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Não fomos feitos para corridas de grandes exigências físicas

Do Catraca Livre

Lieberman mostra processo de evolução do homem desde as cavernas (Foto: The New York Times)
Lieberman mostra processo de evolução do homem desde as cavernas (Foto: The New York Times)

Você provavelmente já ouviu que ficar sentado o dia todo faz mal, que o sedentarismo é um dos maiores vilões da saúde moderna e que correr é a solução para quase tudo.

Mas e se a ciência dissesse que essa narrativa está, pelo menos em parte, errada?

É exatamente isso que o professor de Biologia Evolutiva da Universidade de Harvard, Daniel E. Lieberman, defende no livro Exercício, uma obra que virou o senso comum de cabeça para baixo ao argumentar que os seres humanos não foram biologicamente projetados para correr, e que sentar, ao contrário do que se prega por aí, é uma atividade completamente natural para a nossa espécie.

O que diz o livro

Lieberman argumenta que, ao longo da história evolutiva humana, nossos antepassados viviam em ambientes onde não havia nenhuma necessidade de ficar em pé por longos períodos ou praticar atividades físicas intensas por prazer. O que os movia era a necessidade de sobreviver, coletar alimentos e caçar.

No restante do tempo, sentar em círculo ao redor de uma fogueira, descansar e conversar era o comportamento padrão da espécie. Ou seja, o repouso não era preguiça, era estratégia de sobrevivência.

O autor vai além ao afirmar que o ser humano desenvolveu, ao longo de milênios, um instinto inato de economizar energia.

Isso explica, segundo ele, por que tanta gente tem dificuldade em manter uma rotina de exercícios: não é falta de disciplina, é biologia. Em uma entrevista ao jornal espanhol La Vanguardia, Lieberman foi direto ao dizer que nunca evoluímos para fazer exercícios e que essa resistência ao esforço físico desnecessário faz parte da nossa programação natural enquanto espécie.

Em resumo, para Daniel Lieberman, somos evolutivamente capazes de correr maratonas (e muito mais), mas a nossa biologia prioriza a eficiência energética e o movimento moderado em vez do exercício intenso de alto impacto. 

Sentar faz tão mal quanto dizem?

Uma das ideias mais provocadoras do livro é justamente a defesa do ato de sentar.

Durante anos, comparações populares colocaram o sedentarismo no mesmo nível de hábitos altamente prejudiciais à saúde, criando um alarmismo que, segundo Lieberman, confunde mais do que ajuda.

Para ele, demonizar uma atividade tão natural para o corpo humano não tem base científica sólida e acaba desacreditando mensagens de saúde que realmente importam.

O que o professor defende não é que se passe o dia inteiro na mesma posição sem se mover, mas sim que o problema não está em sentar, e sim em sentar de forma contínua e prolongada sem nenhuma interrupção. A diferença é importante e muda completamente a forma de encarar a questão.

As recomendações dele apontam para um comportamento mais equilibrado, como levantar com frequência ao longo do dia, em vez de transformar o simples ato de sentar em um inimigo a ser eliminado.

Dados que surpreendem

O livro reúne uma série de dados que surpreendem até quem já tem alguma familiaridade com o tema. Alguns dos pontos mais curiosos que Lieberman levanta ao longo das páginas de Exercício são:

Nossos ancestrais caminhavam mais de 12 quilômetros por dia, não para se exercitar, mas para conseguir alimento por meio da caça e da coleta. Esse tipo de esforço tinha uma finalidade prática e era seguido de longos períodos de repouso, o que é muito diferente da ideia moderna de exercício como atividade de lazer ou estética.

O metabolismo basal consome entre 60% e 75% de toda a energia gasta diariamente, mesmo sem nenhuma atividade física. Isso significa que uma pessoa de 82 quilos pode gastar cerca de 1.700 calorias por dia simplesmente existindo, respirando e mantendo o coração funcionando, sem sair do lugar.

Corpo é adaptado para caminhar

Lieberman destaca que o corpo humano está muito mais adaptado para caminhar do que para correr.

A corrida, especialmente em volumes altos e com frequência elevada, representa uma sobrecarga que o organismo não está naturalmente preparado para absorver sem consequências.

Isso não significa que correr seja proibido ou prejudicial em si, mas que existe uma diferença enorme entre o esforço moderado que nossos corpos toleram bem e o excesso que as redes sociais frequentemente glorificam como ideal de saúde.

O professor aponta que o problema contemporâneo não é o exercício em si, mas a forma como ele é apresentado culturalmente, como se mais fosse sempre melhor e como se qualquer pausa fosse um fracasso.

