Igreja de São Vicente, no Centro de Mossoró (Foto: do autor)
“Igrejinha do fundo redondo” de onde partiram os principais disparos da peleja do povo da cidade do Mossoró com o bando de Lampião.
Essa história é contada em prosa e verso e em espetáculo teatral exibido no patamar defronte à porta principal, todo mês de junho, exatamente dia 13, dia do Santo Antônio que por conta disso praticamente se tornou a entidade mais reverenciada no templo do que o próprio padroeiro, São Vicente de Paula, com direito a novenário e nicho especial no altar.
Foi ele o protetor, o que guiou a mira do fuzil do atirador que acertou Colchete e logo em seguida Jararaca que foi conferir o corpo do colega.
Colchete morreu na hora. Jararaca, preso, foi executado à beira da cova.
Seu túmulo, no Cemitério São Sebastião, é hoje motivo de curiosidade e adoração mística nos dias de finados.
Tínhamos orgulho dos nossos antepassados mossoroenses que se organizaram para defender a cidade. O atirador da torre ainda era vivo quando minha geração jogava “pelada” no patamar. Era um velho silencioso e sistemático que todas as noites sentava-se na calçada de sua casa para tomar a fresca do vento Nordeste, como faziam todos naquele tempo.
Mas, também admirávamos, confesso, o cangaço, os cangaceiros, como todo nordestino influenciado pela “cultura da valentia” que nada mais é que um brutal instinto telúrico de violência que infelizmente ainda paira sobre o Brasil.
Capela de São Vicente foi ponto decisivo da resistência de Mossoró em 13 de junho de 1927 (Foto: reprodução)
Um preciso tiro de fuzil ecoou no final de tarde nublada do dia 13 de junho de 1927 e, aproximadamente cem metros além, a bala atingiu o meio-da-testa de um caboclo puxado para o negro aparamentado com a indumentária típica do cangaceiro, prostando-o na terra nua, de barriga para cima, a olhos fixos e vazios voltados para o céu acima, bem ali onde a Avenida Rio Branco cruza a Rua Alfredo Fernandes, onde, na esquina, fica a famosa Igreja de São Vicente cuja imagem, do seu nicho decenal, tudo contemplava.
Era o começo do fim.
No alto da casa do Prefeito Municipal – o líder que começara a epopeia -, no telhado, o atirador viu quando outro cangaceiro, de um trigueiro carregado se aproximou, rastejando e disparando, da vítima, e começou a rapiná-lo, retirando freneticamente, de seus bolsos, munição, dinheiro e joias. Calmamente, mirou e aguardou.
Pressentindo o perigo iminente o bandido ergueu o tronco elevando os olhos até o telhado da casa cuja frente fora tomada por fardos de algodão prensados para servirem de barreira. Foi apenas um momento, mas foi fatal.
Outro tiro de fuzil ecoou e, no mesmo local onde seu companheiro jazia sem vida o cangaceiro foi atingido.
O violento impacto da bala derrubara-o momentaneamente e desenhara, em seu tórax, uma rosa de sangue. Seus parceiros, paralisados, perplexos, observavam incrédulos. Começou a debandada.
Enquanto os resistentes percebiam que a ameaça fora sustada e o recuo dos cangaceiros era generalizado, o atirador recolhia o fuzil e fitava a cidade no prumo que tinha a Igreja de Nossa Senhora da Conceição como limite. Olhava e pensava.
Ele tinha morto um cangaceiro e ferido mortalmente outro. Não havia dúvida quanto à importância desse fato para a vitória. Mas cangaceiros são vingativos, cangaceiros são ferozes, cangaceiros são cruéis. Cangaceiros são dissimulados e não esquecem nunca, matutava ele com seus botões.
Se ele aceitasse passivamente as homenagens que lhe seriam tributadas a partir daquele momento tudo poderia, no futuro, desandar no gosto amargo causado pela retaliação de algum anônimo, talvez até mesmo em algum parente, como era prática comum na vida cangaceira. Não que fosse medroso. Ao contrário.
Todos quantos lhe conheciam podiam atestar sua coragem e perícia com as armas, que já ficavam lendárias. Mas era melhor se precaver. Era melhor silenciar. Não seria o caso de negar veementemente, por que não era homem para esse tipo de extroversão mentirosa. Mas ia silenciar. Não ia comentar nada.
