Por Jânio Rêgo
Sobre a parede do açude seco de Zé Melquíades diminuo as passadas contemplando a casa lá no alto.
Ideias velhas e novas que me trazem de volta praqui misturam-se às antigas memórias de infância de minha mãe e meus avós maternos.
Estamos em pleno estio de novembro, as serras estão cinzas, o verde deu lugar ao amarelo nos roçados e há muito menos gente morando nas redondezas.
Não há mais o barulho do engenho de rapadura lá em tia Zefinha e o bicudo há muito tempo expulsou a alvura do algodão pelos arredores das casas e os capuchos nos galhos secos dos caminhos.
Não há barulho de cascos mas de forrageiras e motocicletas.
Vou andando e me lembrando que não é uma casa tão velha como devia ser aquela do forró de Flávio José e mesmo se fosse, penso, eu jamais a trocarei por causa de um ‘amor novo’.
Tudo nela me é profundamente familiar, uterino… Odores, poeira, o piso de cimento frio, o vento que sopra no meu rosto quando abro a folha superior da porta virada para o nascente.
É também uma ‘Casa da Saudade’ essa que vovô morou, mamãe herdou e passou pra mim.
Por isso que nunca entendi a letra desse forró… parece expressar mais um sentimento de paulista… penso, e vou logo cuidar de cozinhar o arroz vermelho que a fome acaba de me tirar do devaneio.
Jânio Rêgo é jornalista
