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Do Diário do Poder
Entre as mensagens apontando intrigante proximidade entre o banqueiro Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes, uma não escapou a políticos de oposição porque indica que o ministro do Supremo Tribunal Federeal (STF) era visitante habitual em endereços do dono do Banco Master.
Em troca de mensagens com a namorada Martha Graeff, em 29 de abril de 2024, Vorcaro diz estar recebendo Moraes em sua nova casa em Campos (do Jordão) e que o ministro havia gostado do que viu, observando:
– “E ele adorava (o) apto”.
Para a oposição, esse trecho mostra que Moraes costumava visitar o investigado Vorcaro, cliente do escritório de advocacia da esposa.
Impeachment
A ligação de Vorcaro a Moraes está entre as alegações do governador de Minas, Romeu Zema, para pedir impeachment do ministro do STF.
Vorcaro e Moraes relações próximas (Fotos Reprodução do Youtube e Rosinei Coutinho do STF)
Do Canal Meio e outras fontes para o BCS
O acesso pela Polícia Federal ao conteúdo do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, revelou uma intensa troca de mensagens com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, conta Malu Gaspar. “Fiz uma correria aqui para tentar salvar. Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”, indagou Vorcaro pouco antes de ser detido por agentes da PF no aeroporto de Guarulhos na noite de 17 de novembro do ano passado.
Em seguida, Moraes teria respondido com três mensagens de visualização única, cujo conteúdo não pôde ser recuperado.
Ao longo daquele dia, segundo as mensagens, Vorcaro atualizou o ministro sobre as negociações para a venda do banco e o inquérito que o levaria à prisão. O escritório de advocacia da esposa de Moraes tinha um contrato de quase R$ 130 milhões com o Master. Por meio de sua assessoria, o ministro negou ter recebido as mensagens e classificou a informação como “ilação mentirosa” destinada a atacar o Supremo. (Globo)
Proximidade suspeita
Mas as conversasinterceptadas pela PF mostram proximidade entre os dois. Em uma mensagem, Vorcaro diz que Moraes vetou a participação do empresário Joesley Batista, controlador da J&F, em um evento patrocinado pelo Master. O veto teria sido motivado pela presença do ex-presidente Michel Temer, que indicou o ministro ao STF e foi alvo de uma gravação comprometedora feita por Batista. (Folha)
Nos bastidores da investigação que levou Vorcaro de volta à prisão, há quem diga que cresce a possibilidade de um acordo de colaboração premiada, conta Andréia Sadi. A hipótese ganhou força após dois sinais observados nos bastidores: a movimentação em torno da reorganização da defesa e a recusa de alguns advogados consultados em assumir uma estratégia baseada em delação. (g1)
As investigações da PF também indicam a atuação do ex-diretor de Fiscalização do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza em favor de Vorcaro. Em fevereiro de 2019, o banqueiro pediu ajuda a Souza para assumir o controle do Banco Máxima, que depois mudaria de nome para Master. O BC negou inicialmente a transferência, mas voltou atrás em outubro daquele ano. Souza e o ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária Belline Santana foram alvo esta semana de mandados de busca e apreensão, acusados de receberem propina de Vorcaro para atuarem como “consultores” dele dentro do BC. (Estadão)
O ministro André Mendonça determinou a transferência de Daniel Vorcaro para a Penitenciária Federal de Brasília. A decisão atende a um pedido da PF, que alegou necessidade imediata de proteção à integridade física do investigado. O banqueiro havia sido transferido para a Penitenciária 2 de Potim, no interior de São Paulo. (g1)
Eliane Cantanhêde: “Se o ministro Alexandre de Moraes já devia explicações sobre os R$ 130 milhões do Master, ele passa a ser cobrado sobre qual era o seu papel, ou a expectativa de Daniel Vorcaro sobre ele, nesse contrato.” (Estadão)
Vorcaro diz ter se encontrado com Alexandre de Moraes (Foto: Banco Master)
Do Canal Meio e outras fontes para o BCS
Crimes financeiros, corrupção de agentes públicos, obstrução de Justiça, violência contra adversários, ex-funcionários e até jornalistas. A extensão das atividades criminosas do banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, reveladas pela Polícia Federal, provocaram uma onda de choque nessa quarta-feira (04). Vorcaro foi preso novamente pela manhã (veja AQUI) em São Paulo por ordem do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, com base em mensagens extraídas do celular do banqueiro.
Segundo a investigação, Vorcaro teria comandado uma estrutura paralela conhecida como “A Turma”, descrita pelos investigadores como uma milícia privada usada para proteger interesses do banco e pressionar adversários. Além de Vorcaro, foram presos o empresário e pastor Fabiano Zettel, cunhado e braço-direito do banqueiro; Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o Sicário, descrito como líder operacional de uma estrutura clandestina; e Marilson Roseno da Silva, policial federal aposentado suspeito de atuar em ações de vigilância e intimidação.
De acordo com a PF, o grupo realizava monitoramento de jornalistas, autoridades, concorrentes e ex-funcionários, além de obstruir investigações. Mensagens apreendidas pela polícia indicam ordens de intimidação e planos de agressão contra o jornalista do Globo, Lauro Jardim (veja AQUI). Vorcaro sugeriu forjar um assalto contra Jardim para “quebrar seus dentes” e amedrontá-lo. (g1)
Horas depois de ser preso, Sicário tentou suicídio em uma cela na sede da Polícia Federal em Belo Horizonte. Ele passou por procedimento de reanimação e foi levado para um hospital da cidade com vida. No final da noite desta quarta, Luiz Phillipi Mourão teve a morte cerebral confirmada. (Estadão)
Vorcaro e Alexandre de Moraes
Outras mensagens interceptadas pela Polícia Federal indicam que Vorcaro afirmou ter se encontrado com o ministro do STF Alexandre Moraes em abril de 2025. Em uma das mensagens à sua esposa, Martha Graeff, ele escreveu: “Tô indo encontrar Alexandre Moraes aqui perto de casa”. A esposa do ministro, a advogada Viviane Barci de Moraes, manteve um contrato de cerca de R$ 129 milhões com o Banco Master. Moraes, até o momento, não se manifestou sobre a menção de seu nome. (Metrópoles)
A PF investiga possíveis pagamentos feitos por Vorcaro para o siteDiário do Centro do Mundo (DCM), com o objetivo de evitar notícias negativas e fazer publicações positivas ao Master. Em outra mensagem, porém, o banqueiro mostra irritação com reportagens publicadas pelo site.
Vorcaro também tratou diretamente com o jornalista Diego Escosteguy, dono do site O Bastidor, o pagamento de quantias que, de acordo com a PF, serviam para a publicação de informações “de interesse do banqueiro”. O DCM nega ter recebido dinheiro de Vorcaro, e Escosteguy alega que a verba se referia a ações de publicidade, “prática regular no mercado de comunicação”. (Folha e Globo)
Os tentáculos da máfia de Vorcaro se estendiam ao Banco Central. Segundo a PF, o banqueiro mantinha contato constante o ex-diretor de fiscalização Paulo Sérgio de Souza e o ex-chefe de departamento da área de supervisão bancária Bellini Santana e recebia deles orientações estratégicas sobre a atuação do BC em casos sobre o banco. Os dois receberiam “uma mesada” pelos serviços. (CNN Brasil)
Julia Duailibi: “O que Dias Toffoli parecia se esforçar para manter longe da luz do dia foi escancarado por André Mendonça em poucas semanas.” (Globo)
Alexandre de Moraes e Dias Toffoli: STF vai para uma cruzada nos andares mais abaixo da magistratura (Foto: AFP)
Sou de um tempo, coisa aí de mais de 40 anos nesse ofício, que um juiz de direito ganhava remuneração incompatível com funções e o sobrepeso de ser cidadão e judicante. Creio: não deve ser fácil decidir – com fundamentação – e impactar a vida alheia em nossa sociedade.
Aplicar a lei para resolver conflitos e garantir direitos, como primado do magistratura, é missão nobilíssima.
Cá em Mossoró, onde nasci e estou, testemunhei juiz com vida austera, fazendo e refazendo contas para não extrapolar orçamento. Vi a cidade se mobilizar para montar uma casa digna para receber novo magistrado. Isso, até com direito a um telefone fixo, equipamento raro e difícil de se conseguir.
Um deles me contou episódio bem representativo desse tempo. Em diálogo com gerente amigo de um banco, gracejou: “Fique com meu salário e me dê o seu.” A troca improvável, na verdade, era apenas para sublinhar sua inferioridade remuneratória àquela época.
Os tempos são outros. Mudou e mudou muito. Para bem melhor, que se diga.
Porém, suspeito que essa cruzada do Supremo Tribunal Federal (STF) contra os “penduricalhos”, com ganhos na magistratura que são bem superiores ao teto constitucional, vai muito além do zelo pela Carta Magna e pela própria função jurisdicional. Há tempos o STF virou um corpo mais político do que judicial. Lá parece ter de tudo, menos o Direito como prioridade.
Essa luta acontece num momento em que o STF é sitiado por denúncias, críticas e desconfianças quanto à conduta de alguns de seus membros, como os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, figurões que parecem não ter teto, em casa, para ganhos remuneratórios.
Se a estratégia é desviar a atenção da sociedade para as gravíssimas denúncias que tomamos conhecimento, enquanto cidadãos, pode-se dizer que a manobra é ousada e até aqui exitosa. Há dias esquecemos sobre camaradagem de Toffoli com o banqueiro Daniel Vorcaro; ninguém lembra aquele contrato milionário entre a advogada Viviane Barci de Moraes, mulher de Moraes, com o Banco Master.
A judicatura é necessária e imprescindível. Precisamos dela, mesmo que às vezes nos contrarie. A mim, várias vezes. E daí?
“Es gibt noch Richter in Berlin” (Ainda há juízes em Berlim).
Fachi e Moraes compõem o STF, centro de muita polêmica, um mundo próprio sem controle (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
Por Breno Pires (Revista Piauí)
Desde que assumiu a presidência do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Edson Fachin passou a trabalhar pela adoção de um código de conduta para os ministros da Corte, de modo a estabelecer parâmetros claros, explícitos e próprios de comportamento.