O livro defende o exercício moderado, com destaque para caminhadas regulares, e até menciona a recomendação de 10.000 passos por dia como uma referência acessível e compatível com a biologia humana, sem transformar o movimento em uma obsessão ou em uma competição contra os próprios limites do corpo.

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Peripatético

Por Marcelo Alves

Arte ilustrativa obtida com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa obtida com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Por estes dias, um amigo, apaixonado pelas coisas do Reino Unido, me perguntou se eu sentia saudades do período em que morei/estudei em Londres. Saudade é sentimento muito peculiar e, observando o todo, prefiro dizer que não. Olhando retrospectivamente, posso até dizer que, comigo, a coisa se dava/dá mais ao contrário. Parafraseando o que certa vez disse João Cabral de Melo Neto (1920-1999) quanto ao seu Recife, eu, quando estou no exterior, tenho saudades do Brasil, quando estou no Brasil, tenho saudades de Natal, e, quando estou em Natal, tenho saudades de quase mais nada. E, se a saudade às vezes bate, o é das coisas que vivi pisando no chão dos meus antepassados, da minha gente, dos que ainda estão aqui e dos que já se foram.

É claro que eu sinto falta de alguns lugares (livrarias, sebos, museus, pubs) que frequentava e de coisitas (caminhar, tomar um café à toa) que fazia prazerosamente em Londres.

Vou dar um exemplo relacionado à sétima arte apenas para relembrar de um tempo em que eu tinha tempo para exercitar a cinefilia. Frequentei bastante o British Film Institute – BFI, complexo dedicado ao cinema, que fica à margem sul do Tâmisa (Southbank), mais precisamente abaixo da Waterloo Bridge.

No meu tempo, acho que eram quatro salas de exibição, mais voltadas para o cinema britânico, mas que também exibiam, vez por outra, os lançamentos da hora. Junte a isso restaurantes e cafés, para bate-papos antes e depois das sessões.

Havia a Filmstore do BFI, uma mistura de loja de DVDs e livraria, que era um achado para qualquer cinéfilo, em variedade e qualidade e, às vezes, se pegássemos uma promoção, em preço. Melhor ainda, até porque de graça, era a Mediatheque, onde se podia explorar boa parte do acervo do BFI. Milhares de produções para o cinema e para a TV que podíamos ver sentados em uma confortável poltrona e com uma telona só para nós. Ainda me lembro da então recém-inaugurada BFI Library, com uma das maiores coleções de livros, periódicos etc., sobre cinema e televisão, do mundo todo. Era aberta tanto para os especialistas como para o público em geral.

Da última vez que estive lá, como turista apressado, vi algumas mudanças (se não estou enganado, a lojinha havia sido descontinuada ou reduzida em tamanho). Mas essas reformas são normais. Quase sempre são para melhor. E o que vale a pena é o complexo do British Film Institute. A sua atmosfera. Sinto falta, sim, das minhas tardes por lá.

De toda sorte, o que sinto deveras falta da minha estada em Londres está mais relacionado a coisas simples, que posso chamar de solitude (não de solidão) e de movimento, do que aos grandes aparelhos culturais que essa metrópole oferece.

Por exemplo, adoro café e gosto mais ainda de frequentar cafés. Sentar sozinho, ler um livro tomando um latte, escrever um pouco ou apenas ver a rua passar. Fiz muito isso em Londres. Para tanto, não precisava de um Deux Magots. Podia ser num daqueles Starbucks, Costa ou Nero de estilo, que pululam nas esquinas de Londres. É difícil fazer isso na terrinha. Conhecemos muita gente. Seria interrompido, tido como em crise existencial ou mesmo, quem sabe, como estando meio assim sei lá da bola. Faltaria a bendita solitude. Como diria Jean-Paul Sartre (1905-1980), por sinal habitué do citado Deux Magots, aqui o inferno são os outros.

E, acima de tudo, na segurança e no clima de Londres, amava andar a pé, a qualquer hora do dia ou da noite, de casa à universidade, à biblioteca ou já em direção a algum rendez-vous de ocasião. Amava caminhar, mesmo que sozinho, por avenidas e vielas, parques e praças, sem pressa e perdidamente, vendo as coisas, os animais e as pessoas.

Amava assim flanar, uma “ciência” que Honoré de Balzac (1799-1850) definiu, poeticamente, como a “gastronomia dos olhos”. E amava, claro, pensar caminhando, como outrora fazia o gigante Aristóteles (384-322a.C.) junto a seus discípulos.

Bom, não dá muito para caminhar, seja à toa ou ao cinema, aqui em Natal. Tem a insegurança. Tem o clima. Não dá para ser pacificamente peripatético num calor dos diabos.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL