Giuseppe Ghiaroni – (1919-2008) – poeta, jornalista e cronista, mineiro de Parnaíba do Sul, morreu em 2008, aos 89 anos, com importante atuação em trabalhos para o rádio, teatro e imprensa escrita.
Mas em especial, deixou um texto imortal e imortalizado no tablado pelo grande ator teatral Procópio Ferreira: o “Monólogo das mãos!”
Raimundo expõe seu dedo médio direito (Foto: web)
O texto faz parte da peça “O vendedor de ilusões” de Oduvaldo Viana, escrito para Procópio Ferreira.
Com uma indagação de preâmbulo, ele descortina e enumera o bem e o mal que elas, as mãos, representam à vida e à história do homem.
Agora, no Rio Grande do Norte, temos uma versão grotesca e reducionista, do papel do “dedo”. Sim, o dedo médio.
Coube ao deputado estadual de longo curso, Raimundo Fernandes (PSDB), expor seu dedo médio direito em riste na direção de manifestantes que ocuparam o plenário da Assembleia Legislativa dia passado (quinta-feira, 13). Esgrimou com ele, em reação a palavras de ordem que censuravam a bancada governista pela aprovação de matéria (veja AQUI) que congela salários em 2018.
Não ficou bem para o deputado e para a Casa do Povo essa “Crônica do Dedo”. Optamos pela obra genial de Ghiaroni, que a reproduzimos abaixo:
As mãos de Maria Antonieta, ao receber o beijo de Mirabeau, salvou o trono da França e apagou a auréola do famoso revolucionário;
Múcio Cévola queimou a mão que, por engano não matou Porcena;
Foi com as mãos que Jesus amparou Madalena;
Com as mãos David agitou a funda que matou Golias;
As mãos dos Césares romanos decidia a sorte dos gladiadores vencidos na arena;
Pilatos lavou as mãos para limpar a consciência;
Os anti-semitas marcavam a porta dos judeus com as mãos vermelhas como signo de morte!
Foi com as mãos que Judas pôs ao pescoço o laço que os outros Judas não encontram.
A mão serve para o herói empunhar a espada e o carrasco, a corda;
O operário construir e o burguês destruir;
O bom amparar e o justo punir;
O amante acariciar e o ladrão roubar;
O honesto trabalhar e o viciado jogar.
Com as mãos atira-se um beijo ou uma pedra, uma flor ou uma granada, uma esmola ou uma bomba!
Com as mãos o agricultor semeia e o anarquista incendeia!
As mãos fazem os salva-vidas e os canhões;
Os remédios e os venenos;
Os bálsamos e os instrumentos de tortura, a arma que fere e o bisturi que salva.
Com as mãos tapamos os olhos para não ver, e com elas protegemos a vista para ver melhor.
Os olhos dos cegos são as mãos. As mãos na agulheta do submarino levam o homem para o fundo como os peixes;
No volante da aeronave atiram-nos para as alturas como os pássaros.
O autor do Homo Rebus lembra que a mão foi o primeiro prato para o alimento e o primeiro copo para a bebida;
A primeira almofada para repousar a cabeça, a primeira arma e a primeira linguagem.
Esfregando dois ramos, conseguiram-se as chamas.
A mão aberta, acariciando, mostra a bondade;
Fechada e levantada mostra a força e o poder;
Empunha a espada a pena e a cruz! Modela os mármores e os bronzes;
Dá cor às telas e concretiza os sonhos do pensamento e da fantasia nas formas eternas da beleza.
Humilde e poderosa no trabalho, cria a riqueza;
Doce e piedosa nos afetos medica as chagas, conforta os aflitos e protege os fracos.
O aperto de duas mãos pode ser a mais sincera confissão de amor, o melhor pacto de amizade ou um juramento de felicidade.
O noivo para casar-se pede a mão de sua amada;
Procópio: com as mãos (Foto: Web)
Jesus abençoava com as mãos;
As mães protegem os filhos cobrindo-lhes com as mãos as cabeças inocentes.
Nas despedidas, a gente parte, mas a mão fica, ainda por muito tempo agitando o lenço no ar.
Com as mãos limpamos as nossas lágrimas e as lágrimas alheias.
E nos dois extremos da vida, quando abrimos os olhos para o mundo e quando os fechamos para sempre ainda as mãos prevalecem.
Quando nascemos, para nos levar a carícia do primeiro beijo, são as mãos maternas que nos seguram o corpo pequenino.
E no fim da vida, quando os olhos fecham e o coração para, o corpo gela e os sentidos desaparecem, são as mãos, ainda brancas de cera que continuam na morte as funções da vida.
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4 thoughts on “O “Monólogo das mãos” e a “Crônica do dedo””
Isso sim é feio. É embaraçoso.
Texto genial. Daqueles que merece leitura compartilhada. Boa indicação, Carlos!
É com as mãos que acontece o ”toma lá da cá” entre politico e comissionados.
É com as mãos que se da e se recebe propinas.
É com as mãos que os políticos espertos dão aquela tapinha nas costas dos eleitores trouxas.
É com as mãos que os presidentes assinam medidas provisórias para facilitar a vida de empresários (♫ Muuuuuu)
É com as mãos que se pega o papel higiênico para limpar a ( * ).
É com as mãos que se da cocorote em menino traquino.
É com as mãos que se joga pedra no telhado do vizinho.
É com as mãos que se cata piolho.
É com as mãos que se ”da o dedo”.
É com as mãos que se escreve a palavra ”mãos”.
São as mãos que assinam cheque sem fundos.
Se eu fosse falar mais sobre as mãos, as minhas ficariam calejadas.
☛ Bye
Que beleza! Muito bom ter chance de, com as mãos, poder agradecer por ler esse texto.