Inspirado no código de conduta do equivalente ao STF na Alemanha, Fachin fez a sua defesa mais explícita à proposta no discurso de encerramento do Ano Judiciário de 2025, em 19 de dezembro. Na ocasião, a reputação institucional do STF passara a ser questionada no caso do Banco Master. Fachin disse que a corte, para 2026, tem um “encontro marcado” com temas entre os quais estão as “diretrizes e normas de conduta para os tribunais superiores, a magistratura em todas as instâncias e no Supremo Tribunal Federal”.
“Cabe-nos exercer nossas atribuições com rigor técnico, sobriedade e consciência histórica. Não poderia, nessa direção, deixar de fazer referência à proposta, ainda em gestação, de debatermos um conjunto de diretrizes éticas para a magistratura. Considerando o corpo expressivo que vem espontaneamente tomando o tema no debate”, disse o presidente do STF, cuja proposta tem um único aliado público até agora entre os membros da corte: a ministra Cármen Lúcia.
A reação foi imediata. Oito ex-presidentes do STF defendem a adoção do código de conduta. Em outubro, o ex-ministro Cezar Peluso foi um dos subscritores de um documento da Fundação FHC com propostas para o aprimoramento do judiciário, incluindo, entre os pontos, um manual de conduta para o STF. Em 22 de dezembro, Ayres Britto, Carlos Velloso, Celso de Mello, Marco Aurélio Mello e Rosa Weber expressaram apoio à ideia, em reportagem de Rafael Moraes Moura, no jornal O Globo.
O ex-ministro Joaquim Barbosa, relator da ação penal do mensalão, afirmou à piauí que “apoia 100%” a criação do código, e que o caso Master reforça a necessidade de fazê-lo. “As duas coisas estão entrelaçadas. Código de conduta é o mínimo que se pode fazer neste momento”, disse Barbosa, em sua primeira declaração sobre o assunto.
Além deles, o antecessor de Fachin na presidência, Luís Roberto Barroso, apoia a iniciativa, mas ainda não se pronunciou publicamente. “Não é difícil imaginar o que eu penso. Mas desde que saí do Supremo, estou procurando ficar abaixo do radar e evitando declarações”, disse à piauí.
Internamente no STF, os demais ministros têm evitado falar do assunto, mas por outro motivo. “O silêncio da bancada desconfortável com o código de conduta é o sinal mais gritante da sua conveniência, para não dizer necessidade”, escreveu o colunista Elio Gaspari, dos jornais O Globo e Folha de S.Paulo.
Gilmar acha tudo “bobagem”
O principal – e até agora único – porta-voz da resistência é o decano do tribunal, Gilmar Mendes, que falou sobre a proposta de Fachin em conversa com jornalistas de diversos veículos, na segunda-feira, 22. O ministro sustentou que já existem regras suficientes para regular a conduta de magistrados no Brasil, o que torna desnecessário adotar um código próprio para o STF.
Na conversa com os jornalistas, o decano chamou de “bobagem” as cobranças da imprensa sobre participações de magistrados em eventos e expressou seu desacordo em relação à ideia de moderação nas manifestações públicas de ministros, inclusive sobre processos em julgamento. “Eu travei toda aquela batalha contra a Lava Jato falando, denunciando. Se eu não tivesse falado, certamente nada teria mudado”, afirmou.
No mesmo dia, o gabinete de Gilmar Mendes divulgou aos jornalistas um levantamento comparativo para demonstrar que tudo aquilo que o código alemão exige de seus juízes — independência, imparcialidade, cuidado com a vida privada, recusa de benefícios, moderação na comunicação pública, quarentena depois da aposentadoria — já está contemplado, de uma forma ou de outra, no ordenamento jurídico brasileiro.
O levantamento divulgado por Mendes cita a Constituição brasileira, a Lei Orgânica da Magistratura e o Código de Ética da Magistratura Nacional do Conselho Nacional de Justiça, além das regras previstas no Código de Processo Civil e no Código de Processo Penal. “Não há vácuo no ordenamento jurídico brasileiro quanto à disciplina da conduta, independência e imparcialidade dos juízes”, conclui o texto.
Entre os críticos da falta de contenção no comportamento de alguns magistrados, há aqueles que concordam que talvez não haja “vácuo” nas leis brasileiras. O problema, na verdade, está em outro lugar: o descumprimento das normas existentes, que vem sendo justificado por uma interpretação cada vez mais elástica das próprias normas.
Afinal, o próprio comparativo divulgado por Gilmar afirma que o código de conduta alemão recomenda que os magistrados divulguem os rendimentos obtidos por palestras e eventos. Até hoje não se sabe quanto cada ministro recebeu ao participar de eventos como os fóruns do Lead, Esfera, grupos econômicos do setor dos bancos, planos de saúde e mesmo em eventos como o bancado pela Refit em Nova York neste ano. Neste ponto, o vácuo é explícito: nenhuma norma brasileira exige a divulgação de remuneração.
O código da Alemanha também veda que os juízes se envolvam em eventos que provoquem “dúvidas sobre independência, imparcialidade e integridade”. Mesmo assim , aqui no Brasil, Dias Toffoli pegou carona no jatinho do advogado do Master para ver a final da Libertadores em Lima, no Peru. E, ao desembarcar de volta, puxou para si o caso do Master e decretou sigilo sobre o assunto. Solicitado a explicar sua atitude, Toffoli disse que só recebeu o processo do Master depois da viagem e que não conversa sobre processos em ocasiões como essa. No entanto, o ministro já estava na capital do Peru quando foi sorteado relator do caso.
Ocaso que tornou o debate sobre código de conduta mais urgente envolve o ministro Alexandre de Moraes e, mais uma vez, o Banco Master. Primeiro, a jornalista Malu Gaspar*, de O Globo, revelou que o escritório de advocacia da mulher do ministro, Viviane, tinha um contrato milionário com o Master. Ganhava 3,6 milhões de reais por mês. Se o contrato não tivesse sido rompido depois do escândalo do Master, renderia um total de 129 milhões — um valor fora do padrão do mercado .
O escopo do contrato do Master com o escritório da mulher do ministro era amplo: representar os interesses do banco nos Três Poderes, em órgãos como o Banco Central, a Receita Federal e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica. Mensagens apreendidas pela Polícia Federal indicavam que os pagamentos ao escritório eram tratados internamente pelo Master como prioridade absoluta. Até agora não surgiram registros formais de atuação do escritório da mulher de Moraes junto ao Banco Central ou ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica em favor do Master. O ministro Alexandre de Moraes e o escritório foram procurados pela imprensa, mas não responderam aos questionamentos.
Depois do contrato, a repórter Malu Gaspar revelou que o ministro manteve ao menos quatro contatos (três telefônicos e um pessoal) com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, durante o período mais sensível da crise do Master. Segundo a reportagem, o ministro Moraes buscou informações sobre o andamento da compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB). Ouviu do regulador que havia indícios de fraude que inviabilizavam a transferência de mais de 12 bilhões de reais de crédito do Master para o BRB.
Moraes lançou duas notas em menos de 24 horas. Na primeira, afirmou que as reuniões com dirigentes do sistema financeiro ocorreram “exclusivamente” para tratar dos impactos da Lei Magnitsky – e não fez nenhuma menção ao Master. A jornalista Daniela Lima, do UOL, antecipou a versão de Moraes, mas divergiu em um ponto da nota: afirmou que, sim, houve menção ao Master em conversa com Galípolo.
Na segunda nota, Moraes foi mais explícito e disse que “em nenhuma das reuniões jamais foi tratado qualquer assunto ou realizada qualquer pressão referente à aquisição do BRB pelo Banco Master”. Admitiu dois encontros com Galípolo, em seu próprio gabinete no STF, em 14 de agosto e 30 de setembro. Disse também que “jamais esteve no Banco Central e que inexistiu qualquer ligação telefônica entre ambos, para esse ou qualquer outro assunto” e que “o escritório de advocacia de sua esposa jamais atuou na operação de aquisição BRB-Master perante o Banco Central”. Sobre este último ponto, ninguém havia dito o contrário.
Segundo uma nova reportagem, agora do jornal O Estado de S. Paulo, Moraes chegou a ligar seis vezes em um único dia para Galípolo. Em sua resposta, o Banco Central não mencionou números, mas afirmou que todas as interações foram documentadas e que a instituição está à disposição para prestar esclarecimentos. Em coletiva de imprensa, em 18 de dezembro, Galípolo declarou publicamente que o BC registrou reuniões, telefonemas e trocas de mensagens relacionadas ao caso.
Daniel Vorcaro deixa membros do STF em situação embaraçosa (Foto: Arquivo pessoal)
A única nota à imprensa divulgada pelo Banco Central, em 23 de dezembro, diz: “O Banco Central confirma que manteve reuniões com o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, para tratar dos efeitos da aplicação da Lei Magnitsky”. Nada do que se discute no caso Banco Master desmerece ou contamina os julgamentos dos envolvidos na tentativa de golpe de 8 de janeiro, conduzidos pelo ministro Alexandre de Moraes com base em um conjunto robusto e incontroverso de provas.
Confundir esses planos significa politizar as suspeitas, criando uma equivalência inexistente entre investigações sem relação entre si — algo distinto do que ocorreu em episódios como o da Lava Jato, em que a condução dos processos por Sérgio Moro violou os próprios princípios da operação.
Paradoxalmente, quem caiu na armadilha de criar a falsa equivalência entre o caso Master e o julgamento dos golpistas foi a própria esquerda, que invadiu as redes sociais atacando Malu Gaspar, como se suas revelações fizessem parte de um complô para desmoralizar o ministro que condenou Bolsonaro e seus militares.
A onda chegou a tal ponto que a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI) lançou uma nota em defesa da jornalista. “Infelizmente, nos últimos anos, se tornaram comuns os ataques misóginos a mulheres jornalistas que fazem reportagens sobre pessoas que ocupam importantes espaços de poder”, diz a nota. “Quando qualquer jornalista sofre intimidação por exercer o seu ofício, perde a sociedade como um todo.”
STF sem controle
Nenhuma norma de conduta foi capaz de evitar todos esses acontecimentos. “Do ponto de vista institucional, não é tanto sobre a qualidade ou efetividade das normas”, diz o professor Rubens Glezer, da FGV-SP, “mas sobre a forma como o Supremo se organiza para controlar a atuação cotidiana de seus próprios ministros”. Glezer destaca que, ao reconhecer a constitucionalidade do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o próprio STF estabeleceu que seus ministros não estariam sujeitos a controle externo regular, e em razão disso o STF não tem uma instância institucional de controle sobre equívocos, atitudes abusivas, excessos e violações éticas de seus ministros.
