mostra a força e o poder;

Empunha a espada a pena e a cruz!

Modela os mármores e os bronzes;

Da cor às telas e concretiza os sonhos do pensamento e da fantasia nas formas eternas da beleza.

Humilde e poderosa no trabalho, cria a riqueza;

Doce e piedosa nos afetos medica as chagas, conforta os aflitos e protege os fracos.

O aperto de duas mãos pode ser a mais sincera confissão de amor, o melhor pacto de amizade ou um juramento de felicidade.

O noivo para casar-se pede a mão de sua amada;

Jesus abençoava com as mãos;

As mães protegem os filhos cobrindo-lhes com as mãos as cabeças inocentes.

Nas despedidas, a gente parte, mas a mão fica, ainda por muito tempo agitando o lenço no ar.

Com as mãos limpamos as nossas lágrimas e as lágrimas alheias.

E nos dois extremos da vida, quando abrimos os olhos para o mundo e quando os fechamos para sempre, ainda as mãos prevalecem.

Quando nascemos, para nos levar a carícia do primeiro beijo, são as mãos maternas que nos seguram o corpo pequenino.

E no fim da vida, quando os olhos fecham e o coração para, o corpo gela e os sentidos desaparecem, são as mãos, ainda brancas de cera que continuam na morte as funções da vida.

E as mãos dos amigos nos conduzem…

E as mãos dos coveiros nos enterram!

Giuseppe Ghiaroni – (1919-2008) – Poeta, jornalista e cronista, mineiro de Parnaíba do Sul, ele morreu em 2008, aos 89 anos, com importante atuação com trabalhos para o rádio, teatro e imprensa escrita.

O texto faz parte da peça “O vendedor de ilusões” de Oduvaldo Vianna Filho, escrito para o ator Procópio Ferreira.

Categoria(s): Crônica
domingo - 07/11/2021 - 08:28h

Uma rede, sem pressa

Por Odemirton Filho

O nosso conterrâneo Luís da Câmara Cascudo escreveu um livro sobre a rede. Segundo o folclorista, “a rede toma o nosso feitio, contamina-se com os nossos hábitos, repete, dócil e macia, a forma do nosso corpo. A rede é acolhedora, compreensiva, acompanhando, tépida e brandamente, todos os caprichos da nossa fadiga e as novidades imprevistas do nosso sossego”. Rede - 3Sim, a rede embala os nossos sonhos. Deixa-nos sem pressa do amanhã. Nessa vida corrida, na qual o ter é mais importante do que o ser, como é bom uma rede para espichar o corpo, descansando das batalhas do cotidiano. Uma rede no alpendre de uma casa de praia, vendo o mar e a lua se beijando, não tem “pareia”. A rede balança, gostosamente, um chamego.

Meu avô materno era proprietário de uma fábrica de redes. Talvez, daí a minha paixão por uma rede. Lembro-me muito bem do barulho dos teares. Eu brincava na velha fábrica, no meio dos rolos de fio, mesmo espirrando pra valer.

A rede faz parte de nossa cultura. É tão nordestina. Aliás, segundo Câmara Cascudo, quem primeiro denominou a rede foi Pero Vaz de Caminha, em 27 de abril de 1500, é o padrinho da rede de dormir. Batizou-a pela semelhança das malhas com a rede de pescar.

Quem mora em sítio ou fazenda gosta de se deitar em uma rede, sentindo o sereno ou aliviando-se do mormaço. À noite, quem sabe, acende uma fogueira e toma uns goles, tocando um violão com saudade de alguém.

Aos domingos, deitar-se numa rede no alpendre de uma casa de praia, no “terreno” ou no quarto, e viajar em uma boa leitura, faz um bem danado ao corpo e a alma.

Aliás, em uma de suas belas crônicas, a escritora Rachel de Queiroz também fala sobre a rede armada num alpendre: “Só a paz, o silêncio, a preguiça. O ar fino da manhã, o café ralo, a perspectiva do dia inteiro sem compromisso nem pressa. Vez por outra um conhecido que chega, conta as novidades, bebe um caneco de água, ganha de novo a estrada”.

Pois é. Carecemos, aqui ou acolá, de uma rede, sem pressa.