Duarte, um herói de verdade
O que estava feito, estava feito, e era de acordo com seu temperamento reservado. Se lhe perguntassem, mudaria de assunto. Se comentassem em alguma roda da qual estivesse fazendo parte, sairia de mansinho. Guardaria a verdade consigo, por muito e muito tempo, e a contaria apenas para alguns escolhidos.
Naquele dia banal, muito tempo depois, sozinho com seu neto de dez anos de idade, sentiu vontade de contar aquilo que nunca contara a ninguém. Era uma necessidade da alma, um anseio de perpetuar um feito honroso, um gesto de heroísmo que o mostrava tão diferente dos que tinham fugido em direção ao mar quando os cangaceiros ciscavam nas portas de Mossoró, um gesto que lhe orgulhava por que defendera sua família e sua cidade a um custo alto, que era o de tirar a vida de alguém.
Olhou para o neto e compreendeu que ali estava o interlocutor perfeito. Não questionaria, não interromperia, não esqueceria. Guardaria a lembrança do dia e do relato. Assim sendo começou a lhe contar todo o episódio, detalhe por detalhe.
O neto apenas olhava intensamente e sentia que estava sendo transmitido, para ele, algo muito importante e que somente no futuro seria plenamente entendido. Acalmou sua inquietude de menino. Não desgrudou o olho do seu avô, aquele homem reservado e pouco propenso a confidências.
No final, quando toda a história havia sido contada, compreendeu que devia guardá-la consigo, até mesmo esquecida, por algum tempo. Em um final de tarde tipicamente mossoroense, de muito calor, em um café, o neto se aproximou de uma roda de estudiosos do cangaço e percebeu que discutiam a participação do seu avô na invasão da cidade pelo bando de Lampião. Uns diziam que havia sido ele o autor dos disparos. Outros negavam e apontavam nomes.
Quase oitenta anos haviam se passado do episódio. O neto, agora, era cinquentão. Sentiu que ali estava o momento certo para contar a história, a sua história, a história do seu avô. Aquela plateia saberia ouvi-lo e entenderia plenamente as razões do silêncio da família.
Contou tudo.
Fechou-se o ciclo.
Dezenas de anos depois já não há mais dúvidas. O atirador postado no alto da casa de Rodolpho Fernandes, o homem que praticamente abortara a invasão lampiônica, o herói entre heróis fora Manoel Duarte. Esta é a verdade, como o sabe sua família e a contou seu neto, Carlos Duarte, jornalista, muitos anos depois, a mim, que registro, aqui, a história, e a Kydelmir Dantas e Paulo de Medeiros Gastão, estes últimos dirigentes da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço – SBEC.
Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário do Estado do RN e da Prefeitura do Natal
P.S – Décadas depois desse feito, ele foi homenageado com o nome de um largo à Avenida Rio Branco, além de busto, de frente onde fora sua casa. Mas na construção da chamada “Praça da Convivência” no primeiro governo Fátima Rosado (DEM), o busto foi retirado.
A peça de bronze foi localizada semanas depois num depósito de ferro velho, pronta para ser derretida. A intervenção de sua família e do então “Jornal Página Certa” fez com que o governo municipal arranjasse um meio de reparar o crime à história e à cultura de Mossoró, doando outro espaço à fixação do busto.
*Texto originalmente publicado no dia de 26 de junho de 2011, nesta página. Portanto, há quase 12 anos e dois meses (veja AQUI).
O espetáculo teatral que melhor simboliza o “Mossoró Cidade Junina (MCJ)”, denominado de “Chuva de bala no país de Mossoró”, está ameaçado de não ter continuidade nos próximos anos. O motivo parece até uma bordão comum em toda apresentação de quadrilha junina: “É mentira!!” Mas é verdade, sim.
Reproduziremos a seguir, parte do que ocorre por trás da cortina dessa espécie de opera sertaneja.
Espetáculo é apresentado, ainda, porque autor tem sido tolerante até aqui na cobrança do que lhe devem (Foto: Wigna Ribeiro)
Existe um impasse que se arrasta desde o ano passado, que compromete a continuidade do evento. Seu enredo mistura má-fé com falta de reconhecimento ao valor imaterial e intelectual da obra. Suas apresentações sempre terminam sob aplausos.