“O controle existente é basicamente entre os próprios ministros e, no limite, o impeachment pelo Senado. E não é um bom instrumento”, afirma Glezer. Nesse contexto, de acordo com o professor, a proposta de um código de ética é uma tentativa de estruturar esse controle interno e preservar a autonomia do tribunal, evitando que a única resposta possível a crises recorrentes seja a intervenção externa ou soluções excepcionais.
Além disso, em 2023, o STF derrubou um dispositivo do Código de Processo Civil que ampliava as hipóteses de impedimento de juízes quando escritórios de seus parentes advogassem junto à corte. A decisão reduziu restrições criadas para prevenir conflitos indiretos de interesse e reforçou a aposta na autocontenção individual dos magistrados. Hoje, Brasília está tomada por parentes de ministros com escritórios de advocacia. De alguma forma, tornou-se comum que familiares de ministros do STF que já advogaram ou advoguem na corte – entre eles, as mulheres de Moraes, Toffoli e Cristiano Zanin, a ex-mulher de Gilmar Mendes, o filho do ministro Luiz Fux e a irmã do ministro Kassio Nunes Marques.
Um dos pontos que o caso Master evidencia é o despautério da presença frequente de ministros do STF em eventos patrocinados por empresas com causas bilionárias na corte. Antes disso tudo, entre 2022 e 2024, o Banco Master bancou ao menos cinco eventos — dos quais quatro no exterior: Nova York, Paris, Londres e Roma –, que contaram com a presença de ministros do STF, como Moraes, Gilmar, Toffoli, Luís Roberto Barroso e Ricardo Lewandowski, segundo levantamento do Poder360.
Um dos episódios mais citados ocorreu em 2022, durante a Brazil Conference, quando o controlador do Master, Daniel Vorcaro, ofereceu um jantar em Nova York que reuniu ministros do STF. No Fórum Jurídico Brasil de Ideias, realizado em Londres em abril de 2024, Moraes, Gilmar e Toffoli compareceram, assim como o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o advogado-geral da União, Jorge Messias, que foi indicado recentemente por Lula para o STF e aguarda sabatina e votação de seu nome no Senado.
Nestes eventos, não há registro de encontros ou reuniões paralelas, não há divulgação de agendas, nem comunicação prévia de potenciais conflitos. A resistência a transformar esses escrúpulos em norma obrigatória revela mais do que divergências técnicas ou jurídicas, segundo o professor Davi Tangerino, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Ela reflete um traço estrutural da vida pública brasileira: o patrimonialismo. “Muitos agentes públicos se sentem donos do cargo”, afirma Tangerino. Segundo ele, isso se manifesta em decisões moldadas por visões pessoais, na construção de posições de poder em relação a outros Poderes e, em casos extremos, há risco de corrupção.
Editoriais
A leitura dos editoriais publicados nos últimos dias por O Globo, Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo revela enfoques distintos, mas convergentes. O Estadão afirmou que conexões pessoais mal explicadas de ministros do Supremo com o Banco Master “arriscam a credibilidade do STF” e colocam a Corte em “terreno pantanoso”, ao converter episódios individuais em um problema institucional. A Folha enquadrou o episódio como expressão de um déficit mais amplo de controles, advertindo que a ausência de freios institucionais favorece excessos e reforça a percepção de que “poderosos se protegem”.
Já o Globo, em editorial intitulado STF fracassa em transparência e prestação de contas, destacou que a corte demorou duas semanas para se manifestar sobre o vínculo entre Moraes e o Master. O jornal carioca classificou como “inaceitável” a continuidade do segredo imposto por Toffoli e defendeu explicitamente a adoção de um código de conduta para os ministros do Supremo, como forma de “dirimir todas as situações que gerem conflito de interesse” e preservar a integridade institucional da Corte.
No centro do debate não está um banco, nem um contrato, nem um voo, nem um telefonema. Está uma questão mais ampla: se um tribunal que cobra transparência dos demais poderes está disposto a submeter a si mesmo a regras capazes de transformar princípios éticos em procedimentos objetivos. Enquanto essa resposta não vier na forma de normas claras, casos como o do Master continuarão a explicitar que confiança pública é uma construção permanente.
Veículo com Bolsonaro sai de hospital, em Brasília, direto para a PF (Foto: Nathália Sarmento/Poder 360)
Do Poder 360
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) recebeu alta do Hospital DF Star, em Brasília, na noite desta 5ª feira (1º.jan.2026). Ele volta agora para a Superintendência da Polícia Federal, onde cumpre pena de 27 anos e 3 meses por tentativa de golpe de Estado.
Bolsonaro estava internado desde 24 de dezembro, quando deu entrada para realizar uma cirurgia para correção de hérnia inguinal bilateral. Além da cirurgia de hérnia, Bolsonaro também foi submetido a procedimentos médicos para tentar conter as crises de soluço. A equipe médica responsável pelo acompanhamento do ex-presidente afirmou na 4ª feira (31.dez) que ele passou a fazer uso de medicação antidepressiva, a pedido.
A defesa de Bolsonaro havia pedido ao ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), para ele ficar em prisão domiciliar por razões humanitárias. O magistrado negou a solicitação e determinou que Bolsonaro vá direto para a sua cela na PF ao receber alta.
Citou “reiterados descumprimentos das medidas cautelares diversas da prisão e de atos concretos visando a fuga, inclusive com dolosa destruição da tornozeleira eletrônica”.
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) passará por uma cirurgia para retirada de hérnia nesta 5ª feira (25.dez.2025), às 9h da manhã. Os médicos da equipe de Claudio Birolini declararam na 4ª feira (24.dez.2025) que o procedimento deverá durar 4 horas.
Segundo eles, com a recuperação do pós-operatório, Bolsonaro só deve ter alta de 5 a 7 dias depois do procedimento. O ex-presidente está internado para realizar cirurgia de hérnia inguinal bilateral, autorizada pelo Supremo depois da manifestação favorável da PGR (Procuradoria Geral da República). Bolsonaro saiu da Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, na manhã desta 4ª feira (24.dez.2025), véspera de Natal, e está internado no Hospital DF Star para realizar o procedimento.
A ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro, está acompanhando o ex-mandatário. Segundo os médicos, Bolsonaro está ansioso com a cirurgia e, em decorrência da prisão, está deprimido.
Moraes permitiu as visitas dos filhos Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Carlos Bolsonaro (PL-RJ), inicialmente solicitadas pela defesa, e estendeu a autorização a Jair Renan Bolsonaro e Laura Bolsonaro. As visitas deverão seguir as regras gerais estabelecidas pelo hospital para todos os pacientes. O ministro, no entanto, reiterou as restrições impostas em decisão anterior, de 23 de dezembro.
Está proibida a entrada no quarto hospitalar de computadores, telefones celulares ou quaisquer dispositivos eletrônicos. Outras visitas só poderão ocorrer mediante autorização prévia do STF.
Este fim de ano continua agitado em Brasília. Nesta segunda-feira, a jornalista Malu Gaspar revelou que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, procurou o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, ao menos quatro vezes para tratar do Banco Master. Três dos contatos ocorreram por telefone e um deles presencialmente, quando Moraes pediu avanço na operação de venda da instituição ao BRB. Moraes teria demonstrado simpatia por Daniel Vorcaro, controlador do Master, e repetiu o argumento de que o banco estaria sendo alvo de grandes concorrentes.
Ele também insistiu pela aprovação da venda anunciada em março, que aguardava aval do BC. Galípolo respondeu que técnicos haviam identificado fraudes no repasse de R$ 12,2 bilhões em créditos do Master ao BRB. O escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, tinha contrato com o banco prevendo pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões por três anos, totalizando cerca de R$ 130 milhões. (Globo)
O encontro não muito republicano entre um ministro do STF e o presidente do BC acerca de um banco privado encontrou ouvidos moucos nas duas instituições públicas. Alexandre de Moraes e o STF agiram como se nada tivesse acontecido. Já o Banco Central decidiu não emitir qualquer comunicado sobre o teor das conversas. A autarquia afirma que não comentará nem detalhará os contatos relatados. (Poder360)
Por enquanto, o único a fazer barulho em Brasília foi o líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), ele próprio enrolado em investigações sobre lavagem de dinheiro. O deputado afirmou que a Polícia Federal ignora o contrato milionário entre o Banco Master e o escritório de advocacia da esposa de Moraes. “Fico impressionado como a PF não quer investigar a esposa de um ministro do STF que tem um contrato com um banqueiro de R$ 129 milhões”, declarou o parlamentar. (CNN Brasil)
Merval Pereira: “O STF vira objeto de desconfiança do cidadão, à medida que o ministro Alexandre de Moraes não nega oficialmente que sua mulher tenha recebido milhões para trabalhar pelo banco Master”. (Globo)
Ex-presidente teve laudo prévio favorável para decisão de Moraes (Foto: Sérgio Lima/Poder 360/Fevereiro de 2024)
O ministro Alexandre de Moraes, do STF, autorizou que o ex-presidente Jair Bolsonaro seja submetido a cirurgia para correção de hérnia inguinal bilateral. A decisão veio após laudo da Polícia Federal indicar a necessidade do reparo, mas ressaltou que o procedimento não tem caráter de urgência e deve ser agendado previamente pela defesa.
O laudo da PF apontou que a cirurgia é necessária devido à piora do sono e da alimentação, à resistência aos tratamentos anteriores e ao risco de complicações causadas pela pressão intra-abdominal. Apesar disso, Moraes manteve que o procedimento é eletivo, ou seja, pode ser realizado sem urgência.
Na mesma decisão, o ministro negou o pedido da defesa para que Bolsonaro cumpra a pena em regime domiciliar. Moraes lembrou que a legislação prevê prisão domiciliar apenas para condenados em regime aberto, enquanto o ex-presidente cumpre pena em regime fechado na Superintendência da PF, em Brasília, por condenação de 27 anos e 3 meses no processo da chamada trama golpista.
Moraes também rejeitou o pedido para alterar o horário das sessões de fisioterapia de Bolsonaro. Segundo o ministro, o atendimento deve seguir as regras administrativas da PF, e o profissional de saúde precisa se adequar aos horários da unidade.
A decisão reforça que Bolsonaro tem autorização judicial para receber atendimento médico e fisioterapêutico, desde que respeitadas as normas de segurança da Superintendência.