“Afinal de contas só do chão precisa o homem, para sobre ele andar enquanto vivo e no seu seio repousar depois de morto”.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

Categoria(s): Crônica
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domingo - 07/11/2021 - 07:32h

Filosofia – a árvore do conhecimento

Por Honório de Medeiros

O conhecimento pode ser imaginado como uma árvore cujo tronco repouse no chão ancestral onde o homem pré-histórico caçava, coletava e, graças à sua primitiva linguagem, bem como à incipiente capacidade cooperativa, se tornou uma espécie apta a sobreviver.

Não é uma imagem precisa, tampouco absolutamente correta, mas cumpre seu propósito para ser assimilada.homens pré-históricos caçando em grupoOs problemas com os quais nossos antepassados se depararam e as soluções engendradas para ultrapassá-los formaram galhos, ramos, folhas, em ritmo cada vez maior e mais denso, em uma escala inimaginável. Cada folha, como é possível perceber, avança rumo ao infinito desconhecido por um rumo que sugere uma proporcionalidade inversa: quanto mais específico o conhecimento por ela simbolizada, mais ampla e profunda a vastidão a lhe servir de contraponto.

Se focarmos essa imagem em busca de nitidez, podemos acompanhar o desenvolvimento da Matemática, como exemplo, desde os primitivos números naturais até o cálculo, hoje, de tensores hiper espaciais, essas projeções hipotético/geométricas interdimensionais.

Podemos acompanhar, também, a evolução da linguagem até a Babel dos tempos modernos, constituída de signos bem diferenciados – desde os sinais utilizados pelos surdos-mudos, passando pelo informatiquês e o idioma dos guetos, presídios, e subúrbios, até a lógica do sub-universo computacional.

Aliás, o mundo da informática é muito exemplificativo dessa teoria da árvore do conhecimento. No início, meados do século XX, um computador ocupava salas; hoje, os “chips” guardam quantidades colossais de informações.

A imagem da árvore do conhecimento é possível graças à Teoria da Evolução de Darwin. É, digamos, um corolário. Podemos perceber que o Conhecimento se diferencia e especializa na medida em que avança. Sabemos, hoje, quase tudo acerca de quase nada em cada “nicho” do conhecimento, embora tudo quanto descartado por não ter sobrevivido ao choque entre ideias conflitantes forme uma contrapartida em negativo da realidade.

Contrapartida que agrega: aquilo que descartamos não precisa ser outra vez cogitado.

Assim essa árvore é finita e limitada (conceitos distintos) no espaço e tempo conhecidos, mas infinita e ilimitada quanto as suas possibilidades de crescimento. O futuro, para onde ela avança, é construção do passado, e como cada estrada amplia a quantidade de lugares onde se há de chegar, cada problema resolvido no processo civilizatório implica na ampliação de universos de saber.

Ou seja, o tempo, cada vez mais, dá razão a Darwin.

Funciona assim em termos macro, mas também em termos pessoais. Cada avanço nosso implica em ampliar o universo daquilo que não conhecemos. É um paradoxo: quanto mais sabemos, mais há a saber.

É, por fim, o voo do solitário para o infinito: “É como se cada um de nós, estando dentro de um ambiente fechado, uma clausura, criasse uma saída e a utilizasse. Lá, do outro lado da saída, lhe espera um outro ambiente, também fechado, só que maior, bem maior. Sua tarefa, assim, é sempre criar outra saída, sair, entrar em outro ambiente ainda maior, criar outra saída, sempre, em uma escala exponencial…”

Em termos pedagógicos, diria Gaston Bachelard: “todo conhecimento é sempre a reforma de uma ilusão.”

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

Categoria(s): Artigo
domingo - 07/11/2021 - 04:30h

Pequeno luxo

Por Marcos Ferreira

Estou sozinho em casa e daqui não pretendo ir a lugar nenhum. Que importa que hoje ainda é quarta-feira e a vida lá fora urge, exige movimento, disponibilidade, trabalho e suor de todos. Não, não arredarei o pé. Muito menos em meio a este calor diabólico, infernal. Meu ventilador não aplaca o mormaço. O vento que ele produz é quente feito o de um secador de cabelo industrial. Supondo-se, claro, que existam secadores de cabelo industriais. Coisa bem pouco provável.

Ouço, como de costume, uma de minhas playlists com várias horas de blues. Acabei de fazer café e a cafeteira vai perfumando o ambiente com o aroma da rubiácea. Minha gata Gudãozinho, descansando sob a mesa da cozinha, vez por outra me encara com tédio e preguiça. Nesse horário, o que é absolutamente compreensível, nem ela está disposta a perseguir as lagartixas pelo quintal.casa, residência, moradia, construção civil

Os últimos dias, sob sol inclemente, em meio ao siroco, foram um exaustivo périplo por consultórios médicos e clínicas laboratoriais. Agora não quero contato com o astro-rei. Não ao menos lá fora, trafegando por estas ruas desarborizadas de Mossoró, sobre os paralelepípedos e o asfalto escaldantes. Ficarei aqui entre estas paredes velhas, sob este teto avariado pelos cupins, tomando um banho rápido de meia em meia hora, a porta da frente trancada; só a da cozinha aberta.

Cá estou com o Dom Quixote, óleo sobre tela, oriundo dos pincéis do Túlio Ratto. O cavaleiro da triste figura é testemunha deste calor insuportável neste princípio de tarde. Olho para a face do espanhol e tenho a ligeira impressão de que ele também transpira. Gudãozinho escancara a boca num bocejo extraordinário, abana levemente a cauda felpuda e apoia o queixo sobre a patinha.

Veículos (carros e motos) cruzam a Euclides Deocleciano de um lado para o outro. Levantam poeira. O ronco dos motores interfere no canto dos pássaros ao derredor de minha casa. Aonde vão essas pessoas em seus automóveis e motocicletas? Só podem ter compromissos inescapáveis, inadiáveis, para terem que sair a esta hora. Deveria ser proibido (quiçá uma lei municipal) o mossoroense circular por esta cidade debaixo de uma bola de fogo como esta que paira sobre nós.

Devo ficar em casa e não atenderei a ninguém que porventura bata palmas no portão, chamando ou não pelo meu nome. Não abrirei a porta. Darei o silêncio por resposta. O telefone está desligado. Nada de WhatsApp, Instagram ou Facebook. Muito menos informações sobre o esgoto político, a céu aberto, deste país. Pois eu preciso me desintoxicar. Ao menos durante o dia de hoje.

Um homem, qualquer pessoa, aliás, tem o direito de tirar um dia somente para si. Um dia assim para não se fazer coisa alguma. Exceto, no meu caso, escrever. Pois me convém escrever, embora suspendendo a redação de meia em meia hora para me demorar uns minutinhos sob o jato do chuveiro. Que calor dos seiscentos, prezado leitor e gentil leitora! Se escrevo, portanto, é por opção. Mas eu poderia estar largando dentro da rede, quem sabe assistindo a um filmezinho.

Todavia, como percebem, optei por escrever, ouvir blues e bebericar o meu café puro. Não tenho o hábito de dormir após o almoço, se acaso você me perguntar. Até porque meu almoço costuma ser o café da manhã. Não sinto fome logo que acordo. Também não tenho a menor intimidade com as atribuições alimentares de uma cozinha. Sobrevivo basicamente da geladeira e da cafeteira.

À noite, entretanto, vou à casa de Natália e lá sou brindado com uma refeição de verdade: arroz, feijão, cuscuz, carne, frango — a chamada comida de panela. Às vezes minha sogra faz sopa e eu tomo com muito gosto. Retorno por volta das vinte horas, engulo meus remédios e, enquanto Morfeu não se apodera de mim, vejo alguma coisa da Netflix, acesso este que me foi compartilhado pelo amigo Elias Epaminondas, ele que é o carioca mais mossoroense que conheço.

São treze horas e quarenta minutos. Eu até poderia jurar que Dom Quixote está mesmo transpirando. Deve ser, porém, o brilho da tinta ainda nova. Na representação de Túlio Ratto, que tem se revelado um bom pintor, o herói de Miguel de Cervantes parece um pobre-diabo sobre um cavalinho macérrimo. Estamos aqui, portanto, eu, Gudãozinho, Dom Quixote e seu cavalo desmilinguido.

