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Mistério? Onde?

Por Marcelo Alves

Hoje vou misturar alguns assuntos da minha predileção: os romances policiais/detetivescos e os seus subtipos e a tendência (quase mania) que temos hoje de elaborar listas sobre as mais diversas coisas (os dez mais ricos, as vinte mais bonitas, os cinquenta melhores e por aí vai).

Os especialistas classificam os romances policiais em dois tipos: policiais de enigma e policiais noir, também chamados, respectivamente, de policiais ingleses e policiais americanos, levando em consideração os países de onde esses dois subgêneros teriam se originado.Romance-Policial-ID

Nos policiais de enigma – de gente como Arthur Conan Doyle (1859-1930), C.K. Chesterton (1874-1936) e Agatha Christie (1890-1976), o leitor é “convidado” a desvendar o crime. Ele segue os passos e o raciocínio do detetive através de um jogo de pistas e charadas até o final, em regra, surpreendente.

O mistério é, de fato, o mais importante da estória, muito mais que o ambiente em que ela se passa. Já nos policiais noir – de craques como Raymond Chandler (1888-1959), Dashiell Hammett (1894-1961), James M. Cain (1892-1977) e Ross MacDonald (1915-1983) – temos um mundo estranho e corrompido, e essa atmosfera na qual estão as personagens, “carregada” até visualmente (daí o termo “noir”), é tão ou mais importante do que a trama em si.

A elaboração de listas também é um caso antigo, mas que, até para podermos lidar com a enormidade de informações de hoje, tem virado uma “febre”. Eu mesmo possuo um livrão, “10.000 Things You Need to Know: the Big Book of Lists” (edição de Elspeth Beidas e publicado pela Universe Publishing em 2016), que acho o máximo. Adoro folheá-lo.

O fato é que estes dias topei com uma classificação de romances policiais, com as respectivas listas de títulos indicados, que achei inusitada. Foi no site literário Goodreads, que aponta “100 Mystery and Thriller Recommendations by Setting” – “100 mistérios e suspenses recomendados/classificados pelo ambiente onde se passa a estória”. Tipo: uma biblioteca, um quarto de hotel, no teatro, no escritório, um apartamento decrépito, à mesa, uma casa de campo, um quarto trancado por dentro, em um campus universitário, na igreja, um lugar extremamente frio, aviões e trens, um barco, na praia, uma ilha, através do tempo ou no espaço sideral.

Eu vou escolher três desses locais para tratar. Os de minha preferência para frequentar ou para fins de um bom mistério/suspense/crime (ficcional, deixo isso muito claro). Vou de biblioteca, campus universitário e igreja.

Para a biblioteca, vou com a amiga Agatha Christie em “Um corpo na biblioteca” (“The Body in the Library”, 1942). Em Gossington Hall, na mansão do coronel Arthur e Dolly Bantry, o corpo de uma bela jovem é encontrado na biblioteca. “Quem era a jovem? O que ela estava fazendo na biblioteca? E há uma conexão com outra garota morta, cujos restos carbonizados são achados em uma pedreira abandonada?”, indaga o Goodreads. É um caso para Miss Marple.

Para o campus universitário, vou viajar com Guillermo Martínez (1962-), da Argentina para o Reino Unido. O título é “The Oxford Murders” (“Crímenes imperceptibles”, 2003), pois foi a versão em inglês que li, maravilhado, numa temporada de estudos na cidade universitária. Em um dia de verão, um estudante argentino encontra sua senhoria – uma idosa que ajudou a decifrar o Código Enigma na 2ª Guerra Mundial – friamente assassinada.

Um célebre lógico da universidade recebe uma correspondência anônima com um símbolo estranho. Os símbolos e os assassinatos vão se sucedendo. Cabe aos dois matemáticos deter um serial killer. Já não me lembro mais do final. Vou ler novamente. Embora desta vez em casa, infelizmente.

E, na Igreja, mais precisamente numa abadia da Itália Medieval com uma labiríntica biblioteca, investigo na companhia de Umberto Eco (1932-2016) e seus Guilherme de Baskerville e Adso de Melk, em “O nome da rosa” (“Il nome della rosa”, de 1980). É o cenário de sete dias de “crimes e castigos” imaginados por Eco, misturados nas vidas religiosa e ideológica do século XIV, com suas ortodoxias e heresias, que passaram a compor meu conhecimento (e imaginário).