Ramagem fugiu para os EUA (Foto: Lula Marques/Agência Brasil/Arquivo)
Do Canal Meio e outras fontes
O Supremo Tribunal Federal (STF) iniciou mais uma tentativa de trazer de volta ao Brasil parlamentares condenados que fugiram do país. Nesta segunda-feira, o ministro Alexandre de Moraes determinou a abertura do processo de extradição do deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ), condenado no núcleo central da trama golpista. O pedido foi encaminhado ao Ministério da Justiça, responsável por formalizar a solicitação aos EUA. Ramagem teria se mudado em setembro para um condomínio de luxo na Flórida, de onde gravava vídeos e votava remotamente na Câmara com apoio de atestado médico.
A documentação exigida para a extradição deve detalhar o crime, identificar o condenado e incluir cópias das normas aplicáveis, com tradução oficial para o inglês. Outro processo de extradição em andamento é o de Carla Zambelli (PL-SP), presa na Itália desde julho após fugir do Brasil. Semana passada, ela renunciou ao mandato federal (veja AQUI). Condenada pelo STF, Zambelli terá nova audiência no dia 18. O Ministério Público italiano já opinou a favor da extradição e pediu informações sobre o sistema prisional brasileiro. (Folha)
Ramagem fugiu do Brasil com o apoio de uma rede de garimpeiros que operam no Norte do país e na Guiana. O deputado federal deixou o Brasil clandestinamente em setembro, atravessando a fronteira com a Guiana antes de embarcar de Georgetown para Miami, onde permanece. A rota foi confirmada pelo diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. A declaração ocorreu após a PF prender, em Manaus, Celso Rodrigo de Mello, filho do garimpeiro Rodrigo Cataratas, suspeito de auxiliar na fuga do parlamentar. A ordem de prisão foi autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF. Segundo Rodrigues, o grupo investigado “teria facilitado a saída clandestina” de Ramagem. (Metrópoles)
Alexandre Ramagem disse que só considera renunciar ao mandato caso consiga asilo político nos Estados Unidos, segundo informou o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ). Até lá, segundo ele, o parlamentar não pretende deixar o cargo, mesmo que sua cassação seja levada ao plenário nesta semana. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), anunciou que pautará o processo, mas o PL tentará adiar a análise enviando o caso para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). (g1)
Daniela Lima: “Hugo Motta está entre a cruz e a caldeirinha no caso de Alexandre Ramagem. Ele pode matar no peito e assinar a canetada, cassando o mandato. Se colocar o caso em votação, pode ver se repetir o que aconteceu com Carla Zambelli e ser interpretado como um segundo ato de desrespeito ao Supremo Tribunal Federal”. (UOL)
Alexandre de Moraes e Carla Zambelli seguem no mesmo enredo polêmico e grotesco (Fotos de Luiz Silveira-STF e Lula Marques-Agência Brasil)
Do Canal Meio e outras fontes
A tentativa de reduzir as tensões entre o STF e o Congresso parece ter ido por água abaixo. No mesmo dia em que a Câmara dos Deputados rejeitou a cassação de Carla Zambelli (PL-SP), o ministro Alexandre de Moraes anulou a decisão e decretou a perda imediata do mandato da parlamentar. Na ordem, Moraes afirmou que a Constituição determina que, em caso de condenação criminal transitada em julgado, cabe ao Judiciário declarar a perda do mandato, restando à Mesa da Câmara apenas formalizar o ato.
Para o ministro, a votação da madrugada de quinta-feira — que teve 227 votos pela cassação, abaixo dos 257 necessários — foi “nula” e afrontou os incisos III e VI do artigo 55 da Constituição. Moraes apontou violação aos princípios da legalidade, moralidade e impessoalidade e determinou que o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), dê posse ao suplente no prazo máximo de 48 horas. A Primeira Turma do STF deve decidir ainda hoje, no plenário virtual, se mantém a ordem do ministro. (Metrópoles)
A reação de Moraes já era esperada. Ministros do Supremo passaram o dia criticando a decisão da Câmara, classificada como “inaceitável”. A avaliação interna é de que houve tentativa de desmoralizar o STF e descumprimento frontal de ordem judicial. Os ministros também estavam revoltados porque, como conta Malu Gaspar, Motta havia prometido em conversas particulares com eles que a deputada seria cassada. Zambelli foi condenada definitivamente por participar da invasão ao sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o que, segundo jurisprudência do STF desde o caso Daniel Silveira, implica a cassação imediata do mandato. (Globo)
Já o líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), atacou o ministro Alexandre de Moraes. Em nota, Sóstenes afirmou que Moraes “abusa do próprio poder” e classificou o ministro como “ditador psicopata”. Segundo o parlamentar, a decisão representa “usurpação institucional” e desrespeito à soberania do Legislativo. (CNN Brasil)
Segundo especialistas, o imbróglio de Zambelli se deve a interpretações diferentes do artigo 55 da Constituição. Um inciso fala da cassação por perda dos direitos políticos e outro por condenação criminal, feitas, respectivamente, pela Mesa da Câmara e pelo Plenário. Para Alberto Rollo, especialista em direito eleitoral, Motta escolheu aplicar o dispositivo que lhe interessava politicamente. (Folha)
Bolsonaro fotografado em casa, em Brasília (Foto: Scarlett Rocha/ AGIF – via AFP/Arquivo)
Por Agência Brasil
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta terça-feira (25) que o ex-presidente Jair Bolsonaro vai iniciar o cumprimento da pena de 27 anos e três meses pela trama golpista na Superintendência da Policia Federal (PF), em Brasília.
O ex-presidente está preso preventivamente desde a manhã de sábado (22) por determinação de Moraes.
Bolsonaro está em uma cela de cerca de 12 metros quadrados (m²) que foi reformada recentemente. O espaço tem paredes brancas, uma cama de solteiro, armários, mesa de apoio, televisão, frigobar, ar condicionado e uma janela, além de banheiro privativo.
Prisão preventiva
A prisão preventiva ainda não é o cumprimento da pena pela trama golpista,e foi determinada por Moraes causa de uma violação da tornozeleira eletrônica utilizada por Bolsonaro. Em audiência de custódia, o ex-presidente confessou o ato e alegou “paranoia” causada por medicamentos.
Na decisão em que determinou a prisão preventiva, Moraes também citou a convocação de uma vigília nas proximidades da residência onde ele cumpria prisão domiciliar. Segundo o ministro, a reunião poderia causar tumulto e até mesmo facilitar “eventual tentativa de fuga do réu”.
Bolsonaro, na sede da PF em Brasília, no domingo (Foto: Sérgio Lima/Poder 360)
Do Poder 360
A 1ª Turma do STF (Supremo Tribunal Federal) decide nesta 2ª feira (24.nov.2025) se mantém a prisão preventiva do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A sessão virtual extraordinária foi convocada pelo ministro Flávio Dino, presidente do colegiado, e será realizada das 8h às 20h (horário de Brasília).
Nas sessões virtuais, são determinados períodos para que os ministros publiquem seus votos remotamente, sem debate público sobre os casos em questão.
A prisão preventiva de Bolsonaro foi determinada no sábado (22.nov.2025) por Alexandre de Moraes. A medida substituiu a prisão domiciliar, que era cumprida pelo ex-presidente desde agosto.
A decisão de Moraes foi motivada por novos elementos apresentados pela PF (Polícia Federal), que apontaram risco de fuga e ameaça à ordem pública diante da proximidade do trânsito em julgado da condenação a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado.
Segundo Moraes, Bolsonaro tentou romper a tornozeleira eletrônica à 0h08 de sábado (22.nov). O ministro afirmou que a violação do equipamento demonstra intenção de fuga, que seria favorecida por uma vigília que foi convocada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente, para o mesmo dia.
Em vídeo, Bolsonaro disse ter usado ferro de solda na tornozeleira eletrônica. Segundo relatório da Seape (Secretaria de Estado de Administração Penitenciária) do DF, o equipamento tinha “sinais claros e importantes de avaria”. Ao ser questionado pelas autoridades, Bolsonaro afirmou que começou a manipular o equipamento no fim da tarde de 6ª feira (21.nov). A Seape anexou ao relatório o vídeo em que o ex-presidente diz ter usado um ferro de solda para tentar abrir a tornozeleira eletrônica.
Problemas de saúde
No domingo (23.nov), o cirurgião-geral Cláudio Birolini e o cardiologista Leandro Echenique, médicos de Bolsonaro, assinaram um relatório depois de visitá-lo na Superintendência Regional da PF. Segundo o documento, o uso de Pregabalina, concomitante à Clorpromazina e à Gabapentina, pode ter causado “confusão mental” que levou o ex-presidente a violar a tornozeleira. Bolsonaro sofre com problemas variados de saúde, como hipertensão, câncer de pele e sequelas decorrentes da facada ocorrida em 2018, como crises de vômito e soluços.
Na sede da Polícia Federal, onde está preso preventivamente, Bolsonaro disse que tentou romper a tornozeleira por mera “curiosidade.” Seus advogados apresentaram defesa argumentando que ele passou por quadro de “confusão mental”, seguindo laudo dos médicos. Daí, o pedido para que retorne à prisão domiciliar.
Jair Bolsonaro estava em prisão domiciliar em Brasília (Foto: Mateus Bonomi/AGIF via AFP/Arquivo)
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) violou o uso de tornozeleira eletrônica e tinha elevado risco de fuga durante a vigília convocada pelo filho, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), segundo informa a decisão do ministro Alexandre de Moraes que decretou a prisão preventiva do ex-presidente, neste sábado (22).
No entendimento do ministro, a proximidade da residência de Bolsonaro da embaixada dos Estados Unidos (cerca de 13km) também era um indicativo de que ele poderia tentar escaparde uma eventual prisão.
Bolsonaro teve a prisão domiciliar convertida em prisão preventiva nesta manhã, após ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Ele foi detido pela Polícia Federal em casa, por volta das 6h, e levado para Superintendência da PF em Brasília.
De acordo com a decisão do ministro Alexandre de Moraes, a medida foi adotada após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) convocar uma vigíliaem frente ao condomínio do ex-presidente, na noite de sexta-feira (21).
Moraes entendeu que “eventual realização da suposta ‘vigília’ configura altíssimo risco para a efetividade da prisão domiciliar decretada e põe em risco a ordem pública e a efetividade da lei penal”.
