O governo federal publicou nota “defendendo” as Forças Armadas sobre documento da Agência de Inteligência Americana, CIA, que informa sobre a tortura e assassinato de brasileiros durante a Ditadura Militar.
Peraí.
As Forças Armadas do Brasil não têm nada a ver com isso. Foram generais politiqueiros, com o apoio de políticos reacionários, que usaram a força militar para implantar uma Ditadura sanguinária, que não poupou nem seus aliados originários, exemplo de Carlos Lacerda.
As Forças Armadas, Instituição Permanente e indispensável à vida e soberania do Brasil, não é acusada de nada.
Quando foi usada indevidamente, não teve culpa. Foi usada.
Por generais corruptos da democracia e politiqueiros desde os Anos Vinte. Coronéis dos anos Quarenta e generais dos anos Cinquenta.
As Forças Aramadas de hoje, com exceções desprezíveis, cumprem seu papel constitucional.
O governo Temer quer por cortina de fumaça no embaçado do seu desgaste.
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Eu nunca tive dúvidas sobre diferenças fundamentais entre os ditadores que “governaram” o Brasil após 1964. Eram todos do mesmo conluio, da mesma estratégia e do mesmo “patriotismo”.
Criaram um mito da “diferença” entre iguais. Dando a Castelo Branco e Geisel posições menos violentas. Tudo enganação. No caso de Castelo havia uma aparência de “institucionalidade” para agradar a comunidade internacional, que revelou-se contrária à banição de Juscelino Kubitschek.
Figueiredo e Geisel: matar, matar (Foto:Weber)
O general, “mais feio por dentro do que por fora”, segundo Hélio Fernandes, prometera eleições, no discurso de posse, mas fez tudo para a implantação continuada do regime de opressão. Era o “anjo da Rua Conde Laje”, conforme definição de Carlos Lacerda.
No que se refere a Geisel a aparência era necessária posto que a Ditadura começava a agonizar. Golbery do Couto e Silva, o Chico Ciência do regime, inventou a teoria da sístole e diástole da nossa realidade política. E convenceu Geisel de que era melhor uma distensão negociada do que virarem réus, vislumbrando o cansaço e envelhecimento da quartelada, apoiada por políticos ruins de urna, em 1964.
Agora, mesmo tardiamente, a máscara ruiu. E quem prestou esse serviço à História? O Tio Sam.
Os bancadores e avalistas da Ditadura. Pois é.
A Agência Central de Inteligência (CIA) torna públicas informações sobre autorização e controle do procedimento de tortura e assassinato de políticos, tudo dirigido pelo núcleo superior do regime. Inclusive com a conversa documentada em que Geisel e Figueiredo autorizam a continuação da política de extermínio, que vinha do governo Castelo, ampliou-se no período Costa e Silva e tornou-se escancarada no período Médici. Geisel exigiu que se limitasse aos “mais perigosos” e que tudo fosse centralizado no Serviço Nacional de Informação (SNI), sob o comando de Figueiredo.
A diferença entre os cinco ditadores era só de método.
A CIA põe o ventilador na boca das valas onde ainda “exala um estranho cheiro de súplica” , em cujos escombros “repousam” aqueles que não tiveram direito ao enterro comum dos mortos.
Nervosa, quase em pânico, e com medo de que ao chegar ao Aeroporto Internacional José Martí fosse registrada e as pílulas envenenadas encontradas, Lorenz as colocou em um pote de creme facial. “Me sentia incapaz de cumprir a missão queFrank Fiorini [Frank Sturgis, condenado posteriormente no caso Watergate] tinha me passado. Não ia matar Fidel, não falhei, como outras centenas [de pessoas] que tentaram o mesmo depois. Simplesmente era incapaz e não me arrependo”, diz Lorenz hoje.
Marita, a amante que não consumou tentativa de assassinato de Fidel Castro (foto: El País)
Mas, mesmo se houvesse decidido ir em frente com a chamada Operação 40, uma conspiração do governo que, de acordo com Lorenz, unia a CIA, o FBI, os exilados cubanos e a máfia, não poderia ter concretizado o plano.
Quando estava no quarto do hotel Habana Libre, que costumava dividir com Castro, abriu o pote de creme e percebeu que os comprimidos haviam desmanchado, restando apenas uma massa pastosa da arma que devia acabar com a vida do líder do Movimento 26 de Julho.
“Joguei fora pelo bidê”, relata tranquila. “Não descia pela descarga e tive que empurrá-la até que desapareceu completamente. Então me senti livre”, diz. “Não me arrependo de não ter matado Fidel, pelo contrário: é a decisão da qual mais me orgulho em minha vida.”
Contar a vida de Marita Lorenz é o mesmo que rever grande parte da história do século XX, de sua pior história, a do Holocausto, dos assassinatos políticos e da miséria humana. “Sempre estive destinada a estar sozinha. Não sei por quê”, escreve em sua biografia lançada em 2001, Lieber Fidel – Mein Leben, meine Liebe, mein Verrat (Querido Fidel – Minha Vida, Meu Amor, Minha Traição), ainda não publicada no Brasil. Hoje, com 75 anos, sobrevive com a ajuda do governo em Baltimore (Estados Unidos), em um escuro e minúsculo apartamento cujo banheiro em ruínas não tem nem porta.