Por fim, afirmo: não tenho qualquer intenção de me mover para um lugar extremamente frio, para o espaço sideral ou muito menos através do tempo. Nem mesmo tenciono devanear estar por lá resolvendo mistérios. Mas fiquem à vontade. Consultem o Goodreads e o texto “100 Mystery and Thriller Recommendations by Setting”. Cada qual com seu gosto.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador regional da República e Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

Um larápio sedutor

Arsène-Lupin-1024x512 - O ladrão de casacaPor Marcelo Alves

O Netflix acaba de lançar a série “Lupin”, baseada na personagem Arsène Lupin, o “gentleman cambrioleur” (espécie de ladrão e cavalheiro), criada pelo escritor francês Maurice Leblanc (1864-1941). O site oficial do Netflix afirma que, na adaptação para a pequena tela, “o ladrão gentil Assane Diop [esse é o nome dado ao anti-herói da série] quer se vingar de uma família rica por uma injustiça cometida contra o pai dele”. Não assisti ainda. Mas pretendo.

De toda sorte, essa série do Netflix me fez lembrar que “Les Aventures d’Arsène Lupin”, numa publicação da Hachette – Français langue étrangère, foi um dos primeiros livros que li na língua falada em Paris, quando ali estive, acho que em 2006, como aluno da Alliance Française. Que saudade daquele tempo!

Maurice Leblanc é um grande achado para um amante da literatura policial/detetivesca. Para quem não sabe, Leblanc é natural de Rouen, na Normandia francesa, descendente de uma família de ricos industriais. Ainda criança, conheceu seus conterrâneos normandos Gustave Flaubert (1821-1880) e Guy de Maupassant (1850-1893). Foi protegido deste.

Estudou direito. Trabalhou nos negócios do pai. Morou no estrangeiro. Abandonou o direito e a indústria. Foi ser escritor em Paris. Misturou-se com gente como Edmond de Goncourt (1822-1896), Émile Zola (1840-1902) e Stéphane Mallarmé (1842-1898), entre outros. Dizia-se socialista e livre pensador. Ao final, nos deixou diversos romances e contos.

Entretanto, foi com o seu Arsène Lupin, cujas aventuras foram originalmente publicadas, a partir de 1905, na revista Je sais tout, que Leblanc alcançou pleno sucesso. Foi comparado – ou mesmo tido como herdeiro – a Edgar Allan Poe (1809-1849) e Arthur Conan Doyle (1859-1930). As aventuras de Lupin se passam na França da Belle Époque (que maravilha!) ou da virada dos anos 1920.

LUPIN É UM “GENTLEMAN CAMBRIOLEUR” do tipo anarquista. É alegadamente inspirado em um personagem real, Alexandre Marius Jacob (1879-1954), celebrado anarquista/fora da lei francês. Mas, em razão da 1ª Grande Guerra, Lupin torna-se também um patriota (para meu desgosto, pois desconfio deveras desse tipo quase sempre impostor). E, à medida que o tempo passa, ele vai transmudando de larápio para detetive. Lupin é sobretudo uma figura cativante. Esportista e bom de briga. Mestre dos disfarces. Misterioso e ao mesmo tempo divertido e sedutor. Um “ladrão de casaca”.

Sagaz, suas peripécias para resolver qualquer enigma são surpreendentes. No dossier pédagogique da citada edição de “Les Aventures d’Arsène Lupin” consta: “Figura insólita do romance policial e de aventura, Arsène Lupin tornou-se um verdadeiro mito popular em França e no mundo inteiro”.

Encontramos um pouco dele já em Hercule Poirot e James Bond, por exemplo. E, claro, Lupin foi bater no cinema, na TV, no teatro, no desenho animado e até no excelente mangá japonês.

Para mim, uma das coisas mais interessantes em Arsène Lupin é ser ele é uma “resposta francesa” ao meu querido Sherlock Holmes, do britânico/escocês Conan Doyle. Isso até deu confusão. Uma querela. E, por instância de Conan Doyle, Leblanc teve de mudar o nome da personagem Sherlock Holmes (isso mesmo: havia um Sherlock nos casos de Lupin) para Herlock Sholmes. Acho que, aqui, Leblanc/Lupin não disfarçou muito bem.

Também acho maravilhoso o fato de Arsène Lupin ser uma personagem da Belle Époque francesa. Para quem já conhecia a ambiência dos casos do Inspetor Maigret, de George Simenon (1903-1989), mais pé no chão, próxima à realidade das ruas, foi uma viagem imaginária num mundo de glamour e sofisticação. Uma fuga das coisas da vida. E tipicamente francesa, bien sûr.

Para terminar, jogo a indagação: podemos gostar dessa mistura de ladrão e herói? Na ficção, pelo menos, parece que ela nos provoca grande atração. Vide a lenda inglesa de Robin Hood, tantas vezes já contada e recontada, no papel e na tela. E na vida real, essa simbiose mocinho e bandido, é possível? No Brasil, parece que sim. Embora, nem na Inglaterra, nem em França, nem aqui, de vera, isso seja recomendável.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e escritor