Tornozeleira rompida pela madrugada
O ministro escreveu que, embora o ato tenha sido apresentado como uma vigília pela saúde de Bolsonaro, “a conduta indica a repetição do modus operandi da organização criminosa liderada pelo referido réu”, com o uso de manifestações para obter “vantagens pessoais” e “causar tumulto”.
Na decisão, Moraes também citou que o ex-presidente violou o equipamento de monitoramento eletrônico às 0h08 deste sábado, o que, segundo ele, “constata a intenção do condenado de romper a tornozeleira eletrônica para garantir êxito em sua fuga, facilitada pela confusão causada pela manifestação convocada por seu filho”.
Moraes também destacou que a residência de Bolsonaro em Brasília fica a cerca de 13 km da embaixada dos Estados Unidos na capital federal, em uma distância que poderia ser percorrida em cerca de 15 minutos de carro.
Plano de fuga
“Rememoro que o réu, conforme apurado nestes autos, planejou, durante a investigação que posteriormente resultou na sua condenação, a fuga para a embaixada da Argentina, por meio de solicitação de asilo político àquele país”.
“Não bastassem os gravíssimos indícios da eventual tentativa de fuga do réu Jair Messias Bolsonaro acima mencionados, é importante destacar que o corréu Alexandre Ramagem Rodrigues, a sua aliada política Carla Zambelli, ambos condenados por esta Suprema Corte; e o filho do réu, Eduardo Nantes Bolsonaro, denunciado pela Procuradoria-Geral da República no STF, também se valeram da estratégia de evasão do território nacional, com objetivo de se furtar à aplicação da lei penal”.
Eduardo está nos Estados Unidos; Zambelli teve parecer desfavorável na Europa e segue presa na Itália (Fotos: Pedro França da Agência Senado e Agência Câmara)
Dezenas de corpos foram expostos por comunidade após o confronto (Foto: Fabio Teixeira/Anadolu via AFP)
Do Canal Meio e outras fontes
O que parecia ser apenas mais um capítulo brutal da crescente violência do Rio de Janeiro se transformou em um momento histórico da brutalidade policial no Brasil. Quando o dia nasceu, mais corpos começaram a ser retirados das regiões de mata no entorno dos complexos do Alemão e da Penha, áreas da Zona Norte carioca controladas pelo Comando Vermelho. Ao final da manhã, dezenas de cadáveres aguardavam, enfileirados, para serem recolhidos ao Instituto Médico Legal do Rio de Janeiro. Quando a noite finalmente caiu sobre a Baía da Guanabara já se contavam 121 mortes, incluindo quatro agentes que participaram da mais violenta operação policial da história do Brasil.
Até essa semana, policiais só haviam matado mais no Massacre do Carandiru, quando 111 homens foram mortos em uma operação policial no antigo presídio da região Norte de São Paulo, em 1992. Os números, no entanto, não são definitivos e não há ainda dados concretos que comprovem que as vítimas eram, de fato, criminosos, de acordo com a defensoria pública do Rio. A estimativa é de que o número de vítimas pode passar de 130 pessoas. (UOL)
Comemoração
Independentemente do choque causado pela matança na Zona Norte carioca e das denúncias de abusos policiais desta terça-feira, o governador do Rio, Cláudio Castro, comemorou o resultado obtido pela operação que deixou 119 pessoas mortas. “De vítimas lá só tivemos os policiais”, disse o governador, eleito na esteira da onda bolsonarista de 2018 que pregava uma ação mais violenta contra os criminosos das favelas cariocas.
Castro deu a declaração em um encontro com governadores de direita por videoconferência. Entre eles estavam os governadores de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos); Minas Gerais, Romeu Zema (Novo); Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil); Santa Catarina, Jorginho Mello (PL); e Mato Grosso, Mauro Mendes (União Brasil). (Globo)
“Narcoterrorismo”
Ainda sem saber exatamente como reagir, o governo federal enviou o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, para se encontrar com Castro. Depois de uma reunião no Palácio Guanabara, Lewandowski e Castro anunciaram a criação de um Escritório Emergencial de Combate ao Crime Organizado no estado. O núcleo será coordenado pelo secretário de Segurança, Victor Santos, e terá atuação conjunta entre forças estaduais e federais.
O encontro discutiu ações contra o Comando Vermelho, além do uso do termo “narcoterrorismo” pelo governo fluminense e da possibilidade de solicitar uma operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) — algo que Castro disse não considerar necessário no momento. “O objetivo é tomar decisões rápidas, sem criar uma estrutura burocrática, até que a crise seja superada”, disse o ministro. Ele afirmou também que o escritório servirá como um embrião da PEC da Segurança Pública, que ainda será votada no Congresso. (g1)
Planejamento da operação
O secretário de Polícia Militar, Marcelo Menezes, explicou que a megaoperação foi planejada com análise de informações de inteligência e de cenários por 60 dias. Os agentes utilizaram como estratégia a tática chamada de “muro do Bope”, no qual policiais entraram por outras áreas das favelas para cercar os traficantes e empurrá-los em direção à mata, uma conhecida rota de fuga. O objetivo, segundo ele, era levar o confronto para áreas desabitadas, evitando mortes de inocentes, ciente de que “a alta letalidade era previsível, mas não desejada”. (g1)
STF quer mais informações
Mesmo assim, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, apresente informações detalhadas sobre a operação policial desta terça-feira nos complexos do Alemão e da Penha. Moraes assumiu a relatoria do caso de forma interina, já que o processo, anteriormente conduzido por Luís Roberto Barroso, está temporariamente sem relator. A ordem foi expedida no contexto da ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas, que trata da letalidade policial no Rio de Janeiro. Embora o STF já tenha reconhecido parte do plano estadual de redução de mortes em ações policiais, a Corte impôs uma série de medidas estruturais e permanentes ao governo fluminense para controle da violência policial. (Estadão)
PF embaraça Lula
Já o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Passos Rodrigues, admitiu nesta quarta-feira que a PM do Rio consultou a corporação sobre a possibilidade dos federais participarem da operação, mas a avaliação foi que não caberia a entrada da PF. “A partir da análise do planejamento operacional, nossa equipe entendeu que não era uma operação razoável para que a gente participasse”, afirmou. O presidente Lula ficou irritado com a declaração de Rodrigues, mas decidiu não se pronunciar sobre a operação policial no Rio para evitar acirrar a disputa política e porque, como informa Vera Magalhães, pesquisas internas apontam apoio popular à ação da polícia. (Globo)
Remoção de corpos
A Polícia Civil vai investigar os moradores que removeram os corpos da mata pelo crime de fraude processual. Além das mortes, dez menores foram apreendidos e 113 suspeitos foram presos, incluindo Thiago do Nascimento Mendes, o Belão, apontado como o operador financeiro do Comando Vermelho no Complexo da Penha e braço direito de um dos chefes da facção. (CNN Brasil)
Transferências
Em resposta às barricadas e interdições provocadas em diversas vias da cidade após a matança no Alemão e na Penha, dez integrantes da cúpula do Comando Vermelho, que estavam presos em Bangu 3, foram transferidos para um presídio de segurança máxima do estado, em Bangu 1. Eles são apontados como responsáveis por comandar, de dentro das cadeias, a retaliação sobre a operação policial. A transferência é provisória, até que os criminosos sejam levados para presídios federais. (g1)
Moraes e Fux voltaram a divergir seriamente (Fotos: Rosinei Coutinho e Gustavo Moreno/STF)
Do Canal Meio e outras fontes
A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) condenou nesta terça-feira sete acusados de integrar o núcleo de desinformação que atuou para desacreditar o sistema eleitoral e preparar terreno para uma tentativa de golpe de Estado. Os ministros Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin, Cármen Lúcia e Flávio Dino votaram pela condenação dos réus pelos crimes de tentativa de golpe, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, associação criminosa e incitação ao crime. Segundo Moraes, relator do caso, os acusados participaram de um esquema coordenado para atacar a Justiça Eleitoral e disseminar desinformação.
“É uma falácia criminosa dizer que ataques à democracia são liberdade de expressão”, afirmou o ministro.
Entre os réus estão o ex-major Ailton Barros, o engenheiro Carlos Rocha, e o tenente-coronel Guilherme Marques Almeida. O ministro Luiz Fux mais uma vez abriu divergência e votou pela absolvição de todos os réus. Segundo ele, não haveria elementos suficientes para condenar os réus pelos crimes apontados pela Procuradoria-Geral da República (PGR). O ministro afirmou ainda que não há conexão entre os eventos relacionados ao processo eleitoral, ao chamado “Plano Punhal Verde e Amarelo” e aos ataques de 8 de janeiro. (CNN Brasil)
Com o clima para lá de azedo na Primeira Turma do STF após seu voto confuso, gigantesco e agressivo em relação aos colegas no julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Fux pediu para sair. Em carta ao presidente do Supremo, Edson Fachin, ele solicitou ser transferido para a vaga que o ex-ministro Luís Roberto Barroso ocupava na Segunda Turma. Por lá Fux também teria desafetos, como o decano da Corte, Gilmar Mendes, mas contaria com o apoio de Kássio Nunes Marques e André Mendonça, nomeados no governo Bolsonaro. (g1)
Enquanto isso… Alexandre de Moraes decidiu reabrir a investigação contra o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, por suspeita de participação na tentativa de golpe de Estado de 2022. A decisão foi tomada após o ministro defender, em seu voto, a retomada das apurações sobre o papel de Valdemar nos crimes de organização criminosa e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, acompanhado pela maioria dos colegas da Primeira Turma, à exceção de Fux.
Mais cedo, Moraes havia afirmado que, se Carlos Cesar Moretzsohn Rocha, presidente do Instituto Voto Legal (IVL), fosse condenado, as investigações contra Costa Neto deveriam ser reabertas. O IVL foi contratado pelo PL para produzir relatórios que questionaram, sem provas, a segurança das urnas eletrônicas. (Metrópoles)
Alexandre de Moraes e Cármen Lúcia durante julgamento (Foto: Ton Molina /Fotoarena/Folhapress)
“Quanto ao réu Jair Messias Bolsonaro, tenho por comprovado que praticou os crimes a ele imputados como líder da organização criminosa.” Proferida por Cármen Lúcia às 15h59 de quinta-feira (11), a frase condenou o ex-presidente à prisão pela tentativa frustrada de golpe de Estado. Um acontecimento histórico, sem precedentes na história brasileira, mas recebido com o silêncio solene de um tribunal superior. Durante as pausas da ministra, ouvia-se apenas o som da digitação rápida em teclados, sussurros de jornalistas, cliques de fotos.