A Prefeitura de Mossoró, responsável pela produção da peça cênica, esquiva-se de fazer o elementar e legal em relação ao autor do texto, o jornalista, escritor e professor dos quadros da Universidade Federal do RN (UFRN), Tarcísio Gurgel. Simplesmente não lhe paga direitos autorais, valores modestíssimos, num comparativo com milhões investidos anualmente na contratação de cantores.
No ano passado, já lhe dera um calote. E não foi à falta de cobrança pessoal e direta do próprio autor, que magnetiza milhares de pessoas todos os anos no adro da Capela de São Vicente, narrando um épico do povo de Mossoró ocorrido em 13 de junho de 1927, a invasão do bando do cangaceiro Lampião à cidade.
Enfim, não houve pagamento ou justificativa ao alheamento.
Merda
Esquecido e ignorado, Tarcísio chegou a enviar uma intimação extrajudicial à municipalidade, lembrando-lhe a autoria e o débito correspondente, bem como a importância da marca em discussão. Em contraposição, de novo teve o silêncio como resposta.
De tanto pressionar o Governo Municipal, Tarcísio Gurgel finalmente passou a ser ouvido, mas não escutado. A nova fase dessa relação é uma dolorosa chicana burocrática que lhe obriga a apresentar um calhamaço de documentos para provar – na prática – autoria do Chuva de Bala.
Tarcísio: "Merda!"
Não satisfeita, a Prefeitura ganha tempo e testa a paciência do autor. Mais e mais papeis (como uma cópia patenteada do seu roteiro) são exigidos, sob a promessa de que um dia receberá o pagamento.
Quem assina embaixo? O prefeito Francisco José Júnior (PSD)?
No caso, o mossoroense Tarcísio Gurgel não tem uma garantia mínima de recebimento do que lhe é devido, mesmo aquela máxima dos velhacos na cultura nordestina: “Devo, não nego; pago quando puder!”
Mais um pouco, ele terá de ressuscitar os cangaceiros Jararaca e Colchete como testemunhas ou cobradores. Armados até os dentes, claro. Ou seguir suportando o deboche com a fleuma que um de seus personagens não teria: padre Mota.
Na linguagem teatral, quando se pretende desejar boa sorte a um ator à entrada em cena, utiliza-se uma expressão de origem francesa: “Mérde” (merda).
Tarcísio Gurgel vai precisar.
Já o prefeito se ouvir o mesmo coro, não deve confundi-lo como incentivo. Será puro substantivo arremessado à sua face.
Merda!!
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Um preciso tiro de fuzil ecoou no final de tarde nublado do dia 13 de junho de 1927 e, aproximadamente cem metros além, a bala atingiu o meio-da-testa de um caboclo puxado para o negro aparamentado com a indumentária típica do cangaceiro, prostando-o na terra nua, de barriga para cima, a olhos fixos e vazios voltados para o céu acima, bem ali onde a Avenida Rio Branco cruza a Rua Alfredo Fernandes, onde, na esquina, fica a famosa Igreja de São Vicente cuja imagem, do seu nicho decenal, tudo contemplava.
Era o começo do fim.
No alto da casa do Prefeito Municipal – o líder que começara a epopéia -, no telhado, o atirador viu quando outro cangaceiro, de um trigueiro carregado se aproximou, rastejando e disparando, da vítima, e começou a rapiná-lo, retirando freneticamente, de seus bolsos, munição, dinheiro e jóias. Calmamente, mirou e aguardou.
Pressentindo o perigo iminente o bandido ergueu o tronco elevando os olhos até o telhado da casa cuja frente fora tomada por fardos de algodão prensados para servirem de barreira. Foi apenas um momento, mas foi fatal.
Outro tiro de fuzil ecoou e, no mesmo local onde seu companheiro jazia sem vida o cangaceiro foi atingido.
O violento impacto da bala derrubara-o momentaneamente e desenhara, em seu tórax, uma rosa de sangue. Seus parceiros, paralisados, perplexos, observavam incrédulos. Começou a debandada.
Enquanto os resistentes percebiam que a ameaça fora sustada e o recuo dos cangaceiros era generalizado, o atirador recolhia o fuzil e fitava a cidade no prumo que tinha a Igreja de Nossa Senhora da Conceição como limite. Olhava e pensava.
