Por Carlos Santos
Levei uma “cinturãozada” histórica do meu velho quando devia ter uns oito a nove anos, talvez um pouco menos. Não recordo bem; da peia, sim. Doeu bastante.
Renitente, estoico, resiliente, não queria ceder aos argumentos ásperos que queimavam meu corpo raquítico, mas principalmente a alma.
Fiquei dias amuados. Monossilábico.
Muitos, muitos anos se passaram em nossa convivência. Próximo ao seu fim, algumas vezes me deparei com ele numa cadeira, semi-inválido, com dificuldades à fala. Era um homem preso em novos limites, angustiado pela imobilidade que nunca se permitira.
Seus olhos quase sem brilho perscrutavam meu rosto. Ou mapeavam meu coração. Eram vivos, vivos apesar de… Pareciam querer falar o que ele nunca conseguira, por encabulação de quem não tinha jeito para afagos, chamegos e dengos paternais. Era fechado em si.
Compreendia-o. Compreendo-o até hoje, pois fui um pouco assim em boa parte da vida, herança da convivência.
Ficar ali quase estático era sobrecarga incomum para um homem que sempre fora ativo e multifário, inimigo da indolência. Viver ou sobreviver àquele modo era dolorido. Doía também em nós.
Irrequieto por natureza, pai de família, amante da leitura e incapaz de maltratar um animal, difícil saber muito mais sobre o que se passava em sua cabeça.
Bem diferente do que fora sempre, não tinha muito a oferecer. Antes, para tudo tinha solução própria. Era nosso “MacGyver, aquele personagem de uma série de TV (Profissão: Perigo) dos anos 80, que com astúcia e engenhosidade era capaz de resolver qualquer problema utilizando a inteligência, mãos e alguma ferramenta tosca, de um canivete a pedaço de arame.
Guardo até hoje um par de chinelões em couro que, imprestável aos meus olhos, ele refez. Aquela cadeira à mesa de refeições que seria trocada, ganhou reparo com o talento de um artesão. A cisterna com rachadura, o telhado em goteiras, o fogão sem chamas em uma das bocas, a TV que teimava em subtrair a imagem de nós – tudo era solucionado por sua ação e espírito inventivo.
MacGyver. Nosso Chico.
Cheirava e beijava sua cabeça, agradecido por tudo. Cada peia, inclusive. Foram raríssimas. Acho que só essa mesma da cinturãozada. Se houve mais, por favor, não precisa ninguém lembrar. Eu esqueci.
Até seu orgulho de mim, era comedido. Mas eu sabia que o tinha. Aprendi a dizer-lhe “te amo!” antes da partida. Fiquei leve. Ficamos. Sorríamos do nosso jeito.
Mesmo com aquele ar ensimesmado, sem natureza ou tato para agrados físicos, tinha um zelo incomum por nós e retidão de caráter. Até o bichano “Pimpolho”, membro do clã, sabia disso. A propósito, recebia dele cuidado especial e tinha o poder de lhe provocar raros sorrisos.
Explorava-o, que se diga. Tirava-o do sério, mas não da serenidade. Chegava a forçá-lo a abrir a porta ao quintal pela madrugada – após espetá-lo com as garras -, a fim de sair à esbórnia ou às necessidades mais primitivas.
Do meu quarto, quantas vezes não acompanhei os “diálogos” entre ambos? Daria um quadro de “Sitcom” (comédia de situação) de “A grande família”.
Faleceu no Hospital Wilson Rosado (HWR) em Mossoró, após dias de agonia.
Um pouco antes, meu irmão antecipou que nosso Chico estaria nas últimas. “Não vai durar muito mais”, alertou-me.
– Você quer vê-lo?
“Não. Vou guardar uma imagem dele sorrindo para mim, feliz com um beijo.”
(‘Que descanse em paz até nosso reencontro”) – complementei em pensamento.
Carlos Santos é editor do Blog Carlos Santos