Os outros quatro ministros que compõem a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) permaneciam impassíveis, com os olhos pousados sobre suas respectivas mesas. Como uma estátua de cera, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, não moveu um músculo ao ouvir a fala de Cármen Lúcia. Na terceira fileira do plenário, um analista jurídico jogava Sudoku no celular, indiferente ao que acontecia. No corredor do lado de fora, dois funcionários da copa reclamavam de seus supervisores.
Nenhum grito, nenhum protesto, nenhum lamento audível. “Jair Messias Bolsonaro praticou os crimes, na posição de líder da organização criminosa. Não ficou no mundo das ideias. Ele executou”, prosseguiu Cármen Lúcia. Foi o terceiro voto a favor da condenação, dentre cinco, formando maioria contra o réu. Pouco depois, Paulo Amador Bueno, um dos advogados de Bolsonaro, deixou o plenário. “Preciso resolver umas coisas na rua, volto mais tarde. Não vou falar agora. Vou falar na coletiva”, disse aos repórteres que o seguiram. Celso Vilardi, o outro advogado, não compareceu à sessão, assim como Bolsonaro.
Luiz Fux, a essa altura, já estava nos fundos do plenário, onde há uma sala com comes e bebes para os ministros aguentarem as longuíssimas sessões de julgamento. Ali, eles dispõem de queijo e presunto enrolados, frutas variadas, sucos. A sessão de quarta-feira (10), monopolizada por Fux, se arrastou por quase catorze horas. Nesta quinta-feira, foram pouco mais de sete, num clima um tanto mais ameno, já que os ministros que proferiram votos – Cármen Lúcia e Cristiano Zanin – permitiram aos colegas que os interrompessem, incentivando diálogos amigáveis.
A votação deveria ter começado pela manhã, mas o prolongamento imprevisto do solilóquio de Fux à noite fez com que ela fosse adiada para as duas da tarde. Muitos jornalistas aparentavam exaustão ao adentrar o Anexo II do STF. Embarcavam no elevador em grupos de cinco, subindo até o terceiro andar do prédio, onde fica o plenário da Primeira Turma. Às 14h15, todas as cadeiras já haviam sido ocupadas, com exceção de algumas reservadas a integrantes dos gabinetes dos ministros e do cerimonial. Às 14h22, todos ficaram de pé para o início da sessão. Como um turista, Gilmar Mendes, ministro da Segunda, e não da Primeira Turma, sentou-se para assistir aos colegas.
“Aqui, hoje, pulsa o Brasil que me dói. É quase um encontro do Brasil com seu passado, seu presente e seu futuro”, disse Cármen Lúcia no início de seu voto, ciente de que o inscrevia na história. Tinha à sua frente um catatau de 356 páginas, mas avisou que o resumiria. Gilmar observava tomando goles de café, servido pelos mesmos garçons que atendiam aos ministros da Primeira Turma. Para os demais presentes na sala, bebidas foram proibidas. “Meu tutor”, disse Flávio Dino, a certa altura, mirando o decano do STF à sua frente.
“Mesmo que desejassem destruir mil vezes o nosso prédio, reconstruiremos como fizemos agora. Graças à tenacidade dos que respeitam as constituições”, disse Cármen Lúcia, em referência ao 8 de janeiro. Os jornalistas no fundo do plenário reclamaram do baixo som e do calor que fazia naquele ambiente abarrotado, de carpete azul e luz branca. Era um dia quente, típico da seca brasiliense. Umidade de 20%, o termômetro marcando 32 ºC.
Alexandre de Moraes, sentado imediatamente à direita da ministra, pediu a palavra e reforçou os termos da acusação contra os oito réus. “Nos autos está muito claro, mas acho importante deixar claro para a sociedade que não foi um domingo no parque, não foi um passeio na Disney”, disse, também sobre o 8 de janeiro. Em seguida, repetiu o argumento, embalado por outra analogia: “Não foi combustão espontânea, não foram baderneiros descoordenados que ao som do flautista fizeram fila e destruíram as sedes dos Três Poderes”. Fux, que na véspera dissera o contrário, ouviu o colega sem manifestar reação.
Moraes ainda exibiu, nos dois telões do plenário, vídeos e imagens de manifestações bolsonaristas. Nelas, viam-se faixas pedindo intervenção militar e “Bolsonaro presidente”. O ministro, nesse momento, apontou para o projetor com o dedo em riste: “Não está escrito Mauro Cid presidente.” A observação provocou risos na plateia. Todos entenderam se tratar de um deboche com Fux, que, em seu voto, optou por absolver Bolsonaro e condenar Mauro Cid – o ex-ajudante de ordens da Presidência convertido em delator do golpe.
Quando Cármen Lúcia retomou a fala, Moraes se virou para a direita e deu uma piscadela para Gilmar Mendes. Depois olhou para Fux, situado na sua diagonal, pegou o celular e se recostou na cadeira. O mais cabeludo dos ministros ainda sofreu outras espezinhadas ao longo da tarde. Dino, por exemplo, reclamou do que chamou de “hermenêutica do boi fatiado”. Moraes, ao ouvir a expressão, gargalhou. “Se você fatia o boi e pergunta pra cada parte se ela é o boi, a conclusão é de que nunca existiu boi”, explicou Dino. “Pois é”, concordou Moraes, rindo. Tradução: o boi é o golpe de Estado, e Fux, o açougueiro.
Zanin foi o quarto voto a favor da condenação, fechando o placar de 4 a 1. Bolsonaro foi sentenciado a 27 anos e 3 meses de prisão; Braga Netto, a 26; Anderson Torres e Almir Garnier Santos; a 24; Augusto Heleno, a 21; Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, a 19. Alexandre Ramagem, a 16 anos, um mês e quinze dias; Mauro Cid, graças aos benefícios da delação premiada, recebeu pena de apenas 2 anos de prisão, que será cumprida em regime aberto. Os outros condenados cumprirão a pena em regime fechado, inicialmente.
“Foi perfeito”, disse um sorridente Ivan Valente (Psol-SP), na antessala do plenário, pouco depois de Cármen Lúcia concluir o voto pela condenação. O deputado assistiu ao julgamento na companhia de outros parlamentares. Enquanto isso, Matheus Milanez, advogado de Heleno, extravasava a insatisfação. “Eles falam muito das provas. Falam que têm várias provas, mas não mostram. Aí é fácil”, ele disse à piauí, fora do plenário. “Eu quase pedi uma questão de ordem na fala da Cármen, porque ela disse que o Heleno participou de várias reuniões [citadas na acusação da PGR] . Foi só uma.”
Milanez se tornou um dos rostos mais célebres do julgamento. Virou meme quando disse a Moraes, num dos interrogatórios, em junho, que queria tempo para “minimamente jantar” (recebeu, de volta, uma tirada do ministro). Não conseguiu salvar o cliente da condenação, mas diz que, depois do episódio inusitado, seu escritório de advocacia bombou. Na primeira semana de julgamento, segundo ele, recebeu mais de dez clientes interessados. “Mas quando eles viram o valor [do honorário], desistiram”, disse, rindo, na quarta-feira (10).
A conversa se deu em torno de um cafézinho. Milanez papeava cordialmente com alguns jornalistas. Uma repórter comentou que, por pior que fosse o desfecho do julgamento, ele poderia comemorar que seu passe havia aumentado. “Deus te ouça”, respondeu o advogado. Sua esposa, que estava a seu lado, pegou o embalo: “Vamos para a Europa!”
Camille Lichotti e Pedro Tavares são repórteres da revista Piauí
Fux foi voto divergente no STF; julgamento continua hoje (Foto: Evaristo Sá/AFP)
Do Canal Meio e outras fontes
Nem o mais otimista dos bolsonaristas esperava que o voto do ministro Luiz Fux fosse tão favorável ao ex-presidente Jair Bolsonaro e quase todos os demais réus julgados pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) na ação penal que trata da trama golpista. Em uma leitura de mais de 12 horas (íntegra), Fux absolveu Bolsonaro de todas as acusações feitas pela Procuradoria-Geral da República.
Ele também isentou de culpa os ex-ministros Paulo Sérgio Nogueira, Augusto Heleno e Anderson Torres, o ex-comandante da Marinha Almir Garnier e o deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ), ex-diretor da Abin. Fux condenou apenas o ex-ministro Walter Braga Netto e o ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, o tenente-coronel Mauro Cid, justamente o delator, formando maioria contra os dois. E mais: para o ministro, o processo deveria ser completamente anulado porque o STF não teria competência para julgar os acusados, que hoje não gozam de foro privilegiado.
Segundo ele, Bolsonaro e os outros réus deveriam ser julgados em primeira instância. O voto de Fux surpreendeu os próprios ministros do STF, que esperavam divergência apenas em questões preliminares, mas não no mérito, pois ele havia aceitado a denúncia contra Bolsonaro e condenado dezenas de acusados pelas depredações de 8 de janeiro de 2023. Na prática, Fux apenas concordou com o ministro relator Alexandre de Moraes quanto à validade da colaboração premiada de Cid. O julgamento será retomado hoje, às 14h, com o voto de Cármen Lúcia, que pode formar maioria para a condenação do ex-presidente. (g1)
O voto de Fux representou uma guinada de 180 graus em relação a seus posicionamentos anteriores. Confira o que o ministro disse no passado recente e o que diz agora. (UOL)
Fux replica defesa dos réus
As defesas de Bolsonaro e dos outros réus na trama golpista estavam exultantes no Supremo durante o voto de Fux. Além da absolvição, Fux seguiu as principais linhas de defesa apresentadas pelos advogados, em especial a de que o STF não tem competência para julgar o caso e de que não houve crime de golpe de Estado ou abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Para o criminalista Celso Vilardi, que coordena a defesa de Bolsonaro, Fux “lavou a alma” dos acusados. (Estadão)
Caminho internacional aberto
Para os advogados de defesa, um dos pontos mais positivos do voto de Fux foi a citação que o ministro fez a acordos internacionais dos quais o Brasil é signatário. Na visão da defesa, o fato de Fux mencionar o Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos, de 1966, e o Pacto de San José, de 1978, abre caminho para que uma possível condenação de Bolsonaro e dos demais réus seja contestada em cortes e instituições internacionais, como a OEA (Organização dos Estados Americanos).