Ele tinha morto um cangaceiro e ferido mortalmente outro. Não havia dúvida quanto à importância desse fato para a vitória. Mas cangaceiros são vingativos, cangaceiros são ferozes, cangaceiros são cruéis. Cangaceiros são dissimulados e não esquecem nunca, matutava ele com seus botões.
Se ele aceitasse passivamente as homenagens que lhe seriam tributadas a partir daquele momento tudo poderia, no futuro, desandar no gosto amargo causado pela retaliação de algum anônimo, talvez até mesmo em algum parente, como era prática comum na vida cangaceira. Não que fosse medroso. Ao contrário.
Todos quantos lhe conheciam podiam atestar sua coragem e perícia com as armas, que já ficavam lendárias. Mas era melhor se precaver. Era melhor silenciar. Não seria o caso de negar veementemente, por que não era homem para esse tipo de extroversão mentirosa. Mas ia silenciar. Não ia comentar nada.
Duarte, um herói de verdade
O que estava feito, estava feito, e era de acordo com seu temperamento reservado. Se lhe perguntassem, mudaria de assunto. Se comentassem em alguma roda da qual estivesse fazendo parte, sairia de mansinho. Guardaria a verdade consigo, por muito e muito tempo, e a contaria apenas para alguns escolhidos.
Naquele dia banal, muito tempo depois, sozinho com seu neto de dez anos de idade, sentiu vontade de contar aquilo que nunca contara a ninguém. Era uma necessidade da alma, um anseio de perpetuar um feito honroso, um gesto de heroísmo que o mostrava tão diferente dos que tinham fugido em direção ao mar quando os cangaceiros ciscavam nas portas de Mossoró, um gesto que lhe orgulhava por que defendera sua família e sua cidade a um custo alto, que era o de tirar a vida de alguém.
Olhou para o neto e compreendeu que ali estava o interlocutor perfeito. Não questionaria, não interromperia, não esqueceria. Guardaria a lembrança do dia e do relato. Assim sendo começou a lhe contar todo o episódio, detalhe por detalhe.
O neto apenas olhava intensamente e sentia que estava sendo transmitido, para ele, algo muito importante e que somente no futuro seria plenamente entendido. Acalmou sua inquietude de menino. Não desgrudou o olho do seu avô, aquele homem reservado e pouco propenso a confidências.
No final, quando toda a história havia sido contada, compreendeu que devia guardá-la consigo, até mesmo esquecida, por algum tempo. Em um final de tarde tipicamente mossoroense, de muito calor, em um café, o neto se aproximou de uma roda de estudiosos do cangaço e percebeu que discutiam a participação do seu avô na invasão da cidade pelo bando de Lampião. Uns diziam que havia sido ele o autor dos disparos. Outros negavam e apontavam nomes.
Quase oitenta anos haviam se passado do episódio. O neto, agora, era cinqüentão. Sentiu que ali estava o momento certo para contar a história, a sua história, a história do seu avô. Aquela platéia saberia ouvi-lo e entenderia plenamente as razões do silêncio da família.
Contou tudo.
Fechou-se o ciclo.
Dezenas de anos depois já não há mais dúvidas. O atirador postado no alto da casa de Rodolpho Fernandes, o homem que praticamente abortara a invasão lampiônica, o herói entre heróis fora Manoel Duarte. Esta é a verdade, como o sabe sua família e a contou seu neto, Carlos Duarte, jornalista, muitos anos depois, a mim, que registro, aqui, a história, e a Kydelmir Dantas e Paulo de Medeiros Gastão, estes últimos dirigentes da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço – SBEC.
Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário do Estado do RN e da Prefeitura do Natal
P.S – Décadas depois desse feito, ele foi homenageado com o nome de um largo à Avenida Rio Branco, além de busto, de frente onde fora sua casa. Mas na construção da chamada “Praça da Convivência” no primeiro governo Fátima Rosado (DEM), o busto foi retirado.
A peça de bronze foi localizada semanas depois num depósito de ferro velho, pronta para ser derretida. A intervenção de sua família e do então “Jornal Página Certa” fez com que o governo municipal arranjasse um meio de reparar o crime à história e à cultura de Mossoró, doando outro espaço à fixação do busto.