Anne Frank
Lorenz deveria ter vindo ao mundo com sua irmã gêmea. No entanto, quando sua mãe chegou ao hospital, na cidade alemã de Bremen, para exames, o pastor alemão de um oficial da SS, que a repreendia por ter levado até o fim a gravidez, fruto da relação com um médico judeu, a agrediu e uma das meninas, Ilona, morreu.
Marita sobreviveu. Seus pais homenagearam a bebê falecida acrescentando seu nome ao da sobrevivente: Ilona Marita Lorenz. Era 18 de agosto de 1939. Hitler planejava invadir a Polônia.
Assim começa o primeiro capítulo da biografia, que será publicada em espanhol pela editora Península, do grupo Planeta. As primeiras 48 páginas do volume relatam os primeiros 19 anos da Alemanita, como Fidel a apelidou. Na Segunda Guerra Mundial, Lorenz, de mãe americana e pai alemão, acabou internada no campo de concentração de Bergen-Belsen, quando tinha 5 anos.
“No quartel onde eu estava, o mesmo onde Anne Frank morreu, nos abraçávamos. Crianças pequenas e adolescentes, para não morrer de frio, embora alguns já estivessem quase mortos”, relata com serenidade, concluindo que, no entanto, chorou até esgotarem todas suas lágrimas.
Não me arrependo de não ter matado Fidel. É a decisão da minha vida da qual tenho mais orgulho.
Marita Lorenz foi encontrada escondida sob uma cama de madeira, depois que o campo foi libertado pelos britânicos em 15 de abril de 1945. “Quando o motorista da ambulância me retirou do meu esconderijo, eu estava cheia de piolhos, vermes, hematomas e pesava menos de 20 quilos.” Foi uma das 200 crianças que sobreviveram sob o lema: “Não fale, não pense, não respire”.
A senhora Lorenz, que no dia da sua entrevista veste camiseta e duas camisas, uma em cima da outra, e a quem o filho Mark, de 45 anos, arruma o cabelo despenteado para sair melhor nas fotos, define o que aconteceu em 1945 como o fim de um pesadelo e o início de outro. Com 7 anos, Marita foi estuprada um dia depois do Natal de 1946 por um sargento norte-americano, na Alemanha libertada pelos aliados.
Marita no final dos anos 50 em Cuba
Conheceu Fidel Castro em Havana, em fevereiro de 1959, quando tinha 19 anos e ele, 33. “Me tornei sua amante e fiquei grávida. Em Cuba, fui drogada e forçada ao que classificaram como aborto. Décadas depois fiquei sabendo que meu filho tinha sobrevivido e se chamava Andrés”, diz.
“Alguém pode imaginar o que isso significa para uma mãe, de quem levam seu bebê em uma mesa de operação e que sai de Cuba com o ventre vazio?”, se pergunta Lorenz, enquanto acaba de comer uma banana e acaricia seu cachorro, Bufty. Há mais animais por perto, talvez sejam eles que impregnam o lugar com um cheiro forte que gruda na pele: um gato, uma tartaruga e um enorme peixe laranja, que “de vez em quando se joga como em uma missão suicida contra o vidro do aquário”.
Lorenz admite que foi uma mulher em um ambiente masculino, que inventou mentiras para se proteger e também seus filhos e que disse a verdade quando foi conveniente. “Agora quero deixar as coisas claras”, afirma.
A Mata Hari do Caribe já não tem o cabelo extremamente negro. Já não exibe a forma esbelta de seus anos de party girl da máfia de Nova York, de onde saíram alguns de seus amantes. Garante que não carrega arma e já não teme por sua vida.
Me tornei sua amante e fiquei grávida. Em Cuba, fui drogada e forçada ao que classificaram como um aborto.
Parece deprimida. “Nunca pensei em me matar, embora às vezes tenha desejado morrer. Mas morrer é fácil, o desafio é viver.”
Sentada em frente à televisão com a qual passa seus dias, ao lado de um pôster do filme The Doors, com dedicatória de Oliver Stone, que a contatou para fazer um filme sobre sua vida, a senhora Lorenz conta como foi testemunha da trama para matar John F. Kennedy, em Dallas.
Antes do assassinato houve mais histórias. Fruto de seu relacionamento em Miami com Marcos Pérez Jiménez, cruel ditador venezuelano a quem Franco acabou oferecendo asilo na Espanha, nasceu sua filha Mónica Mercedes. Também não teve sorte. Foi abandonada na selva venezuelana com uma tribo de índios Yanomami e a filha de 14 meses. Queriam que fossem mortas.
A história de Marita Lorenz tem luzes e sombras. “Alguns podem achar que é bastante incrível”, diz. “Mas, já se sabe, a realidade supera a ficção.” No caso de Lorenz, essa realidade é construída com lembranças que, ocasionalmente, se misturam com a história oficial. “Essa que, quando posso lembrá-la, nem sempre é confiável.”