Daqui não saio, daqui ninguém me tira. Por exemplo, sequer me abalarei até a lotérica, no Centro, para fazer a minha aposta na Mega-Sena. Ouvi dizer que está acumulada em não sei quantos milhões. Dinheiro mais que o bastante para que eu abra mão desse meu auxílio-doença mixuruca e me torne um vagabundo profissional, como no dizer do poeta Manoel de Barros. Ficarei aqui no meu suadouro, sem ar-condicionado, contando apenas com este ventilador barulhento.

— São milhões — uma voz me sussurra.

Apesar do calor, o vento circula impetuosamente. Açoita a grande mangueira na residência aos fundos. Uma lufada quente e empoeirada adentra pela porta da cozinha. Cai uma porção de ciscos do teto, que não possui forro. Há poeira em toda parte, sobretudo nos meus poucos e desorganizados livros nas estantes de ferro. Sinto as micropartículas de areia entre meus dedos e o teclado.

Sem camisa, um colar de suor à volta do pescoço, sigo digitando. Penso se não é o momento de fazer outra pausa para mais um banho rápido. Sim, é o que farei. Depois, com a cuca e o corpo mais arejados, tomarei um novo trago de café e avançarei para outro parágrafo. Antes, todavia, decido concluir este raciocínio, ou parágrafo. Gudãozinho se estica toda e vai para o terraço. São precisamente catorze horas e cinco minutos. Careço quebrantar este suadouro. Até breve.

Bem, estou de volta, refrescado e com outra meia caneca de café. Usufruo, como venho narrando, do pequeno luxo de estar na privacidade do meu humilde lar. Hoje não trocarei esse recolhimento por nenhuma visita imprevista e inoportuna. Só botarei a cara fora bem mais tarde, lá por volta das dezoito horas, quando chegar o instante de ir à casa de Natália. Será este o ponto alto do meu dia.

Marcos Ferreira é escritor

Categoria(s): Crônica
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domingo - 31/10/2021 - 14:26h

O criador de títulos

Por Marcelo Alves

Georges Bernanos (1888-1848), francês de Paris, foi mais um escritor genial que viveu no Brasil. Mas antes de se haver por aqui, Bernanos perambulou pela “província” e pela capital do seu país. Lutou e foi ferido na 1ª Guerra mundial. Fez logo muito sucesso com “Sob o sol de Satã”, de 1926, e com “Diário de um Pároco de Aldeia”, de 1936. Foi lutar na Guerra Civil Espanhola, que lhe dá a obra-prima “Os grandes cemitérios sob a Lua”. A sua história conosco, com o Brasil, tem lugar em 1938, com o prenúncio da 2ª Guerra mundial.georges_bernanos

A vergonha europeia estava estampada e os horrores já se avizinhavam. À moda de um Otto Maria Carpeaux (1900-1978), de um Stefan Zweig (1881-1942), ele veio bater no Brasil exilado daquela Guerra. Viveu entre Minas Gerais e o Rio de Janeiro. Resistente, engajou-se na França Livre de Charles de Gaulle (1980-1970). Foi o homem do General na América do Sul. Escreveu bastante daqui. Retornou à França, depois da guerra, amando o Brasil. Faleceu em glória.

Se é possível categorizar um grande escritor (tenho que os grandes escritores estão categorizados em seus próprios gêneros e estilos), Georges Bernanos foi um dos grandes ficcionistas e pensadores católicos. Autor de romances psicológicos católicos, de parecença com aqueles de François Mauriac (1885-1970). E de ensaios, aqui já mais à moda de Jacques Maritain (1882-1973) e Jacques Rivière (1886-1923).

Como define Marcel Girard, no meu já velhinho “Guide illustré de la literature française moderne” (a edição que possuo é de 1949, da maison/éditeur Peirre Seghers), Georges Bernanos foi “veemente, frenético, visionário, às vezes pomposo, violento sempre, mas frequentemente genial. Sous le Soleil de Satan (1926) apresenta a luta de um padre com o diabo. Un crime (1935) é uma espécie de romance policial psicológico absolutamente obsessivo. Le Journal d’un curé de campagne (1936), mais moderado, é também mais suave psicologicamente.

Devemos ler novamente o excelente Nouvelle Histoire de Mouchette (1937). Monsieur Ouine (1946), seu último romance, parece conduzir Bernanos a um impasse. Entretanto, Bernanos é algo mais que um romancista: ele é uma consciência; e nós veremos mais à frente seu papel na vida das ideias”.

E é aqui que está. Embora hoje esquecido – à semelhança do que se dá com o outrora mais que badalado Anatole France (1844-1924) –, Georges Bernanos teve uma influência particularmente importante tanto sobre sua geração como sobre a geração seguinte. Meu pai mesmo, quando disse a ele que estava escrevendo sobre Bernanos, comentou: “‘Sob o sol de Satã’ foi um dos primeiros romances que eu li”.

Socorro-me, uma vez mais, do meu surrado “Guide illustré de la literature française moderne”: “Durante quinze anos, Bernanos não cessa de proclamar freneticamente aquilo que ele acreditava ser a verdade. Em La Grande Peur des Bien-Pensants (1931), ele se bate contra o conformismo burguês de um ponto de vista católico e monarquista. Em 1938, a guerra da Espanha lhe inspirará sua obra-prima: Les Grands Cimetières sous la Lune, panfleto contra Franco. Munique lhe provoca cólera e vergonha (Scanlale de la Vérité, 1939).

Enfim refugiado na América do sul, ele difundiu durante a guerra a voz da consciência francesa, com uma liberdade que desconcerta muita gente; sua sinceridade apaixonada finalmente lhe vale à sua morte (1948) a homenagem de todos os partidos: Réflexions sur le cas de conscience français (1945), La France contre les robots (1947), Le Chemin de la Croix-aux-Ames (1948) [formados por escritos produzidos na sua estada no Brasil] contêm seus panfletos contra Vichy. O prefácio dos Grands Cimetières…, admirável fragmento, dá a chave desse temperamento excepcional”.

Não sou da geração de Bernanos. Nem da seguinte. E não sou tão católico assim. Meus heróis foram ou são outros, é verdade. Mas há uma coisa que me chamou à atenção em Bernanos desde a primeira vez que “ouvi” falar bem dele (em “O século dos Intelectuais”, obra de Michael Winock, publicada entre nós pela Bertrand Brasil, em 2000): os títulos de suas obras. Quer coisa mais bela do que “Sob o sol de Satã” ou “Os grandes cemitérios sob a Lua”? E esses títulos, benditos sejam eles, foram o mote para eu titular e encerrar esta crônica.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

Categoria(s): Crônica
domingo - 31/10/2021 - 12:36h

É preciso compreendê-los

Por Inácio Augusto de Almeida

Existem pessoas que preferem viver no faz de contas.

Não aceitam a realidade.

E um dia a realidade se faz presente. Não há como fugir da verdade. compreensão, união, todos juntos, comunhão, mãos

Neste dia as lágrimas rolam dentro do coração. Do coração, sim. As lágrimas mais sentidas não rolam nas faces.

São pessoas que vivem a fingir que nada estão vendo, mesmo os fatos diante dos seus olhos a gritar que não dá mais para continuar.

Sabem da injustiça que é donos de iates e de jatinhos não pagarem nenhum imposto parecido com Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA), enquanto pobres vendedores de leite ou de frutas pagam IPVA das motos que lhes possibilita o transporte da mercadoria que negociam. Usam os mais pobres o transporte na luta pela sobrevivência e pagam IPVA e outras taxas. Quem usa iate e jatinho…

Certamente a turma do faz de contas se pergunta por que se meter com isto se a injustiça existe e torna-se mais sólida a cada ano?

Incomodados ficam ao ver alguém clamar por justiça social. E isto tem uma fácil explicação. No fundo gostariam de se unir aos que se sacrificam na luta por um mundo mais de amor, menos egoísta.

Infelizmente, acomodados estão numa zona de conforto e morrem de medo de sair da caverna de Platão.

Não devemos rejeitá-los. Devemos deles, ter compaixão.

Estão com os corações inundados de lágrimas.

Inácio Augusto de Almeida é Jornalista e escritor

Categoria(s): Crônica
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