Para a defesa, Fux ainda abriu um caminho para que o julgamento seja contestado no próprio STF, já que ele considerou que o Supremo não tem competência para julgar os acusados. Os advogados lembraram a estratégia usada pelo hoje presidente da Primeira Turma do STF, Cristiano Zanin, que conseguiu anular a condenação do presidente Lula com o mesmo argumento. (Folha)
Não é bem assim…
Mas, de acordo com juristas e com a própria jurisprudência do STF, as coisas não são tão simples assim. Mesmo com o voto divergente de Fux, isso não significa que os caminhos para recursos por meio de “embargos infringentes” estejam abertos. Segundo a jurisprudência do Supremo, isso só seria possível se outro ministro votasse como Fux. Se o placar terminar em 3×2 para qualquer acusação contra qualquer um dos réus, aí sim se abre a possibilidade de uma revisão do julgamento. (Valor)
Eleições 2026
Embora Fux tenha levantado a possibilidade de que o processo venha a ser anulado no futuro, citando o que aconteceu com a Lava-Jato, Malu Gaspar explica que isso depende de uma vitória da direita nas eleições de 2026. Tendo em vista o cronograma de aposentadoria dos ministros do STF, o próximo presidente irá indicar três novos integrantes para a Corte. Caso a direita conquiste o Planalto ou ao menos uma maioria sólida no Senado, a quem cabe aprovar a indicação, pode nomear para o Supremo ministros favoráveis à revisão do processo. (Globo)
Viralizou
O voto do ministro ainda não havia chegado sequer à primeira terça parte e já era um dos principais assuntos da internet na manhã dessa quarta-feira (10). Apoiadores de Bolsonaro viralizaram cortes da defesa oral de Fux e fizeram a hashtag “Somos todos Bolsonaro” chegar aos trending topics do X. Do outro lado, apoiadores do presidente Lula dispararam uma enxurrada de críticas ao ministro e levaram a hashtag “Crimes de Bolsonaro” também aos trending topics. (CNN Brasil)
Fux antes e agora
Thiago Amparo: “Quem já estava atento, por ofício ou por masoquismo, à jurisprudência penal do Supremo e escutou o ministro Luiz Fux votar deve ter se perguntado onde estava este Fux garantista antes. No STF é que não estava. Não cabe a ministros do Supremo mudar sua posição sobre a legalidade ou ilegalidade da conduta a depender do réu”. (Folha)
Voz
Fabiano Lana: “Voto de Fux revela como era falso ‘acordo’ no STF para punir Bolsonaro e satisfaz parte da sociedade. A despeito de proclamar um voto supostamente técnico, o ministro deu voz a milhões de pessoas que pensam exatamente como ele se posicionou”. (Estadão)
Jair Bolsonaro tem condenação como certa (Foto: Mateus Bonomi/AFP)
Do Canal Meio e outras fontes
O ex-presidente Jair Bolsonaro está a um voto de ser condenado no julgamento da ação penal que investiga a trama golpista na 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal. Nesta terça-feira, os ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino votaram pela condenação do ex-presidente e dos outros sete réus que integram o que ficou conhecido como o núcleo crucial da tentativa de golpe de Estado. Para os dois ministros, o ex-presidente Jair Bolsonaro é o líder de uma organização criminosa que atentou contra a democracia e o Estado Democrático de Direito para se manter no poder.
Os ministros ainda entenderam que o ex-presidente utilizou órgãos do governo para desacreditar o sistema eleitoral brasileiro. Alexandre de Moraes leu seu voto por cerca de cinco horas e foi duro com Bolsonaro. “Jair Bolsonaro planejou, atuou e teve o domínio de forma direta e efetiva dos atos executórios”, disse o ministro-relator.
Flávio Dino acompanhou Moraes, mas divergiu sobre a responsabilidade dos réus. Ao contrário de Alexandre de Moraes, Dino defendeu que Alexandre Ramagem, Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira não tiveram participação tão efetiva quanto os demais e, por isso, merecem penas menores. (g1)
Voto de Fux O ministro Luiz Fux será o primeiro a votar na retomada do julgamento na manhã desta quarta-feira (10). A expectativa é que o ministro apresente um voto divergente daquele apresentado pelo ministro-relator, Alexandre de Moraes. Nesta terça, ainda no início da leitura do voto de Moraes, Fux deixou claro que deve votar de maneira contrária em questões preliminares do julgamento, ou seja, aquelas que não têm a ver com se os réus são culpados ou não. Luiz Fux divergiu dos outros ministros da 1ª Turma a respeito da competência do julgamento. Para ele, Bolsonaro deveria ser julgado pelos 11 ministros do STF no plenário e não em uma das duas turmas do Supremo. (CNN Brasil)
Bolsonaro na Papuda
Os votos de Alexandre de Moraes e Flávio Dino não surpreenderam a defesa dos réus, que dão como certa a condenação dos acusados de planejar e executar uma tentativa de golpe de Estado, tendo como líder o ex-presidente Jair Bolsonaro. A defesa do ex-presidente disse discordar dos votos, mas que pretende respeitar a decisão do STF. Bolsonaro acompanhou o julgamento de casa e, segundo aliados próximos ao ex-presidente, seu maior medo é ser enviado para o complexo penal da Papuda, em Brasília, onde uma cela já está sendo preparada para recebê-lo.
De acordo com interlocutores de Bolsonaro, o ex-presidente teme morrer na prisão por falta de atendimento médico adequado. Já a cúpula militar fez chegar ao STF que não gostaria que Bolsonaro fosse preso em um quartel, como alguns dos aliados do ex-presidente esperam em caso de condenação. (Folha)
Arrogância dos EUA
Já nos Estados Unidos, a Casa Branca manteve o tom belicoso contra o Brasil. Segundo a porta-voz da Presidência dos EUA, Karoline Leavitt, Donald Trump “não tem medo de usar o poder econômico e militar para proteger a liberdade de expressão em todo o mundo”. A declaração foi dada após um repórter questionar qual a posição da Casa Branca diante do julgamento de Jair Bolsonaro. Leavitt ainda afirmou que os acontecimentos políticos no Brasil são uma prioridade para o governo americano. (Globo)
Joel Pinheiro da Fonseca: “O ponto forte do voto de Moraes é a visão de conjunto amparada em diversas evidências pontuais. Bolsonaro estava no centro de tudo isso. Alegar que ele não sabia de nada, quando se reunia com os demais participantes e defendeu a proposta do golpe junto a generais, beira o absurdo.” (Folha)
Moraes deve ter voto longo Alexandre de Moraes (Foto Mateus Bonomi/ Agif – via – AFP)
Do Canal Meio e outras fontes
O julgamento da ação penal que investiga a trama golpista e pode condenar o ex-presidente Jair Bolsonaro a mais de 40 anos de prisão terá hoje um dos seus capítulos mais importantes e esperados: o voto do ministro relator do processo, Alexandre de Moraes. Ele será o primeiro dos cinco ministros da 1ª Turma do STF a dar seu parecer, e a expectativa é de que Moraes use entre três e quatro horas para ler seu voto.
A decisão de Moraes será a primeira e deve, de alguma forma, influenciar a decisão dos demais ministros. A sentença final, no entanto, só deve ser proferida na sexta-feira, após todos os ministros votarem e definirem qual pena será imputada a cada um dos acusados do que ficou conhecido como “núcleo crucial” da trama golpista.
Regime fechado
Há pouca expectativa de absolvição para os réus, em especial o ex-presidente Jair Bolsonaro, que é considerado o líder da organização criminosa que planejou o malsucedido golpe de Estado. O próprio Bolsonaro tem dito a aliados saber que será condenado, mas revelou o temor de cumprir a pena em regime fechado. (CNN Brasil)
Votação
A audiência que será retomada nesta terça-feira vai se estender por toda a semana, com sessões diárias no Supremo Tribunal Federal até a sexta. De acordo com a ordem, depois de Alexandre de Moraes, vota o ministro Flávio Dino, seguido por Luiz Fux e, depois, pela ministra Cármen Lúcia. O último a proferir seu voto é o presidente da 1ª Turma do STF, o ministro Cristiano Zanin. A expectativa é de que todos os ministros tenham votado até o final do dia de quarta-feira, mas há a possibilidade de que a votação se estenda até quinta-feira. (g1)
Semana ‘livre’
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), decidiu que nesta semana não haverá sessões presenciais em Brasília. Motta determinou que as sessões sejam remotas e liberou os deputados a ficarem em suas bases até sexta-feira. De acordo com os líderes partidários, além de tentar reduzir a pressão pela entrada do PL da Anistia na pauta, Motta também quer evitar que as tensões na Câmara ultrapassem o bom senso. (Valor)
Governo
O Planalto, por sua vez, quer que seus ministros pressionem a base do governo no Parlamento para que pautas de teor popular entrem na pauta nesta semana em que poucos deputados estarão em Brasília. Em reunião com diversos ministros de partidos do centrão, como o MDB, União Brasil e PSD, a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, reforçou que o governo pretende levar à pauta o projeto que prevê isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. (Metrópoles)
Tarcísio
Enquanto se preparam para os momentos finais do julgamento que pode condenar o ex-presidente Jair Bolsonaro, ministros do STF dedicaram parte da segunda-feira para repercutir as falas do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), no ato de 7 de setembro na Avenida Paulista, em São Paulo. Para ministros do STF, Tarcísio implodiu as pontes que havia construído com a cúpula do Judiciário ao afirmar que o ministro Alexandre de Moraes é um tirano e que não existem provas para condenar Bolsonaro. (Estadão)
EUA
Depois de vários dias em silêncio, o governo americano voltou a se posicionar contra o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e a atacar o ministro do STF, Alexandre de Moraes. Desta vez, coube ao subsecretário do Departamento de Estado, Darren Beattie, a tarefa de ir até o X para publicar um post sobre o Brasil. Citando os 203 anos de independência do país, Beattie afirmou que os Estados Unidos mantêm o compromisso de apoiar o povo brasileiro que busca preservar os valores de liberdade e justiça. (Terra)
Brics
Na cúpula do Brics, Lula criticou a política de retaliação de Donald Trump, a classificando como “chantagem tarifária” usada para conquistar mercados e interferir em assuntos internos de outros países. O presidente brasileiro alertou para a ameaça que medidas unilaterais e sanções extraterritoriais representam às instituições e à liberdade comercial dos países em desenvolvimento.
Em tom alinhado ao do presidente chinês, Xi Jinping, Lula acusou os EUA de enterrar os princípios do livre-comércio e reiterou a defesa do multilateralismo. Também defendeu regulação global das big techs e soberania digital, afirmando que sem isso os países seguirão vulneráveis à manipulação estrangeira. (Folha)
Corte retoma sessão nesta quarta-feira (Foto: Fábio Rodrigues/Agência Brasil)
Da CNN e outras fontes
Terminou às 17h53 desta terça-feira (2) o primeiro dia do julgamento, pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), da ação penal sobre o que seria um plano de golpe contra o resultado da eleição de 2022.
O dia iniciou com a leitura do relatório do ministro Alexandre de Moraes e com a Procuradoria-Geral da República (PGR) apresentando a acusação, pela manhã.
Já à tarde, houve a sustentação oral das defesas de quatro dos oito réus do “núcleo 1”, ou “núcleo crucial” da denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR).
O julgamento retoma na manhã desta quarta-feira (3), com a sustentação oral das defesas dos réus restantes – incluindo os advogados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Relatório de Moraes
Antes de ler seu relatório, Moraes declarou que “a história nos ensina que a impunidade não é espaço para pacificação” e que “soberania nacional jamais será vilipendiada, negociada ou extorquida”.
A fala introdutória de Moraes ocorreu em meio a pressões diversas, seja do grupo político de Bolsonaro ou do governo de Donald Trump, nos Estados Unidos, para que o STF recue no julgamento do que seria o plano golpista.
A oposição articula uma anistia “ampla, geral e irrestrita” via Congresso, enquanto os EUA, sob Trump, vêm impondo sanções contra Moraes e tarifas comerciais sobre produtos brasileiros com justificativas amparadas no processo no STF.
“As tentativas de obstrução não afetarão a imparcialidade e a competência dos juízes dessa corte”, afirmou Moraes, se referindo especialmente a tentativas de “submeter o Judiciário ao crivo de outro Estado”.
Filho de Jair, o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) está nos EUA alegando buscar sensibilizar o governo Trump para aplicação de medidas sobre Moraes. Devido à sua atuação no exterior, há um inquérito aberto em curso no Brasil.
Moraes também voltou a negar qualquer “cerceamento” de provas às defesas dos réus e disse que a fase de instrução penal demonstrou “materialidade e indícios de autoria” dos crimes que são agora julgados.
Acusação de Gonet
O procurador-geral da República (PGR), Paulo Gonet, sustentou a acusação dizendo que a denúncia do Ministério Público não pode ser encarada com uma “narrativa de fatos isolados”.
Houve, na avaliação de Gonet, uma “sequência significativa de ações voltadas para a finalidade” de se concretizar um golpe de Estado.
“Não é preciso esforço intelectual extraordinário para reconhecer que quando o presidente da República e, depois, o ministro da Defesa convocam a cúpula militar para apresentar documento de formalização de golpe de Estado, o processo criminoso já está em curso”, declarou.
Ainda segundo Gonet, “nem todos os denunciados” atuaram “ativamente em todos os acontecimentos relevantes” no que seria o plano golpista, mas é possível responsabilizar a todos, cada qual com seu grau de envolvimento no caso.
“O grau de atuação de cada qual no conjunto dos episódios da trama é questão de mensuração da culpa e da pena, mas não da responsabilidade em si pelos acontecimentos”, defendeu.
Gonet também reforçou a tese de que os ataques de 8 de Janeiro seriam uma “etapa necessária do desenrolar do golpe”, para que se atraísse a adesão dos comandantes do Exército e da Aeronáutica, que seriam refratários ao plano.
Defesa de Mauro Cid
A defesa do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, foi a primeira a fazer a sustentação oral diante da Primeira Turma do STF.
O primeiro advogado a se manifestar foi Jair Alves Pereira, que destacou o currículo militar de seu cliente e buscou valorizar o acordo de delação fechado por ele.
“Foi através dele que se descobriu a reunião com os comandantes que hoje é, na verdade, o cerne da ação penal”, acrescentou.
A defesa também aproveitou a sustentação para se dirigir ao ministro Luiz Fux, integrante da Turma, para dizer que Cid ter prestado depoimento por mais de dez vezes à Polícia Federal (PF) não refletiria falhas no acordo de delação.
Para o advogado, “não seria justo” ocorrer uma quebra do acordo de delação, já que o réu teria colaborado com Justiça. “Se fizermos isso, acabou o instituto da delação premiada”, afirmou.
Foi o próprio advogado de Cid quem revelou, ainda na sessão da terça, que Cid, que ainda integra os quadros da ativa do Exército, havia pedido para deixar a força.
Defesa de Alexandre Ramagem
Advogado do deputado federal (PL-RJ) e ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Alexandre Ramagem, Paulo Renato Cintra disse que seu cliente não agia sob orientação de Bolsonaro ao defender o voto impresso.
“Era uma defesa de uma pauta que Alexandre Ramagem, certo ou errado, defendeu”, declarou.
A defesa também argumentou que documentos encontrados ao longo das investigações mostrariam, “basicamente”, anotações de Ramagem, que costumava anotar “tudo”.
“Não há elementos nos autos, elementos de informação, elementos de prova que demonstrem que esses documentos tenham sido transmitidos ou entregues ao então presidente da República.
Em relatório, a Polícia Federal (PF) disse que Ramagem teria se utilizado da estrutura da Abin para municiar Bolsonaro com discursos visando “desacreditar o processo eleitoral brasileiro”.
Ao final de sua fala, Paulo Renato foi repreendido pela ministra Cármen Lúcia, sobre a distinção entre “processo eleitoral auditável” e “voto impresso”; o advogado chegou a sinalizar com um “concordo” para a magistrada.
Defesa de Almir Garnier
Único chefe de Força a ser apontado pela PGR como quem colocou tropas à disposição de Bolsonaro, o ex-comandante da Marinha Almir Garnier foi defendido por Demóstenes Torres.
Cerca de 20% do tempo de fala foi utilizado pelo advogado para elogiar os ministros do STF.
Cristiano Zanin, presidente da Turma, foi chamado de “ídolo”. E Moraes, como um “homem que resolve problemas”.
Em sua sustentação, Demóstenes defendeu que o acordo de delação de Mauro Cid seja rescindido.
Para o advogado, os diversos depoimentos de Cid aos investigadores apontam que houve declarações “equivocadas ou omitidas”, e a PGR defender apenas uma “mitigação” da pena do delator é uma “jabuticaba”.
“Hoje, ou se homologa e aceita a delação, ou ela é rescindida. Nós não estamos pedindo a nulidade, estamos pedindo a rescisão da delação”, disse.
Defesa de Anderson Torres
Terminou às 17h53 desta terça-feira (2) o primeiro dia do julgamento, pela Primeira Turma do STF (Foto: Gustavo Moreno/STF)
Eumar Novacki, da defesa do ex-ministro da Justiça Anderson Torres, disse que seu cliente chegou a convocar uma reunião para desmobilizar acampamentos que se formaram em Brasília após a eleição de 2022, em frente a áreas militares.
Segundo o advogado, essa atitude não é compatível com “quem está tramando um golpe de Estado”.
Ainda de acordo com Novacki, Torres participou da transição entre os governos Bolsonaro e Lula (PT), “passando todas as informações e tudo que estava ao seu alcance para a equipe que assumia”.
Novacki pediu a absolvição de seu cliente, frisando, também, que ele teria demonstrado boa-fé com a Justiça ao disponibilizar documentos para as investigações.
“Anderson Torres entregou as senhas do seu telefone, senhas do seu e-mail, para demonstrar boa-fé”, declarou.
Boa parte dos altos volumes de dinheiro de Bolsonaro foi para esposa e filhos (Foto: Evaristo Sá/AFP)
Do Canal Meio e outras fontes
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) recebeu mais de R$ 30 milhões no período de um ano, entre março de 2023 e fevereiro de 2024. As informações são do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), segundo análise realizada pela Polícia Federal no âmbito do inquérito que apura suspeita de coação no processo sobre a trama golpista. De acordo com a PF, as operações financeiras têm “suspeitas de serem ocorrências de lavagem de dinheiro e outros ilícitos”. No entanto, o ex-presidente não foi indiciado neste crime. Praticamente todo o volume de recursos não permaneceu na conta de Bolsonaro.
Boa parte do dinheiro foi transferida para sua mulher, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, e para os filhos do meio do ex-presidente, Eduardo e Carlos Bolsonaro. O Coaf também apontou que Carlos e Eduardo receberam mais de R$ 4 milhões cada em diferentes períodos entre 2023 e 2025. Assim como ocorreu com as contas do pai, os recursos também não ficaram nas contas deles. (Globo)
Considerando o período até junho de 2025, Jair Bolsonaro recebeu cerca de R$ 44,3 milhões. De 20 de dezembro de 2024 a 5 de junho deste ano, quando Bolsonaro recebeu R$ 11,1 milhões. Nos quase dois anos cobertos pelo relatório, R$ 20,7 milhões vieram de transações em Pix — sendo que cerca de R$ 19,3 milhões foram enviados de março de 2023 a fevereiro de 2024. Do PL, em todo o período, segundo esses dados, foram R$ 1,1 milhão. (Folha)
Conta de passagem
O relatório do Coaf solicitado pela Polícia Federal aponta indícios de que Eduardo Bolsonaro usou a conta bancária de sua esposa, Heloísa Bolsonaro, para tentar esconder recursos enviados por seu pai no período. Segundo a apuração, Eduardo recebeu sete transferências de R$ 111 mil do pai e uma oitava no valor de R$ 2 milhões. De acordo com a PF, Eduardo Bolsonaro “utilizou a conta bancária de sua esposa como forma de escamotear os valores encaminhados por seu genitor, utilizando como conta de passagem, com a finalidade de evitar possíveis bloqueios em sua própria conta”. (CNN Brasil)
Entre os gastos de Bolsonaro identificados pela PF, um chamou a atenção dos investigadores. Enquanto movimentava milhões de reais em transferências para os filhos e a esposa, Bolsonaro fazia despesas mais modestas com a lotérica do irmão, Angelo Bolsonaro, em Eldorado (SP). Entre 2024 e 2025, Jair Bolsonaro fez 113 transferências para a lotérica, num total de R$ 70 mil — uma média de R$ 619 por envio. (UOL)